Project Gutenberg's As Farpas (Novembro A Dezembro 1882), by Ea de Queiroz

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Title: As Farpas Da Politica, Das Letras E Dos Costumes
      (Novembro A Dezembro 1882)
       

Author: Jos Maria Ea De Queiroz and Ramalho Ortigo

Release Date: December 7, 2004 [EBook #14296]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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[Illustration: EA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGO--AS FARPAS]

EA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGO

AS FARPAS

_Chronica Mensal_

DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

QUARTA SERIE N. 2

NOVEMBRO A DEZEMBRO 1882

Ironia, verdadeira liberdade! s tu que me livras da ambio do poder,
da escravido dos partidos da venerao da rotina, do pedantismo das
sciencias, da admirao das grandes personagens, das mystificaes da
politica, do fanatismo dos reformadores, da superstio d'este grande
universo, e da adorao de mim mesmo.

P.J. PROUDHON.




SUMMARIO


Congressos catholicos e ideias clericaes--Anjos e reprobos--As
influencias e eclesiasticas na sociedade portugueza--A egreja e as
mulheres--Os nossos padres, padre de misses, padre d'aldeia e padre de
sala--Os clubs e as sacristias--O jogo, a batota, o rei dos lusos e o
rei de copas, a rusga, a _vacca_--Doutor Jardim, sabio, e Rosalia, dama
illustre--Novas applicaes da mobilia  critica litteraria--A moderna
arte portugueza e as escamas da corvina--O jornalismo em Braga--O
partido legitimista e a bandeira branca de Senna Freitas--Sampaio o
Saraiva de Carvalho--A augusta princeza anjo da caridade e do
bric--brac--Tragico fim de um gato d'esse anjo--Fausto e jocundo
desacato de s.ex. o ministro da justia por s.em. o nuncio de sua
Santidade--A urna e a corveta Stephania--Os commendadores e os ces de
faiana---Milagrosa reappario de Nossa Senhora Apparecida.

       *       *       *       *       *

Se Deus approva, que tenha a bondade de se deixar ficar sentado....
Est approvado.

Tal , resumidamente exposta, a commoda maneira de votar por meio da
qual no s o congresso catholico, reunido recentemente em Lisboa, mas
muitos dos concilios ecclesiasticos que precederam este, se mettem de
gorra parlamentar com os legisladores do ceu e constatam a approvao da
divindade s deliberaes tomadas pelos clerigos. Para esses
cavalheiros,--papas, bispos, conegos, simples padres d'enterro ou
sacristes--Deus  absolutamente a mesma coisa que  para o snr Fontes a
sua maioria regeneradora, o que quer dizer: uma entidade encarregada de,
assistir  apresentao dos decretos e de dar o sim.

       *       *       *       *       *

Nos sermes de penitencia das nossas villas e aldeias o truque  o mesmo
que nos concilios, mas reforado com um cordel.

O orador sacro, encarregado pela remunerao de 3$600 em dinheiro e um
prato de especiones com vinho fino, de refrescar para commodidade das
almas em cada uma das domingas da quaresma os ardores do purgatorio,
irrigando de eloquencia e de latinidade esse recinto de clarificao
espiritual, comea por pr Deus no throno do altar mor, sob a figura do
Senhor dos Passos escondido atraz de uma cortina roxa, e dirige-se em
seguida para a cadeira da verdade, acompanhado de uma ponta do barbante
com que se ha de puxar a cortina. No final da predica,  perorao, o
ecclesiastico, depois de haver enxugado a um dos lenos estendidos sobre
o parapeito do pulpito os 3$600 de transpirao escorrida pela fronte e
pela regio cervical, pega no cordel, volta-se para a cortina, faz uma
venia e diz:

Senhor! se minha debil voz, eccoando n'este auditorio conspicuo, a cuja
frente diviso o veneravel vulto do illustre conselheiro d'estado
honorario, presidente d'esta benemerita irmandade,--se minha debil voz,
digo, conseguiu levar ao vosso corao amantissimo a convico do
arrependimento em que se acham immersas as almas que ora vedes
prostradas a vossos ps, dignae-vos, Senhor, de apparecer para ouvirdes
nossos votos. Apparecei, Senhor! Porque no appareceis?!

E por meio da bem conhecida e sempre efficaz figura de rhetorica
intitulada obsecrao,--um dos mais arrojados e vehementes de todos os
tropos,--o orador, dirigindo-se sempre  cortina, com bola de mo para a
lacrimosidade dos fieis, faz sentir a estes por tabella que  mister que
elles solucem durante alguns minutos para que Deus lhes apparea, e lhes
perdoe. Os fieis ento desatam em suspiros de corrente pranto, e o
ecclesiastico, acabando emfim por lhes dar Deus de presente, cae elle
mesmo prostrado de commoo e de espanto na borda do pulpito, como se
nunca em sua vida lhe houvesse apparecido um to portentoso milagre como
esse de se correr a mesma cortina que occulta a imagem do Senhor dos
Passos, a que elle tem por officio puxar os cordeis em todas as
quaresmas,  razo de trinta e seis tostes por tarde, alm do beberete.

       *       *       *       *       *

Nos congressos dispensam de ordinario o barbante corroborativo da
oratoria sacra.

Apenas nomeada a mesa que tem de presidir aos debates, os clerigos
persignam-se, abancam, pem deante de si os raps, e passam desde logo a
redigir a acta, dando como presente, entre as pessoas do clero, a do
divino Espirito Santo, representado sob a frma de volatil symbolico e
para este effeito invisivel.

Emquanto a fazer approvar pela divindade dada como presente na acta,
tudo aquillo que elles se lembram de resolver em commum, consideram os
clerigos--e mui judiciosamente segundo se nos affigura--que  inutil
estar a puxar-lhe por guitas, tendo com Deus a mesma massada que se tem
com as marionettes.

N'esse presupposto o que os padres decidiram foi o seguinte:

Sempre que Deus houver de regeitar alguma das nossas resolues, que se
manifeste n'esse sentido. No se manifestando, entende-se que est de
accordo.

Com o qu, do a palavra aos snrs membros que tenham que propr coisas
para approvar.

       *       *       *       *       *

Ora Deus, na sua qualidade de ser supremamente sabio, segue, como 
notorio, o systema habitual de no se manifestar nunca, quer seja para
approvar, quer seja para desapprovar aquillo que um maior ou menor
numero de padres, reunidos para esse effeito, determinem expor-lhe.

 claro que lhe no faltava agora mais nada, ao grande bom Deus, seno
sahir de toda a parte, onde dizem que est, para vir ali assim  capella
do Marquez de Castello Melhor, ou a qualquer outra, estabelecer dialogo
com o Padre Viegas ou com o Padre Garcia Diniz, para o fim de os
cumprimentar ou de os mandar  fava pelos seus discursos!

Succede por tanto que de todas as vezes que alguns sacerdotes, em folga
por falta de missas ou de enterramentos, se agregam a alguns seculares
mordidos pelo bicho carpinteiro do zlo, e decidem juntos decretar mais
fervor  devoo das massas afim de que estas mandem dizer mais missas
ou se faam enterrar mais vezes, Deus, misericordioso e benigno, sorri
de indifferena ineffavel nas profundidades immaculadas do azul e deixa
o clero decretar, exactamente com a mesma longanimidade com que deixa a
herva crescer.

       *       *       *       *       *

No affirmaremos porm em absoluto que esta enorme frescata de
chinquilho, esta sem-cerimonia de bisca emparceirada com o Eterno pelos
sacerdotes, no possa uma ou outra vez offerecer alguns ligeiros
perigos, apertando-se de mais com o fiado.

Toda a familiaridade tem limites. Deus de quando em quando se pronuncia,
posto que indirectamente, no sentido de recordar essa discreta maxima
quelles religiosos que abusam, dando-se ares de privar ainda mais com o
ceu do que privam com o proprio botequim do Martinho.

Ainda ha pouco no parlamento hispanhol se deu um facto proprio para
provocar em nosso espirito amargas conjecturas sobre os inconvenientes
de nos tornarmos nojosos  fora de sermos nimiamente prolixos em
nossas intimidades com o Divino.

 de saber que o augusto pretendente D. Carlos, depois de haver
consumido nas roletas do exilio, com o bello sexo extrangeiro e em
devoes castelhanas, os bens da sua cora, se achou reduzido ao mais
invejavel estado de pureza christ, no tendo de seu seno facturas de
fornecedores que pagar, a beno apostolica de Sua Santidade e o direito
divino.

Para sustentar esse direilo nas crtes da nao hispanhola havia um
deputado especialmente incumbido de narrar  Peninsula tudo aquillo que
Deus continuava a fazer pelo mui catholico principe D. Carlos, desde que
D. Carlos, com a sua fora desarmada e posta em penhor n'um banco de
Londres, deixara de fazer por Deus coisa que se visse suspensa por corda
no espao,

Pois bem, o que ultimamente succedeu foi que: o deputado alludido, ao
principiar a usar da palavra para mais uma vez introduzir a divindade
n'uma falla aos de Castella, cahiu subitamente morto.

Os anjos haviam-o chamado s alturas estendendo-lhe do empyreo o
ascensor de Jacob a que na terra damos o nome vulgar mas expressivo de
apoplexia.

Acontecem d'estas s vezes!

Os fieis, a poder de mandarem os philosophos ao diabo, arriscam-se um
pouco a acabar como o hispanhol, fulminados repentinamente pelo
Altissimo, ao reconhecer-se que efectivamente no esto satisfeitos com
a marcha que modernamente teem tomado as coisas sobre a esphera
terrestre.

       *       *       *       *       *

O mais vulgar porem, da parte de Deus,  a indifferena imperturbavel
pelo ardor, ainda o mais comichoso, d'aquelles que servem a sua egreja,
pondo-se de Deus  esquina para a gente e vibrando a religio como a
grande moca benzida com que atiram  testa de quantos andam a ganhar a
sua vida por este mundo, emquanto suas excellencias esto em folga
temporal nas sacristias, locupletando-se de bemaventurana futura e
d'hostias quotidianas.

Assim como ns outros fundamos camisarias ou estancos, fundam elles
agencias e sucursaes do ceu por sua conta, despachando os requerimentos
dos candidatos a anjos, designando em dias de juizo trimestraes, como os
exames de frequencia, os eleitos e os reprobos, e sentando desde logo
uns  mo direita e outros  mo esquerda do bem conhecido redactor
principal e leitor unico da _Nao,_ o snr Fernando Todo Pedroso.

       *       *       *       *       *

Garibaldi, por exemplo, escusa de pensar em entrar jamais no ceu com a
sua famosa camisola, cujo vermelho ardente poria ao longo da Via Lactea
um rubr d'aurora. Garibaldi que se aguente como puder nas profundidades
do inferno, pequeno de mais talvez para conter toda a paixo de
liberdade que encheu na terra o seu corao maldito. Elle levou uma fava
preta do Todo Pedroso snr Fernando, e S. Pedro est prevenido.

Os doze pescadores, que,  voz de Jesus fallando-lhes na montanba,
abandonaram as redes para levar palavras de consolao a todos os
opprimidos atravez do universo, no quereriam ao p de si l em cima
esse official do mesmo officio que tantas vezes abandonou a barca
amarrada ao rochedo de Caprera para ir com uma espada na mo arriscar a
pelle, no j para consolar, por meio de sermonarios, da liberdade
perdida, como nos apologos da biblia, mas para pr definitivamente a
liberdade onde estava a oppresso. S. Paulo, que procedia
litterariamente, por meio de epistolas, como Madame de Svign, no
consentiria de boa mente que se puzesse ao lado da sua penna platonica a
espada cheia de bccas de um companheiro que procurou como pde lazer
por obras n'esta vida o que elle apenas prometteu em doces palavras para
a outra.---Assim o decidiram, pitadeando-se de commum accordo sobre o
caso, o reverendo Viegas e o reverendo Garcia Diniz, em conselho de
sacristia, sob a presidencia do Todo Pedroso.

       *       *       *       *       *

O nobre conde de Santiago, pelo contrario,  recebido por aclamao, com
a sua chapeleira e o seu ripanso, no comboyo expresso, organisado por
estes senhores, do Passeio Publico para a Bemaventurana. Esse pieodoso
fidalgo est nomeado secretario do congresso catholico, o que lhe d no
seio da christandade honras antecipadas de serafim. Com o privilegio de
redigir as actas do sagrado concilio o nobre conde acha-se
concomitantemente investido no direito de poder andar d'azas, desdo j,
por este mundo. Mais alguns mezes de fervor e de secretariado da parte
de s.ex., e poderemos alimentar a esperana de o ver ainda atravessar
o Chiado como o atravessam os perus, isto --em pennas. A natural
pudicicia de s.ex. lhe vedar porm talvez o circular entre os viventes
vestido unicamente com os espanadores dorsaes destinados ao convivio dos
cherubins no gallinheiro celeste.

