The Project Gutenberg EBook of Ruy o escudeiro: Conto, by 
Lus da Silva Mousinho de Albuquerque

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Title: Ruy o escudeiro: Conto

Author: Lus da Silva Mousinho de Albuquerque

Release Date: June 9, 2007 [EBook #21786]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK RUY O ESCUDEIRO: CONTO ***




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RUY O ESCUDEIRO.

Conto.


POR

L. DA S. MOUSINHO D'ALBUQUERQUE.

      Remedios contra o somno buscar querem,
      Historias conto, casos mil referem.
        Cames, Lusiadas, Canto 6., Est. 39.

LISBOA:
1844.

_Typ. da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis. Largo do
Pelouriho, N. 24._




_O manuscripto original do presente Poema foi dadiva generosa de seu
illustre Auctor, feita  Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis,
que desejando corresponder a to obsequioso offerecimento empenhou os
recursos artisticos, de que podia dispor, para que a edio fosse
primorosa, e provasse o adiantamento da gravura em madeira e da
typographia em Portugal nestes ultimos annos._

                                    _Os Editores._




RUY O ESCUDEIRO.




CANTO PRIMEIRO.

      Desbaratado, e roto o mouro hispano,
      Tres dias o gro Rei no campo fica.
        Cames, Lusiadas, C. 3., E. 53.


      A Cruz azul, que em campo prateado
      No escudo de Henrique reluzia,
      Em cinco o Filho j tinha cortado
      Por memoria dos Reis, que roto havia:
      De Castro-verde o campo dilatado
      O novo Rei com o arraial cobria,
      Livres os seus, e os mouros fugitivos,
      Partio os despojos, e os captivos.

      Do arraial no meio se elevava
      Do grande Affonso a lenda triumfante,
      Em torno  qual o vento balanava
      As dos Cabos do Exercito prestante,
      De Pero Pais, que seu pendo guiava,
      Dos Vengas do Aio prole ovante,
      De um Sousa, de um Vallente, e de outros fortes
      Nos perigos, e na gloria ao Rei consortes.

      Em seguida  do Rei se distinguia
      Tenda semi-real, que alli plantra
      Heroe, cujo valor no desmentia
      O sangue da Borgonha, que o formra;
      Pedro Affonso, a quem dra a luz do dia
      Amor, que o hymineo no consagrra,
      Digna estirpe de Henrique, e em obras suas
      Galardo do cuidado ao aio Fuas.

      No circumstante campo, vasto, aberto,
      Que inda ha dois ses medroso, e trepidante
      Vra a furia cruel, conflicto incerto
      Do Sarraceno em lanas abundante
      Contra o Christo, que anima o Chefe experto,
      E no Deus de seus pais a f constante,
      Trombetas, e ataballes uns tangiam,
      Outros em novo canto assim diziam.


                  HYMNO.

            Vai fugindo o Sarraceno
            Mais prompto do que avanou,
            Que todo o poder terreno
            Por Christo desbaratou
            O brao aos perros fatal
            De Affonso de Portugal.

            Cada um dos Cavalleiros,
            Que por Christo ao campo vem,
            Cem dos infieis guerreiros
            Na peleja ante si tem;
            Mas tudo cede ao real
            Affonso de Portugal.

            Cinco Reis de infieis mouros
            Contra os de Christo vieram,
            D'elles teve Affonso os louros,
            As costas a Affonso deram,
            Deu Deus esforo immortal
            A Affonso de Portugal.

            Sobre o campo da victoria,
            Onde Christo lhe appar'ceu,
            E pr'a o escudo em memoria
            As proprias Chagas lhe deu,
            Ao throno alcemos real
            Affonso de Portugal.

            Este Heroe, que Deus ajuda
            Tome a nossa vassallagem:
            Sempre ao povo seu acuda
            Ou Elle, ou sua linhagem:
            Seja pr'a sempre real
            A coroa de Portugal.

            Sempre entro ns haja Rei
            Natural de nossa terra,
            Que na paz conduza a grei,
            E que a defenda na guerra,
            Qual o primeiro real
            Affonso de Portugal.

      Em quanto uns assim cantam dos soldados,
      Vo outros pelo campo divagando:
      Estes colhem despojo inda espalhado,
      Aquelles secco matto vo cortando;
      Ascende ao r o fumo, que enrolado
      Das accezas fogueiras vem manando,
      Onde est'outros preparam o alimento
      Dos membros lassos prvido sustento.

            J o Sol menos ardente
            Para o ponente descia,
            Temperando a calma do dia
            A fresca brisa nascente,
            No occaso reluzente,
            De ouro e de purpura ornado,
            Guarnece o ceo azulado
            A orla de nevoa espessa,
            Novo dia que arremessa
            Pintando um dia acabado.
            Tinha chegado
            A hora amena,
            Nos nossos climas
            To suave, to doce, e to serena,
            Hora, que em tempos
            De paz dourada,
            Dos lavradores
             to presada;
            Quando termina
            Do dia a lida,
            Quando o descano
            Restaura a vida.
            Sopra da tarde
            Grata frescura
            Reanimando
            Murcha verdura.
            Vem o novilho,
            J libertado
            Do duro jugo,
            Pascer no prado.
            Sobem dos campos
            Os segadores.
            Ledos cantando
            Ternos amores.
            Gentil mancebo,
            Que amor encanta,
            Ao som das crdas
            As penas canta,
            Em quanto em giros
            Linda pastora
            Co'a dana leve
            Mais o namora,
      Hora sem par, em que o cadente dia
      Traz repouso, ternura, e alegria!

      Pedro Affonso no emtanto, em cujo peito
      A pr da intrepidez mra a piedade,
      Guerreiro sem igual, Christo perfeito,
      Vai demandando a erma soledade
      Do provecto Ermito, asilo estreito
      Onde fugindo as pompas, e a vaidade,
      A Deus e  penitencia consagrra
      O venerando velho a vida cra.

      N'uma colina, apenas exalada
      Sobre a vasta planicie calorosa,
      Uma exigua Capella era elevada
      N'aquella idade barbara, e piedosa:
      Do velho Ermita a cellula acanhada
      Jazia ao lado, uma sobreira annosa,
      Co'a larga rama o tecto protegia,
      E do profano olhar a defendia.

      Ante a porta do sacro monumento
      Com toscos pus estava retratado
      O sacrosanto lenho do tormento,
      Em que o Filho de Deus fra pregado:
      Dentro sculptado via-se o momento
      Em que o Corpo sem vida, reclinado
      Da Mi nos braos, vai, qual creatura.
      O Creador baixar  sepultura.

      Alli da noute na primeira vela
      P'ra o Rei, do sacro livro possuido,
      A campana soou, que o tempo assella
      Do celeste Emissario promettido,
      P'ra que em luz, que a do Sol mais clara e bella
      Fosse Christo por elle percebido,
      Promettendo-lhe a coroa, e a victoria
      Da sua estirpe, e do seu povo a gloria.

      Naquelle instante o velho venerando,
      De giolhos aos ps da Cruz alada,
      Estava o fim do dia consagrando,
      Como do dia consagrra a entrada.
      Raros alvos cabellos fluctuando
      Se viam sobre a frente despojada;
      E a barba, que lhe o vento sacudia
      Em ondas, sobre o peito lhe descia.

      Na piedosa orao todo engolfado
      Estava o santo velho por tal sorte,
      Que nem sequer sentiu chegar-lhe ao lado,
      Do Escudeiro seguido, o Varo forte.
      Pedro Affonso parou, seu peito, armado
      De audacia contra os perigos, contra a morte,
      Toca a vista do Ermita por tal geito,
      Que no sabe se  medo, se respeito.

      Mas o moo Escudeiro, que o seguia
      Bem diversa impresso experimentava,
      Do Ermita a quietao, quasi a apathia
      Da sua alma c'o estado contrastava;
      Em seu peito um volco latente ardia,
      Dos desejos no pelago nadava,
      Estava n'essa idade, em que o repouso
       no s mal; mas mal o mais penoso.

      Ruy era o seu nome.  luz viera
      Sob o tecto paterno junto ao Douro;
      Seu Pai, no nome igual, a vida dera
      Com Henrique pugnando contra o mouro.
      Jmais paterno affago conhecera,
      Que a triste viuvez, envolta em chro
      Ruy, unico bem que lhe restra,
      No bero filho posthumo embalra.

      Unica flr, que lhe esmaltasse a vida,
      A mi no tenro filho cultivava,
      Nelle a imagem do pai, reproduzida,
      Embellezada ainda, idolatrava.
      No Joven desde a infancia alma atrevida
      Namorada da gloria se mostrava,
      Com corao ardente, e generoso,
      E a um tempo amante, meigo, e carinhoso.

      Indole a tudo prompta, a tudo ousada
      No porte do mancho transluzia:
      Na estatura esbelta, e levantada
      Co'a ligeireza a robustez se unia:
      Sobre a frente morena, e dilatada
      A negra liza comma lhe descia,
      Nos olhos vivos, e de cr escura
      Temperava o fogo bellico a ternura.

      No era lindo, no, que expresso tanta
      Destroe a symetria da lindeza;
      Porem mais do que o lindo arrastra, encanta,
      Interessa, move, e a atteno tem presa.
      Sem ter severo olhar, que o riso espanta,
      Sria a sua expresso, toca em tristeza,
      Trasborda n'ella uma alma forte e ardente,
      Que tudo pde ser, salvo indiff'rente.

            Tal era formado
            No vulto, e nas cores,
            Que era a Marte asado,
            Era asado a amores.
            Qual brilha entre as flores
            O cravo fragrante,
            Tal elle prestante
            Entre os mais brilhra,
            Ou tal se elevra
            Entre os companheiros,
            Como nos outeiros
            O olmo alteroso
      Sobre o bosque ergue o cume alto, e frondoso.


      No patrio tecto, desde o bero vira
      Do nobre pai o escudo pendurado,
      A cota, que inimigo ferro abrira,
      Inda tinta do sangue no vingado.
      Mil vezes entre pranto  mi ouvira
      Contar paterna gloria e triste fado,
      Mil co'a infantina mo tocado havia
      A herdada lana, que ha brandir um dia.

      Entre memorias taes do patrio dano
      Do filho de Ruy crescera a idade;
      Volvido haviam j anno apoz anno
      Conduzindo o vigor da mocidade,
      Quando a mi, que respeita como arcano
      Do extincto Esposo a ultima vontade,
      No dia em que seu lucto revivia
      Ao filho bem amado assim dizia.

      Martyr da f Christa teu Pai na guerra
      Pela Cruz deu a vida peleijando;
      Fatal golpe o prostrou na propria terra,
      Que para Christo andava conquistando.
      Ah! se l donde o summo bem se encerra
      Elle, oh filho, nos v, ver-me-ha chorando,
      Dar-te o preceito, que houve do Consorte
      Quando a alma entregou nas mos da morte.

      Alli fica, me disse, aquella lana,
      Que s de infiel sangue foi manchada,
      Alli deixo esse escudo por herana,
      Esse elmo, essa cota, e essa espada:
      Se o summo Deus tiver de ns lembrana,
      E que um filho haja em ti, oh bem amada,
      Meu nome lhe dars, e essa armadura
      Sob a qual encontrei a morte dura.

      Dar-lhe-has esta Cruz. Isto dizendo
      Do peito a separou por vez primeira,
      E o brao, j sem fora, a custo erguendo,
      Aos labios a levou por derradeira.
      Dir-lhe-has, que se a paz acho morrendo
      A esta insignia a devo verdadeira,
      Devo-a de Christo  f, que a vida guia,
      Que ensina a fallecer sem agonia.

      Dize-lhe que a conserve ao peito unida,
      Que ao lado seu cinja a paterna espada,
      Aquella p'ra o guiar  eterna vida,
      Esta p'ra ser a seu Senhor votada;
      Que indomito na pugna asp'ra e renhida,
      A fraqueza respeite desarmada;
      Que preze a honra; fuja da cobia,
      E da moleza vil, que o vicio atia.

      Assim fallou teu Pai.... e a penetrante
      Ferida em rouxo sangue se esvaia.
      Sumiu-se a voz no peito palpitante,
      Aos olhos se apagou a luz do dia:
      Soou da minha dita ultimo instante,
      J d'esta alma a ametade no vivia;
      Mas dentro de meu seio palpitava
      Penhor, que a ficar viva me obrigava.

      Vivi, a fora achei, que me vigora
      No maternal amor, oh filho amado,
      Cro penhor de um lao, doce outr'ora;
      Mas roto, quando apenas estreitado!
      A ti mancebo, a ti pertence agora
      Restituir-me aquelle que hei chorado,
      Se, como espero, em ti vir renascida
      A virtude d'essa alma ao ceo subida.

      Da tua infancia os dias acabaram,
      J teus membros tem fora e tem destreza,
      Aquelles, que o esposo me roubaram,
      Saibam que no fiquei s, sem defeza.
      Sangue vil minhas veias no herdaram,
      Nem corao sugeito a tal fraqueza,
      Que ao filho de Ruy estorve a gloria
      De ter por Deus, e pelos seus victoria.

      De Ruy a viuva, assim fallando,
      Do muro antigo as armas desprendia,
      E os humidos olhos enchugando,
      O filho de Ruy d'ellas cobria.
      O mancebo, de nobre ardor crando.
      Com respeito a armadura recebia,
      Que j na dura guerra exp'rimentada,
      Fra do pai com o sangue consagrada.

      Um captivo entretanto apparelhava
      O bruto ardente, que se apraz na guerra,
      Que impaciente o freio mastigava,
      Co'a vigorosa mo cavando a terra;
      J armado sobre elle cavalgava
      Quem do ninho paterno se desterra,
      A procurar do mundo as aventuras,
      Gratas a poucos, para tantos duras.

      Da triste mi os olhos macerados
      Por largo espao a marcha lhe seguiram;
      Ao perde-lo porem entre os silvados
      De uma nevoa de pranto se cobriram.
      Seus animos, do filho sustentados,
      Ao arrancar-se d'elle sucumbiram.
      Sentiu a triste, a dr, magoa, anciedade,
      Que s conhece a maternal saudade.

      Segue no emtanto o moo a varia estrada
      Que o Mondego do Douro distanceia,
      Na terra, dos Beroens Beira chamada,
      Onde o Vouga entre as serras serpenteia,
      Do Bussaco transpe serra elevada,
      E bem depressa a vista lhe recreia
      Valle ameno, co'as flores e a verdura
      Que nutre do Mondego a limfa pura.

