The Project Gutenberg eBook of Da terra  lua, by Jules Verne, Translated
by Henrique de Macedo


This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org





Title: Da terra  lua
       viagem directa em 97 horas e 20 minutos


Author: Jules Verne



Release Date: March 16, 2009  [eBook #28341]
Most recently updated: June 23, 2011

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1


***START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK DA TERRA  LUA***


E-text prepared by Alberto Manuel Brando Simes, Rita Farinha, and the
Project Gutenberg Online Distributed Proofreading Team
(http://www.pgdp.net)



Note: Project Gutenberg also has an HTML version of this
      file which includes the original illustrations.
      See 28341-h.htm or 28341-h.zip:
      (http://www.gutenberg.net/dirs/2/8/3/4/28341/28341-h/28341-h.htm)
      or
      (http://www.gutenberg.net/dirs/2/8/3/4/28341/28341-h.zip)


Nota do traductor:

      Devido  existncia de erros tipogrficos neste texto, foram
      tomadas vrias decises quanto  verso final. Em caso de
      dvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No
      final deste livro encontrar a lista de erros corrigidos.

                                   Rita Farinha (Mar. 2009)





OBRA PREMIADA
PELA
ACADEMIA DAS SCIENCIAS DE FRANA

DA TERRA  LUA

VIAGEM DIRECTA EM 97 HORAS E 20 MINUTOS







Lisboa--Imprensa Nacional--1874




VIAGENS MARAVILHOSAS

JULIO VERNE

DA TERRA  LUA

VIAGEM DIRECTA

EM 97 HORAS E 20 MINUTOS

TRADUCO

DE

HENRIQUE DE MACEDO

Lente de mathematica na escola polytechnica e astronomo no observatorio
de marinha

BIBLIOTHECA ILLUSTRADA DE INSTRUCO E RECREIO

EMPREZA HORAS ROMANTICAS

Rua dos Calafates, 102, 1.^o andar

LISBOA

Traduco auctorisada e reservada




--JULIO VERNE--

[Figura]

DA TERRA  LUA




CAPITULO I

O GUN-CLUB


Durante a guerra federal dos Estados Unidos fundou-se, na cidade de
Baltimore, mesmo no centro do Maryland, um novo club de grande
influencia.

 notoria a energia com que se desenvolveram os instinctos militares por
entre aquella populao de armadores, de negociantes e de machinistas.
Insignificantes mercadores saltaram por cima do balco e acharam-se de
improviso transformados em capites, em coroneis e at em generaes, sem
terem passado pelas escolas de applicao de West-Point[1]; em curto
espao foram na _arte da guerra_ dignos rivaes dos collegas do velho
continente, e,  imitao d'estes, alcanaram,  fora de prodigalisar
balas, milhes e homens, brilhantes victorias.

Mas em que os americanos excederam singularmente os europeus foi na
sciencia da balistica; e no porque as armas americanas attingissem mais
elevado grau de perfeio, seno porque apresentaram dimenses
desusadas, e tiveram por consequencia alcances correspondentes e at
ento desconhecidos.

Pelo que diz respeito a tiros rasantes, immergentes ou em cheio, a fogos
de escarpa de enfiada ou de revez, j no tem, inglezes, francezes nem
prussianos cousa alguma que aprender; mas os canhes, obuzes e morteiros
europeus so apenas pistolas de algibeira, comparados com os formidaveis
machinismos bellicos da artilheria americana.

No deve causar espanto o que deixmos dito. Os yankees, que so os
primeiros mechanicos do mundo, nascem engenheiros como qualquer italiano
nasce musico, ou qualquer allemo, philosopho transcendental; portanto
nada mais natural do que ve-los demonstrar na applicao  sciencia da
balistica o audacioso engenho de que so dotados.

Assim se explicam esses gigantescos canhes, que, muito menos uteis que
as machinas de coser, so pelo menos to admiraveis e de certo ainda
mais admirados. Os maravilhosos inventos, n'este genero, de Parrott, de
Dahlgreen e de Rodman so bem conhecidos; os Armstrong, os Palliser, os
Treuille de Beaulieu no tiveram mais remedio do que curvar-se vencidos
perante os seus rivaes de alem mar.