       *       *       *       *       *

O aspecto do recente congresso catholico do Passeio Publico (lado
occidental) tal como os noticiarios nol-o descrevem parece-nos de uma
pompa particularmente modesta, destinada, a no excitar represalias da
parte do snr. Frana Neto.

Meia duzia de padrecas, com as suas sobrecasacas dominicaes e os seus
chapeus altos anediados de novo para decoro das coras subjacentes, mais
outros tantos seculares vestidos de preto e puxados  substancia do
panno fino pela benzina expurgante, postos todos em volta de uma meza a
assoarem-se uns para os outros com emphase, do-nos menos a ideia de um
ajuntamento triumphante de convices victoriosas do que o painel de um
simples ciprestal sentado,--com defluxo.

Alem de solicitar a beno apostolica, o congresso catholico de Lisboa
resumiu os seus trabalhos em duas unicas resolues: fundar uma
universidade catholica e requerer dos poderes publicos que por meio da
sua policia elles faam respeitar nas ruas as pessoas dos
ecclesiasticos, presentemente apupados pela multido, segundo elles
mesmos dizem, sempre que apparecem em publico revestidos de habitos
sacerdotaes. O que, a ser exacto,  precisamente a mesma coisa que
succedia em Paris ao padre Lacordaire no tempo da Restaurao.
Notando-se que a Restaurao foi de todos os governos em Frana aquelle
que mais protegeu o clero, fica-se em duvida sobre se a interveno do
governo ser o meio efficaz de garantir aos ecclesiasticos a deferencia
e o respeito, que ninguem jamais lhes recusa nos paizes de liberdade
religiosa, em que o Estado  atheu, como na America do Norte.

       *       *       *       *       *

Se compararmos o espirito e o aspecto d'esta assembleia catholica com
algumas reunies do mesmo genero celebradas na Europa durante o decurso
dos ultimos annos, somos obrigados a confessar que o prestigio do
sacerdocio decae de um modo sensibilisador.

No congresso belga, por exemplo, reunido em Malines no mez d'agosto de
1863, o numero dos adherentes era de 3:000. Na cathedral de
Saint-Rombaut, o cardeal-arcebispo Sterchx celebrou a missa solemne
d'abertura, depois da qual os membros do congresso seguiram em procisso
para a vasta sala das sesses, engrinaldada de festes de rosas e
empavesada de tropheus de todas as bandeiras da christandade como uma
enorme nau em triumpho. No topo do salo o estrado destinado  meza era
coberto por um docel de velludo carmesim franjado d'ouro sobre o qual se
destacava na doce pallidez do marfim uma imagem de Jesus cravado de
brilhantes na cruz d'ebano. Esveltos soldados da milicia papal, em
grande uniforme, de capacetes rutilantes e bigodes recurvos, fazem alas
lendo ao tiracollo as bandas symbolicas de seda branca e ouro. O alto
clero que vem tomar assento na assembleia passa em pompa, gravemente,
por cima do tapete de Smirna desenrolado ao longo da sala.  frente, os
cardeaes com as suas purpuras roagantes; depois os bispos inglezes, os
de Gand, de Tournay, de Namur, appoiados aos seus baculos, e os
sacerdotes do rito armenio, de grandes barbas, chapeus altos sem abas
com veus roxos, empunhando as suas longas bengalas de casto de ouro.

Foi no congresso de Malines que De Montalembert, o antigo collaborador
do abbade Lamennais, proferiu o seu monumental discurso sobre a egreja
livre no estado livre. De Montalembert acreditava ainda na possibilidade
de uma alliana entre o espirito ecclesiastico e o espirito scientifico
do mundo moderno, e o seu discurso  n'esse intuito um manifesto de uma
rara eloquencia apaixonada, profundamente convicta.

Em toda a parte excepto na Belgica--disse elle--os catholicos so
inferiores aos seus adversarios na vida publica, porque os catholicos
no souberam ainda congrassar-se com a grande revoluo que gerou a nova
sociedade, a moderna vida dos povos. Em presena da sociedade moderna os
catholicos sentem-se timidos e confusos; teem-lhe medo. No aprenderam
por emquanto a conhecer, a amar a sociedade em que vivem. Muitos esto
ainda, pelo corao e pelo espirito, ligados ao antigo regimen, isto ,
a um systema que no admittia nem a egualdade civil, nem a liberdade
politica, nem a liberdade de consciencia. O antigo regimen tinha o seu
lado grande e bello; no pretendo julgal-o aqui, e muito menos pretendo
condemnal-o. Basta-me reconhecer-lhe um deffeito, mas esse capital: est
morto, e nunca mais resuscitar.

Em seguida Montalembert demonstra que n'este seculo a egreja ou ha de
cessar de existir ou ha de viver na democracia e na liberdade. A egreja,
ou no tem mais que fazer no mundo, ou tem que contribuir ainda como nos
tempos que fizeram a gloria do seu passado, para a perfectibilidade do
espirito humano, intervindo no progresso pelo combate da livre razo
contra todas as usurpaes, contra todos os privilegios, contra todas as
tyrannias exercidas sobre a inviolavel fraternidade humana.

A liberdade  uma s, unica, indivisivel e sagrada, expressa pelo
predominio dos poderes espirituaes sobre os poderes temporaes,
representada na parte dynamica pela sciencia, na parte statica pela
religio.

Na sciencia a liberdade consiste no direito de descobrir a verdade e de
a proclamar sem disfarce e sem restrico alguma como base das relaes
do homem com o homem na independencia absoluta da revelao e da f. Na
religio a liberdade consiste, como dizia Guizot, no direito que tem a
consciencia humana de no ser governada nas suas relaes com Deus por
decretos ou por castigos humanos.

Catholicos--disse Montalembert--se quereis a liberdade para vs,
entendei-o bem,  preciso que a queiraes egualmente para todos os homens
e debaixo de todos os ceus. Se a pedirdes para vs unicamente, no a
tereis nunca: dae-a em toda a parte onde fordes senhores para que vol-a
deem em toda a parte onde fordes escravos.

Esta energica apologia da liberdade, enthusiasticamente applaudida,
levou o congresso de Malines a ridigir nos seguintes termos uma das
resolues da assembleia:  do interesse dos catholicos, assim como do
todos os cidados que sinceramente querem a liberdade, o substituir
quanto possivel a interveno e a omnipotencia do estado pela energia
creadora e pelo principio expansivo do espirito de associao.

       *       *       *       *       *

Vejamos agora quaes foram os resultados praticos d'esse grande impulso
de eloquencia destinada a fazer entrar o catholicismo no movimento
liberal da moderna civilisao. Os destinos da egreja n'este fim do
seculo XIX esto profundamente ligados a esse facto culminante na
historia das ideias clericaes.

O que succedeu no congresso de Malines foi que os cardeaes e os bispos
abandonaram a reunio no dia immediato quelle em que Montalembert
fizera o elogio da alliana da egreja catholica com a sciencia e com a
liberdade.

Compareceram apenas nas sesses subsequentes os membros obscuros do
baixo clero, os quaes movidos de um generoso impulso democratico
continuavam a applaudir Montalembert, no sem perguntarem a si mesmos
com certa inquietao o que se pensaria em Roma dos discursos e das
resolues do congresso belga. A resposta no se fez esperar. Tres ou
quatro mezes depois Pio IX escrevia ao arcebispo de Munich uma carta, em
que pelo maneira mais formal censurava a audacia dos catholicos que
ousavam reunir-se em congressos para proclamarem por sua conta a
_liberdade da sciencia_.

Esta missiva, pouco terna para com os congressistas de Malines, no
obstou a que elles se reunissem ainda uma vez em agosto de 1864.
Montalembert no compareceu. Fallaram o padre Hyacinthe e o arcebispo
Dupanloup n'um sentido que, apesar de moderado, no pareceu
sufficientemente retrogrado a Sua Santidade. O papa respondeu s utopias
liberaes do congresso com a publicao do _Syllabus_ e da encyclica
_Quanta cura_, cortando assim pela raiz e de uma vez para sempre toda a
illuso de um accordo entre o espirito ecclesiastico e o espirito da
civilisao.

Em presena d'esses factos, os congressistas de Malines tinham duas
resolues que tomar: submetter-se e acceitar a doutrina da encyclica e
do syllabus, ou reagir e protestar. O primeiro caso era a retractao
vergonhosa de todos os principios affirmados e de todas as aspiraes
manifestas no congresso; o segundo caso era a revolta e o schisma no
gremio da egreja.

N'esta conjunctura escabrosa o congresso preferiu dissolver-se.

Desde esse dia o destino do catholicismo ficou fixado.

Entre os interesses do clero e os interesses da civilisao ha uma
barreira que os proprios padres, ainda os mais instruidos e os mais
liberaes, julgaram impossivel transpr.

       *       *       *       *       *

Ora desde que no pde ser um alliado, o que est evidentemente
demonstrado, o padre  um inimigo. Para o combatermos a nossa primeira
obrigao  tomar conhecimento das foras de que elle dispe para nos
prejudicar. Sobre este ponto a resoluo tomada pelo congresso do
Passeio Publico de pedir a interveno da policia civil para evitar que
o povo troce o clero, tranquilisa-nos satisfatoriamente.

Torquemada requerendo para a queima dos sacrilegos um lampejo
emprestado ao chifarote do habil Antunes  um symptoma doce. O
congresso prope-se morder os impios com a condio de que os impios lhe
ponham as presas.  a S. Bartholomeu a troco de um dentista. Se os
querem ver cantar o cro dos punhaes, cedam-lhes o Vitry.

       *       *       *       *       *

A unica coisa grave e perigosa para a sociedade, no congresso catholico
de Lisboa,  que, segundo parece, esse congresso foi divertido. As
senhoras pelo menos assim o entenderam concorrendo em grande numero a
todas as sesses.

Que attractivos especiaes tem a classe ecclesiastica para captivar assim
as adheses da mulher?

Investigando este phenomeno, vemos em primero logar que ha em Portugal
tres especies distinctas de padres:--o padre das misses, o padre
d'aldeia e o padre de sala.

       *       *       *       *       *

Os padres das misses subdividem-se em dois grupos differentes: os
aventureiros e os mysticos.

Os aventureiros viajam ordinariamente para a Africa por especulao
temporal, por amor  vida d'emigrante,  lavoura dos tropicos, ao lucro
mercantil,  intriga da politica colonial e  batota ultramarina. De
quando em quando, ao apparececrem-lhes  mo, arrebanhados, alguns
centos de pretos mansos e somnolentos, baptisam-os em massa,--cerimonia
tocante a que os pretos se submettem adormecidos como verdadeiros
justos, conscios por experiencias feitas de que essa operao, altamante
civilisadora posto que inoffensiva, os no torna nem mais nem menos
pretos do que elles so.

Os mysticos, mais raros, so pessoas doentes da hallucinao do
martyrio. A sua ambio suprema consiste em serem comidos s fatias
fritas, com mandioca, pelas raas anthropophagas. Logo que se julgam
sufficientemente temperados com o latim preciso para excitar a gula
canibalesca e assaz tenros de carne pela vida de capoeira aos comedouros
dos seminarios, vestem-se com os trajes de D. Basilio no _Barbeiro de
Sevilha,_ mettem um breviario debaixo do brao e embarcam para regies
inhospitas e selvagens.

Uma vez em communicao com os infieis, nunca mais cessam de lhes metter
o breviario em cruz entre a bocca e o prato, at conseguirem realisar a
sua aspirao suprema, que  no restar d'elles mais que uma batina e um
par de sapatos, deitados para debaixo da meza juntamente com as cascas
dos legumes, e dois canibaes a palitarem os dentes, e, a dizerem um para
o outro:

--Saboroso padre! benza-o Manipanso!

       *       *       *       *       *

O padre d'aldeia  d'ordinario o melhor dos homens.

A sua rudeza montesinha colloca-o ao abrigo de todas as subtilezas
enervantes da penitencia requintada e dos pequenos peccados elegantes e
estonteadores.

As suas intimidades com a s natureza do-lhe o instincto de uma boa
religio alegre e repicada, com arcos de murta no adro tapetado de
espadanas, de funcho e de rosmaninho, na festa do orago, com morteiros 
missa cantada, n'uma vasta satisfao de cajados reluzentes, de
sapatorros novos nos rapazes, de barbas feitas nos velhos, e de mangas
arregaadas, de linho branco e fresco, nas queijadeiras postadas em fila
no arraial.

Na quaresma conduz de sobrepeliz uma grave e, simples via-sacra  roda
da egreja, de cruzeiro em cruzeiro, at  grade do cemiterio.

Pelo Natal, ao terminar a missa da festa, toma do altar a ingenua e
rosada imagem de um pequeno Jesus rechonchudo, de refeguinhos nos
artelhos e nos pulsos, e ao som da gaita de folle, passeia-o sob um
chuveiro de beijos humidos e repenicados por entre as broas de po
podre, os cabazes d'ovos e os casaes de capes, que atravancam a
passagem por entre os fieis ajoelhados na nave.