      De risonha colina no vertente,
      Que o rio carinhoso em baixo lava,
      A cidade Conimbrica  jacente,
      Que ento de espesso muro se cercava;
      N'ella ajuntando estava armada gente
      Affonso, que attacar apparelhava
      O agareno Ismar chefe animoso
      Do transtagano mouro bellicoso.

            Era Affonso acompanhado
            D'esse Irmo, de Henrique filho
            Cavalleiro de alto brilho,
            Por Dom Fuas educado.
            Fuas era aparentado
            De Ruy com os ascendentes,
            E o sangue de seus parentes
            No Joven reconhecendo,
            Seus destinos protegendo,
            Por escudeiro o ligou
            A Pedro, que o aceitou,
            E entregando-lhe a lana,
            Poz n'elle tal confiana,
            Que como a filho o tratou.

            L na peleija de Ourique
            No mais forte das batalhas
            Rachou elmos, rompeu malhas
            Ruy, com o filho de Henrique.
            Ao som da tuba guerreira
            Seu corao se accendeu;
            Qual touro, aberta a barreira,
            Com o mouro accommetteu.

            Aos golpes da herdada lana
            Muitos mouros expiraram,
            Muitos da espada a provana
            Cro co'a vida pagaram;
            E no sangue de inimigos,
            Que pela F derramou,
            Entre azares, e perigos,
            Do pai a morte vingou.

      Do defunto Ruy tal era o filho,
      Que Pedro Affonso ao ermo acompanhava.
      J do cadente Sol o ultimo brilho
      Nas bordas do horisonte se apagava,
      De altas idas no inspirado trilho
      O provecto Ermito continuava:
      Quando subito o rosto alevantando
      Volveu aos dois o aspecto venerando.


            ERMITO.

      Salve prole de Henrique, heroe preclaro,
      Salve sangue de Reis, a quem a gloria
      Predestinada est no assento claro
      De ter, mais que de imigos, a victoria:
      Sim, tu triumfars do abysmo avaro,
      Do mundo calcars pompa, e vangloria,
      Todo o fulgr da humana heroicidade
      Sepultando no asilo da piedade.

      Onde dos teus a estirpe triumfante
      Teve origem irs, nobre e animoso,
      Do teu sangue encontrar varo prestante,
      Que em ti fecundar germen piedoso;
      Depors a couraa rutilante,
      O elmo, o escudo, o ferro temeroso,
      Para aspirar  gloria, que no passa,
      No retiro e silencio de Alcobaa.

      Tu porem, oh mancebo, de que abrolhos
      Cheio  para ti campo da vida,
      Em que mar procelloso, entre que escolhos
      Teus de seguir a rta combatida,
      Que lagrimas amargas de teus olhos
      Devem correr, no peito que feridas
      Pungentes sofrers, sem ter conforto
      Antes que possas recolher-te ao porto!

      Melhor fra p'ra ti, se a natureza
      De partes menos bellas te dotra,
      Se insensivel s graas e  belleza
      Ao pondenor,  gloria te formra,
      Se menos corao, menos viveza
      Avara p'ra comtigo te outhorgra;
      Que esse, em quem mais esmero pe natura,
      Raras vezes mimoso  da ventura.

      Os contrarios do Rei que alevantaste
      Os menores sero de teus imigos,
      Outro mais p'ra temer, outro encontraste
      Muito maior no damno, e nos perigos,
      Da dr por esse o calix esgotaste;
      Mas, cumpridos teus fados inimigos,
      Olhar Deus p'ra ti, e  fonte pura
      Te guiar da solida ventura.

      Assim disse o Ermita, e reclinando
      A cabea no peito, alguns momentos
      Recolhido ficou; alfim voltando
      P'ra os dois, que quedos s'to mudos e atentos
      Acrescentou com tom solemne, e brando.
      Que somos ns mortaes, mais que instrumentos
      Dos designios de Deus, da alta sciencia
      Da insondavel eterna Providencia?

      Marcha aquelle no trilho da grandeza
      De tantos precipicios circumdado;
      Estoutro das paixes entre a braveza
       no duro combate acrisolado;
      Nada um na abundancia e na riqueza;
      Outro  do escasso po at privado;
      Mas se a boa ou m sorte os no illude,
      L tem todos a coroa da virtude.

      Estes, e outros discursos repetia
      O velho, de uno cheios extremada,
      Que Pedro Affonso n'alma recebia,
      Qual a semente a terra preparada:
      O mancebo porem a alma sentia
      Com violencia tal preoccupada,
      Que, orando a pr dos dois no monumento,
      Tinha longe da boca o pensamento.

      Mas j da noute o estrellado manto
      Toda a vasta planicie acobertava,
      Quando Pedro deixando o logar santo
      Para o regio arraial se encaminhava;
      Segue em silencio o Joven, em quem tanto
      Desassocego do Ermito gerava
      O vaticinio, que debalde intenta
      Dissimular a agitao violenta.

            Alertas vlas passaram,
            Que do campo a guarda tem,
            No arraial penetraram,
            Descobrindo quem e alm
            Os fgos abandonados
            Pelos dormentes soldados.

            Baixou sobre Pedro o amigo
            Lethargo restaurador;
            Mas vigilia traz comsigo
            O cuidado roedor
            Que no Joven escudeiro
            Deixou o Ermita agoureiro.

            Em vo suffocar tentava
            Curiosidade indiscreta,
            Que, mal os olhos cerrava,
            Logo na mente inquieta
            Se renovava a impresso
            Das palavras do Ermito.

            Assim oppresso, agitado,
            Da noute as horas seguiu,
            At que o corpo canado
            Ao somno alfim succumbiu,
            E o repouso ao pensamento
            Deu vigor, e deu alento.

              Ao romper do dia
              A trompa soava,
              Cada qual surgia.
              Cada qual se armava.
              Aqui os infantes
              Cerram as fileiras
              Junto s ondeantes
              Variadas bandeiras;
              Alli vem rinchando
              Cavallos de guerra
              O p levantando
              Da arida terra.
              A rosada aurora
              No ao esplandece.
              Que co'a luz, que o cra,
              Em chammas parece.
              De todos na frente
              O Rei cavalgava,
              E da heroica gente
              Os brios dobrava:
              As Quinas sagradas
              A cota lhe ornavam,
              No pendo lavrados
              Ao ar tremolavam.
              Emtanto abatidos
              A marcha seguiam
              Os mouros rendidos,
              Que algemas prendiam.
              Assim vencedores
              Os christos marchavam,
              E aos frescos verdores
      Das margens do Mondego se tornavam,
              Nas campinas de Ourique
      Alado rei, o heroe filho de Henrique.

FIM DO PRIMEIRO CANTO.




CANTO SEGUNDO.

      A tomar vai Leiria, que tomada
      Fra mui pouco havia do vencido.
        Cames, Lusiadas, C. 3., E. 55.


      Para unir n'um s leito amantes aguas
      Vem o Liz, sobre os seixos murmurando,
      O Lena vem, nascido de entre as fraguas;
      Em seu curso modesto, alegre, e brando,
      Entre a relva mimosa, entre a verdura
      Cada qual mollemente serpejando.
      Jmais turvou a limfa clara, e pura
      O forte remo, a quilha recurvada
      Com que a industria mortal dma a natura;
      Smente a braa da arvore quebrada,
      A folha que no outomno cahe sem vida
      Pelo placido curso foi levada.
      Nas margens a aveleira entretecida
      Com o espinheiro est de flr fragante,
      A madre silva co'a roseira unida.
      No espelho das aguas inconstante
      Reflectida balana alta ramagem
      De alamo bicolr, choupo elegante;
      Dos vimes, e salgueiros a folhagem,
      Molles chores, as braas incurvando,
      Vedam do sol aos raios a passagem.
      Alli, na primavera, sussurrando,
      Recolhe a abelha o mel por entre as flres,
      E a borboleta as beija volitando,
      Quando o cantor sublime dos verdores
      Da aurora ao despontar, e  tarde canta
      Em frente ao brando ninho os seus amores.
      A rda leve as aguas alevanta,
      Que em canaes variados circulando,
      Levam frescura  sequiosa planta;
      Em quanto, dos invernos triumfando,
      Altos pinheiros sempre verdes frontes
      Reunidos se vem aos ceos alando
      Na encosta, e cumes dos visinhos montes.

      No meio d'este valle a natureza
      Um penhasco erigiu, morro isolado,
      Que das aridas rochas a braveza
      Abruptas volve aos raios do sol nado;
      Com aridez igual, igual asp'reza
      Do occaso, e do sul encara o lado;
      Orna-o do norte apenas a verdura
      Em mais suave encosta, e menos dura.

      Do forte morro s abas se abrigaram
      Da destruida Liria os habitantes,
      Quando da natal terra os expulsaram
      Dos romanos as armas triumfantes;
      Para alli seus penates transportaram,
      E da perdida patria sempre amantes,
      De Liria ao novo asilo o nome deram,
      Que os tempos em Leiria converteram.

      De Vandalos, e Godos povoada
      Foi depois, gente forte e valerosa,
      Que com o tempo tambem cedeu  espada
      Da sarracena raa bellicosa,
      Na epocha em que a terra celebrada
      Das Hespanhas sofreu perda affrontosa,
      E s cantabrios serros abrigaram
      Os que ao jugo africano se escaparam.

      Mas alfim vencedor da maura gente,
      Affonso, no penhasco edificra
      Recinto marcial forte, e potente,
      Que de Agostinho aos filhos confira,
      Quando do rto Ismar a ira fremente
      No povo e no presidio se vingra,
      E unido a Hauzeri, mouro esforado
      Tinha de Affonso os muros conquistado.

            Ai! daquelle, que atrevido
            Com temeraria ousadia
            Do Leo adormecido
            Os furores desafia!
            O animal irritado,
            De crua raiva espumando,
            Corre o campo, arrebatado
            Morte e ruina espalhando:
            Com seus urros espantosos
            A bronca serra estremece,
            A luz do raio esplandece
            Nos seus olhos furiosos.
            Fora no ha to potente
            Que a carreira lhe embarace,
            Que a garra no despedace,
            Que no rasgue iroso o dente:
            T que em fim o imigo alcana,
            E no crpo ensanguentado
            Partido, e dilacerado,
            Sva as iras e a vingana.

      Assim de novo a trompa bellicosa
            Nos valles retumbava,
      Assim de Affonso a gente valerosa
            J de novo se armava,
      E as bandeiras, que as Quinas adornavam
      Os Alferes de novo ao vento davam.

      Nobres, e ricos-homens  porfia
            Se apromptam sem demra
      A castigar dos mouros a ousadia,
            E em lide vencedora
      Punir os damnos, com que Ismar irado
      Todo o transito seu tinha marcado.

      O escudo embraou p'ra nobre empreza
            Pedr'Affonso incansavel,
      Ao Rei da crua guerra na aspereza
            Consorte inseparavel,
      E com elle Ruy para a vingana
      Com ardor empunhou a herdada lana.

      Moveu-se a gente bellica segura
            Na esperana da victoria,
      Que a quem temer no sabe a lide dura
            Nunca desmente a gloria,
      E n'um teso, ao Castello apropinquado
      O campo expugnador foi collocado.

            De annoso pinheiro,
            Que em frente se alava
            Do campo guerreiro,
            Nos ramos pousava
            Um corvo agoureiro
      Que abrindo o rostro infausto, e s azas dando,
      Parecia estar os mouros malfadando.

            Os de Agar bramaram
            Quando alevantadas
            Em frente enchergaram
            As Quinas sagradas,
            E irosos juraram
      Illeso conservar o logar forte
      Seus muros defendendo at  morte.

            Alcaide da gente
            Seu brio excitava
            Hauzeri valente,
            Que a lana empunhava;
            Mouro forte e ardente,
      Entre os do bravo Ismar um dos primeiros
      Denodados, e intrepidos guerreiros.

            Com garbo, e presteza
            Discorre a muralha,
            Dispondo a defeza,
            Prevendo a batalha,
            O alcaide, e a firmeza
      A audacia, e o valor no rosto ostenta
      Com que dos seus a galhardia augmenta.

      Ao lado de Hauzeri bella apparece,
      Piedosa vista em lance to p'rigoso!
      Filha linda qual luz quando amanhece
      Ao romper d'alva em dia caloroso,
      O turbante, que a frente lhe guarnece
      Remata alvo penacho precioso
      Em quanto vo os zephiros brincando
      Com os anneis sobre os hombros fluctuando.

      De seda as calas tem da cr da neve,
      Sobre ellas desce a tunica bordada,
      Cerulea faixa a cinta circumscreve,
      Qual a hastea do lirio delicada,
      Cobre o virginal seio a tea leve
      Onde a seda co'a la fra tramada,
      De vermelhos coraes um fio brando
      Do collo airoso a base contornando.

      Suaves de Fatima os olhos eram,
      Vivos ao mesmo tempo e magestosos,
      Quaes unicos os nossos climas geram,
      Climas caros ao Sol, climas ditosos;
      Olhos, foccos de amor, que n'alma imperam
      Quer languidos, quer meigos, quer irosos;
      Olhos taes, que se pranto derramaram
      As mesmas brutas penhas abrandaram.

      Nas pudibundas faces reluzia
      A viva cr da nacarada rosa,
      Que em leve gradao se esvaecia
      Pela macia pelle melindrosa;
      Virgem, filha gentil do meio-dia,
      A cr tinha morena, e to formosa,
      Como a que a luz de um Sol claro e brilhante
      Communica do prado  flr fragante.

      Da larangeira em flr com o deleitoso
      Aroma o r da tarde embalsamado
      Cede em suavidade ao amoroso
      Hlito de seus labios exhalado.
      O murmurio do arroio saudoso
      Entro meudos seixos derivado,
      O meigo sussurrar do brando vento,
      Menos magia tem que o seu accento.

            Quem viu a vermelha rosa
            N'um ramalhete de flres
            De todas a mais formosa
            Quer nas formas, quer nas cres:
            Quem da noute socegada
            No silencioso vo
            Viu a lua prateada
            Entre as estrellas do co:
            Quem na belleza prestante
            Do palacio, ou templo santo
            Viu a corinthia elegante
            Que remata o molle achanto:
            Quem entre a familia leve,
            Habitante da espessura,
            Viu a pomba cr da neve,
            Vivo emblema da candura:
            No viu mais que uma imperfeita
            Imagem das maravilhas,
            Com que Fatima deleita
      Os olhos, do seu povo entre as mais filhas.