Tudo isto deu causa a que, durante a terrivel lucta entre os partidarios
do norte e os do sul, occupassem os artilheiros em toda a parte o
primeiro logar; celebravam-lhes os jornaes da Unio os inventos com
enthusiasmo, e sem exceptuar o mais insignificante dos logistas ou o
mais ingenuo dos booby[2], todos quebravam a cabea dia e noite a
calcular trajectorias impossiveis.

Ora quando a uma cabea de americano acode uma ida, busca logo o seu
possuidor segundo americano que a acceite: chegam a tres, elegem logo
presidente e dois secretarios; quatro, nomeiam archivista e funcciona a
_mesa_; cinco, convocam-se em assembla geral, e est constituido um
club. Assim succedeu em Baltimore.

O primeiro que inventou um novo canho associou-se com o primeiro que o
fundiu e com o primeiro que o perfurou. Tal foi o primitivo nucleo do
Gun-Club[3], que um mez depois da sua inaugurao contava mil oitocentos
e trinta e tres socios effectivos, e trinta mil quinhentos e setenta e
cinco socios correspondentes.

A todos que queriam fazer parte da associao era imposta uma condio
_sine qua non_, a de ter inventado, ou pelo menos aperfeioado, um
canho; na falta de canho uma arma de fogo qualquer. Mas, para dizer a
verdade inteira, bem pouca considerao gosavam os inventores de
revolvers de quinze tiros, de carabinas girantes ou de sabres-pistolas.
Em tudo lhe levavam os artilheiros primazia.

A estima de que  credor qualquer socio, disse um dia um dos mais
entendidos oradores do Gun-Club,  proporcional s massas do canho
que inventou, e est na raso directa do quadrado das distancias a que
alcanam os respectivos projectis!

[Figura: Os artilheiros de Gun-Club (pag. 12).]

Com pequena differena, era a lei de Newton cerca da gravitao
universal transportada s cousas do mundo moral.

Fundado o Gun-Club, facil  imaginar o que produziria n'este genero o
engenho inventivo dos americanos. Os machinismos de guerra assumiram
propores colossaes, e os projectis foram alem dos limites permittidos
partir em dois bocados inoffensivos transeuntes. Todos estes inventos
deixaram a perder de vista os timidos instrumentos da artilheria
europea. Forme-se juizo pelos seguintes algarismos.

Outr'ora bom tempo era esse uma bala de trinta e seis,  distancia de
trezentos ps, varava trinta e seis cavallos apanhados de flanco ou
sessenta e oito homens. Era a infancia da arte. Desde essa epocha
progrediram muito os projectis. O canho Rodman, que, com uma bala de
meia tonelada[4] alcanava a sete milhas[5], facilmente poria fra de
combate cento e cincoenta cavallos e trezentos homens. Chegou-se at a
discutir no Gun-Club a conveniencia e possibilidade de submetter a uma
experiencia solemne as qualidades d'este canho monstruoso. Porm se os
cavallos consentiram em tentar a experiencia, infelizmente a respeito de
homens nem um s se offereceu.

Em todo o caso, o que  fra de duvida  que o effeito d'estas armas era
extremamente mortifero e que por cada tiro caam os combatentes como
espigas sob a foice do ceifador. Que valiam, comparados com taes
projectis, aquella famosa bala que, em Contras, em 1785, poz fra de
combate vinte e cinco homens, ou aquella outra que, em Zorndoff em 1758,
matou quarenta infantes, e o canho austriaco de Kesselsdorf, em 1742,
que por cada tiro derrubava setenta inimigos?

Que importancia tinham esses surprehendentes fogos de Iena ou de
Austerlitz, que decidiram da sorte de uma batalha? Durante a guerra
federal na America viram-se cousas muito mais de pasmar! No combate de
Gettysburg, um projectil conico lanado por um canho raiado feriu cento
e setenta e tres confederados, e, na passagem do Potomac, uma bala
Rodman mandou para um mundo evidentemente melhor duzentos e quinze
partidarios do Sul. No  menos digno de meno um formidavel morteiro
inventado por J.-T. Maston, socio distincto e secretario perpetuo do
Gun-Club, cujos effeitos foram sem comparao mais mortiferos, visto
como, do primeiro tiro de experiencia, matou trezentas e trinta e sete
pessoas; verdade  que o morteiro rebentou!