Nos dias ordinarios engrola a missa das almas ao romper do dia n'um
latim abreviado, mastigado  pressa, e vae podar as cepas, sachar o
cebolo, enxertar os limoeiros ou caar as perdizes, palmilhando o monte,
saltando vallados, e regressando a casa ao toque das Ave-Marias, com os
perdigueiros adeante, a espingarda na bandoleira; dando as bas noites
para a direita e para a esquerda ao atravessar a aldeia; batendo no
hombro aos homens, beliscando na cara as raparigas, com a boa
jovialidade carnal do seu velho confrade de Meudon o reverendo Rabelais.


       *       *       *       *       *

O padre de sala grassa principalmente na aristocracia das cidades, cujas
casas frequenta por um resto de tradio antiga nas familias nobres,
onde o capello era de rigor nos accessorios da _mise-en-scene,_ como o
boleeiro, o creado de farda e a preta.

As meninas nobres, que hoje lem o _Figaro_ e os romances de Daudel, no
tomam completamente a serio essa reliquia heraldica. O padre da casa 
para ellas um simples utensilio de caracter profano, recreativo e
caturra. Troam-o como um grotesco inoffensivo, e utilisam-o como um
servial de sexo neutro, collocado na serie zoologica da herilidade
entre a creada de quarto e o homem. Encarregam-o de certas compras
raciocinadas, que no sabe fazer um simples moo de recados sem o curso
dos seminarios.

 o padre que vae ao Sexas buscar as ls para bordar, segundo os
matizes da amostra, que leva o bracelete a compor ao Leito, e o
_chignon_ para frisar ao Godefroy.  elle que acompanha s lojas de dia
e s visitas sem cerimonia  noite. Leva os agasalhos; ajuda a vestir os
paletots, ata os sapatos cujas fitas se deslaam no caminho, e paga os
bilhetes do americano com dinheiro que se lhe fornece para isso.

No est persistente n'uma s casa, como nas antigas capellanias. Anda
aos dias. Aos domingos vae jantar a casa das F., onde serve ao croquet
ou ao lawn-tennis no jardim, e onde marca as carambolas no bilhar 
noite. s segundas feiras chaperona a lio de desenho das meninas S. s
teras acompanha a viscondessinha de X s suas devoes a S. Luiz e a
outros logares. s quintas do-lhe ch preto e po torrado com manteiga
para ir fazer perna ao wihst da velha baroneza de P.

Aos seres, em torno do candieiro, depois de despejado o saco das
mexeriquices que traz das casas d'onde vem, v as gravuras das
Illustraes, ou dorme. As meninas procuram s vezes arrancal-o ao
torpr da sua digesto ou da sua ignorancia, ambas egualmente crassas:

--Padre Jos, esperte! no se faa ainda mais mono do que ; scintille
para ahi um boccado; tenha faisca, ainda que seja em latim, ou em canto
cho!

E perante o olhar d'elle, esbugalhado, vermelho, attonito, ellas, em
inglez, umas para as outras, picando o _crochet:_

--Cada vez mais bruto! uma lastima! um cumulo!

Quem precisa de padre e o no tem  mo, pede-o emprestado, como se pede
emprestado ao visinho um alicate ou um martello. Sophia, que est em
Cintra, escreve para Lisboa a uma amiga:

Resolvemos abrir duas portas na sala de jantar sobre o jardim. Preciso
d'olheiro para os operarios. Cede-me Padre Antonio por oito dias. D-lhe
dinheiro para o omnibus e manda-m'o manh sem falta.

s vezes o padre de sala dosapparece por algum tempo da circulao,
posto na escada com a respectiva bagagem,--uma camisa, um pente, dois
pares de piugas embrulhadas n'um jornal--, e uma pontuada de bengala nos
rins em estimulo de velocidade para a porta da rua.

Algum  noite pergunta:

--Que  feito do padre Joo?

E o dono da casa, levantando os olhos do jornal que l a um canto,
responde lentamente:

-Mandei-o rinchar para as lesirias. Comeava a achar-se folgado de mais
para se continuar a ter  argola.  o que lhe fiz sentir esta manh por
meio de uma ligeira admoestao corporea.

--Mas o physico do sacerdote  inviolavel  sagrado!

--Por isso tambem no foi pelo lado _cruzes_ que eu o admoestei, foi
pelo lado _cunhos_.

       *       *       *       *       *

De resto, entre as familias dislinctas de Lisboa, quando alguem quer
casar-se, confessar-se com decencia, ou receber soccorros espirituaes
para morrer com elegancia, vae aos Inglezinhos ou manda pedir a S. Luiz
dos Francezes a visita do reverendo Abb Miel.

O padre extrangeiro tem sobre o padre indigena a vantagem de no se
haver abandalhado nas eleies, de no ir para a plateia de S. Carlos
applaudir a opera e dizer graolas s senhoras suas confessadas, que
esto nas bancadas ao p d'elle, de no andar pelas casas particulares
com as piugas e com as fraquezas embrulhadas em papeis, e de no
misturar nunca--a no ser no sigillo do sanctuario--o bacalhau norueguez
do preceito abstinencial com o lombo de porco da carnalidade gentilica e
pecaminosa.

Alem do que como vm feitos de fora, no consta na confidencia dos
lisboetas nem nas revelaes mais desabotoadas das villegiaturas de
Cintra ou de Cascaes qual a especie de pau de larangeira com que elles
foram manufacturados.

       *       *       *       *       *

Apesar porm de todas as apreciaveis inferioridades que to
vantajosamente recommendam os clerigos lusitanos  estima e 
tranquillidade dos partidos liberaes e dos chefes de familia, vemos que,
apenas quatro padres annunciam um dos seus _meetings_ ao eterno, logo
oitocentas senhoras, duzentas por padre, acodem a engrandecer essa
manifestao com o effeito scenico dos seus encantos.

Que os revolucionarios obtenham outro tanto, se so capazes!

Confronte-se, por exemplo, o Club Gomes Leal com a sacristia dos condes
de Castello Melhor. Que contraste!

Esse club reunir facilmente nas suas sesses todas as gravatas
vermelhas do partido e todas as blusas do bairro. Emquanto aos logares
reservados s damas, ser mais difficil prehenchel-os. Logo que D.
Angelina Vidal haja tomado assento na assembleia, a commisso
encarregada de conduzir as senhoras ao sanctuario da poesia
revolucionaria poder tirar as luvas, accender os cigarros e desabotoar
os colletes, que no ter mais ninguem para conduzir.

A razo d'este phenomeno significativo  que os padres e os padristas,
por menos espertos e menos habeis que sejam, tem por baixo de si a
levantal-os mais alto do que todos ns, oito seculos de talento, de
discusso e de controversia, que fizeram da theologia o maior dos
monumentos do espirito. Os seus doutores, os seus martyres, os seus
heresiarchas e os seus apostatas representam no dominio do pensamento o
triumpho mais maravilhoso d'essa grande fora chamada o estudo.

A antiga tradio, a auctoridade consagrada, o respeito adquirido,
trespassado pela heriditariedade de gerao em gerao, torna hoje facil
o officio de continuar a manter nas consciencias os habitos do respeito
e a pratica da devoo.

O mal dos revolucionarios na propaganda moderna consiste no grave erro
de suppor que se pode ir para livre pensador assim como geralmente se
vae para padre, isto , por simples estupidez.

Ora ser padre quando se no tem cabea para ser qualquer outra coisa
mais util,  corrente,  commodo, faz arranjo s familias com filhos
tapados para contas, e no tem perigo nenhum.

Na Egreja quem no sabe outra coisa diz missas. Na Revoluo quem no
sabe mais nada diz asneiras. Essa  a differena.

As mulheres, que em geral no conhecem os chefes da Revoluo, assim
como tambem no conhecem os da Egreja, que nunca leram Diderot nem
Proudhon nem Michelet, como egualmente no leram nunca S. Paulo nem
Santo Agostinho nem S. Thomaz, obrigadas a examinar pelos caracteres
inferiores e a escolher pelos elementos subalternos, preferem a missa, e
fazem bem. Na incapacidade, bem como na pornographia, o latim attenua.

O erro dos padres nas suas relaes com o seculo--pedimos licena para
lh'o dizer--est unicamente em tentarem ainda algumas vezes exprimir-se
em vulgar. Para prestigio da classe e decoro d'elles, aconselhamos
ardentemente a suas excellencias o uso exclusivo das lingoas
mortas,--convindo porem exceptuar de tal numero o latim de Molire, pois
consta haver alguns velhos latinistas que ainda entendem esse.

       *       *       *       *       *

Saraiva de Carvalho era possuidor de uma cabea distincta das de todos
os demais estadistas monarchicos do seu partido pela circunstancia
extra-conservadora e extra-parlamentar, pela circumstancia
verdadeiramente tumultuaria, excepcional e incommoda de ter algumas
ideias dentro, de as cultivar e de procurar algumas vezes, ainda que
debalde, transformal-as em obras.

 dynastia brigantina prestara este pensador o mais relevante servio,
lembrando um dia que as formas vigentes de governo se poderiam vir a
substituir pondo-se escriptos no palacio da Ajuda.

Era esse o meio mais engenhoso e ao mesmo tempo o mais seguro de
perpetuar para todo sempre a localisao da familia dos actuaes
inquilinos na desagradavel madrepora de principes a que serve de jazigo
aquelle notavel edificio. Pois  evidente que, posto esse casaro a
alugar, com escriptos, com annuncios; e ainda com premios animadores s
agencias de casas baratas, ninguem absolutamente no mundo tomaria de
renda tal predio, assas desconceituado no publico pela falta de commodos
que offerece para habitao, de familia, pelos maus cheiros que n'elle
grassam, pela enorme melancolia mesenterica que d'elle transsuda e pela
aterradra quantidade de carochas e de ratos de cano e de throno, que o
infestam, sevandijam e conspurcam.

Antonio Rodrigues Sampaio era um escriptor de primeira ordem no meio de
um jornalismo onde os escriptores cada vez se vo tornando mais raros.
Elle foi um dos artistas que mais gloriosamente serviu a sua patria
escrevendo bem a sua lingoa, e foi, alm d'isso, entre os homens
politicos do seu tempo aquelle que mais altas e mais fortes qualidades
de espirito, de corao e de caracter sacrificou s instituies
vigentes.

O chefe dessas instituies, no dia do enterro de Sampaio, ia mitigar a
sua dr por essa morte, ouvindo a opera em S. Carlos.

No dia do enterro de Saraiva de Carvalho o mesmo augusto principe ia
para o Gymnasio ver o atirador Paine quebrar globos de cristal a balas
de pistola.

Comprehende-se a angustia profunda que assim impelliu o primeiro cidado
portuguez a procurar nos interessantes phenomenos da balistica expostos
por um pellotiqueiro impavido, ou nos falsetes garganteados por um tenor
delambido, uma justa e equitativa compensao  perda dos mais illustres
dos seus compatriotas.

Referindo as circumstancias funebres d'estes obitos, a historia dir:

_A familia dos mortos pediu desculpa de cumprimentos, e el-rei pediu
bis ao tenor Gayarre,--uma e outra coisa devida ao estado de
consternao em que todos se achavam_.

E os prosteros, ao lerem esta pagina commovedora, vertero lagrimas de
enternecimento sobre esse testemunho eloquentissimo da delicadeza
profunda de to excelso quo sensivel principe.

       *       *       *       *       *

Se no receassemos profanar a dr to intima e to sincera do soberano,
se no temessemos alancear, inopportunos, o seu extremoso corao, to
manifestamente envolto em luctuosos crepes na occasio presente, ns
ousariamos formular humildemente uma debil pergunta:

Julga sua magestade que, assim como os principes tem corao, o no
tem os povos egualmente?

Quando, em vez das testas communs e opacas, so as fulgidas e rutilantes
testas coroadas, as que Deus, levantando-se respeitoso para esse effeito
do alto do throno celestial, resolve com a devida, considerao chamar
s alturas, a fim de as fixar com a demais brilhanteria no interessante
museu da Via Lactea,--julga por acaso Sua Magestade que n'esses pomposos
lances, no choram to dolorosamente os subditos pelos seus bons reis
como os reis choram pelos seus bons subditos?

Cuida Sua Magestade que no nos faz to grande mossa o baque de um
grande principe que ha por bem fallecer, como a que em sua magestade faz
a queda de um honrado cidado que morre?

Oh! mas que Sua Magestade se digne de nos fazer essa justia:--
perfeitamente a mesma coisa!

Que Sua Magestade o queira ponderar perante o afflictivo transe por que
acaba de passar o seu corao generoso e paternal!

Quando o sino grande da S badala o dobre supremo dos obitos reaes,
quando as molas dos regios coches inclinam a orelha tetrica sob as
gualdrapas funerarias dos solemnes sahimentos, quando os escudos das
quinas se quebram no marmore dos monumentos ao som cavo de uma voz que
proclama--_Real, real, real, por el-rei de Portugal_,--a alma do povo
pde bem, como a do principe em lances correlativos, precisar, para o
fim de no succumbir  intensidade da dr, de appelar ento por seu
turno para os santos balsamos que escorrem das cavalletas das operas e
das proezas do tiro ao alvo.