      Porem, j sequiosos da vingana
      Os Christos se aparelham p'ra peleija.
      Em batalhas o Rei divide as lanas,
      Marcando a cada uma quem a reja:
      P'ra o assalto prescreve sem tardana
      De cada Capito qual dever seja,
      A qual compete de ir na frente a gloria,
      A qual mais tarde ha de colher victoria.

      A aquelle, que no nome, qual no peito
      Tem dos fortes a nobre galhardia,
      Entrega o grande Affonso satisfeito.
      Entre as batalhas, a que a frente guia:
      Na mesma linha pe e de igual geito
      A que o pendo de Mem Moniz seguia;
      Bem como a forte gente, cujo ousado
      Valor tem vido a Sousa confiado.

      As reservas intrepidas e ardentes,
      Onde a lucta attrahir maior perigo,
      Viegas com Martim, e outros valentes
      Promptos conduziro sobre o inimigo;
      Porem de Pedro Affonso armipotente
      Brao e conselho o Rei quer ter comsigo;
      Nem desdenha reter junto a seu lado
      O Joven Escudeiro denodado.

            As trompas guerreiras
            O signal entoam,
            Ao combatte voam
            As bravas fileiras.
            Os mouros defendem
            Debalde a campina,
            Debalde pretendem,
            Que os Christos bradando
            Co'a lana arremetem,
            A quanto accommettem
            Rompendo e prostrando.

            Qual da serra alpina
            Partiu destacada
            A rocha gelada,
            Que o valle domina,
            E em foras crestando
            Na queda espantosa
            Co'a massa assombrosa
            Vai tudo rompendo;
            Assim as batalhas
            Aos mouros foravam,
            E em fuga os lanavam
            Ao p das muralhas.

            Na rocha escarpada
            O mouro confia;
            O Christo porfia,
            E a rocha  trepada.
            Embora, galgando
            Por entre os rochedos,
            Inteiros penedos
            Descendem troando:
            As penhas, nas penhas
            Caindo, arrebentam;
            Heroicas faanhas
            Faanhas sustentam;
            Setas sibilantes
            Cruzam por milhares
            Das fundas girantes
            Com os tiros nos ares.

            Em quanto os archeiros
            A morte arremedam,
            Mais brava os lanceiros
            J lucta comeam,
            O escudo, a couraa,
            A malha cerrada,
            De morte esfaimada
            A lana transpassa,
            E aos golpes da espada
            O elmo partido
            No craneo fendido
            Lhe franqueia a entrada.

            A escada tremente
             muralha erguida
            J foi erigida
            Pela ousada gente;
            Do escudo coberto,
            Com o ferro empunhado,
            Mais de um segue ousado
            No r trilho incerto,
            E sobre as ameias
            Mais de um temerario,
            Entrega ao contrario
            O sangue das veias.

            A pugna engrandece,
            Redobra a fereza,
            Do ataque e defeza
            A teima recresce.
            J os muros altos
            Por todos os lados
            Sentem renovados
            Continuos assaltos;
            Hauzeri no emtanto
            Resiste esforado,
            Fero e denodado
            Desconhece o espanto;
            Tal, j quasi exangue,
            Javali ferido
            Com o dente buido
            Derrama inda o sangue,
            E a um tronco acuado,
            O collo cerdoso
            Revolve animoso
            A um, e outro lado.

      N'isto o intrepido Affonso, a si chamando
      As reservas, que cauto tem poupado,
      O decisivo esforo emfim tentando,
      Ao assalto as impelle denodado.
      Mal das gentes desliga o regio mando
      O valor tanto a custo sopeado
      Armas, clamor de guerra, e tubas soam,
      E contra o mouro irrisistiveis voam.

      De todos o primeiro ao morro avana
      O mancebo Ruy leve, e esforado,
      Os penhascos transpe sem mais tardana
      Que a anta o precipicio congelado;
      Fere, derriba, e mata a herdada lana,
      Foge o mauro tropel desordenado,
      Ruy segue qual raio a rta gente
      Pela porta, que aos seus torna patente.

            Por ella ruina e morte
            Penetra, de horror cercada,
            O valor fallece ao forte,
            Com a esp'rana abandonada.
            Cada qual as armas lana,
            Cada qual arrja a espada.
            O vencedor na vingana
            Irritado se enfurece,
            Cva as iras na matana,
            A humanidade estremece,
            Mas a sanha do soldado
            A sua voz desconhece:
            Nada p'ra elle ha sagrado,
            E na crueza incendido
            Se cr pelo ceo armado,
            Sobre o infeliz vencido
            Julgar infidelidade
            Sentir-se compadecido;
            Nem o sexo nem a idade
            Salva do ferro cruento,
            E de horror e crueldade
       o penhasco inteiro um monumento.

      O Sol cobriu de horror a clara fronte,
      Espessas negras nuvens o toldaram;
      As nevoas sobre a borda do horisonte
      Da roixa cr do sangue se pintaram;
      Os crvos carniceiros sobre o monte
      Com o faro da atroz prza esvoaaram,
      E enlutados os ceos, a noute fria
      Mais cedo pareceu pr termo ao dia.

      Farto o soldado emfim de crueldade,
      Extinctos quasi os miseros vencidos,
      Amainou pouco a pouco a tempestade,
      Cessaram os clamores, e os gemidos,
      J o Chefe recobra a authoridade
      Sem fora entre os primeiros alaridos,
      E da victoria no seguro goso
      Abandonam-se as gentes ao repouso.

      Mas Ruy, cujo joven peito encerra
      O preceito da Mi, do Pai legado,
      O descano dos olhos seus desterra,
      Vagando no Castello desolado.
      De quente sangue v fumando a terra,
      O cadaver encontra abandonado
      E o misero, que em mais tyranna sorte
      Sem asar de viver lucta co'a morte.

      No peito o corao em horror tanto
      De Ruy se apertou, a alma sensivel
      Viu, a um tempo com dr, terror e espanto,
      P'ra quanto no  fera a scena horrivel;
      No podendo suster amargo pranto,
      Quasi maldiz victoria to terrivel,
      Fugindo ao quadro atroz por mais no ve-lo
      Se entranha para o centro do Castello.

      Da menagem a torre alli se erguia,
      No mais alto do morro alevantada,
      Torre rectangular que descobria
      Em redor a campina variada,
      L na alta noute, inda hoje triste pia
      Na muralha com o tempo descarnada
      O infausto mocho, e no seu seio escuro
      Se abriga contra a luz morcego impuro.

      De vigia servia o cume erguido,
      Na parte media as armas se guardavam,
      No mais baixo recinto denegrida
      Em priso dura os crimes se expiavam.
      Por caracol estreito, e retorcido
      Os planos entre si communicavam.
      Na masmorra o soldado fatigado
      No tinha a aquelle tempo penetrado.

      Na torre entra Ruy, e parecia
      Fatidico o instincto que o guiava;
       medida que o caracol descia
      Ancioso seu peito se agitava,
      Na escurido completa se immergia,
      Palpando o muro os passos tenteava,
      Quando na marcha subito impedido
      Sente um corpo cahir, e ouve um gemido.

      Estremece o mancebo co'a surpresa;
      Mas prompto do repente recobrado,
      A mo ao corpo estende, e em vez de asp'reza
      Sente o tacto macio e delicado
      De anneladas madeichas na leveza,
      N'um seio feminil brando, agitado;
      Mais no hesita, o corpo em braos toma,
      Fra da torre com o fardo assoma.

      Mas o corpo que leva entre seus braos
      Sem movimento est, e a voz perdida,
      Pendem-lhe os membros com o mover dos passos
      Qual a vide de olmeiro desprendida;
      Se o corao, batendo por espaos,
      No debil ser no revelra a vida,
      O mancebo por certo acreditra
      Que da morte os mysterios profanra.

      Mais o fardo apertava contra o peito,
      Mais do mancebo o peito se agitava.
      Parecendo-lhe sentir passo suspeito
      Que apoz elle nas sombras caminhava,
      A marcha aprssa, e n'um carreiro estreito
      Entra a mata, que a um lado a serra brava
      Selvatica produz, e na espessura
      Mais densa, o fardo pe sobre a verdura.

      Qual pasmo sem igual, quando encarando
      Aquella, que das trevas arrancra,
      Da lua lhe revla um raio brando
      Do peregrino rosto a forma rara;
      Quando, no vulto immovel attentando,
      Descobre do mancebo a vista avra
      As bellezas, que prodiga a natura
      De Fatima juntou na formosura.

      A pallidez da morte realava
      Merencoria a expresso de seu semblante;
      Os apagados olhos lhe cerrava
      A palpebra de cilias abundante;
      Do seio, que opprimido palpitava,
      Parecia que um suspiro a cada instante
      Ia partir, que o moo a vida dra
      Se nos labios gentis o recolhera.

      Extatico de pasmo e de surpreza
      Jaz Ruy com tal vista captivado,
      Sem cogitar de tanta gentileza
      Qual seja o miserando infausto estado.
      Co'a alma em goso estranho absorta e preza
      Ficra o moo alli como encantado,
      Se na Bella afllico mais dura e forte
      No parecesse estender o vo da morte.

      Contrahiram-se as faces melindrosas.
      Os membros delicados se obduraram,
      Os labios virginaes, murchas as rosas,
      Com um moto convulso trepidaram,
      De sur frio as gotas abundosas
      Pallida a frente, e o collo lhe banharam,
      Alevantou-se o seio seu mimoso,
      Tomou-se o respirar mais afanoso.

      O imprudente Ruy sahe do lethargo
      Recobra com o terror o pensamento,
      Do abandono da triste se faz cargo
      Naquelle transe horrivel de tormento;
      Dos olhos lhe rebenta pranto amargo,
      A Bella aperta ao peito to violento
      Como quem quer partir com ella a vida,
      Ou com ella a existencia ver perdida.

      No foi do moo inutil o transporte,
      Que a Bella entre seus braos estreitada;
      Ou fosse por que assim o quiz a sorte,
      Ou milagre de amor: reanimada,
      De subito escapando s mos da morte.
      Move o collo, ergue a frente debruada,
      Cessa a suffocao, livre respira,
      Abre os formosos olhos, e suspira.

      Na mesma situao mais de um instante
      Um e outro ficaram sem fallar-se;
      Elle de puro goso delirante,
      Ella como quem busca recordar-se:
      Mas breve de Ruy vendo o semblante,
      Sentindo entre seus braos estreitar-se,
      D'elles se arranca, e em pranto debulhada,
      Fallando assim, lhe cahe aos ps prostrada.

      Oh tu, quem quer que sejas, se a piedade
      Entrada pode ter dentro em teu peito,
      De uma innocente a misera orfandade,
      Desamparo, e miseria tem respeito!
      Sei que cahi na tua potestade;
      Mas antes de sentir o seu effeito
      Morrerei!...... Disse, e as renascidas rosas
      Pudibunda escondeu nas mos formosas.

      Que do Deus que nos ouve um raio ardente
      Te vingue, e me anniquille neste instante,
      Se um sentimento indigno esta alma sente
      De que haja de crar o teu semblante!
      Perde o terror, oh Virgem, tens presente
      Um amigo, um irmo cuja constante
      Ambio ser s de obedecer-te
      E contra qualquer perigo defender-te!

      Assim fallou Ruy, e alevantando
      A prostrada Fatima, em mil maneiras
      Foi seu terror primeiro dissipando,
      Com gestos, com palavras verdadeiras.
      N'um penedo que cobre o musgo brando
      A Virgem se assentou, co'as lisongeiras
      Expresses de Ruy cobrando alento,
      Sentiu raiar a esperana em seu tormento.


FIM DO SEGUNDO CANTO.




CANTO TERCEIRO.


      Onde est aquella imagem pura, e bella
      Artificio divino entre ns raro?
      Onde aquelle olhar brando, que to caro
      Me foi, e o resplendor de hua e outra estrella?
        Ferreira, Soneto, 15.


                  FATIMA

            Cavalleiro, se  verdade
            O que acabas de dizer,
            Na minha triste orfandade
            S tu me podes valer.
            No buscarei disfarar-te
            Qual  minha condio,
            De tudo vou informar-te,
            Ou sejas sincero, ou no.

            Nas terras da Andaluzia
            Mouro altivo me gerou,
            Cujo nome e valentia
            Longe a fama propagou.
            De seu brao o nobre Ismar
            Conhecendo a fortaleza,
            D'estes muros confiar
            Quiz a guarda e a defeza.
            Do Tjo a margem deixada,
            Onde outra arce regia,
            Mandou-me vir malfadada
            Para a sua companhia.
            Sobre o perigo a que me expunha
            Saudade lhe dra antolhos,
            Que elle em mim seu prazer punha,
            Que eu era a luz dos seus olhos!

            Nascendo perdi a Madre,
            Que em seu seio me formou;
            Mas achei tudo no Padre
            Que amoroso me creou.
            Quer na tregoa socegado,
            Quer na fadiga guerreira,
            Jmais fui d'elle apartada,
            Antes sempre a companheira.
            Quando, ainda tenra infante,
            Nos campos o acompanhava,
            Sobre o cavallo possante
            Um captivo me tomava;
            E quando em foras crescida
            Quiz-me elle mesmo ensinar
            A tomar nas mos a brida,
            Os ginetes a domar.

            Ora correr me fazia,
            Dado ao venatorio trato,
            O gamo, que parecia
            Nadar nas pontas do matto;
            Ora..... Mas ha! que aproveita
            Recordar carinho seu?....
            Minha desgraa  perfeita,
            J no vive o Padre meu!
            No vive; que se vivra
            Por certo que a filha cra
            O seu brao soccorrra,
            E a todo o custo a salvra!

            Hauzeri meu Padre  morto!...
            Cavalleiro, ah por piedade,
            Se desejas dar conforto
             minha dura anciedade,
            Corre ao campo da batalha,
            Ao posto o mais arriscado,
            L na torre, ou na muralha
            Acha-lo-has traspassado.
            Do seu escudo brilhante
            Aro de ouro em torno gira,
            De ouro e purpura o turbante
            Tem por tope uma saphira:
             seu alfange pendente
            De rico talim bordado,
            Obra da filha, e presente
            Destinado a melhor fado!
            Corre, corre, cavalleiro,
            Se tens de mim compaixo,
            Se teu peito  verdadeiro,
            Se te doe minha afflico:
            Busca o cadaver querido,
            Faze-o  filha entregar;
            Que eu possa o sangue espargido
            Com o triste pranto lavar:
            Que eu possa triste e mesquinha
            Dar seu corpo  terra dura,
            E de quanto caro eu tinha
            Expirar na sepultura!