Que havemos de accrescentar a estes numeros j de per si to eloquentes?
Nada. Assim, por certo, ser admittido sem contradico o seguinte
calculo apresentado pelo _estatistico_ Pitcairn, que dividindo o numero
das victimas de tiro de bala pelo dos socios do Gun-Club, demonstrou que
cada um d'estes tinha morto em media, dois mil trezentos e setenta e
cinco homens e uma fraco.

Para quem reflectir em tal algarismo, fica evidente que a unica
preoccupao d'aquella sociedade scientifica era a destruio da
humanidade, com um fim philanthropico, o aperfeioamento das armas de
guerra, consideradas como instrumentos de civilisao. Era uma reunio
de anjos exterminadores, e a fra isto, as melhores pessoas do mundo.

Cumpre-nos accrescentar que estes yankees corajosos a toda a prova, no
se ficavam em formulas e experimentavam com o proprio corpo. Havia no
Club officiaes de todas as graduaes, de tenente a general, militares
de todas as idades, dos que debutavam na carreira das armas, como dos
que iam j encanecendo sobre os reparos. Muitos tinham ficado nos campos
de batalha, cujos nomes estavam inscriptos no livro de honra do
Gun-Club, e dos que tinham voltado a maior parte trazia no proprio corpo
signaes indiscutiveis de intrepidez. Moletas, pernas de pau, braos
articulados, mos de gancho, maxilas de caoutchouc, craneos de prata,
narizes de platina... a colleco era completa. O supradito Pitcairn
calculou tambem que no Gun-Club havia um pouco menos de um brao por
quatro pessoas e smente duas pernas por cada seis socios.

Mas os valentes artilheiros pouca importancia ligavam a similhantes
ninharias, e com legitimo fundamento se ufanavam, quando o boletim da
batalha contava o numero das victimas pelo decuplo dos tiros disparados.

Porm um dia, triste e lamentavel dia, foi assignada a paz pelos
sobrevivos da guerra; cessaram pouco a pouco as detonaes, calaram-se
os morteiros, os obuzes para largo tempo aaimados e os canhes de
cabea pendida, recolheram aos arsenaes; as balas empilharam-se nos
parques, foram-se apagando as recordaes sanguinolentas, brotaram com
magnificencia os algodoeiros dos campos pinguemente adubados, foram-se
fazendo velhos a par das dores e das saudades os fatos de luto, e o
Gun-Club ficou immerso na mais profunda inaco.

Um ou outro trabalhador afferrado e incansavel se entregava ainda a
calculos balisticos e fazia seu pensamento dilecto de bombas gigantescas
e obuzes incomparaveis.

Mas sem pratica de que serviam theorias vs?

Por isso as salas do Club viam-se desertas, dormiam os creados nas
antecamaras, os jornaes creavam bafio por cima das mesas, ouviam-se
tristes roncos, que partiam dos cantos escuros das salas, e os membros
do Gun-Club, outr'ora to ruidosos, agora reduzidos ao silencio por uma
paz desastrosa, adormeciam engolfados em meditaes de artilheria
platonica.

Que desconsolao, dizia uma noite o valente Tom Hunter, e no
entretanto ia-lhe o lume do fogo carbonisando as pernas de pau: Nada
que fazer! nem uma esperana! Que fastidiosa existencia! Onde vae o
tempo em que as alegres detonaes do canho nos despertavam todas as
manhs?

Esse tempo j l vae, retorquiu o inquieto Bilsby, esperguiando-se com
os braos que j no tinha. Era um feliz tempo esse. Inventava qualquer
o seu obuz, e apenas fundido, corria a experimenta-lo no inimigo; quando
regressava, ao acampamento sempre tinha ouvido alguma palavra animadora
a Sherman ou recebido um aperto de mo de Mac-Clellan! Mas hoje, os
generaes voltaram aos seus balces, e em vez de projectis, expedem
inoffensivos fardos de algodo! Ai! por santa Barbara! Est perdido o
futuro da artilheria na America!