       *       *       *       *       *

Ousamos por tanto esperar, submissos e confiados, que--tendo em vista,
os dolorosos e excruciantes paroxismos que pde attingir a saudade,
tanto no corao do povo, como no corao dos principes,--sua magestade
se digne de mandar sem demora revogar a lei dura e deshumana que por
occorrencia dos obitos de pessoas reaes manda vedar ao corrente pranto
das gentes o lacrimatorio dos divertimentos publicos.

       *       *       *       *       *

A policia, tomada de um d'esses accessos de zelo intermittente que s
vezes acomette esta veneranda instituio, acaba, de assaltar varias
casas de batota em Lisboa, no Porto, na Povoa de Varzim e em Vizeu.

Todas essas diligencias se fizeram com grande exito.

A policia foi p ante p, como o cro dos carabineiros nos _Bandidos_ de
Offenbach, e deu em cheio nas maroscas, capturando os jogadores e
apprehendendo os baralhos, as roletas, a mobilia da casa, o dinheiro da
banca e o dos parceiros.

O _Diario do Governo_ d'ontem traz a este respeito uma portaria de
louvor, na qual o ministro do reino, em nome de sua magestade el-rei,
elogia a policia pelo bem que andou, no s capturando os jogadores,
mas--como muito bem acrescenta a portaria--apprehendendo outro sim
_algum dinheiro e mobilia._

Como bons subditos fieis e amantes, folgamos de veras com a satisfao
intima e cordial que sua magestade el-rei houve por bem experimentar e
redigir em prosa official, ao ver os reditos do Estado felizmente
acrescentados com algumas cadeiras e alguns cobres, agilmente
surripiados pelos representantes da lei a viciosos cidados, improvidos
e desapercebidos.

No Porto o zlo policial n'esta diligencia chegou ao ponto de emboscar
nas ruas os esbirros para prender os jogadores no acto de entrarem para
as jogatinas.

No pretendemos julgar o ponto de vista das auctoridades constituidas
sobre o assumpto _batotas_, porque estamos convencidos de que essas
auctoridades, morigeradas e pudibundas, no foram nunca s casas de
jogo, o que as desarma de toda a habilitao precisa para se poder
discutir com ellas sobre esta questo.

       *       *       *       *       *

O que escreve estas linhas esteve pela derradeira vez n'uma batota, em
S. Joo da Foz, ha coisa de vinte annos.

A espelunca achava-se estabelecida no lindo _cottage_ do Mallen, na
Praia dos Inglezes, com um terrao sobre o mar e a entrada pela rua da
Senhora da Luz.

No meio do grande salo de baile estava armado o jogo sobre uma vasta
mesa de pano verde illuminada do tecto por um lustre. Em torno da mesa
achava-se reunida a parte masculina da melhor sociedade do Porto e da
provincia do Douro e do Minho a banhos na Foz, uns, junto da mesa,
sentados, outros em p por traz d'esses, formando tres ou quatro
circulos concentricos.

A um topo da mesa um cavalheiro esqueletico, de faces macilentas,
adornado de uma longa pra grisalha, puxava para junto de si por meio de
uma pequena rapadeira de mogno polido, em frma de ensinho, o dinheiro
das paradas espalhado no panno verde, e pagava a importancia das
apostas.

Defronte d'este prestavel individuo, no outro topo da mesa, um
cavalheiro, mais gordo, ainda que no mais solicito, e de aspecto
egualmente veneravel, punha as cartas na mesa com mos finas,
particularmente bem tratadas e realadas por dois bellos cachuchos em
que scintillava um olho de gato e um rubi.

Informei-me da regra do jogo com as pessoas respeitaveis e fidedignas
que tinha mais proximo de mim.

Eis a regra: Tiravam-se do baralho duas cartas, que o homem das mos
finas collocava na mesa ao lado uma da outra. L estava, por exemplo, o
trez de espadas a um lado, e o rei de copas ao outro. A gente escolhia,
para apostar por ella, a carta que queria, e collocava-lhe ao lado o
preo da aposta. Depois do que, ganhava o rei ou ganhava o terno,
segundo era um rei ou um terno d'outro naipe a primeira d'essas duas
cartas que em seguida sahia do baralho.

Devo dizer,  face de Deus e dos homens, que nunca em minha vida me
expuzeram negocio que se me figurasse mais intelligivel, mais recto e
mais claro! Algumas vezes tenho tido que pedir aos diversos poderes do
Estado alguns esclarecimentos  cerca do jogo do machinismo
administrativo, e cumpre-me dizer, sem com isto pretender desgostar
ninguem, que jamais das regies officiaes recebi informaes to
lucidas e to leaes como aquellas que sobre as leis do Monte me foram
cavalheirosamente ministradas na apreciavel batota a que me refiro.

De um s relance e em meio minuto comprehendi o problema todo com uma
profundidade maravilhosa, e, sem perda de mais um instante, tirei
100$000 ris que tinha n'uma algibeira e colloquei-os pressuroso sobre o
trez de espadas que se achava na mesa.

Telintaram libras, de parte a parte, postas pelos circumstantes para a
direita ou para a esquerda das cartas.

O homem da p de mogno polido, erguendo para o meu lado o bico da sua
pra grisalha, perguntou-me, indicando o meu dinheiro:

--Mata o rei?

Ao que eu respondi denodadamente e com voz firme:

--Mato-o, sim senhor!

Esta phrase pareceu fazer uma certa impresso no auditorio. Houve um
silencio. Um desembargador da relao do Porto, ancio de oculos d'ouro
e de grande calva sacerdotal, retirou com gesto adunco de cima das
cartas 3$000 que tinha posto.

O cavalheiro das lindas mos tossiu ligeiramente, voltou o baralho, e
principiou a extrahir com lentido as cartas, a uma por uma, do masso
que comprimia nos dedos.

A quarta ou quinta figura estrahida era o rei de espadas.

Eu tinha perdido os meus 100$000 ris. Ganhava-os precisamente um
illustre professor da Escola Polytechnica, que fizera contra o terno uma
parada egual  minha.

Esta deciso da sorte--eu o confesso--no me regosijou seno de um modo
bem caracteristicamente mediocre.

Resolvi porm interrogar mais algumas vezes o acaso, e perdi
consecutivamente quanto dinheiro tinha no bolso, ou fosse a importancia
de perto de meio anno de collaborao n'um jornal americano,--somma
recebida n'esse mesmo dia.

Fiquei na batota at pela manh.

Por uma janella aberta sobre o terrao a luz cr de perola da madrugada
entrava humedecida e salgada pela virao maritima. As banheiras, filhas
e moas da Maria da Luz, armavam as barracas na praia, cantando ao longe
em terceiras, n'um cro argentino de sopranos, uma barcarolla local. Os
primeiros preges matutinos dos vendilhes ambulantes penetravam do lado
da rua pelas fendas horisontaes das gelosias, que o claro da manh
pautava luminosamente d'azul.

Na sala esvasiada de gente oscillava ainda, esfarrapado, o ar quente da
noitada, impregnado do fumo do tabaco e dos cheiros acres do suor e da
cerveja asedada no fundo dos copos dispersos no balo do buffette.

O cho estava alastrado de lama secca, de pontas de cigarros que a
saliva enodoara de amarello, e de charutos mordidos e mastigados
raivosamente pelos pontos.

O homem das bellas mos aristocraticas tinha as unhas orladas de preto e
o collarinho esverdinhado de transpirao.

O cavalheiro da pra tivera com o romper do dia um accesso de tosse, e
depois de haver durante a noite cuspinhado tudo em torno da alta cadeira
de braos em que estivera sentado, procurava ainda, ao que parecia,
escarrar mais, com os olhos injectados de sangue, as faces escaveiradas,
as mos febris, o dorso curvo, o peito concavo, sacudido pelas
convulses da bronchite.

A um canto da casa, sentado n'uma cadeira e cahido de bruos para cima
de uma pequena mesa a que tres batoteiros, associados nos lucros da
banca, tinham passado a noite jogando o honesto e execravel voltarete,
ficara esquecido um janota de calas cr de flr de alecrim, botinas de
polimento, luvas azues e fraque cr de pinho feito no Pereira Baquet.
Julguei-o adormecido, e chamei-o, tocando-lhe no hombro, para me no ir
d'ali embora sosinho.

Era um rapaz que eu conhecia da praia e da Cantareira. Chamavam-lhe o
Chico ... no me lembra j de qu. Tinha dezesete ou dezoito annos, era
filho de um lavrador rico da Regoa, e estava a banhos na Foz, hospedado
no hotel do Romo, intitulado da Boavista.

Quando elle se ergueu da mesa e se poz em p deante de mim, vi que o
misero no tinha estado a dormir, mas sim a chorar.

A sua physionomia loura, estupida, linda, ornada de um pequeno buo, de
um signal cabelludo na face e de dois bands cr de ouro anediados pelo
melhor cabelleireiro da rua de Santo Antonio, exprimia uma consternao
to profunda, to cca, to francamente imbecil, que desde logo me
atrahiu para elle com uma compaixo verdadeira. Agarrou-se s primeiras
palavras que lhe disse, como um afogado se agarra  primeira cousa
fluctuante que passa por elle, e momentos depois o bem parecido e
elegante moo vertia no meu peito as suas doloridas confidencias.

Seu pae, homem austero e de pulso, cheio de severidade no caracter e de
cabellos crespos no interior das orelhas, tinha-o incumbido de cobrar de
um negociante de vinhos de Villa Nova de Gaya a importancia de uma letra
no valor de 1:600$000 ris. Era d'esta quantia, recebida tres dias
antes, que elle acabava de perder a ultima libra, alem de mais trinta
moedas, destinadas a custear o resto dos banhos de mar prescriptos pelo
doutor da Regoa para um tumor frio que lhe comeara a inchar n'um
sovaco.

--Meu pae, para coisas d'estas,  uma fera!--explicou-me elle com voz
estrangulada.

E, tendo descalado uma das luvas azues, comprimia com mo nervosa o
alto da sua pequena cabea de gallo, apagando da testa n'um repello o
bem feito A formado pelas duas curvas divergentes dos bands.

--Como assim!--lhe respondi eu. Pois o meu amigo tem a fortuna
inapreciavel de possuir um pae fera, e ainda hesita um momento sobre o
que lhe cumpre fazer nas funestas condies em que se acha?... Saiamos
l para fora! Saiamos com p expedito e rapido d'esta caverna, que at
me est a affligir o ter de profanar o nome sagrado do seu veneravel
progenitor, proferindo-o perante a pra cavilosa e obscena d'aquelle
tisico, malandro em terceiro grau, que alm diviso envesgando para ns
os olhos torvos!

--Co!--disse o Chico n'um bramido cavo, abrindo para essa palavra um
parenthese no assumpto principal da nossa conferencia, e estendendo da
porta da rua o punho cerrado e terrivel para o cerro em corcova do
cavalheiro da pra, que continuava a tossir arrimado a uma padieira da
janella.

E, uma vez ambos na rua, eu prosegui, reatando o fio do discurso:

--Depois da camelice tremenda que fez, desviando dos interesses
agricolas das nossas regies vinhateiras a quantia de ris 1:600$000,
para os entregar  nefanda tavolagem, que mais pode appetecer o meu bom
e desregrado amigo do que uma d'essas monumentaes sovas, com que os
rispidos ancios, de ouvidos cerrados  misericordia pelo mau genio e
pelo muito cabello, costumam assignalar para o respeito dos vindouros os
diversos membros da sua prole? Qual coisa mais saudavelmente efficaz
para o restabelecimento normal do seu equilibrio nervoso, no momento
presente, do que a applicao lombar da bengala de um antepassado, ou a
justaposio da abenoada sola e vira de uns bons sapatos paternos s
partes carnudas do seu organismo apostemado pelo estupido remorso da
mais colossal e irremediavel asneira?! Aqui estou eu, que matei esta
noite o rei.....No sei se o snr m'o viu matar?... Matei-o como quem
mata um prco.....Craque! Pois bem; sabe por quanto me ficou esse
regicidio? Ficou-me por 176$000 ris. A recordao amarga d'este
luctuoso successo converte todo o meu ser n'uma insondavel cloaca de
semsaboria, e s uma felicidade invejo: a que se antolha ao meu amigo na
doce perspectiva de poder encontrar quem lhe ponha os ossos n'um feixe.

--Pois olhe--exclamou o Chico arregalando para mim os olhos illuminados
de um repentino jubilo--dou-lhe a minha palavra d'honra que tambem a
modo que me est a appetecer isso, a mim!

E trocadas entre ns estas profundas e memoraveis palavras,
remergulhamos em intimas e silenciosas cogitaes, eu e o Chico.