      Assim a Virgem moura se exprimia,
      Mais de um suspiro as vozes lhe cortava,
      E o pranto, que dos olhos lhe corria,
      Da linda face as rosas lhe banhava.
      O mancebo dos labios seus pendia
      Que no ardor de servi-la se abrazava,
      E mal ella acabou, aos ps prostrado,
      D'esta sorte lhe volve transportado:

            Por piedade, anjo de graa,
            Mitiga a acerba afflico
            Que a alma me despedaa,
            Que me parte o corao.
            Salvarei, pois o desejas,
            Esses despojos presados;
            E se ao furor das peleijas,
            Foram seus dias poupados,
            Vers teu pai a teu lado,
            Oh bella, n'um curto instante:
            Feliz de adoar teu fado
            O teu extremoso amante!

      No semblante da Virgem peregrina
      Rubor vivo a taes vozes apparece;
      Qual ao raiar da aurora purpurina
      A viva cr nas nuvens resplandece;
      Em seu peito porem, que a dr domina,
      A surpreza de prompto se esvaece,
      Com gesto firme, e com solemne accento
      Confirma assim do moo o nobre intento.

            Cavalleiro generoso,
            Segue o proposito teu.
            Se o ceo para mim piedoso
            Salvo tem o Padre meu,
            Se ve-lo, abraa-lo ainda
            Eu dever a teu cuidado
            Pela gratido infinda
            Ters meu peito ligado;
            Mas se o Padre, vivo, ou morto,
            Me no fr restituido,
            No busques p'ra mim conforto,
            Meu fado ha de ser cumprido.
            Jmais Fatima opprimida
            Escrava de um vencedor,
            A tal extremo abatida
            Servir sob um senhor;
            Que antes de ver-me aviltada
            Saberei da abjecta sorte,
            Da condio exasperada,
            Achar allivio na morte.

            No por certo, exclama o moo
            Prompto o corpo alevantando,
            Se teu mal prevenir posso,
            Eu vo j ao teu mando.
            Alenta o peito formoso,
            Minra tanta afflico,
            Confia no ceo piedoso,
            Angelica perfeio;
            Que aqui pela chamma ardente,
            Que n'este peito ateaste,
            Juro, que ante o Sol nascente
            Vers esse que choraste.

      Diz, e qual parte a pedra sibilante
      Da volteada funda despedida,
      De Fatima veloz parte o amante,
      Obedecendo  ordem recebida,
      De penhasco em penhasco salta avante,
      Desdenhando escolher senda seguida,
      Chega ao Castello, ao campo de batalha,
      s torres,  mortifera muralha.

      Uma vez, outra vez corre o recinto;
      Mas em vo, com o empenho no atina.
      Cada corpo examina em sangue tinto,
      Busca de balde, e em buscar se obstina;
       mais forte o amor do que o instincto,
      Entre as scenas de horror, entre a ruina
      S Fatima divisa e seu tormento,
      Suffoca amor todo o outro sentimento.

      Desenganado de que em vo procura,
      Volve Ruy ao centro do Castello,
      Com um facho acceso desce  cella escura
      D'onde ha pouco arrancra o fardo bello;
      Interroga os soldados, a armadura
      De Hauzeri lhes descreve; mas de ve-lo
      Nenhum lhe d signaes; exasperado
      Volta outra vez ao campo ensanguentado.

      Na pesquiza injucunda em vo porfia,
      Inutil tedio! infructuosa lida!
      Nem novas nem signaes achar podia,
      Nenhuns ha de Hauzeri morto, ou com vida.
      No emtanto com o raiar de novo dia
      Era a Lua no brilho amortecida,
      E as estrellas mais proximas do oriente
      Se engolfavam na luz do Sol nascente.

      Do mancebo o valor succumbe  ideia
      Da exasp'rao do ser idolatrado;
      Fatima de antemo de afflico cheia
      Contempla em todo o peso de seu fado.
      Por ve-la anhella; mas ve-la receia,
      Receia o seu pesar exasperado,
      Vacilla, treme; mas amor o excita
      E da matta na senda o precipita.

      As muralhas transpe, na brenha escura
      J seus tremulos passos avanavam,
      Receio, impaciencia, horror, ternura
      Em tropel dentro n'alma lhe luctavam;
      Tanto mais progredia na espessura
      Tanto mais seus transportes se exaltavam,
      Os pensamentos se lhe confundiam,
      E convulsos os membros lhe tremiam.

      Fra de si, sem tino, e delirante
      Chega emfim ao logar onde deixra
      O prodigio de amor, cujo semblante
      De todo o ser antigo lhe mudra......
      Mas, oh pungente dr! funesto instante!
       deserto o penedo..... a forma rara
      Se esvaeceu na sua ausencia breve,
      Qual com o romper do dia o sonho leve.

      Ligeira barca, que a favor do vento,
      Em demanda da praia desejada,
      Vai rapida cortando o salso argento,
      Deixando apoz a esteira prolongada,
      Perde o impulso, a fora, o movimento,
      Em banco ignoto subito encalhada:
      Tal fica aniquilado, immovel, quedo
      O surpreso Ruy ante o penedo.

      Mas depois, prolongando um doce engano,
      Luctando ainda contra a desventura,
      Pela Moura clamando, o moo insano
      Discorre aquem e alem pela espessura;
      Porem o infausto, extremo desengano
      No pode recusar, quando a verdura,
      J pelo Sol nascido alumiada,
      Se lhe antolha deserta, abandonada.

            Tudo perdi, desgraado,
            Exclama o moo insensato,
            S n'esta alma o seu retrato
            Dura com fogo gravado!

            Chamma horrivel me devra,
            Fogo intenso, fogo interno!
            Tu foges impia e traidora,
            Deixas em meu peito o inferno!

            Como?... com quem?... para onde!...
            Serpe em meu seio esquecida!
            Que valle, ou que serra esconde,
            Perversa, a tua fugida?.....

            Juro pela f sagrada,
            Que de meus avs herdei,
            Que em tua raa odiada
            Meu tormento vingarei!

            Dos teus no perfido sangue
            Este ferro hei de ensopa-lo,
            De teu pai no corpo exangue
            Hei de a teus olhos crava-lo!

            Salvei-te a vida, e meus dias
            Daria por defender-te,
            Mal teu desejo enuncias,
            Prompto vo a obedecer-te.

            Volvo de amor transportado,
            De puro extremo incendido;
            Sou trahido, abandonado,
            Enganado, escarnecido!......

            Nem se quer um monumento
            Restar de opprobrio tanto;
            Nem tu, oh musgoso assento,
            Nem tu, oh vioso manto.

            Isto diz... Desatinado
            Prostra co'a espada a verdura.
            Fere fogo o ao temp'rado
            Percutindo a pedra dura.

            Qual co, de raiva atacado,
            Distilando a baba impura,
            Tinto em sangue o olho ardente,
            T na pedra imprime o dente;

            Ou qual o touro insofrido,
            A cr jogo abandonado,
            Ardente dardo incendido
            Tendo no corpo cravado,

            Salta, brame, urra, e pungido
            Do fogo sempre ateado,
            Em corcovos accommette,
            E contra a ta arremette:

            Tal o moo furioso
            Musgo, relva, arbustos, flores,
            Prostra, arranca, impetuoso
            Nada poupa em seus furores;
            T que emfim com gesto iroso
            Volve espaldas aos verdores,
            E do sitio triste, e infausto
            Se arranca de fora exhausto.

      Affonso, em tanto, em pompa respeitosa
      Dos ministros de Deus marcha cercado
       capella da Virgem gloriosa,
      Que no forte Castello havia alado.
      Segue-o dos seus a turba numerosa
      Exultando por ver desagravado
      Do insulto agareno o logar santo
      Com o christo sacrificio sacrosanto.

      J tinham descendido a curta escada,
      Que ao pavimento interno conduzia,
      Da porta o cume agudo transpassado
      Onde esculptado o Trino Deus se via;
      Co'a sagrada asperso tinham mundado
      Do sacro pavimento a lagem fria,
      Em canto baixo e triste repetido
      Psalmo do Rei profeta arrependido.

      O merencorio som no templo escuro
      Vagaroso, e solemne resoava,
       piedosa effuso de um zelo puro
      Devota a multido se abandonava;
      Quando Ruy com passo mal seguro
      Do Castello nos muros penetrava
      E levado da lugubre harmonia
      Na Capella entre os mais se confundia.

      Neste mesmo momento o Celebrante
      Ante o altar sagrado reverente
      Se inclinava, e o povo circumstante
      Baixava at  terra humilde a frente.
      A tal vista o mancebo delirante
      Seu barbaro furor desmaiar sente,
      Sente expirar a raiva, e a fereza,
      Trocar-se a ira em luto e em tristeza.

      Os musculos contractos se relaxam,
      A frente, hirta at alli, no peito inclina,
      Sobre os olhos as palpebras se abaixam,
      O fogo abrazador cede e declina.
      No de outra sorte as plantas vigor acham
      Do orvalho na frescura matutina,
      Como adoa ao mancebo o horrendo estado
      A pompa augusta, o cantico sagrado.

      Tal quando arrebatado, e possuido
      De furias infernaes, castigo horrendo,
      O do povo de Deus primeiro ungido,
      Co'espirito das trvas combatendo,
      Fora de si, convulso, enfurecido,
      Se estava entre agonias debatendo,
      Da harpa de David a melodia
      Seu soffrimento acerbo adormecia.

      Findou porem a pompa veneranda,
      Os canticos, e os ritos terminaram;
      E em alas logo de uma e outra banda
      Do vestibulo as gentes se formaram;
      Ao pio vencedor que os rege e manda
      Mil triumfaes applausos elevaram;
      E em marcha triumfal, dos seus seguido,
       Affonso ao Alcacer conduzido.

      Alli chegado, prve na defeza
      Dos muros novamente conquistados,
      Para que nem por fora, nem surpreza
      Possam mais ser dos mouros retomados.
      Confia defender-lhe a fortaleza
      Ao valor de Monteiro, e seus soldados,
      Em vez de Payo, que perdido a havia
      De Theotonio co'a gente a quem regia.

      Mas j n'aquelle tempo o Prior Santo,
      Que tal era o pensar n'aquella idade!
      O baculo depondo, e o sacro manto,
      Alliando a vingana co'a piedade,
      Entre os mouros fizera estrago tanto
      Em despique da perda da Cidade,
      Que em Arronches, por elle aos seus rendida,
      Fra de Affonso a lei reconhecida.

      Ao tempo em que entre os sabios conselheiros
      O Rei a paz e a guerra discutia,
      E ao longo das muralhas os guerreiros
      Folgavam da conquista na alegria;
      Ruy, a joven flr dos escudeiros,
      Monta o cavallo, que da Andaluzia
      Aos corceis os mais bellos fra inveja
      Do manejo na pompa, ou na peleija.

      Mas no sustenta o moo a redea leve
      Co'a costumada e dextra gentileza,
      Que ao soberbo animal motos prescreve
      Que lhe dobram as graas e a belleza,
      Deixa-a pender no collo airoso e breve,
      E submergido em lugubre tristeza,
      Sair faz ao acaso o bruto bello
      Pela primeira porta do Castello.

      O bruto a mo usada no sentindo
      Co'a frente baixa o trilho proseguia,
      Tardo no passo, o collo distendido,
      Partir do damno as magoas parecia;
      Abandonado a si, no conduzido,
      Do Lena para a margem progredia;
      No sitio onde hoje sua perenne fonte
      Transpe o passageiro sobre a ponte.

      O quadrupede docil, como esp'rando
      A lei de seu senhor na fresca borda
      Um momento parou, e o moo olhando
      Com torvos olhos, como quem acorda
      De sonho ingrato, e  raso tomando,
      Mres penas reaes sente, e recorda,
      Distrahido lhe affaga o collo, e clina,
      E para a dextra a leve redea inclina.

      No longe do logar onde se achava
      Graciosa a corrente se torcia,
      Alli viosa a margem se adornava
      Das plantas, que o remanso mais nutria,
      Com graa ao lado opposto se elevava
      Um mamillo gentil, donde surdia
      Um fio de agua clara murmurando
      Qual rla entre a verdura suspirando.

      A curta elevao faz que se aviste
      D'alli do valle ameno a gentileza,
      Ondulado terreno em frente existe
      D'onde o cultura tem banido a asp'reza,
      Alternada co'a vinha alli subsiste
      A pallida oliveira, e a riqueza
      Da loura Ceres; fecha o quadro bello
      Do ceo sobre o azul negro o Castello.

      Aqui pra Ruy e desmontando
      A um ramo o corcel liga, e lentamente
      Vai a placida fonte procurando
      Onde s gemer possa livremente;
      Mas junto um peregrino v, tomando
      A simples refeio, na herva jacente
      Seu pobre alforje est desenvolvido,
      Viatorio bordo jaz estendido.

            A gorra de aba espaosa
            Calva a frente lhe obumbrava,
            A concha da praia ondosa
            O capello lhe adornava;
            De uma correia nodosa,
            Que o pardo saio apertava,
            Pendente a cabaa tinha
            Que a bebida em si continha.

            Escravo por longos annos
            De um mouro, que o captivra,
            Mo gentil da sorte os damnos
            Compassiva lhe adora.
            Quebrou-lhe os ferros tyrannos;
            E liberto lhe inspirra
            Sua devoo singella
            Ir romeiro a Compostella.

            Tal se mostrava o Romeiro,
            Que assim Ruy saudou:
            Deus vos salve, Cavalleiro,
            Vosso humilde servo sou.
            Se do trato meu grosseiro,
            Que aqui consumindo estou,
            Vos pode o uso ser grato,
            Partiremos do meu trato.


                  RUY.

            Graas mil bom peregrino,
            Deus vos d feliz successo
            At o vosso destino
            E bem assim no regresso.
            Ao Apostolo divino
            Bom Romeiro o que vos peo
             que na vossa orao
            Vos alembreis d'este irmo.


                  ROMEIRO.

            Dizei-me, bom Cavalleiro,
            Se com o nosso Rei andais,
            De Pedro Affonso o escudeiro
            Que nome tem, que signaes?
            Dizem-me ser to guerreiro,
            De tal prte, e de obras taes
            Que as gentes na lide espanta
            E fra d'ella as encanta.


                  RUY.

            Esse escudeiro que dizes
            De Ruy o nome tem,
            Dos signaes para que ajuizes
            Elle mesmo a ver-te vem.
            Mais no busques nem pesquizes
            Novas; se as trazes de alguem,
            Falla palavras seguras
            Que eu sou esse que procuras.


                  ROMEIRO.