-- verdade, Bilsby, exclamou o coronel Blomsberry, so bem crueis estes
desenganos! Deixa a gente um dia os seus habitos socegados, exercita-se
no manejo das armas, troca Baltimore pelos campos de batalha, porta-se
como um heroe, e dois ou tres annos depois, ha de perder o fructo de
tantas fadigas, adormecer em deploravel ociosidade, e encaixar as mos
nas algibeiras.

Bem podia fallar o valente coronel, havia de ver-se em graves
difficuldades, se quizesse dar tal prova de inactividade, e no eram as
algibeiras que lhe faltavam.

E nem uma s guerra em perspectiva! disse ento o famoso J.-T. Maston,
coando com o gancho de ferro o craneo de guttapercha. No ha uma nuvem
no horisonte, e tanto que fazer na sciencia da artilheria! Eu que lhes
estou fallando, terminei esta manh a _pure_, com plano, perfil e
elevao de um morteiro que havia de fazer mudar as leis da guerra!

--Sim? replicou Tom Hunter, recordando-se involuntariamente da ultima
experiencia do honrado J.-T. Maston.

-- verdade, respondeu este. Mas para que ho de servir tantos estudos
levados a cabo, tantas difficuldades vencidas? No ser tudo isto
trabalho absolutamente inutil? Parece que os povos do novo mundo se
conluiaram para viver em paz, e at o nosso bellicoso _Tribune_[6]
chegou a prognosticar imminentes catastrophes exclusivamente causadas
pelo escandaloso crescer das populaes.

--Comtudo, Maston, retorquiu o coronel Blomsberry, na Europa ainda
continua a guerra para sustentar o principio das nacionalidades!

--E ento?

--Ento! Talvez se podesse tentar por l alguma cousa, e se acceitassem
os nossos servios...

--Pensaes seriamente no que dizeis? exclamou Bilsby. Fazer balistica em
proveito de estrangeiros!

--Sempre era melhor do que no fazer nada, retorquiu o coronel.

--De certo, sempre era um pouco melhor, disse J.-T. Maston, mas nem vale
a pena pensar em similhante expediente.

--E porque? perguntou o coronel.

--Porque no velho mundo tem l umas idas cerca de accesso e promoo,
que estariam em opposio com todos os nossos habitos americanos.
Imagina aquella gente que se no pde ser general em chefe sem ter
servido como alferes, o que vale o mesmo que suppor que ninguem pde
fazer uma boa pontaria, sem ter tambem sido o fundidor do canho! Ora
isto  nada mais nem menos do que...

--Absurdo! concluiu Tom Hunter, lascando com o bowie-knife[7] os
braos da poltrona, e pois que assim , no temos mais remedio do que ir
plantar tabaco ou distillar azeite de baleia!

--Como assim, prorompeu em altos gritos J.-T. Maston; pois no havemos
de empregar estes ultimos annos da nossa existencia no aperfeioamento
das armas de fogo! No ha de offerecer-se nova occasio de ensaiar o
alcance dos nossos projectis! Nunca mais ha de illuminar-se a atmosphera
com o relampago dos nossos canhes! Nem uma s difficuldade
internacional ha de surgir que nos permitta declarar guerra a alguma das
potencias transatlanticas! No ha de haver algum francez que metta a
pique um dos nossos _steamers_, ou algum inglez que enforque, em
menoscabo do direito das gentes, ao menos tres ou quatro conterraneos
nossos!

--No, Maston, respondeu o coronel Blomsberry, no  para ns tanta
ventura. No! nem um d'esses casos succeder, e que succedesse, nem ao
menos haviamos de aproveita-lo! Vae-se de dia para dia a
susceptibilidade americana. Vamos-nos effeminando.

-- verdade que nos humilhmos! replicou Bilsby.

--E que nos humilham! accrescentou Tom Hunter.

--Tudo quanto dizeis  mais que certo, replicou J.-T. Maston, ainda com
maior vehemencia. Pairam na atmosphera mil motivos de guerra e no
combatemos! Economisam-se braos e pernas, e em proveito de quem? de
gente que no sabe o que lhes ha de dar que fazer! No busquemos mais
longe motivos de guerra; pois no  verdade que a America do Norte
pertenceu outr'ora aos inglezes?