Ao longe o duro bronze, a que os espiritos despreoccupados e felizes do
vulgarmente o nome galhofeiro de sino, tangia seis horas. Damas
encapuchadas em rendas de l desciam de suas manses  praia para se
entregarem aos exercicios balnearios, emquanto outras, mais madrugadoras
ainda, volviam da praia a suas manses, com narizes arrebitados e
vermelhos, avidas de po quente com manteiga e de caf com leite.

Duas horas depois o meu amigo partia para a Regoa, onde seu extremoso
pae, prevenido pelo telegrapho, o esperava, no alto dos Padres da
Teixeira, de braos abertos e um marmeleiro em cada brao. Eu voltava
taciturno a refazer com tardigrados e arrastados folhetins a somma que o
vil e mercenario ensinho do Pra Tisica n'essa noite desvira de seu
natural destino para fins que a meus olhos tinham de ficar para todo o
sempre velados pelo mysterio.

       *       *       *       *       *

Tal , em sua natureza e em seus effeitos, a simples coisa chamada
batota!

Temos visto do jogo muitas e mui variadas definies. A unica, porm,
que inteiramente nos satisfaz  a seguinte: O jogo  uma asneira.

Reduzida assim a questo aos seus verdadeiros termos, no podemos deixar
de perguntar ao governo com que direito elle intervem para o fim de
castigar as asneiras em que cada um incorre? Procurar evital-as ainda se
lhe poderia permitir, mas punil-as!? Se tivessem de ser presos todos
aqueles que fazem asneiras, o proprio governo seria uma coisa
impossivel, porque ha muito no haveria ministro nenhum que andasse
solto.

E, por cima de tudo, procuram ainda impingir-nos a explicao sophistica
de que  para o fim de salvar o povo da ruina que a policia maternal
assalta e sequstra as batotas!

Ora sempre quero que me digam, no caso pessoal que acima narrei, se eu
teria perdido menos do que perdi, dado o facto accidental de terem ido
para o rei de Portugal os 176$000 ris que eu dei para o rei de copas? E
outrosim quereria saber, no caso que o rei de copas, por meio da sua
policia, fizesse ao principe reinante a bonita partida que o principe
lhe faz abotoando-se com o que elle ganha, se sua magestade gostaria da
chalaa!

       *       *       *       *       *

Noticiam de Braga que n'aquella cidade apparecero brevemente dois novos
jornaes, um delles intitulado _Supplicantibus_, e intitulado o outro
_Frei Bandalho_.

Os dois appetitosos titulos d'esses periodicos bastam para caracterisar
bem, em duas unicas pennadas, a elevao intellectual que, no s em
Braga como em todo o reino, est presidindo n'este momento 
vulgarisao da litteratura jornalistica.

Guimares, Barcellos e Vianna no querero por certo deixar-se
ultrapassar pelos desenvolvimentos literarios do espirito bracarense, e
cremos mesmo no ser indiscretos revelando desde j que, estimulados
pela mais nobre emulao, os grandes centros intellectuaes do Minho
preparam, para concorrer vantajosamente com os novos periodicos
braguezes, a appario proxima d'outros jornaes intitulados o _Reles_, o
_Bisborria_ e o _Pulha_.

A unica coisa que nos inquieta no meio desta opulentissima exuberancia
intellectual  o secreto receio de que, no obstante, os incansaveis
esforos empregados para esse fim pelos sabios estadistas gerentes da
educao nacional, venham por ventura a escacear um dia, para fazer face
com suas auctorisadas pennas a um to vasto labor mental, os escriptores
borra-botas, os troca-tintas e os manccos indispensaveis para o caso.

       *       *       *       *       *

S.ex. o snr Luiz Jardim, professor de direito na Universidade de
Coimbra e genro do capitalista Lopes dos Anjos, acaba de dar o nome de
_Rosalia_ a uma creana de quem foi padrinho.

Um jornal, interprete dos altos sentimentos do snr Luiz Jardim, diz que
s.ex. escolhera este nome por elle ser o de uma illustre dama
portugueza que floresceu em meiados do seculo XVII.

Inclinemo-nos com reverencia!

Elle poz-lhe o nome de Rosalia....

Tornemos a inclinar-nos!

E poz-lh'o, porque esse foi o nome de uma illustre dama portugueza dos
meiados do decimo setimo seculo.....

Prostremo-nos por terra!

       *       *       *       *       *

D. Guiomar Torrezo, do _Diario Illustrado,_ dedilhando com mo d'anneis
n'aquella folha o cavaquinho da critica amena, diz-nos o seguinte:

J alguma vez experimentaram a impresso que se sente entrando-se em um
boudoir, em uma especie de _bonbonniere_ capitonada de setim azul,
impregnada de ixoria, mergulhado em uma meia luz mysteriosa, peneirada
por umas cortinas de renda suissa, com arabescos de flores caprichosas e
aves raras, de plumagens ondeantes, e ouvindo-se ahi, com as palpebras
semi-cerradas e a cabea enterrada em uma almofada de setim macio e
luminoso, um nocturno de Chopin, que vem de longe em longe, evolando-se
das teclas de um piano ou das cordas gementes de um violoncello,
pousar-nos no ouvido um longo beijo feito de melancolias, vagamente
sonhadoras e de harmonias verdadeiramente divinas?...

E' esta mesma impresso que se experimenta lendo-se os poemetos do
conde de Sabugosa.

 talvez ligeiramente complicado, como mobilia, o processo critico de
D. Guiomar. Uma vez, porem, que elle d a impresso perfeita da obra de
um to sympatico poeta como o conde de Sabugosa, parece-nos que vale a
pena de experimentar....

De resto consta-nos que o armador Alcobia se encarrega do fornecer por
preo modico todos os trastes precisos para a comprehenso das
differentes obras poeticas, havendo peneiras de renda suissa para todos
os preos, j em flores caprichosas, j em plumagens ondulantes, a todos
os gostos d'horta ou de capoeira.

O mesmo Alcobia se incumbe egualmente de inculcar pianista idoneo para
massacrar ao longe os nucturnos de Chopin emquanto o freguez estiver com
a cabea enterrada na almofada de setim phosphorecente.

Se, ainda depois de enterrado na almofada, e collocado o pianista ao
longe, o paciente se queixar de no desfructar sufficientemente a
musica, Alcobia, sem por isso exigir augmento de remunerao, facultar
duas buxas de algodo em rama para se lhe introduzirem nas orelhas.

Folgamos de veras ao ver assim to harmonicamente alliadas em proveito
da poesia lyrica as duas importantes industrias de fazer critica nos
jornaes e de pr cortinados da Suissa nas casas.

       *       *       *       *       *

Entre os mimosos e ricos brindes offerecidos a Leopoldo de Carvalho na
noite da sua festa artistica no theatro do Gymnasio, lmos no _Diario de
Noticias_ que sobresahiam em primeira linha dois formosissimos quadros
devidos  pericia de uma joven menina da nossa melhor sociedade e feitos
de escamas de corvina.

Tambem folgamos muito com isto.

Em todas as exposies de quadros celebradas nos principaes centros
artisticos do mundo durante este derradeiro quarteiro do seculo, se
notava com lastima geral que o simples oleo, a tinta de aguarella, o
lapis e o esfuminho, eram elementos insufficientissimos para com elles
se constituir o quadro a toda a altura das enormes exigencias da
esthetica contemporanea. A joven admiradora de Leopoldo, lanando mo
genial das escamas da corvina e arrojando-as valorosamente  tela, vem
prehencher uma lacuna immensa nos recursos at hoje to estreitos das
artes do desenho.

Gloria eterna a to benefica e prestante menina, honra da patria e do
peixe fresco, alegria de seus carinhosos paes, e satisfao completa de
suas boas mestras!

Nada mais lisongeiro para um luso, em face dos tremendos esforos de
processo empregados pelos artistas modernos em lucta com a invencivel
perfeio, do que ver essa joven compatriota, inspirada do alto,
apartar-se repentinamente da grande legio dos atormentados, empunhar a
faca de amanhar o peixe, cahir sobre a corvina, empolgal-a pelo rabo, e
escamar em seguida duas obras primas sobre os laureis do festejado actor
Leopoldo!

S nos resta agora, para inteira consagrao d'este grande facto
artistico, que D. Guiomar, empunhando mais uma vez o luminoso facho da
critica, nos queira dizer de que cr  que devemos capitonar as casas e
que pea de musica temos de mandar tanger por Macario, para o fim de bem
nos compenetrarmos das impresses que so chamados a produzir nas
organisaes accessiveis  comprehenso do bello os novos effeitos
estheticos introduzidos no sublime pelas escamas dos peixes.

       *       *       *       *       *

Antes d'hontem, 3, nova rusga s casas de jogo. Em uma batota
assaltada, cincoenta jogadores presos, e cincoenta mil ris
aprehendidos.

O _Correio da Noite_ refere sobre este assumpto que na batota alludida
se no jogava depois de algum tempo a esta parte com receio de uma
visita policial. A policia porem, com a mais louvavel lisura, fez correr
no bairro o boato semi-official de que no havia mais rusgas s batotas.
Os jogadores ento, julgando-se ao abrigo carinhoso e paternal da lei,
reuniram-se outra vez, a policia vigilante cahiu-lhes em cima, e
batoteou-se a si mesma, em nome de el-rei, com todo o dinheiro que
empalmou do bolo.

A opinio mostra-se satisfeita com este exemplar procedimento da
policia, que anima sagazmente os mal intencionados  pratica do crime
para o fim politico de pechinchar com os resultados pecuniarios d'elle.

E os jornaes continuam a chamar _uma rusga_ a cada uma d'estas
diligencias destinadas a reprimir o vicio funesto da tavolagem.

Se os jornaes conhecessem melhor a technologia dos jogos de parar, no
chamariam a estes lances _uma rusga_; chamar-lhe-hiam--mais
propriamente--uma _vacca_.

       *       *       *       *       *

Os jogadores at hoje presos teem sido todos condemnados;--coisa que
naturalmente produz nas massas um saudavel terror, levando-as ou a no
mais jogarem seno nas batotas officiaes, como a Bolsa, a Loteria e as
Eleies, ou a jogarem mais reconditamente.

Para no desmamarem os povos, violentamente de mais, da saborosa pratica
dos crimes a que elles, coitadinhos, esto habituados, os tribunaes,
implacaveis com o jogo, mostram-se benignamente contemporisadores com
outros erros menos funestos  moral e ao proximo do que o manejo dos
baralhos.

Ha dias, por exemplo, foi carinhosamente absolvido um cavalheiro que
tinha arrancado um olho da cara a uma mulher.

O juri tomou em considerao as circumstancias attenuantes que revestiam
esse pretendido crime, ou, para que melhor o digamos, _innocente
gracejo_.

O juri attendeu principalmente a este facto, que no pde deixar de
inspirar a mais profunda piedade a todos os coraes ternos:--aquelle a
quem por um momento pedimos venia para chamar _reu,_ se assim nos 
licito exprimir-nos, amava aquella a quem tirou o olho.

O movel do crime,--digo--o movel da pilheria, de que o innocente 
accusado, foi o amor que lhe inundava o peito.

Ai d'aquelle que nunca amou! esse  um bruto, que jamais dever ser
chamado a resolver questes d'olhos.

Os que uma vez amaram esses comprehendero bem todos os thesouros de
ternura que trasbordaram da alma do anjo supracitado, ao praticar o acto
que o levou, incomprehendido,  barra dos tribunaes humanos.

O cherubins do empireo! sacudi sobre o nosso tinteiro as asas candidas e
luminosas, para que com uma das vossas pennas possamos pintar a scena
que entre esses dois amantes se passou!

O cavalheiro principiou naturalmente por pedir  sua doce amada que ella
mesma lhe desse o lho, em prenda, ou em troca talvez, por um de vidro.

Ella responderia primeiro por uma timida recusa, entre reprehensiva e
ironica:

--Ora, para que queres tu o lho?... Importas-te tu bem com o meu lho!
se me amasses, sim, comprehendo que quizesses um lho meu, o lho da tua
Bb, para o pres n'um medalho. Mas oh! tu no me amas....

--Ah! eu no te amo? Eu  que te no amo?! Eu  que te no quero um lho
para um berloque?!... Ora espera, que j te mostro se te adoro ou no!

E, em seguida, por um d'esses actos de paixo profunda que muitas vezes
transformam o homem n'um deus, o cavalheiro abriria um canivete e,
delicadamente, apoderar-se-hia do lho da creatura.

Oh! amor!... amor!

Um jornal pareceu no saborear competentemente toda a doura d'este
breve e delicioso idyllio, opinando que deveria ser condenmado  cadeia
um malandro to garantidamente bestial como mostrava ser para o dito
jornal o serafim a que nos reportamos.

Um dos membros do juri dirigiu  folha alludida uma bella carta
patenteando as altas razes juridicas que os levaram, elle e os seus
collegas, a absolver o colleccionador d'olhos, cujo amor se debatia em
juizo.