            A nova de que ora tracto,
            Senhor,  to delicada,
            Que heis perdoar o recato
            Com que ha de ser confiada.
            Dizei-me, onde existe um matto
            Com um penedo musgado,
            Onde na noute apparecem
            Sombras que se desvanecem?


                  RUY.

            Onde existe?...... O atrevimento
            Quem te deu de pergunta-lo
            Venha de sangue sedento
            Em proprio, e armado indaga-lo;
            Que  face do firmamento
            Eu juro que hei de ensina-lo
            A no juntar a ousadia
             mais baixa covardia!


                  ROMEIRO.

            Por Christo! no te enfureas
            Escudeiro generoso,
            P'ra que a verdade conheas
            Traz-me acaso venturoso.
            As apparencias so essas,
            Mas em caso duvidoso
            Quem a apparencias se afferra
            Muitas vezes troca e erra.

            Attenta no que te digo
            Que quem partiu me dictou:
            --Tu me salvaste de um p'rigo
            A que o padre me guiou,
            Fujo-te, o padre  quem sigo,
            Foi elle quem te espiou,
            Quem te seguiu  espessura
            Da noute na sombra escura.

            Mal par'o buscar te apartaste
            O Padre me appareceu,
            Tu enganado ficaste
            S elle o engano teceu;
            Mas se acaso te agastaste
            Com este proceder meu
            Sabe que maior desgraa
            Do que a tua em mim se passa.

            Essa, que p'ra sempre grata
            Te prometteu jurou ser,
            Bem longe de ser ingrata,
            Vai muito alm do dever;
            Amor a consume, e a mata,
            E se t'o ousa dizer
             com a esperana perdida
            De mais t'o dizer na vida.

            Distancia, muralha armada
            E das seitas o rancr
            Com barreira triplicada
            Circumdam a sua dr:
            De saudades definhada
            Triste victima de amor
            Ser de Fatima a sorte
            Suspirar at  morte.--

            Assim carpindo a formosa
            Ouvi, que nunca enganou,
            Essa cuja voz piedosa
            Liberdade me alcanou,
            Ouvi-lhe a queixa afanosa
            Que puro amor lhe arrancou.
      Ah! possa Deus por ti mandar-lhe um dia
      A paz no ceo, na terra a alegria.--

      Em quanto assim fallava o viandante
      O alforge e o bordo alevantava,
      E mal que terminou, no mesmo instante
      Da cristalina fonte se apartava.
      O enternecido, transportado amante
      Debalde uma, e mil cousas perguntava,
      Mais no volveu resposta o peregrino,
      E mudo foi seguindo o seu destino.


FIM DO CANTO TERCEIRO.




CANTO QUARTO.


      Mas quem pde livrar-se por ventura
      Dos laos que amor arma brandamente
      Entre as rosas, e a neve humana pura,
      O ouro, e o alabastro transparente?
        Cames, Lus., C. 3., E. 142.


      Da socegada noite o astro cadente
      P'ra plaga occidental j se inclinava:
      Precursora do Sol resplandecente
      A matutina estrella scintilava.
      Do Tjo sobre a placida corrente
      Nem a mais leve brisa volitava,
      Jazia a folha immovel no arvoredo
      Tudo dormia socegado, e quedo.

      Apenas o silencio prolongado
      L do longinquo charco interrompia
      A grasnadora ra, do ramo alado
      O triste mocho, que agoureiro pia.
      Eis que ao longo do rio socegado
      Um fraco som parece que se ouvia
      Compassado, moroso, e similhante
      Ao surdo murmurar de agua distante.

      Distingue-se melhor, em fora cresce
      Pouco a pouco se vem approximando,
      Com o murmurio das aguas j parece
      Ouvir-se o som do lenho em lenho dando,
      Saltando a limpha a espaos resplandece,
      O cristal se desliza sussurrando.
      Alerta companheiros com presteza
      Os remos esforai, que  certa a preza!

      Assim brada uma voz, e vigorosos
      Montam nove o batel, que a sombra escura
      Dos salgueiros encobre, que viosos
      A orla adornam da corrente pura:
      Oito aos remos se lanam pressurosos,
      Em quanto o Chefe empunha a cana dura,
      Guiando a barca, que qual seta va
      Ao mourisco batel, que tem na pra.

      Nazarenos!... na lingua arabia grita
      A gente do batel sobresaltada.
      Nazarenos bradando, esfora, excita
      O maioral a gente ao remo usada.
      Leva remos p'ra j, raa maldicta,
      Rendei-vos, perros, ou ireis  espada,
      Gritam da barca, que veloz singrando
      Vai o batel dos mouros alcanando.

      Lana o croque, a fateicha, afferra, atraca,
      Que no possa escapar-se a gente infida,
      Brada o Chefe Christo, que prompto ataca
      O batel que desiste da fugida.
      Por defende-lo o mouro a espada sacca,
      Trava-se atroz peleija to renhida
      Nos barcos afferrados, qual na terra
      Soe tenaz mostrar-se a horrivel guerra.

      Do christo bando ao impeto primeiro
      Dos infieis o barco fra entrado,
      No sem que tres christos o derradeiro
      Termo houvessem nas aguas encontrado;
      Mas logo, atraz dos bancos do remeiro,
      Peleija o bando mouro intrincheirado
      Como quem no curando j da vida
      Antes do que captiva a quer perdida.

      Brilha no r vibrando a espada na,
      Penetra pelas armas a estocada,
      Cva no roxo sangue a raiva cra
      Do talhador alfange a cutilada.
      Nenhum pensa em ceder, nenhum reca
      Em quanto a fora em sangue derramada
      Ao brao no fallece, e a mo pendente
      No deixa o ferro matador jacente.

      J dos nove christos que accommetteram
      Tres a morte nas aguas encontraram,
      Cinco do peito aberta a vida deram
      Que  estocada os mouros lhe arrancaram;
      Mas as vidas bem caras lhes venderam
      Que oito tambem dos perros expiraram,
      E dos sete que restam, tres feridos
      Vo a vida exhalando entre gemidos.

      Mas o Chefe Christo s no perigo
      Crescer sente o valor co'horror e estrago,
      Qual raio abrazador sobre o inimigo
      Cahe, bradando em voz alta San-Tiago.
      Morte, espanto, e terror leva comsigo,
      Faz-se o batel de sangue um bruto lago,
      Onde o maioral mouro acaba a vida
      E o Christo Chefe a dextra tem ferida.

      Dos mouros uns ao ferro a vida entregam
      Outros da barca pavidos saltando
      Escapados  morte  margem chegam
      Com o sangue as puras aguas maculando.
      Assim ao s Ruy a barca legam,
      Que era elle o que indomito pugnando
      Tinto no proprio sangue generoso
      De tantos triumfra valoroso.

      Ruy, que junto aos muros de Leiria,
      Principal instrumento da victoria,
      O que perdra em paz, e em alegria
      Co'indomito valor ganhra em gloria,
      Que Affonso prezador da valentia,
      Conservando seus feitos na memoria,
      Quando  mo de Mafalda a mo ligra
      Com pompa augusta Cavalleiro armra,

      E depois, quando o genio seu guerreiro
      A empreza concebeu agigantada
      De surprehender com bando aventureiro,
      Com imprevista, subita escalada,
      O sitio forte, erguido, e sobranceiro,
      Onde a Virgem Irene sepultada
      Do Tjo, que soberbo aos mares vem,
      Por milagrosa campa as aguas tem,

      Para que gente moura, ou rica preza
      Com mais difficuldade lhe escapasse,
      De Ruy commettra a gentileza
      Que nas margens do Tjo se emboscasse,
      E com a usada, indomita braveza
      Qualquer batel no rio lhe tomasse
      P'ra que os de Agar vencidos no sentissem
      N'agua ou terra por onde lhe fugissem.

      Com animo esforado o bravo moo
      Assim cumprido o real mando havia,
      E dos mouros com o barbaro destroo
      Das feridas o sangue confundia.
      Da desigual peleija o alvoroo
      Que de Ruy dobrra a valentia
      Cessado tinha, e o brao seu ferido
      Sente com o corpo j desfallecido,

      A ferida estancar em vo procura
      Co'a mo esquerda o Joven animoso,
      Que a mo, co'a dr pungente mal segura,
      Recusa o ministerio caridoso.
      Do sangue  perda emfim cede a natura,
      Succumbe  dr o moo vigoroso.
      Seu corpo sob as armas desfallece,
      Cahe prostrado na barca que estremece.

      Mas antes que do Tjo na corrente
      Fosse a ordem real executada,
      Pelo ardente valor da christa gente
      Com temerario arrojo era assaltada
      De Santarem a arce, que imprudente,
      E no escarpado accesso confiada,
      De Hauzeri sob o mando, que a regia,
      O poder dos de Christo escarnecia.

      Meias adormecidas, sem cuidado
      As vlas sobre o muro mal vigiam,
      Quando a escada fatal alevantado
      Tem o nobre Moniz, que os mais seguiam.
      Acorda tarde o mouro alvoraado,
      Que os confusos clamores desafiam,
      Que os Christos da muralha j senhores,
      Em breve as portas entram vencedores.

      De Affonso no poder cahiu dest'arte
      Aquella, que no cume se assentava,
      Soberba dominando a toda a parte
      A campina feliz, que o Tjo lava.
      Inutil foi p'ra o mouro circumdar-te
      De fortes torrees, co'a gente brava
      Procurar preservar-te e defender-te,
      Se uma noute bastou para render-te.

      Noute cruel e horrivel, em que o crte
      Da espada anniquillou a audacia tua!
      Em que a tyranna, despiedada morte
      A fome saciou barbara e cra!
      Em que rios de sangue por tal sorte
      O fio fez correr da espada na,
      Que apenas a seus golpes escaparam
      Tres, que o fugido alcaide acompanharam.

            De Sevilha em alta torre
            O Rei mouro est sentado:
            D'alli co'a vista discorre
            Pelo campo dilatado
            Que o Guadalquivir percorre.

            Eis que p'ra banda do rio
            Quatro v vir cavalgando.
            Um dos quaes o senhorio
            Parece que tem do bando,
            Que segue o seu alvedrio.

            Vem todos de p cobertos,
            Os ginetes vem canados,
            Mostras claras, signaes certos
            De marchar afadigados
            Mostram aos olhos expertos.

            Por Deus! o Rei mouro brada--
            Do presago corao
            O agouro no me agrada!
            Trazem nova de afflico
            Esses que vejo na estrada.

            Aquelle que vem na frente
            No cavallo mais formoso,
             Hauzeri certamente,
            Que contra o Christo fogoso
            Accode a pedir-nos gente.

            Pelo Profeta vos digo,
            Que se agua aos brutos no do
            Santarem est em perigo
            De em breve cahir na mo
            Do Christo nosso inimigo;

            Porem se a sde que tem
            Aos corceis deixam matar,
             tomada Santarem,
            E a nova funesta a dar
            Fugitivo Hauzeri vem!--

            Mal do Rei mouro acabavam
            Os discursos agoureiros,
            Que logo ao rio chegavam
            Os canados cavalleiros
            E beber aos brutos davam.

            No tarda que desmontado
            Ante o mouro commovido
            Tivesse Hauzeri narrado
            O desastre acontecido,
            O caso desventurado.

            Como Affonso se partira
            Com sua bellica gente,
            Como a marcha lhe encobrira,
            Sobre a villa confidente
            Como inesperado cahira:

            Como as vlas surprehendidas
            So no muro degoladas,
            As escadas erigidas,
            As muralhas assaltadas,
            E as fortes portas partidas:

            Como a gente, por tal sorte
            De susto e trevas tomada,
            Ou passa do somno  morte,
            Ou corre desacordada
            Encontrar da espada o crte:

            Como emfim, perdida a esperana,
            Da arce os Christos senhores,
            Cevando-se na matana,
            Se esquivra aos vencedores,
            A buscar prompta vingana,

            E das aguas confiando
            A filha, que preservra
            Com tres s, dos de seu mando,
            Pr'a elle Rei caminhra
            Submetter-lhe o caso infando.

            Assim os mouros souberam
            De Irene os muros tomados;
            Grande terror conceberam,
            Ao vr a quanto arrojados
            Os de Christo se atreveram.

      Porem do Tjo  placida corrente;
      As barcas sem governo abandonadas,
      Pouco a pouco do rio brandamente
      Foram s verdes margens encostadas:
      Das aguas no remanso mollemente,
      De verdes espadanas rodeadas,
      Com o descer da mar firmes ficaram
      E no lado bojudo se inclinaram.

       luz volve Ruy, renasce  vida;
      Mas qual surpreza, qual doce portento!
      J no goteja o sangue da ferida,
      J o no punge a dr e sofrimento;
      Ao recobrar a sensao, perdida
      Do sangue no espectaculo cruento.
      Abre os olhos, contempla a formosura
      Que qual sonho perdera na espessura.

      Em vez da scena barbara horrorosa,
      Onde  fora da dr ficou jacente,
      Volve a si, reclinado na viosa
      Relva, que esmalta a borda da corrente.
      Co'escudo, e lana, a espada bellicosa
      Dos ramos de um salgueiro est pendente,
      E a matutina brisa fresca, e pura
      Junta o sussurro ao da agua que murmura.

      Jaz a seu lado o elmo desprendido,
      Do duro peso a frente libertada;
      O peito, antes das armas opprimido.
      Livre a aura respira embalsamada;
      Com tella delicada est cingido
      O brao, que ferira imiga espada,
      E a linda moura, lagrymas chorando,
      Lhe est no seio a frente sustentando.

      Viso!... viso do Ceo, sem pr encanto
      Inefavel prazer, que me aviventas,
      Doce illuso de amor!..... mas esse pranto
      Suspende, ah sim, com elle me atormentas.
      Nesse rosto to bello, puro, e santo,
      Com cujo aspecto a vida me sustentas,
      Deixa vr um sorriso, um gesto amante;
      V-lo sequer n'um derradeiro instante!

      Ah deixa que em meus braos amorosos
      Aperte a imagem que p'ra mim  vida;
      Que unidos n'um s ser, ambos ditosos
      Nossa essencia vejamos confundida!
      Ah Fatima, dos dias meus ditosos
      Delicias e prazer, Virgem querida,
      Ja no ha quem de mim possa apartar-te
      Tu das-me a vida, vivo s p'ra amar-te!

      Disse Ruy: e a Moura, a quem a ardente
      Fora de um terno amor vence e domina,
      Sobre o peito do amante a linda frente,
      Desfeita em meigo pranto, amante inclina.
      Ruy no peito a aperta vehemente,
      Triumfa amor, amor s predomina!.....
      Quando a barca de subito estremece,
      Co'a luz do raio a margem resplandece.