--Certamente, respondeu Tom Hunter, espertando furioso o lume com a
ponta da moleta.

--Pois bem! continuou J.-T. Maston, porque  que a Inglaterra no ha de,
por seu turno, pertencer aos americanos?

--Nada mais era do que justia, retorquiu o coronel Blomsberry.

--Pois vo l propor a ida ao presidente dos Estados Unidos e vero
como so recebidos!

--Havia de receber-nos mal, murmurou Bilsby, por entre quatro dentes que
lhe tinham escapado das batalhas.

--Por minha f, exclamou J.-T. Maston, nas proximas eleies escusa de
contar com o meu voto!

--Nem com os nossos, accrescentaram de commum accordo os bellicosos
invalidos.

--No entretanto, continuou J.-T. Maston, em concluso, se me no
fornecerem occasio para ensaiar o meu novo morteiro n'um campo de
batalha, dou a minha demisso de socio do Gun-Club, e corro a
enterrar-me nos desertos do Arkansas!

--Iremos todos comvosco, responderam os interlocutores do ousado J.-T.
Maston.

Estavam as cousas n'estas alturas, exaltavam-se os espiritos cada vez
mais, e o club estava ameaado de proxima dissoluo, quando um
acontecimento inesperado veiu impedir a realisao de to lastimosa
catastrophe.

Logo no dia seguinte quelle em que se realisou a conversao que
relatmos, cada um dos membros do club recebia uma circular concebida
nos seguintes termos:

Baltimore, 3 de outubro.--O presidente do Gun-Club tem a honra de
prevenir os seus collegas, que na sesso de 5 do corrente lhes far uma
communicao, que muito ha de interessa-los. Em consequencia lhes pede
que, pondo de parte qualquer outro negocio, concorram  sesso para que
so convidados pela presente.

De todos mui cordialmente.--_Impey Barbicane_. P. G. C.




CAPITULO II

COMMUNICAO DO PRESIDENTE BARBICANE


No dia 5 de outubro, s oito horas da noite, havia aperto e multido
compacta nas salas do Gun-Club (Union-square, 21). Todos os membros
d'aquelle club, que residiam em Baltimore, tinham acudido ao convite do
presidente. Os socios correspondentes apeavam-se aos centos dos comboios
expressos, nas ruas da cidade, e grande como era a hall (salo) das
sesses, ainda assim aquella multido immensa de sbios no pde caber
l; assim a multido refluia para todas as salas proximas e ainda para
os corredores, e at ao meio dos pateos exteriores, onde se encontrava
com o simples popular que fazia aperto s portas; cada um procurava
alcanar melhor logar; todos avidos de conhecer a importante
communicao do presidente Barbicane, apertavam-se, empurravam-se,
esmagavam-se com aquella liberdade de aco que  peculiar das massas
educadas e creadas nas idas do _self-government_[8].

N'aquella noite o forasteiro que o acaso tivesse levado a Baltimore, nem
a peso de oiro teria conseguido penetrar no salo grande. Fra este
exclusivamente reservado para os socios residentes ou correspondentes;
ninguem mais l podia ser admittido, e at os notaveis da cidade e os
magistrados do conselho dos _selectmen_[9] tinham tido que misturar-se
com a turba dos seus administrados para apanharem de relance alguma
novidade l de dentro.

Apesar d'isto a immensa hall apresentava um espectaculo
verdadeiramente digno de excitar a curiosidade, e o vasto aposento
estava maravilhosamente apropriado ao seu destino. Sustentavam-lhe os
finos lavores da abobada, verdadeira renda esculpida a saca-bocados no
ferro fundido, elevadas columnas compostas de canhes sobrepostos e
apoiados em enormes morteiros. Nas paredes agrupavam-se enlaadas em
pittorescos flores panoplias de bacamartes, de arcabuzes, de carabinas
de toda a especie, de armas de fogo antigas e modernas. Rebentava a
chamma viva do gaz de um milheiro de revolvers agrupados em frma de
lustres, completando aquella esplendida illuminao girandolas de
pistolas, e candelabros feitos de espingardas enfeixadas. Modelos de
canhes, amostras de bronze, alvos crivados de buracos, placas quebradas
pelo choque das balas do Gun-Club, colleces completas de calcadouros e
lanadas, rosarios de bombas, collares de projectis, grinaldas de obuzes,
n'uma palavra todas as ferramentas do artilheiro se encontravam ali em
to surprehendente e admiravel disposio, que levava a crer que o seu
verdadeiro fim era mais ornamental do que mortifero.