Diz o jurado:

_Se o reu houvesse sido condemnado, teria isso por ventura restituido o
lho  queixosa?_

Ns j acima nos prostramos no cho junto s plantas eruditas com que o
Dr. Luiz Jardim palmilha as veredas historicas percorridas no seculo
XVII pelas damas illustres.

Outra vez nos vemos agora forados a estender-nos ao comprido. Sempre
que personagens d'este quilate apparecem ao critico, a restricta
obrigao d'este  por-se de rjos.

       *       *       *       *       *

Na sesso inaugural do novo centro legitimista, ultimamente fundado na
cidade de Braga, o mui ardente ecclesiastico snr Senna Freitas,
terminando um enthusiastico discurso, tirou do seio uma bandeira branca,
e n'um rapto de eloquencia obrigou todos os assistentes a jurarem sobre
essa bandeira fidelidade eterna ao legitimo rei snr D. Miguel de
Bragana Junior.

Referindo este facto o _Diario de Noticias_ accresccnta, reprehensivo e
severo, que no se devem fazer comedias partidarias com a independencia
da patria.

Julgamos do nosso dever pacificar o justo melindre patriotico do _Diario
de Noticias_, affirmando-lhe que depois de haver desfraldado do seio a
bandeira branca sobre que se fez a jura, Senna--como consta por pessoas
fidedignas--se assoou commovido a essa mesma bandeira. Pelo que se veio
a descobrir que ella era unicamente um leno.

Pela parte que nos toca no podemos deixar de applaudir absolutamente a
attitude firme e energica que o reverendo Senna assumiu no gremio do
venerando partido legitimista, levando pela persuaso oratoria os seus
correligionarios politicos a acceitarem como symbolo sacrosanto das suas
crenas o moderno leno d'assoar, em vez de continuarem a seguir
servilmente as tradies partidarias da velha crte toireira e
cavalharial de Queluz; onde, entre os amigos intimos do snr D. Miguel
I, taes como o picador Joo Sedvem e o caceteiro Jos da Policia, exigia
o uso que nem os juramentos nem os defluxos se depozessem jamais sobre
outro qualquer symbolo que no fosse unicamente a mo de cada um.

       *       *       *       *       *

Na casa Cordeiro, ao Chiado, leilo de louas, de antiguidades e do
moveis artisticos.

Tentmos adquirir n'essa venda um espelho com moldura de faiana
portugueza e dois bules francezes, stylo da China, em ramagens azues
sobre fundo branco. Estes dois lotes foram-nos arrebatados por um
licitante mais forte, o qual soubemos, mais larde ser um agente de sua
magestade a rainha, encarregado de comprar por conta d'aquella augusta
senhora.

O negro despeito pela privao dos referidos objectos obriga-nos ao
desafogo de alguns commentarios.

       *       *       *       *       *

A tendencia geral para o bric--brac  o grande escolho dos progressos
de algumas das artes industriaes n'este seculo. O gosto das mobilias
antigas acabou, assim se pde dizer, com a moderna marcenaria artistica.
Em Lisboa, por exemplo, todos os entalhadores de talento se fizeram
restauradores, atamancadores, renovadores de trastes antigos. Ningum se
d j ao trabalho de inventar o mais elegante leito, o mais decorativo
armario, o mais gracioso sof. Contentamo-nos, como suprema realisao
das nossas aspiraes no conforto e na graa da habitao, em metter a
roupa branca nas mesmas gavetas em que os antepassados dos outros
guardavam os seus cales curtos de veludo de Utrecht, e de fazermos
sentar as nossas mulheres nos mesmos canaps em que se entufaram outrora
as cabaias e os guarda-infantes das damas contemporoneas do snr rei D.
Joo v.

Pelos vestigios que na arte da mobilia deixa da originalidade do seu
gosto, o seculo XIX figurar na historia como o seculo--dos
ferros-velhos.

       *       *       *       *       *

 aos reis que compete attenuar este desdouro, imprimindo nas formas
artisticas do seu tempo o cunho esthetico do seu reinado.  isso de
resto o que sempre se v na historia do movel. A cada uma das
modificaes caracteristicas por que successivamente vae passando a
linha e a cr na alfaia dos tempos modernos corresponde invariavelmente
o nome de um soberano, desde Luiz XIII at Napoleo I, o qual, apesar de
no ter passado nunca em questes de gosto da sua primeira patente de
cabo de esquadra, conseguiu ainda assim dar ao mobiliario da sua epocha
o typo da mesma emphase cezarea que o imperial _parvenu_ aprendera na
convivencia e nas lies do comediante Talma, encarregado de lhe ensinar
a traar a purpura, e do rhetorico Champagny incumbido de lhe fazer os
rascunhos dos improvisos para as proclamaes de guerra.

Os trez grandes decoradores Boule, Gouthire e Riesner, cujas obras
obtiveram recentemente no leilo do duque de Hamilton os mais fabulosos
preos que podem attingir as materias preciosas, eram os fornecedores
dos Bourbons, e foi para as residencias reaes de Frana que elles
fabricaram as suas mais delicadas e primorosas obras.

O celebre Boule tinha, como se sabe, as suas officinas estabelecidas no
proprio palacio do Louvre, onde estava alojado na categoria de
fornecedor privilegiado de Luiz XIV.

Riesner era, ainda em 1791, um dos fornecedores de Marie Antoinette.

Os nomes d'esses principes, refractarios por outros titulos 
considerao e  estima do mundo moderno, vivero por muito tempo
immortalisados nas colleces democraticas das artes decorativas,
alliados  memoria da doce e benefica influencia que exerceram sobre os
progressos do gosto artistico, que so ao mesmo tempo os progressos da
elevao do espirito e da dignidade domestica do homem civilisado.

       *       *       *       *       *

Sua magestade a rainha senhora D. Maria Pia, comprando os seus moveis
nos leiles dos seus subditos, em vez de os mandar fazer pelos artistas
mais talentosos do seu reino, no se nos figura que esteja no caminho
mais directo para que o seu augusto nome chegue a ter um logar
proeminente nos futuros annaes do bom gosto. E nada nos punge mais
melancolicamente do que a perspectiva do futuro vacuo em torno da
influencia esthetica d'esta princeza de uma elegancia to distincta
quanto talvez ephemera.

Ficando-nos os nossos dois lotes n'esse leilo e arrebatando-os pela
quantia de mais tres tostes e meio com que cobriu o nosso ultimo lance,
sua magestade a rainha vibrou, com fina mo ganhosa, o derradeiro golpe,
definitivo e mortal, no estremecido prestigio com que a artistica
sumptuosidade suprema dos antigos principes se impunha ainda hoje 
fascinao dos miseros burgueses enriquecidos.

Que os adelos se barbeassem deante das elegantes _psychs_ das Maintenon
e das Pompadour, e que almoassem nas taas _pte tendre_, das Dubarry
ou das Marie Antoinette, coisa era j bem desconsoladora, bem triste e
bem dissolvente!

Mas, depois do ultimo leilo, em que ns fomos batidos por sua magestade
a rainha, o facto  mil vezes mais grave. Porque--comprehendem bem esta
_nuance_--agora  a mais distincta, a mais elegante, a mais
aristocratica das princezas, que rev os candidos e impolutos arminhos
do seu real manto no mesmo espelho a que na vespera fez a barba o
Villas! e  a mesma augusta soberana que, descendo do seu throno com a
esvelta graa altiva e triumphante de uma Diana vencedora, vae ella
mesma tomar o ch no mesmo bule por cujo bico almoou dois dias antes o
Agostinho, da rua do Alecrim!... Oh! minha senhora! minha senhora!

       *       *       *       *       *

Despeitados, como naturalmente sahimos do leilo Cordeiro, imaginem se
nos daria prazer ou no a noticia da morte violenta e affrontosa de que
foi victima o mais bello gato de sua magestade!

Escolhido em Paris, expressamente para a senhora D. Maria Pia, pela
competencia unica do grande especialista o pintor Lambert, esse gato
de, uma belleza e de uma magestade digna dos versos de Beaudelaire,
contrahira em palacio uma especie de tinha, que obrigou os physicos da
real camara a raparem-o  escovinha.

Foi n'esse estado de tonsura, desfigurando o aristocratico animal at o
ponto de o fazer confundir com um simples individuo de telhado, que um
dos vigilantes e zelozos camareiros de sua majestade, surprehendeu ha
dias o interessante enfermo no acto de tasquinhar na copa uma costelleta
destinada ao inviolavel almoo do monarcha. Ora todas as pessoas
versadas nas praticas da crte, por mais perfunctoriamente que seja,
sabem muito bem que para todos os fins da etiqueta e da devoo s reaes
pessoas, uma costelleta destinada  refeio do principe  absolutamente
a mesma coisa que seria o proprio principe, panado, e posto n'um prato
com uma rodella de limo em cima, to real e perfeitamente como estaria
no solio com a sua cora na cabea e o seu sceptro em punho.

O camareiro pois, vendo seu augusto amo to vil e perversamente
mordiscado por aquelle que Lambert escolhera para fins de certo mais
abstinentes e mais respeitosos, o camareiro--dizemos--acceso em zelo
pela inviolabilidade da real pessoa encarnada na especie eucharistica de
costelleta, foi p ante p, e, de surpreza, apoderando-se do inimigo
pela ponta da cauda, rejeitou-o por uma janella  distancia kilometrica
que em todas as monarchias solidamente constituidas deve sempre medear
entre o cheiro das saborosas costelletas dos principes e os appetites
caprichosos dos gatos das princezas. Bem feito!

       *       *       *       *       *

Aquelle que com amargo fel traa estas linhas colericas, movido
unicamente pelo baixo despeito de no haver pechinchado n'um leilo um
espelho e dois bules, incorre d'est'arte para com a pessoa da augusta
soberana em um reprehensivel excesso de ira plebeia. Elle porem se
promtifica desde j a ser mais tarde, elle proprio, o primeiro a
reconhecel-o e a lamental-o.

       *       *       *       *       *

Andmos tres dias sem poder entender bem qual a causa do conflicto entre
o governo de sua magestade e Monsenhor Masella, nuncio apostolico e
representante diplomatico de Sua Santidade em Lisboa.

O rancor de todo o jornalismo, empenhado na critica d'este incidente,
diluiu a historia d'elle n'uma tal quantidade de fel verboso que a
meno do facto perde-se inteiramente na onda biliosa dos commentarios.

Sahiram para este effeito do fundo do velho guardaroupa da rhetorica
liberal todos os atiributos empoeirados e carunchosos da indignao
classica, e mais uma vez vimos  luz do dia, expostas em andr, como
n'uma procisso solemne, as reliquias venerandas de um stylo de guerra
que, desde o tempo ominoso dos Cabraes, suppunhamos definitivamente
morto, empalhado, camphorado e recolhido para sempre nas colleces
archeologicas.

       *       *       *       *       *

Portuguezes! descendentes d'aquellcs heroicos e sublimes martyres que
com tanto sangue implantaram e regaram n'este abenoado torro a virente
arvore da liberdade, ergamos-nos todos como um s homem!--dizem as
folhas. Ergamo-nos, sem distinco de campo nem de faco, para sacudir
o jugo a que pretende fazer-nos dobrar a cerviz um falso discipulo do
augusto martyr do Golgotha, esquecendo que seu mister  todo de paz e
d'amor, renegando escandalosamente a doutrina amantissima do
Crucificado, calcando a ps os preceitos evangelicos do Redemptor.
Cessem n'este momento solemnissimo todas as divergencias que por ventura
hajam desunido a grande familia liberal! Unamo-nos todos em amplexo
fraternal para quebrarmos as algemas do fanatismo com que anhelam
arroxear-nos os pulsos! Unamo-nos para expulsar do templo sacrosanto de
Jesus o vendilho infamissimo, para desafrontarmos, alfim, a religio de
nossos paes, a religio de nossas mes, a religio de nossas filhas, a
religio de nossas sobrinhas, de nossas tias, de nossas sogras, de
nossas primas, senhores, e de nossas cunhadas!--a nossa sublime
religio, finalmente, tal como ella  em sua excelsa pureza, que ora
vemos torpemente desvirtuada pelo proprio representante d'aquelle mesmo
Redemptor, cujas cinco chagas so o mais augusto emblema da bandeira da
nao portuguesa!

       *       *       *       *       *

Os jornaes d'hoje, os d'hontem e os d'antes de hontem veem cobertos
d'artigos do teor do pequeno extracto concentrado que temos a honra de
offerecer ao leitor como ligeira amostra do genero.

O periodico legitimista a _Nao_ foi o unico que ousou tomar a defesa
do odioso Nuncio, mas o _Diario da Manh_ d'hoje agarra-se pelas orelhas
 _Nao_ e escaca-a com um d'estes artigos que inutilisam o adversario
por espao de seis dias, porque  preciso andar a procurar-lhe os
bocados dispersos no raio de uma legoa em redondo para o tornar a pr em
p outra vez.