      Retumba do trovo o som tremendo,
      Da distante montanha os echos gemem,
      Do rio a calma subito rompendo
      Na borda antes tranquilla as aguas frmem.
       Virgem delirante o choque horrendo
      A razo restitue; seus membros tremem,
      Arranca-se assustada espavorida
      Dos braos com que o moo a tem cingida.

      Suspende, ah sim suspende,  bem amado,
      De ti me afasta a propria natureza.
      No contemplas o Ceo de horror toldado,
      O rio, o campo envoltos na tristeza.
      Foge Christo, que o meu funesto fado,
      Sem igual nos rigores, na dureza,
      No me fez para ti, nem consentra
      Que amor em doce lao nos unra.

      Foge, oh Christo invicto, e generoso,
      A quem prouvra ao Ceo que ora no visse;
      Mas j que fez teu brao poderoso
      Que em teu poder segunda vez cahisse,
      Que a teus olhos meu peito o desditoso
      Amor sem esperanas descobrisse,
      S te resta fugir sem mais demora
      Quem, por seu mal, e por teu mal, te adora.

      Isto a Moura dizia; mas o amante
      Nem o trovo, nem seu carpir ouvia,
      Transportado de amor, e delirante
      De novo a moa com ardor cingia.
      De virginal rubor tinto o semblante
      Fatima seus transportes combatia;
      Mas a modestia mais lhe agrava a sorte;
      Que o amor de Ruy torna mais forte.

      Combate ainda em pranto suffocada,
      Ora emprega o rigr, ora a ternura,
      Ora Ruy argue com voz irada,
      Ora lhe pinta a extrema desventura,
      Cego o moo prosegue...... quando alada
      De repente ante os dois surge a figura,
      De Ruy  memoria no estranha,
      Do venerando Ermita da montanha.

      O mesmo era, que alli achado havia
      Na piedosa orao todo engolfado,
      A mesma longa barba lhe descia
      Sobre o peito, no vulto magoado
      Outra expresso porm ora se lia,
      E com semblante triste mais que irado,
      Do insano mancebo a mo tomando,
      Lhe diz com tom de voz sereno e brando.

      Tu, filho de Ruy, tu de seus feitos
      Assim procuras igualar a gloria?
      Assim do Pai os ultimos preceitos,
      Filho ingrato, conservas na memoria?
       Mi, que o ser te deu, nutrio aos peitos,
      Foi esta a promettida alta victoria,
      Quando do martyr Pai armas sagradas
      Te entregou de seu sangue inda esmaltadas.

      Julgas-te generoso, porque a vida
      Nos campos das peleijas arriscaste,
      Porque valente e audaz da gente infida
      Na dura guerra o impeto domaste,
      Porque esta moa s, desprotegida
      Nos conquistados muros preservaste;
      Mas, quando, oh moo audaz, assim fizeste,
      De imperio sobre ti que prova dste?....

      Tu, que esquecendo as leis de cavalleiro,
      Quando uma Virgem timida, innocente,
      Acaba de salvar-te o derradeiro
      Sopro da vida, a teu desejo ardente,
      Sem respeitar seu desamparo inteiro,
      Buscas sacrifica-la impaciente,
      Abusar da imprudencia e juventude;
      Que assim curas da honra e da virtude!

      Mas Deus a protegeu, o o ceo piedoso
      Que guardada lhe tem mais nobre sorte
      Soube arranca-la ao moo impetuoso
      Que ella arrancado havia s mos da morte.
      Dma, oh mancebo, o genio teu fogoso,
      Sabe s paixes oppor uma alma forte,
      Que em vo procura a honra e busca a gloria
      Quem aos desejos seus cede a victoria.

      Sabe no tarda a hora que ha marcado
      A eterna, e insondavel Providencia
      P'ra que d'ella, e de ti se cumpra o fado,
      Que no pode prever mortal prudencia,
      Mal de quem, com seu sopro envenenado.
      Pertender profanar essa innocencia!
      Mal de ti, se a cumprir te no ds prssa
      Do ceo a ordem, que por mim se exprssa!

      No distante d'aqui, na opposta margem
      Um barco mouro o Tjo vem subindo,
      Procura Santarem sua viagem,
      Um irmo de Hauzeri vem conduzindo;
      Saia-mos-lhe ao encontro na passagem,
      Da nova aquelles mouros instruindo,
      Volvero, esta Virgem lhes daremos,
      E assim a Lei sagrada cumpriremos.

      Fallando assim, do Ermita venerando
      A voz era solemne, e magestosa,
      Via-se a frente calva circumdando
      Uma arola clara e luminosa;
      Subjugado Ruy cede a seu mando,
      J na agua nada a barca pressurosa,
      J, proximos da opposta ribanceira,
      Sentem remar dos mouros a bateira.

      Porem ao som do remo, que devia
      Para sempre talvez roubar-lhe a amada,
      No corao do moo renascia
      A tempestade apenas abafada;
      Se co'amor o respeito combatia,
      No dura a luta na alma apaixonada,
      Cede o respeito, e o moo exasperado
      Ao velho falla assim com gesto irado.

      Quem, oh velho agoureiro! dependente
      Coustituiu de ti o meu destino?....
      Vate de malles, barbaro inclemente,
      P'ra que simulas leis do ceo benino?.....
      Vai, cessa de ligar teimosamente
      A minha sorte ao fado teu mofino,
      De perseguir meus dias, de insultar-me,
      E co'escuro provir de ameaar-me.

       tua de Hauzeri acaso a filha?....
      Acaso nos combates me ajudaste?....
      Este brao, esta espada que aqui brilha
      Acaso foste tu que os animaste?...
      Esta de amor suave maravilha
      Acaso foste tu quem a salvaste?...
      No. Entrega-la a barbaros imigos
      S sabes querer, e expo-la a novos perigos.

      Ah! se longe de tudo  dr votado,
      Aborreces o mundo, e seus deveres,
      Volve ao ermo dos homens sequestrado,
      Cva na solido teus desprazeres,
      No venhas com teu halito empestado
      Murchar da vida a flr aos outros seres,
      Nem blasfemes o ceo, querendo que eu veja
      Desleixada, a que o ceo quer que eu proteja.

      E pde querer o ceo, que eu a innocencia
      Nas mos dos infieis de novo entregue,
      Que Fatima infeliz da F na ausencia
      O Deus que a protegeu blasfeme e negue?...
      Pde querer, que a abandone sem clemencia
      Ao funesto destino que a persegue?....
      No, no pde tal querer; nem separado
      Soffrerei ser de um bem que o ceo me ha dado.

      Aparta-te de mim tu que o projectas,
      Aparta-te de mim, antes que iroso
      Pelas expresses tuas indiscretas
      Me leve o sangue a extremo perigoso!
      Ao zelo que por mim, por ella affectas
      Prestes pe termo, foge pressuroso,
      Deixa-me, oh velho insano, ao meu destino,
      Poupa-me algum funesto desatino!

      Immovel, qual rochedo, o velho Ermita
      Do mancebo os transportes escuitava,
      A compaixo, que seu penar lhe excita,
      No gesto enternecido se mostrava.
      Pallida, e sem alento a moa afflicta
      Aos ceos os lindos olhos levantava,
      Como quem do poder soberano e forte
      Submissa, e resignada espera a sorte.

      N'isto do batel mouro percutida
       a barca do remo abandonada:
      N'agua mergulha a borda, compellida
      Do veleiro batel pela pancada.
      Aquella v Ruy, que lhe era vida,
      No rio desparecer precipitada,
      Grita, lana-se ao rio a soccorre-la,
      Mergulha em vo, em vo quer recolhe-la.

      Mas o brao do Ermita mysterioso
      Fatima sobre as aguas amparando
      Longe a leva do amante impetuoso,
      Que em vo a est nas aguas procurando,
      Clama ao batel dos mouros pressuroso,
      E a filha de Hauzeri prompto entregando,
      Volve a Ruy, arrastra-o da corrente,
      E desparece  vista em continente.


FIM DO QUARTO CANTO.




CANTO QUINTO.


      Quaes no profundo reino os nus espritos
      Fizeram descanar de eterna pena
      C'uma voz de uma angelica Sirena
        Cames, Lus., C. 10., E. 5.


      Vagaroso vem marchando
      Na vereda um cavalleiro,
      Nobre ginete montando;
      Traz o rosto do guerreiro,
      Que a vizeira alevantada
      Deixa contemplar inteiro,
      Co'a acerba dr concentrada
      Negra sombra de tristeza
      Profundamente gravou.

      Dos olhos seus a viveza
      Apaga a melancholia,
      Da intensa magoa a dureza.
      Tormento de mais de um dia,
      Froixa luz de escaa esperana
      Se l na fisionomia.
      Pena, que a velhice avana,
      Infausta paixo ardente
      Causas so de tal mudana.

      Como o tronco florescente,
      Que ha pouco altivo, e frondoso
      Ornava a selva virente,
      Que o furor do vento iroso
      Rebramando enfurecido
      Desafiava orgulhoso,
      De insecto voraz roido
      Na raiz que o alimenta,
      Murcho abate o cume erguido,
      Alta a copa no sustenta,
      Perde da folha a verdura,
      Que a seiva no alimenta,
      Guarda s do lenho a altura,
      Merencorio documento
      Da perdida formosura;
      Assim, desde o atroz momento
      Que Fatima lhe roubou,
      Com saudade, amor, tormento
      De Ruy o ser mudou.

            No fundo d'alma
            Do triste amante,
            Nem um instante
            Ha tregoa e calma.
            Pena incessante
            Que nada acalma.
      Cada dia com o tempo reforada,
      Lhe consume a existencia desgraada.

            J, qual soa
            Quando ditoso,
            No impellia
            O bellicoso
            Da Andaluzia
            Filho fogoso
      Apoz o corredor que a lebre alcana,
      Ou o gamo leve, que no campo avana.

            L no torneio
            J no brilhava,
            Marcio recreio,
            Que outr'ora ornava
            De audacia cheio,
            Onde arrancava
      Dextro e valente o premio em nobre luta;
      Tanto a amarga tristeza a alma lhe enluta!

            Mesto, isolado,
            Ermos outeiros
            Corre, apartado
            Dos cavalleiros;
            S animado
            Entre os guerreiros
      Se mostra ainda em frente do inimigo,
      Quando a tuba guerreira o chama ao perigo.


      Ignora o infeliz qual seja a sorte
      D'aquella por quem s lhe  cara a vida,
      D'aquella sem a qual da espada ao corte
      A existencia quizera ver perdida.
      Nas aguas a deixra entregue  morte,
      Nas aguas vra a Virgem submergida,
      Longe d'ella com fora irresistivel
      Arrebatado n'esse instante horrivel.

      Do agoureiro Ermita a milagrosa,
      Subita appario, prompta partida,
      A arola da frente luminosa,
      A antiga prophecia d'elle ouvida:
      A lembrana da Mi terna e saudosa,
      Do martyr Pai a ultima ferida,
      Seus preceitos, legados  consorte,
      Sellados pela fria mo da morte.

      As palavras do Ermita, os seus furores
      Contra elle, to prompto castigados;
      Seus primeiros desejos, seus ardores
      Pelo ceo, como acinte, perturbados;
      Os olhos de Fatima encantadores,
      Quaes por ultimo os vira aos ceos alados,
      A angelica expresso do seu semblante,
      Tudo a Ruy se pinta em cada instante.

      O socego na noute em vo procura,
      Foge o somno a seus olhos vigilantes;
      A incerteza, entre as penas a mais dura,
      Se afferra, roaz cancro, a seus instantes;
      Se ao canao a final cede a natura,
      Entre um tropel de sonhos delirantes
      Vagando sem cessar o pensamento,
      Em logar do repouso acha o tormento.

      Tal era o miserando, infausto estado
      De Ruy, que ao acaso caminhava,
      S, distante dos seus, e confiado
      No valor, que a desdita no coarctava;
      No distante do muro alevantado,
      Que a maura gente ainda povoava,
      Na montanha, que surge graciosa,
      Qual no deserto a oazis frondosa.

      Em frente do mancebo se estendia
      Prodiga de bellezas a natura:
      Da primeva, robusta penedia
      A variada, asperrima structura,
      Que em agulhas, em picos se erigia,
      Varios na massa, varios na figura,
      Erectos estes, estes inclinados,
      Selvosos uns, os outros despojados.

      Ruinas da vetusta natureza,
      Monumentos de um mundo transpassado,
      Culminantes elevam na a aspereza
      Os cumes de granito descarnados;
      Em quanto, circumdando a redondeza
      Das fraldas, se divisam cumulados
      Das destruidas rochas os fragmentos
      Attestando o poder dos elementos.

      Alli a aerea marcha pressurosa
      Pra a nevoa do vento saccudida,
      Alli pra a procella magestosa
      Nas enroladas nuvens envolvida,
      A lymfa alimentando, que abundosa
      Dos penhascos nas veias repartida
      Surde em cascatas, em limpidas fontes,
      Em arroios gentis desce dos montes.

      L se veem de granito  massa ingente
      Do cho calcareo as zonas encostadas,
      quem e lem partidas variamente,
      Jazer rotas, confusas, deslocadas;
      Quaes se de interno esforo e de repente
      Nos fundos alicerces abalados
      Como involucro fragil rebentassem,
      E ao novo serro o dia franqueassem.

      Mais abaixo porem ledo se estende
      O selvatico manto de verdura,
      Onde o bafo do estio nunca offende
      A flr mimosa, amante da frescura,
      Onde da hervosa penha se desprende
      Com murmurio suave a fonte pura,
      E a mil viosas plantas succos dando
      Saudosa corre entre ellas serpejando.

      No valle agreste e umbroso o medronheiro
      O rubicundo fructo tem pendente
       sombra do robusto castanheiro,
      Cuja folha intercepta o sol ardente;
      O carvalho frondoso, o alto olmeiro
      Cinge a hera lustrosa estreitamente;
      Do pinheiro co'as copas elevadas
      As massas de verdura so coroadas.

      Na solido do bosque as tenras aves,
      Incolas primitivas da floresta,
      Chamam a vida co'as canes suaves
      Musica natural que amor empresta;
      Respondem-lhe de longe os tons mais graves,
      Merencoria harmonia lenta e mesta
      Das ondas, que escumando entre os penedos
      Batem da roca os asperos rochedos.