Imaginem que o _Diario da Manh_, desde que comeou a questo at hoje,
se tinha conservado silencioso, a ver correr o marfim. Eis seno quando
a _Nao,_ imprudente, se sae com um artigo insolito a dizer que os
unicos prelados portuguezes verdadeiramente no espirito de Deus so os
tres prelados de Angra, do Funchal e de Ga.

Ns tnhamos lido o artigo da _Nao_ e confessamos mesmo que no
primeiro repente gostamos d'elle.

Comprehende-se, de resto, a nossa ingenuidade. Como a _Nao_ 
geralmente considerada o periodico que mais entende d'esta coisa de
bispos--especialidade em que somos completamente leigos--desde que ella
affirmou que os unicos bispos bons eram os d'Angra, do Funchal e de Ga,
ns, na boa f, appressmo-nos logo a tomar nota do documento, e c
ficamos com mais essa informao devidamente registrada para algum dia
em que por acaso viessemos a ter preciso de bispos maus para nosso uso.

Mas o _Diario da Manh_, o qual, pelo que se v agora,  doutorado
n'esta materia, e conhece to bem todos os bispos como ns outros
conhecemos os nossos dedos, o _Diario da Manh_, que, segundo parece,
estava calado e  coca, exactamente  espera de que lhe bolisscm com os
bispos, apenas a _Nao_ disse que os unicos tres bispos com geito eram
os do Funchal, d'Angra e de Ga, ah! pae do ceu!

Nada menos de cinco columnas na primeira pagina do jornal ocupa a
desanda tremenda applicada  _Nao_ pelo _Diario da Manh_ d'hoje! E 
preciso ll-a toda, de principio a fim, essa tunda, para ahi aprendermos
a tristissima verdade de que no pde um homem hoje em dia fiar-se em
ninguem.

Ficamos sabendo agora que os taes tres excelentissimos prelados com que
a _Nao_ nos queria espigar como afianados, so precisamente os
peiores de todos!

Prelados bons, segundo o _Diario da Manh_, prelados desenganados,
prelados que se podem dar a contento seja para onde fr, restituindo-se
o seu importe caso no agradem, so o bispo de Coimbra, o bispo de Evora
e o arcebispo de Bragana.

O bispo de Coimbra, sim scnhores! fallem-me no bispo de Coimbra! isso 
que  fazenda.

Bispo de Bragana, bom bispo tambem: as ovelhas que o levarem iro to
bem servidas como levando o de Coimbra, ou melhor.

O arcebispo d'Evora egualmente se lhes garante a todos os respeitos: 
gallinha!

Emquanto aos outros tres sujeitinhos recommendados da _Nao_ diz o
_Diario da Manh_ que elles no so outra coisa seno os _soldados do
exercito das trevas_.

Tomo nota, e c dou ordem que no estou em casa para nenhum d'esses tres
melros. Rua, que  a sala dos ces!

Para _soldados do exercito das trevas_ bastam-nos os persevejos,
escusa-se de bispos.

Supponham porm que o benemerito _Diario da Manh_ nos no prevenia e
que eu, por exemplo, ovelha innocente posto que velha e mesmo j um
pouco pellada no lombo--abria o meu seio incauto aos persevejos ... quero
dizer, aos bispos ... da, _Nao_!... Que tal estava a rascada, heim?

E vamos agora ns a outra coisa, que nos est a lembrar.... Vamos ns
agora que o proprio _Diario da Manh_....--No queremos melindrar
ninguem, e pedimos ao _Diario da Manh_ que o no leve a mal pelo amor
de Deus.... Perguntamos apenas uma coisa: o homem  infallivel? No .
Infallivel  unicamente o papa, o homem no. _Humanum est errare_...--

Vamos pois, como iamos dizendo, que o mesmo _Diario da Manh_ no seja
to forte em escolher os bispos como a Vicencia o  em escolher os
meles. Ha certeza absoluta de que este amavel confrade no possa
incorrer no mesmo erro grosseiro e lastimabilissimo em que cahiu a
_Nao?..._

Decididamente pedimos licena para ampliar um tanto mais as instruces
que ha pouco demos  nossa cosinheira:

--Gertrudes! no estou em casa para bispo nenhum.

       *       *       *       *       *

Todos os jornaes, exceptuada apenas a refalsada _Nao,_ pedem ao
governo que sem perda de tempo restitua as suas credenciaes ao nuncio.

O _Seculo_ vae mais longe e acreseenta ser preciso que ao nosso
representante junto ao Vaticano se enviem instruces terminantes para
impedir que monsenhor Masella receba n'esta occasio o barrete
cardinalicio que lhe est promettido por Sua Santidade.

No _Seculo_, um jornal republicano e livre pensador,  talvez um pouco
estranhavel a pretenso de influir com o seu voto sobre o momento mais
propicio para cardinalisar Masella.

Se se tratasse simplesmente de cardinalisar um camaro--operao a que
se procede cosendo-o--o parecer do _Seculo_ junto da tia Pincha,
encarregada de lhe confeccionar uma salada de mariscos, seria at certo
ponto admissivel e opportuno. Mas quando  o papa Leo XIII e no a
propria tia Pincha que opera, cuida por ventura o _Seculo_ que a coisa 
a mesma, e que lhe basta bater na mesa com a ponteira da bengala para
que a Curia Romana lhe sirva um cardeal ou para que lh'o no sirva?...

Oh! no.

Para intervir na distribuio dos barretes cardinalicios o _Seculo_ tem
exactamente os mesmos direitos que assistem ao papa para influir na
distribuio dos barretes phrygios.

O partido republicano do Brazil impe s vezes solemnemente o barrete
symbolico da Republica aos seus membros mais illustres. Ainda ha pouco o
sympathico agitador Lopes Trovo recebeu no Rio de Janeiro, no momento
de partir para a Europa, essa honrosa investidura, sendo-lhe adjudicado
ento um bello barrete, de luxo, bordado a ouro de lei, com gales e
borla de canotilho do mesmo vil e precioso metal.

Outro tanto--com algum ferro o dizemos mas sem canotilho algum--no
temos ns que agradecer  obzequiosidade da mocidade avanada e generosa
de Lisboa. O barrete phrygio do nosso uso pessoal, aquelle que nos cobre
a fronte invejosa nos dias em que embarcamos no Tejo para ir ao largo
pescar o pargo ou a abrotida, adquirimol-o na Ribeira Velha por oito
tostes e meio.

De l e vermelho, do matiz radical denominado _rebenta-boi_,  com esse
barrete carregado  banda sobre um olho, com o monoculo expectante da
critica no outro olho, e com um nicker-bockar nas pernas, que o que
traa estas regras se presa de ter servido a causa, j sobre as aguas do
mar, j em terra firme, nas praias de banhos durante as estaes
balnearias, fazendo ranger de despeito higlifico os dentes das
instuies caducas, representadas nas villegiaturas maritimas pela musa
do constitucionalismo D. Guimar Torreso, dama to illustre em fins do
seculo XIX quanto o foi Rosalia por meiados do seculo XVII, segundo o
affirma o mui culto Doutor Jardim ... de S. Pedro d'Alcantara.

Se o _Seculo_ segue porm as boas praticas do republicanismo brazileiro,
presenteando alguma vez com barretes os personagens mais distinctos do
seu partido, que diria o _Seculo_ se, usando da reciprocidade de um
direito que elle proprio reconhece, Sua Santidade o Papa lhe viesse
dizer em tal conjuntura:

--Alto l! no dem isso a Trigueiros de Martel, que estou politico com
esse sujeito por uma partida que elle me fez. Colloquem antes o barrete
sobre a cabea do martyr Gomes Leal, cabea de genio e bem assim do
turco, cabea at hoje inteiramente despremiada, no constando que at
agora tivesse ainda tido outra coisa, alm da caspa propria, seno galos
e brechas feitas pelos socos monarchicos do inimigo.

       *       *       *       *       *

Foi s no momento preciso a que escrevemos esta pagina depois de varios
dias de estudo retroactivo atravez das declamaes da imprensa, que
emfim conseguimos--por um acaso--descobrir os elementos do conflicto
entre o governo portuguez e o representante de sua santidade em Lisboa.

Eis o caso:

       *       *       *       *       *

Sua excellencia o nobre ministro da justia, usando d'aquella apreciavel
franqueza que tanto agrada entre amigos verdadeiros e sinceros, mostrou
a Sua Eminencia o nuncio a lista dos novos bispos que o governo se
propunha nomear, pedindo cerca d'elles a opinio do mesmo snr nuncio.

Sua Eminencia, usando por seu turno da mesma franqueza com que to
benevolamente fora tratado pelo snr ministro, respondeu que achava
pessimos alguns dos bispos propostos.

--Como assim!?--volveu, acidulado e surpreso, o das justias
humanas.--Como cavalheiro que me preso de ser, eu dirijo-me
amistosamente a Vossa Eminencia pedindo-lhe a sua opinio franca,
desassombrada e sincera, e Vossa Eminencia, em vez de me dar a opinio
que eu to bisarramente lhe peo, d-me pelo contrario a opinio
precisamente opposta  que eu tenho!?...

--Perdo...---interrompe o ecclesiastico--eu pensei que, desde que v.
ex. me consultava....

-Nada de sophismas, eminentissimo senhor!... No me force Vossa
Eminencia a ser um pouco mais acre e a ter de accrescentar: nada de
cavilaes! No queira Vossa Eminencia levar-me ao desgosto acerbo de
ter de recordar-lhe, que Vossa Eminencia se acha, merc de Deus, no
gremio de um paiz livre e constitucional, onde o governo se no exerce
por sophisticaes capciosas, antes versa sobre formas parlamentares
baseadas nas fices mais engenhosas e mais lucidas. Uma d'essas fices
fundamentaes do systema que felizmente nos rege consiste no principio
sagrado da discusso, da consulta e do voto. Para bem se comprehender
toda a belleza d'este profundo principio cumpre observar--e para isto
chamo particularmente a atteno de Vossa Eminencia--que, toda a vez que
um estadista, chamado aos conselhos da cora pela augusta confiana do
principe, pede cerca dos seus actos a opinio de qualquer dos poderes
do Estado, a obrigao d'esses poderes, quaesquer que elles sejam,
_quaesguer que elles sejam_--repito-o-- abundarem approvativamente e
jubilosamente no sabio parecer do ministro preopinante. Assim o exigem
as sabias praxes de longo tempo estabelecidas e firmadas no feliz e
liberrimo governo da nao portugueza.

--Mas ento,--obtemperou o sacerdote romano--o systema governativo, de
cujo elencho V. Ex.  tenor applaudido, vem a ser realmente a fara
mais divertida _(la piu piacevole)_ que se conhece! O pundonoroso luso
da pasta da justia, apenas o roupeta lhe fallou em fara, meu amiguinho
e snr, agora, o vereis!

_--Fara!_ bradou s.ex. com o gesto nobre mais recommendado pela
rhetorica para os grandes lances da indignao suprema. _--Fara!_ O
forasteiro ousa chamar _fara_ ao sublime governo constitucional,
monarchico-representativo da patria do fallecido marquez de Pombal! do
chorado Santos e Silva! e do arrojado tribuno Jos Estevo Coelho de
Magalhes, cognominado por antonomasia o _Deus da Palavra_!!... Cuidar
ento o snr, por acaso, que seja uma coisa sria a curia! mais o
pontificado! mais a infalliblidade do papa! mais as indulgencias para
ir para o ceu a trez vintens por cabea! mais a bulla para misturar
carne com peixe a pataco por familia! mais as dispensas, a tanto por
incesto e a tanto por divorcio, para se casarem ou descasarem primos
carnaes com primos carnaes, genros com sogros e bisnetos com bisavs!...
Cuida o snr que ainda alguem toma a serio n'este mundo uma chirinola
d'essas?! Uma das coisas com que os snrs nos andam sempre a massar  a
sua famosa _vinha do senhor:--Vimos da vinha do senhor! Vamos para a
vinha do senhor! Trabalhamos na vinha do senhor!_ Suppoem os snrs
porventura que ainda ha no orbe taberneiro, baiuqueiro, tasqueiro, ou
bodegueiro convencido de que o senhor tem vinhas?! Os snrs intitulam-se
a si mesmos _sal da terra_; ora vamos a saber uma coisa: os snrs esto
efectivamente persuadidos de que so sal?... Vive o snr, por exemplo, na
convico profunda e inabalavel de que  medido s razas pelos almotacs
sempre que passa s portas, e que paga 10 ris de direitos em alqueire
sempre que penetra nas zonas fiscaes das deoceses em que circula? Tem o
snr, na sua qualidade de sal, a intima certeza de que lhe baste
abraar-se de arripio a uma pescada fresca para que essa pescada fique
pronta para se deitar  panella com cebola e batatas?! No dito estado de
sal, nutre o snr a austera e firme convico profissional de que lhe
assiste o poder de resequir as hervas e de revivificar os espiritos?...
Est o snr bem certo de que no tenha seno a sentar-se no bucho verde
para que elle ganhe caruncho, ou a pr a benta mo sobre os sermes de
Garcia Diniz ou sobre os artigos da _Nao_ para que essas produces
literarias cessem para logo de ser a mais ensosa e a mais dissaborida
coisa que Deus permitte a fazer aos seus ministros em toda a vastido
da crusta terrachea?!... E, ento, com tudo isto, os snrs  que so os
srios, e ns  que havemos de ser os farantes, heim?

Emquanto o ministro, arrebatado e fluente, proseguia no seu discurso,
que no hesitamos um s momento em qualificar de sacrilego e de
perverso, o pastor da Egreja, o procurador de Pedro, havia chamado a si
o baculo que deixara atraz da porta do gabinete de s.ex., e
experimentava-lhe a elasticidade da fibra, apoiando-se-lhe  cacheira e
drobando-o e redobrando-o de ferro fixado ao solo.

       *       *       *       *       *

At ahi chegam as nossas conjecturas formuladas sobre as informaes
dispersas que podemos recolher cerca d'este memoravel incidente. D'esse
ponto por deante ignoramos como  que os factos precisamente se
passaram. Lemos porem no _Diario de Portugal_ uma phrase reveladra, que
se nos figura perfeitamente clara e definitiva. Diz aquella auctorisada
folha:

_O nuncio desacatou sua excellencia_.

Os boatos das secretarias esclarecem ainmais essa affirmativa de um dos
periodicos ministeriaes.

_Sua excelencia_--segredam as vozes familiares da burocracia--_apanhou
um calor_.

       *       *       *       *       *

Dilucidada assim a secreta verdade dos factos, entendemos que o snr
nuncio andou admiravelmente bem. E no podemos de modo algum attingir as
causas do geral descontentamento que invadiu os periodicos liberaes por
occasio d'este jubiloso successo.

       *       *       *       *       *

E' indespensavel que de uma vez e para todo o sempre a gente acabe de se
compenetrar bem de uma coisa. E vem a ser: Que os governos no entendem,
nem podem entender nada, pela palavra, acerca de bispos.

Os bispos--dizem-o todos os textos canonicos--so os pastores das almas,
incumbidos pelo Espirito Santo de governar a Egreja de Deus. E' n'elles
que reside a plenitude do sacerdocio, a posse inteira dos poderes
confiados por Jesus Christo aos apostolos. Elles no podem ser
considerados seno como puros e legitimos delegados do chefe supremo da
Egreja, por elle encarregados de manter a continuidade do sagrado
ministerio, de presidir, de governar e de julgar em seu nome e em nome
de Deus, de quem o papa  o representante visivel na terra.

Ora, se so effectivmnente as ideias, os sentimentos, as aspiraes, os
interesses do Summo Pontifice e no os do snr Julio de Vilhena que os
bispos teem de representar, de deffender e de servir, como  que querem,
de boa f e francamente, que seja o snr Julio de Vilhena e que no seja
o papa quem escolha os individuos encarregados de similhante misso?

       *       *       *       *       *

Que os bispos saiam melhores ou saiam peiores, escolhidos pelo nuncio de
Sua Santidade ou escolhidos pelo ministro de sua magestade fidelissima,
que  que teem com isso os jornalistas republicanos e livres
pensadores?...

Pergunta-se uma coisa a estes jornalistas:

Foi para intervir nos mais perfeitos methodos de fazer padres, de dar
ordens, ou, de ministrar sacramentos, que suas excelencias se fizeram
livres pensadores? Mas escusavam ento de se incommodar para isso,
prejudicando-se consideravelmente nos meios de aco, de que para tal
fim disporiam continuando a ser mesarios da freguesia das Chagas ou
irmos do Senhor dos Passos da parochia das Mercs!

Teem, por ventura, estes philosophos democratas e materialistas
pretenes secretas pendentes do governo das deoceses do reino?

Vejamos, sinceramente:

Os snrs querem chrismar-se? querem tomar prima-tonsura ou subdiacono?
querem parochiar? querem dizer missas? querem cantar responsos? querem
confessar mulheres?...

Se querem, digam-o! Desce-se um veu sobre a questo e no se torna mais
a fallar n'isso.

Se, pelo contrario, os snrs no pretendem coisa nenhuma dos bispados,
que diabo ento lhes importam, aos snrs, os bispos?

Parece-nos ouvir uma voz replicar-nos, dizendo:

--Mas ha um facto extra-ecclesiastico e extra-religioso que obriga os
republicanos livres pensadores a tomarem interesse e fogo na questo dos
bispados, e esse facto vem a ser que  o governo da nao quem paga os
bispos.

Muito bem, voz! muitissimo bem! Quem paga os bispos  com effeito o
governo. E  por essa razo que ns applaudimos com enthusiasmo o snr
Nuncio, ao termos a grata noticia de que sua eminencia, _desacatou_ o
governo:--para ver se o governo aprende a no ser tolo!

       *       *       *       *       *

A corveta _Stephania_ acaba de dar da sua incapacidade como instrumento
beligerante o testemunho mais eloquente, mais triste e mais solemne.

Mandada  ilha da Madeira para o fim de resolver em favor do governo o
empate de uma eleio de deputado, a dita corveta de tal modo manobrou
que a eleio de desempate recahiu em massa sobre o candidato
republicano de opposio ao governo.

Considerada pelos poderes publicos como incapaz do real servio, consta
que este vaso de guerra vae ser aposentado e recolhido debaixo do leito
do Arsenal na qualidade de vaso de paz.

Para substituir a _Stephania_ nas campanhas navaes das futuras eleies
pensa-se em mastrear em corveta o compadre Tavares. Para esse fim
esto-se j colligindo nas estaes competentes os mexilhes precisos
para guarnecer a quilha d'este distincto cavalheiro.

Parabens a sua excellencia!

       *       *       *       *       *

Agora invocamos a proteco dos anjos para que, com sua assistencia,
passemos a narrar em resumido discurso e em florida linguagem, propria
da alteza do assumpto, como foi que o milagre se deu no povo do
Carnaxide.

Era por uma formosa tarde do clido mez de agosto. O astro do dia se
inclinava ao occaso, onde o oceano parecia attrahil-o com as argentadas
presas de suas ondas. Sobre a verde alfombra alvos cordeiros, conduzidos
pelos zagaes, pasciam as tenras hervas, ao passo que no umbroso bosque o
bando alado entoava os louvores do Eterno em doces e bem concertados
gorgeios.

Debaixo de uma virente faia se achavam alguns camponezes dando alento ao
fatigado corpo e discreteando em ameno convivio cerca de seus bucolicos
lavores e bem assim da vida e prendas de Santa Rosa de Lima por ser esse
o milagroso dia de to prodigiosa santa.

Eis seno quando, volvendo os olhos, como que tocados por um
presentimento divino, para o lado em que se acha a egreja parochial de
Carnaxide, viram os ditos camponezes apropinquar-se um vulto em tudo
magestoso acima do narravel.

Com a mo direita se apoiava esse vulto a um bordo de peregrino, em
quanto que com a mo esquerda ora comprimia a fronte pensativa coroada
de um pastoril chapeu de palha, ora fazia um gesto cortez para o
horisonte como que convidando o mesmo vulto a proseguir na senda da
vida em direco  faia virente.

Conjecturaram os camponezes que fosse S. Basilio Magno, S. Pedro Nolasco
ou S. Praxedes, e logo viram que no era Santo Anto--por no ter porco
ao lado.

Junto da faia, aquelle que os camponezes haviam tomado de longe por
Praxedes, collocou a mo sobre o corao e arremetendo com a fronte para
as nuvens, exclamou:

Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!

Era s.ex. o snr Thomaz Ribeiro, ministro da poesia lyrica e dos
negocios do reino.

Ao reconhecel-o, os camponezes cahiram em giolhos.

--Guarde-vos Deus, bons rusticos!--disse s.ex. acommodando o stylo 
rude e acanhada comprehenso do auditorio--E que a senhora Santa Rosa de
Lima, que  hoje seu dia, vos tenha de sua bemdita mo!

E em seguida, descriminando a um par um os individuos no grupo
campesino a que nos referimos, s.ex. proseguiu continuando a
exprimir-se em prosa:

--Que fizestes do vosso cordeiro favorito,  Tityro?--Trazeis comvosco a
vossa avena, Melibeu?--Onde a vossa pastora Anarda, amigo Silvano?

Todos os camponeses se acercaram ento de s.ex., ficando suspensos da
facundia de seu labio, pois nunca jamais, nem na freguesia de Carnaxide
nem em duas legoas em redondo, se ouvira tanta gentilesa e amenidade de
lingoagem como a que sahia em jorras da bcca d'esse portentoso homem de
penna e de governao.

Felizes e volozes devolviam as horas em pratica to discreta quo
matizada de piericos primores, quando s.ex., alongando a dextra n'um
brando meneio para o pendr da collina, perguntou:

--Que vetustas ruinas so aquellas que alem descortino alvejando na
quebrada da serra?

E, como houvesse em resposta que essas ruinas eram a antiga egreja de
Nossa Senhora Apparecida,

--Corramos prestes ao templo!--bradou s.ex.--Dirijamo-nos pressurosos a
elevar nossas preces e a depor nossas modestas offerendas no altar
d'essa Virgem Senhora Nossa que to galhardamente denominaes
_Apparecida!_ Vinde, Silvano! Vinde Melibeu! Tityro, Aleixo, Frondelio,
Belmiro e Castalio! Vinde todos,  pastores! Eia!... Ao templo! ao
templo!...

Os pastores, ento, plangentes e lacrimosos, explicaram voz em grita que
Nossa Senhora Apparecida de longo tempo desapparecera. Mo impia de
infames governos despoticos a arrebatara do seu templo de Carnaxide para
a transportar para a S no meio da indignao geral dos povos e das
patronas minazes da real melicia. De sorte que, j no tempo em que o
feroz usurpador do throno de Lysia se apegra com a Senhora Apparecida
para sarar da perna que quebrou ao ir a quatro sollas de Queluz para
Cacilhas, no logar do Moinho de Cavallinhos, cantavam os cegos na via
publica:

D. Miguel foi  S,
Sentou-se n'uma cadeira,
E disso para os malhados:
Esta perna est inteira!

Ao ouvir taes vozes, j soltas, j metreficadas, s.ex. extrahiu a lyra
que trazia ao tiracollo em um saco, juntamente com a pasta da publica
governao, e sobre o mavioso instrumento jurou que antes que a casta
Phebe voltasse por seis vezes a sorrir do ceu ao terno Endymion, ou--por
outra--que dentro, de seis mezes contados, a milagreira imagem de Nossa
Senhora Apparecida volveria da S a Carnaxide, reapparecendo pela
segunda vez aos povos em todo o esplendor do seu excelso vulto.

Vendo os camponezes que por meio de um to manifesto e prodigioso
milagre assim lhes era restituida sua Senhora, outra vez cahiram
submissos em giolhos.

E foi s depois de s.ex. se haver retirado pela mesma vereda por onde
viera; foi depois de lhe terem ouvido ao longe e pela derradeira vez
repetir aos montes e s hervinhas:

  Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!

que os camponezes, reunidos em honesto convivio sob a faia, regressaram
a suas pousadas, tangendo alegres tibias e entoando las festivaes em
honra d'aquelle que to grande capricho punha em lhes restituir a
Senhora Apparecida quo grande era a pena que alimentava em seus carmes
de nunca ter visto Lisboa.

Gloria pois a s.ex.!

       *       *       *       *       *

Outrora o portuguez de volta do Brazil, com fortuna, com papagaios e com
pedras no peito da camisa e na bexiga, comprava invariavelmente, ao
desembarcar, um acommenda, dois ces de faiana e um bilhete da imperial
na malaposta de Braga. Depois do que, passava a usofruir n'uma quinta
minhota o producto do seu trabalho d'emigrante, representado em
molestias sedentarias, em graas regias e em quadrupedes de loua.

A patria explorava-o e ria-se d'elle.

Agora chega do Rio de Janeiro o snr Eduardo de Lemos, sem pedras e sem
papagaios, posto que com fortuna, e, segundo lemos no _Diario do
Governo_, elle no s no paga mas resigna uma commenda com que o
agraciou a regia munificencia.

Tomemos nota do phenomeno, porque elle  o symptoma de uma revoluo
profunda: elle  o _Emfim Malherbe veio_ da historia dos commendadores e
dos ces,--vertebrados da olaria nacional e do grosso commercio
extrangeiro.

Que o nosso velho mundo decrepito e tremelicante se prepare para o
embate hostil e tremendo do novo poder revolucionario que se annuncia!
Atraz de Eduardo de Lemos ha no Brazil uma legio inteira, intelligente,
instruida e forte, que vae chegar--para se rir.

Lisboa 15 de dezembro de 1882.

_Ramalho Ortigo._






End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas (Novembro A Dezembro 1882)
by Jos Maria Ea De Queiroz and Ramalho Ortigo

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Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


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