      De Alboracim as aguas misturando
      Do salso mar co'as vagas amargosas,
      De um lado corre o Tjo, saudando
      Por derradeiro as praias arenosas;
      Vo-se do outro os olhos alongando
      Pelas tumidas ondas procellosas,
      Que com o tempo sulcaro triumfantes
      Saudando o patrio slo as nos ovantes.

      Ainda ento sobre a penha virente
      Orientaes trophos no consagrra
      De Diu o vencedor, nem o eminente
      Excelso pico a torre rematra;
      Inda a pedra lavrada artistamente
      O Alcacer real no levantra;
      Nem a limfa liberta conhecra
      A marmorea bacia, que a prendra;

      Inda a riqueza ento no erigira
      Do prazer a morada caprixosa,
      Nem o muro importuno prohibira
      O transito na selva magestosa;
      Inda o tronco indignado no sentira
      Do ferro a cortadura injuriosa,
      Nem do cordo tyranno a fantesia
      Immolra a belleza  symetria.

      Tal era o quadro que ante o olho amante
      Do misero Ruy se desdobrava:
      Parou, e parecia que um instante
      A amarga dr no peito se adoava.
      Menos pezado e triste no semblante
      Os olhos pelos cumes alongava;
      Mas foi curta a impresso, curta a surpreza,
      Prompto volveu  habitual tristeza.

      Qual um instante s brilha o luzeiro
      Do claro sol no meio da procella;
      Tal da alegria um raio do guerreiro
      Um momento smente o vulto assella.
      Entranha-se na selva, que primeira
      No seu transito est frondosa, e bella,
      Segue da agua o arroio fugitivo
      Co'a frente baixa, o rosto pensativo.

      Assim caminha, quando o pensamento
      Sente por modo estranho perturbado.
      No, no  illuso, um doce accento
      Sa no bosque, terno, e magoado,
      Em vez do som facticio de instrumento
      Do murmurio do arroio acompanhado,
      Merencoria harmonia, canto lindo
      Qual o da rla seu amor carpindo.

      Oh doce voz! oh canto mavioso!
      Ah! que se ella vivra, assim cantra,
      Assim o nosso amor puro, extremoso,
      Solitaria, e saudosa lamentra!
      Mas, oh noute cruel, fado horroroso!
      Nas aguas para sempre a bella, a cara!...
      Mais no disse, que os olhos se alagaram
      E os soluos as vozes lhe cortaram.


            A VOZ.

      Bosques sombrios, profundos retiros,
      Aguas correntes, aves namoradas
      Inda uma vez escutai os suspiros,
      Da desditosa, entre as mais desgraadas;
      Inda uma vez escutai meu tormento,
      Do meu penar e da minha anciedade
      Origem foi um puro sentimento,
      Morro de amor, expiro de saudade!

       dura morte eu por elle arrancada
      A gratido um dever me inspirou,
      Vi-o, fallou-me, e d'esta alma encantada
      No mesmo instante o dominio usurpou.
      Verde floresta, escuta o meu tormento,
      Aves, ouvi minha triste anciedade,
      Victima sou de um puro sentimento,
      Morro de amor, expiro de saudade.

      Elle partiu namorado da gloria,
      Elle partiu sem curar do meu fado,
      De quem o adra ah talvez a memoria
      No haver nem sequer conservado.
      Por derradeiro escutai meu tormento,
      Por derradeiro ouvi minha anciedade;
      Se elle trahiu to puro sentimento
      Mate-me amor, morra eu de saudade.

      Mas se fiel, se constante e amoroso
      Quaes os inspira elle sente os amores,
      Aves, cantai, e tu, bosque vioso,
      D novo brilho a teus gentis verdores;
      Mais que a alegria  feliz meu tormento,
      Mais que o prazer feliz minha anciedade,
      Que  dom do ceo por um tal sentimento
      Morrer de amor, expirar de saudade.

      Assim cantava a voz melodiosa
      O canto com suspiros alternando,
      A saudosa cano, queixa amorosa
      Iam da selva os echos imitando.
      A dr pungente, a angustia que affanosa
      Iam do moo a vida definhando
      Mais rapido dissipa o doce accento,
      Do que a nevoa ligeira aparta o vento.

      N'um instante da moura aos ps se lana
      Ruy, subido ao auge da ventura:
      Vida da minha vida, amor, e esperana
      Dos dias meus, modello da ternura!
      Que alma ingrata poder ter mudana
      Sendo de ti amada, oh Virgem pura?....
      No, mil mortes soffrra o teu amante
      Primeiro que esquecer-te um s instante.

      Dize-lo; as mos da Virgem commovida
      Apertar contra os labios abrazados
      O mesmo  p'ra Ruy, que a queixa ouvida
      Completa os seus desejos extremados.
      Certo do teu amor, Virgem querida,
      Quem de Ruy pde igualar os fados?...
      Todo o cruel tormento que hei soffrido
      Um s accento teu fez esquecido!....

      Sorte propicia, acaso venturoso,
      Que o ser me restitue para a ventura,
      Que prodigio feliz do ceo piedoso,
      Que fora superior  da natura,
      O pde produzir?... Desde o horroroso
      Momento em que surgiu por desventura
      Esse fantasma horrivel, despiedado
      Contra mim acintoso, e conjurado:

      Ds que, do odio seu fructo execrando,
      Te vi ante meus olhos submergida,
      Em vo nas fundas aguas procurando,
      Louco de magoa e dr, salvar-te a vida,
      Que o barbaro fantasma, oh crime infando!
      Com mais que humana fora e desmedida
      De ti me arrebatou; que Anjo divino
      Protegeu, doce amada, o teu destino?...

      Indelevel lembrana! Instante horrivel
      Em que, de quanto amava separado
      Pelo monstro a meus rogos insensivel,
      Na solitaria margem fui deixado!
      Por toda a parte em meu furor terrivel
      Em vo o procurei desesperado,
      Riu-se o fado de mim, e at est'hora
      Roubou-o  minha sanha vingadora.

      Mas se elle existe acaso entre os viventes,
      Se um fantasma no , parto do averno,
      Que a perseguir meus passos innocentes
      A ira suscitou do negro inferno;
      Por essas magoas juro to pungentes
      Que hei soffrido, por meu amor eterno,
      Que saciando n'elle a minha furia,
      Heide lavar a tua, e minha injuria.


                  FATIMA.

            Ah suspende! mais no digas!
            Sim suspende, oh bem amado,
            Illudido, alucinado,
            Taes blasfemias no prosigas!

            Esse, que acusas de morte
            S nas aguas me salvou,
            S elle me confortou
            Na tyranna, adversa sorte.

            Se ainda conservo a vida,
            Se inda me ests contemplando,
            Ao Ancio venerando
            Minha existencia  devida.


                  RUY.

            Como?... Aquelle que arrancar-te
            Ousou a meu peito amante,
            Que em magoa e dr incessante
            Me fez continuo chorar-te,

            Da tua lei o inimigo,
            Da tua raa execrado,
            Pde aliviar teu fado,
            Protector para comtigo!....


                  FATIMA.

            Prodigios o ceo clemente,
            Que meus olhos desvendou,
            Por esse mesmo operou,
            Que blasfemas imprudente!

            Desde o momento horroroso,
            Em que de ti separada,
            De quanto amava affastada
            Fui no caso lastimoso.

            A taa da desventura
            Misera esgotar devia,
            Trazendo-me cada dia
            Nova dr, nova amargura.

            Mal de Cintra o alto muro
            Me recebeu malfadada,
            Foi minha alma transpassada
            Dos golpes pelo mais duro.

            Soube que o Padre querido
            To digno do meu amor,
            Ao despeito,  magoa,  dr
            Tinha infeliz succumbido.

            Inda bem me no feria
            Este golpe acerbo, amaro,
            Que do meu unico amparo
            Se apagra a luz do dia;

            De Hauzeri o irmo restante
            Que affavel me agazalhra,
            Que por filha me adoptra
            Viu chegado o ultimo instante.

            Solitaria, abandonada,
            Sem amigos, sem parentes,
            De amor nas chammas ardentes
            Por mr tormento abrazada,

            Ignorando se vivia
            O s ser que ainda amava,
            Se o jurado amor guardava,
            Se em outras chammas ardia,

            Succumbi, em vo luctando
            Contra tanta desventura,
            E aos golpes da sorte dura
            Senti a fora expirando:

      Nem j o pranto, allivio aos desgraados,
      Os olhos meus vertiam,
      Nem j ais, nem suspiros, que exhalados
      As penas alliviam,
      Soltar podia. Opressos, suffocados
      Minha alma consumiam
      Em silencio os tormentos, morta a esperana
      De poder minha sorte ter mudana.

      Uma noute em que s de horror cercada
      Ao pezo de meus males succumbia
      De pura luz me vejo rodeada
      Igual  que no ceo precede o dia.
      De espanto e de terror sobresaltada,
      Quando convulso o corpo meu tremia,
      No centro do claro o proprio vejo
      Que s aguas me arrancra l no Tjo.

      Era o mesmo; porm mais magestoso
      Ora de mim se vinha aproximando;
      Qual um astro celeste e radioso
      Brilhava o seu semblante venerando,
      Um aroma suave e precioso
      Estavam suas vestes exhalando,
      Na mo tinha uma Cruz resplandecente
      Co'a imagem do seu Deus n'ella pendente.

      Co'a voz a um tempo grave, meiga, e branda,
      Com aspecto sereno, e enternecido,
      Disse: Victima triste e miseranda
      At agora de um fado endurecido,
      Um Deus Clemente, oh filha, a ti me manda;
      Um Deus, a quem um ai, um s gemido
      De verdadeira dr, de penitencia
      Move com os peccadores  clemencia.

      Surge da magoa horrivel que te oprime,
      Cobra fora, renasa o teu alento,
      Pela esperana do dom alto e sublime
      Com que o ceo quer sarar teu soffrimento.
      Fructo innocente de expiado crime
      Sers da pena qual da culpa isento,
      Em ti meu sangue no ser contado
      Entre aquelle, que o ceo tem rejeitado!

      Uma filha, ai de mim! eu tive outr'ora,
      Como tu a formra a natureza;
      Tinha ella ento, como tu tens agora,
      Esse dote funesto da belleza.
      Uma chamma tyranna, abrazadora
      Illudiu da sua alma a singelleza,
      Ligou-a o n de amor, e da desgraa
      Ao inimigo audaz da propria raa.

      Aos braos de Hauzeri, de amor levada,
      Funesto effeito das paixes ardentes,
      Cuidando ser feliz, foi desgraada
      Victima das angustias mais pungentes.
      O Deus, o Pai, a Patria abandonada
       misera continuo so presentes,
      O roedor remorso, a magoa dura
      Lhe foram escavando a sepultura.

      Chegado da infeliz o ultimo instante,
      Odios, malquerenas, queixas expiraram,
      Paterno pranto, com o do esposa amante
      Da morte o leito unidos lhe regaram.
      Resignados os olhos seus brilhantes
      Pela ultima vez aos ceos se alaram,
      Um suspiro exhalou, cuja piedade
      As iras aplacou da Divindade.

      Fructo infeliz de amor, e de fraqueza
      Junto  Mi expirante tu jazias,
      Por ti fallava ainda a natureza,
      Tu s na terra a alma lhe prendias.
      Tomou-te entre seus braos com viveza,
      Tu que a trama cortras de seus dias,
      E com a voz, cortada j da morte,
      Assim fallou ao Padre e ao Consorte.

      Padre, se ingrata filha, angustia e dores,
      Por premio a teu amor s sube dar-te
      Neste fructo infeliz de meus ardores
      Possas ter quem se empenhe em consolar-te,
      E tu, por quem soffri tormento e dores
      Sem uma hora se quer cessar de amar-te,
      Consente que ella entregue ao pai que imploro
      Possa rogar por mim ao Deus que adoro.

      Assim fallou a triste, e resignada
      O golpe recebeu da dura morte,
      Partiu do erro a alma j purgada
      A repartir nos ecos do justo a sorte.
      Mas de Hauzeri em vo a prenda amada
      Reclamei, em memoria da Consorte;
      Arrancar-lha no pude, e separado
      Fui desde ento p'ra sempre do teu fado.

      Supplicas, pranto, rogos, ameaas
      Para salvar-te estereis empregando,
      Fui no ermo chorar minhas desgraas
      Aos ceos dos ceos a causa confiando,
      Continuo sobre ti de Deus as graas
      Com penitentes lagrymas chamando.
      At que a Deus tocou minha agonia,
      Deus que benigno a salvao te envia.

            Em quanto fallava
            A cruz me estendia;
            E a dr que a pungia
            Na alma abrandava;
            Do Deos que invocava
            Tocar-me sentia,
            J menos soffria
            J mais me animava,
            E quando acordava
            E a mim me volvia
            Achava-me o dia
            Outra do que estava,
      Livre da interna lucta, e na bonana
      Comeando a antever a luz da esperana.

      A celeste vizo reproduzida
      Cada noute a minha alma soccorria,
      Cada noute na f santa instruida,
      O santo Av mais firme me fazia.
      A antiga exasperao, o tedio a vida
      Em merencoria dr se convertia,
      Dissera-me feliz, se a um sentimento
      Conseguisse esquivar meu pensamento.

      Assim Fatima ao transportado amante
      O terno corao patenteava;
      Ruy de puro goso delirante
      No gesto a paixo viva retratava;
      Vivo rubor da Virgem no semblante
      Da alma os sentimentos debuchava;
      A selva, as aves, o arroio, as flres
      Formando um templo digno a taes amores.


FIM DO QUINTO CANTO.




CANTO SEXTO.


      Tal est morta e pallida Donzella,
      Seccas do rosto as rosas, e perdida
      A branca e viva cr co'a doce vida.
        Cames, Lus., C. 3., E. 134.


      Soberbo ondeia a crina fluctuante
      De Ruy o ginete bellicoso,
      Atravez da floresta segue ovante
      No accelerado trote pressuroso.
      Excita o nobre bruto o ledo amante,
      Vivo obedece o animal fogoso
       redea, ha tanto tempo abandonada,
      Que outra vez com vigor sente empunhada.

      Seguindo vai o nobre aventureiro
      Transportado de goso e de alegria
      A direco do campo, que o guerreiro
      Povo de Christo alevantado havia.
      Doce aspecto, risonho e lisongeiro,
      Em vez da dr, lhe exalta a fantezia,
      Todo quanto carpira, quanto amra
      A fortuna propicia lhe entregra.

      Do ginete nas ancas assentada
      Levar se deixa de Hauzeri a filha,
      Entregue a amor, e por amor guiada,
      Suave esperana nos seus olhos brilha.
      O rosto lindo, a frma delicada
      Da natura primor, e maravilha,
      A pr do Cavalleiro armado e forte,
      Realisam Cyprina com Mavorte.

      Sob o brao da Bella, que o estreita,
      O corao do moo arde e palpita,
      Elle o sente, ella o palpa, e satisfeita
      Partilha o goso, que innocente excita.
      Se ella suspira, elle o suspiro aceita,
      Se olha-la intenta, ella o olhar lhe evita,
      Pejando-se que la o terno amante
      Nimia expresso de amor em seu semblante.

            Assim o bosque frondoso
            Vo prestes atravessando,
            Um silencio deleitoso
            Bella, e amante guardando.

            Silencio, que amor prefere
             mais ardente expresso,
            Que no fundo da alma fere,
            Que transpassa o corao;

            Que identifica, que enlaa
            Os que a mesma ida prende,
            Que a compaixo, que a desgraa,
            Que amor, que a ternura entende.

            Silencio no avalia
            Alma mesquinha, apoucada,
            Que sempre placida e fria
            Do sacro fogo  privada.

            Em silencio a natureza
            V rolar no immenso espao
            Dos orbes a redondeza
            Que impelliu do Eterno o brao,

            Em silencio a vaga ondosa
            Rola no lago profundo,
            Sria a noute magestosa
            Envolve em silencio o mundo.

            Em silencio o vate absorto
            Antes de pulsar a lira
            Recebe o influxo e conforto
            Do talento que o inspira.

            Em silencio meditando
            Alcana o sabio a verdade,
            Vai-se um silencio mirrando
            O filho da adversidade.

            Silencio da alma nascido,
            Caracter do sentimento,
            Tu es o grau mais subido
            Ou do goso, ou do tormento.

      Atraz deixam o bosque, e as claras fontes.
      Que atravez a verdura vem manando,
      Co'a varia crista dos erguidos montes,
      Que se est sobre as nuvens desenhando,
      Tingem-se de cr varia os horisontes
      Co'extremo sol nas aguas mergulhando,
      Os monotonos cumes apparecem
      Que com o calmoso estio se encalvecem.

      Ficava-lhes da parte, donde o dia
      Mais refulgente vibra os esplendores,
      A Arrabida, entre as nevoas, que tingia
      O sol cadente de purpureas cres,
      Com o ramo descendente, que estendia
      Pelos equoreos campos bolidores,
      Do Tjo e Sado as fozes separando
      Com o Cabo do Espichel que vai formando.

      No longe, e como filho da montanha,
      Ficava de Palmella o cume erguido,
      Ao longe dominando na campanha,
      Ao perto sobre o valle, enriquecido
      Pela filha gentil de terra estranha,
      Que ora alli sobre o ramo seu florido
      Ostenta a um tempo a flr, e os pomos de ouro,
      De perfume e frescura almo thesouro.

      Jazem-lhe  dextra as aridas campinas
      Onde com o vento a loura messe ondeia,
      Calcareas e basalticas collinas
      Onde a arvore a vista no recreia,
      Mais longe as em que a limfa cristalina
      Hoje em priso marmorea se encadeia,
      Roubada aos campos,  verdura, s flores,
      P'ra alegrar de Lisboa os moradores.

      Em frente se lhe antolha o pico altivo
      Co'as naturaes collumnas enfeixadas,
      Columnas que formra o fogo activo
      Nas epochas remotas e apartadas,
      Em que inda o touro, o cervo fugitivo
      No pasciam nos campos co'as manadas;
      Mas s nadantes monstros habitavam
      Mares, que at aos serros se elevavam.

      Logo as nuvens rompia mais distante
      De Monte-junto a molle alevantada,
      Monte-junto, que a lomba culminante
      Une a Minde ao nordeste prolongada;
      As aguas dividindo, que ao levante
      Vem buscar a planicie, que regada
       pelo Tjo, das que ao mar salgado
      Directas vo correr no opposto lado.

      Do sol quasi submerso os derradeiros
      Raios as eminencias s douravam,
      Das fontes e dos valles os ligeiros
      Vapores os contornos desenhavam;
      Sobre as nevoas os cumes dos outeiros
      Quaes ilhas sobre o mar se alevantavam,
      E as aves com a ultima harmonia
      Davam o extremo adeos ao claro dia.

      Na belleza da scena que os rodeia
      Fatima nem Ruy no attentavam,
      Amor as faculdades lhe encadeia,
      Ao delirio de amor se abandonavam.
      Qual forte olmeiro a branda vide enleia,
      Tal a bella e mancebo se estreitavam;
       elle o seu apoio, o seu sustento,
       ella de Ruy s pensamento.

      Contina o silencio dos amantes
      Nos vivos sentimentos engolfados,
      Nada sa nos valles circumstantes
      Mais que do bruto os passos compassados;
      S l dos valles nos cazaes distantes
      Ladrar se ouvem os ces, sar dos gados
      Monotonos chocalhos tangedores,
      Com o debil som das gaitas dos pastores.

            De um fraco ribeiro,
            Que a calma escaceia,
            Que na fralda ondeia
            Do arido outeiro,
            Cortava o carreiro
            O leito escabroso:
            O solo ondoloso
            Alli se abatia,
            E a senda descia
            Ao vo pedragoso.

            Ao p da torrente,
            Gosando a frescura,
            De um chpo a verdura
            Ornava a corrente;
            Da lua nascente
            A luz estorvando,
            A sombra alongando
            Na estreita passagem,
            Co'a verde folhagem
            A senda toldando.

            O corcel, que excita
            O bellico amante,
            Na marcha prestante
            Um momento hesita;
            Logo a orelha fita
            E o trote accelera,
            Ruy, que o modra,
            O fogo percebe
            Que o bruto concebe
            Na batalha fra.

            Com o brao valente
            A lana enderea,
            Preme o bruto, e  prssa
            Transpe a corrente.
            Cinge estreitamente,
            Bella, o teu consorte,
            Que seu brao forte,
            Por ti animado,
            Do mais esforado
            Desafia o crte.

            Fatima obedece,
            Seu seio palpita....
            N'isto uma voz grita
            A Bella estremece;
            No grito conhece
            A aravia expresso,
            Que no corao
            O sangue lhe esfria.
            Fugir quereria;
            Mas tenta-lo  vo.

      Quem vem l?... Com voz alta e sonorosa
      Na arabia lingua um mouro perguntava,
      Brandindo a ferrea lana temerosa
      O corcel co'as espras despertava;
      Com haste igual de sangue sequiosa
      Outro mouro apoz elle se mostrava:
      Ruy, que os v, e em seu valor confia;
      Christo e ElRei Affonso: respondia.

            Diz. O ginete arremea,
            Salta o bruto ardente e forte,
            Co'a lanada va a morte
            Do mouro a cotta atravessa.
            Espadana o sangue infido,
            De um s golpe a alma va,
            Cahe o mouro, e com o ruido
            Das armas o valle atra.

            Torce a redea o Cavalleiro
            Contra o segundo inimigo;
            Mas menos forte o guerreiro
            Encarar no ousa o perigo:

            Do ginete  ligeireza
            Da vida confia o preo,
            Parte, va, e com destreza
            Vibra a lana de arremeo.

            Parte a hastea sibilando,
            O fado dirige o tiro,
            Cahe Fatima, e ao golpe infando
            Responde um longo suspiro.

            Ella cahe, ella suspira,
            No seu seio palpitante
            Um covarde ferro aspira
            O sangue da doce amante.

            Ruy no peito a sustenta
            Mudo, louco, exasperado,
            Nelle o olhar Fatima attenta
            Quasi da morte apagado.

            Fitta nelle os olhos lindos
            Onde amor lucta co'a morte:
            Os meus dias esto findos,
            Adeus suave consorte!

            Amei-te mais do que a vida
            Desde esse primeiro instante
            Em que a ti fui submettida
            Por teu brao triunfante;

            Nem a crena, que ento tinha,
            Nem a ausencia, nem meu fado,
            D'esse amor, essencia minha,
            Haveriam triumfado.

            Nenhum poder sobre a terra
            De Ruy me apartaria,
            Na ausencia, na paz, na guerra
            Fatima tua seria!.....

            Mas Deus no quiz que embebido
            Em doce paixo terrena,
            O premio de um escolhido
            Fosse cora to pequena:

            No quiz esse Deus clemente
            Que a dita nos deslumbrasse,
            Que o nosso amor innocente
            Sobre a terra se gozasse.

            Nasci de um crime, e no crime
            Involuntario educada,
            Esse Deus, sua Lei sublime,
            Foi por mim aos ps calcada:

            Tarde conheci seu nome,
            E quando a Elle voltei
            Um peito, que amor consome,
            Imperfeito lhe votei.

            Do sangue meu a abundancia
            Possa expiar, oh Senhor,
            Os erros da minha infancia,
            O excesso do meu amor!

            Eu vejo a mi, que me estende
            Desde o ceo amantes braos,
            Ella a alma me desprende
            Dos terrenos embaraos.

            Eu vo, oh esposo, eu vo
            Ao seio da Divindade
            J seu hymno eterno ento
            Nos umbraes da Eternidade.

            S d'alli, oh doce amante,
            P'ra sempre a dr se desterra;
            L te aguardo, que um instante
            Vive o homem sobre a terra!

            Mas ah, se a vida me dste
            Quando  morte me arrancaste,
            Deva-te a vida celeste
            Aquella que tanto amaste.

            Derrama,  pressa, derrama
            Nesta fronte a agua da vida
            Que a seu seio Deus me chama,
            Em breve por ti seguida.

            Disse. Uma fora invencivel
            Deus infunde ao moo ardente.
            Desce, e no elmo terrivel
            Toma a agua da corrente.

            Chega. Derrama-a na frente
            Da Virgem agonisante.
            Ella a sente, e ternamente
            Une ao peito a mo do amante.

            Apertou-a contra o seio,
            A elle os olhos voltou,
            Um suspiro aos labios veio
            Exhalou-o, e expirou.

            Dizem que junto ao ribeiro
            Doces cantos se escutaram,
            Que na noute almo luzeiro
            Os pastores contemplaram.

            Na seguinte madrugada.
            Vindo ao sitio os guardadores,
            Viram a terra escavada
            Coberta de frescas flres.

            Sobre ellas um vulto annoso
            Candidas roupas trajando,
            N'um vo ao ceo pressuroso
            Alva pomba contemplando.

            Dizem mais: que os que souberam
            O caso digno de chro,
            quella torrente deram
            O nome de Rio Mouro.

            Que Ruy na sepultura
            Longo tempo suspirra,
            Deposta a nobre armadura,
            Que do martyr Pai herdra;

            Que alfim do pranto exhauridos
            Os olhos seus se seccaram,
            E seus ais, e seus gemidos
            Para o Senhor se voltaram.

            Que do ceo a queixa ouvida,
            Com balsamo de alta espr'ana
            Lhe sarou Deos a ferida,
            Lhe mandou da alma a bonana.

            De Cintra no ermo escabroso
            No serro o mais retirado,
            Alm do monte vioso
            Monserrate ora chamado,

            Dois penhascos se elevavam
            Que immensa louza cobria,
            E uma caverna formavam
            Que ao ponente a porta abria;

            Alli, dos homens remoto,
            Dos seus proprios ignorado,
            Ruy sob um nome ignoto
            Terminou mistico fado.

            Alli do nascer da aurora
            T ao ultimo fulgor
            Entoava em voz sonora
            Os hymnos ao Creador.

            Das plantas da penedia,
            Dos fructos do agreste monte,
            Sua comida fazia,
            Bebida lhe dava a fonte.

            Assim consumiu seus annos
             solido consagrados,
            T que, cumpridos seus fados,
            Poz Deus um termo a seus damnos.
            Partiu-se de entre os humanos
            Sua alma candida e pura,
            Os anjos a sepultura
            Entre as penhas esconderam,
            E as memorias se perderam
            Da sua triste aventura.

            Longo tempo abandonada
            Jazeu a selvagem gruta,
            Do lobo, e raposa astuta
            Foi longo tempo habitada.
            T que a prole sublimada
            Do ultimo lume do Oriente
            Um asylo penitente
            No serro agreste erigiu,
            E de novo alli se ouviu
            O louvor do Omnipotente.


                  Os annos correram,
                  Que tudo mudando
                  Volvem derribando
                  O mesmo que ergueram;

                  Da suave amante
                  Perdeu-se a memoria,
                  Esqueceu-se a gloria
                  Do Joven brilhante.

                  No castello antigo
                  Bero a seus amores
                  Mchos piadores
                  S tem seu abrigo;

                  Selvagem verdura
                  C'o a hera lustrosa
                  Da muralha annosa
                  Cobrem a structura:

                  De um lado inda a selva
                  Se mostra virente,
                  Matiza inda a relva
                  Do Lena a corrente,

                  Inda o musgo brando.
                  Vestindo os penedos,
                  S'ta nos arvoredos
                  Amor convidando;

                  Mas j no lastima
                  O echo das fragoas
                  Da triste Fatima
                  As pena, e as magoas.

                  Do Tjo na borda
                  Ind'hoje aos salgueiros
                  O batel co'a corda
                  Prendem os remeiros,

                  A humida esteira
                  Tranquillos sulcando,
                  Vem inda remando
                  De noute as bateiras,

                  Mas da Moura linda,
                  Do Guerreiro amante,
                  No bronco habitante
                  A memoria  finda.

                  De Cintra a viosa
                  As frescas torrentes
                  Vem inda fluentes
                   selva frondosa,

                  Das aves ainda
                  Na matta sombria
                  A doce harmonia
                  Com o dia no finda,

                  Sua doce frescura,
                  Suas limpidas fontes,
                  Seus farpados montes
                  De altiva structura,
                  Sua luz clara e pura,
                  Seu ceo azulado,
                  Seu mar empolado,
                  Que o tempo venceram,
                  Memoria perderam
                  Do Pr desgraado.

      Tu s, tu, fantesia inseparavel
      Das margens do meu Tjo, e seus verdores,
      Tu, ceo da patria, ceo incomparavel,
      Que n'alma, qual no campo, espalhas flres:
      S tu resuscitaste o lamentavel
      Destino de to firmes amadores;
      S tu, do tempo alevantando o manto,
      Sobre as campas de amor chamaste o pranto.


FIM DO CANTO SEXTO E ULTIMO.





End of the Project Gutenberg EBook of Ruy o escudeiro: Conto, by 
Lus da Silva Mousinho de Albuquerque

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provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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