Contemplava-se no logar de honra resguardado por uma esplendida
_vitrine_ um pedao de culatra, quebrado e torcido pela fora da
polvora. Era uma preciosa reliquia do morteiro de J.-T. Maston.

No fundo da sala, sobre uma espaosa esplanada sentava-se o presidente
ladeado por quatro secretarios. A cadeira presidencial levantada sobre
um reparo esculpido, apparentava no conjuncto das robustas frmas a
figura de um morteiro de trinta e duas pollegadas, em pontaria por um
angulo de noventa graus e suspensa em munhes, por frma tal que o
presidente podia dar-lhe, como a qualquer _rocking-chair_[10], um
balano muito agradavel nas occasies de grande calor. Sobre a mesa,
grande placa de ferro laminado, aguentada por seis coronadas, estava um
tinteiro de gosto delicado: era feito de um biscainho deliciosamente
cinzelado. Ao lado estava uma campainha de detonao, que na occasio
propria soava como um revolver. E nas occasies de discusso vehemente
mal bastava esta campainha de novo genero para superar as vozes
d'aquella legio de artilheiros enthusiasmados.

Em frente da mesa presidencial estavam dispostos em zig-zags, como as
circumvallaes de uma trincheira, formando uma serie de basties e de
cortinas, os bancos onde tomavam assento os socios do Gun-Club; e
n'aquella noite podia afoitamente dizer-se que estava bastante gente
nas muralhas. O presidente era por demais conhecido, para que alguem
acreditasse que havia de incommodar os collegas sem motivo de maior
gravidade.

Impey Barbicane era homem de quarenta annos, impassivel, frio, austero,
de espirito eminentemente serio e concentrado, de temperamento a toda a
prova e de caracter inabalavel; pouco cavalheiresco, e todavia
aventuroso, cingia-se s idas praticas, ainda quando empenhado nos mais
temerarios emprehendimentos; era o homem por excellencia da Nova
Inglaterra, o colonisador dos estados do norte, o descendente d'aquelles
Cabeas Redondas, que to funestos foram para os Stuarts, o inimigo
implacavel dos _gentlemen_ dos estados do sul, legitimos representantes
dos antigos Cavalleiros da me patria. N'uma palavra, um yankee de antes
quebrar que torcer.

Barbicane fizera grande fortuna no commercio das madeiras; nomeado
durante a guerra director de artilheria, mostrou-se fertil em invenes,
e cheio de audacia em todas as suas idas contribuiu poderosamente para
os progressos d'aquella arma, communicando s indagaes experimentaes
incomparavel actividade.

Era homem de corporatura media, e que tinha, rara excepo no Gun-Club,
todos os membros intactos. Parecia que as feies accentuadas lhe tinham
sido talhadas a esquadro e tira-linhas, e se  verdade que, para
adivinhar os instinctos de alguem, devemos olha-lo de perfil, Barbicane,
examinado assim, apresentava os mais seguros indicios de energia, de
audacia e de presena de espirito.

N'aquelle instante, estava immovel na cadeira presidencial, mudo,
absorto, com o olhar vago e profundo, com o rosto semi-occulto pelo
chapu de frma alta, cylindro de seda preta que parece seguro a tarraxa
no craneo de qualquer americano.

[Figura: A sesso do Gun-Club (pag. 22).]

Conversavam em torno d'elle e em voz alta os collegas, sem conseguirem
distrahi-lo; abalanavam-se ao campo das supposies, olhavam o
presidente, buscando em vo deduzir o X da sua imperturbavel
physionomia.

[Figura: O passeio  luz dos archotes (pag. 28).]

Quando deram oito horas no relogio fulminante do salo, Barbicane
levantou-se de subito, como que impellido por uma mola; calou-se tudo, e
o orador, em tom um pouco emphatico, usou da palavra nos seguintes
termos:

Estimaveis consocios, de ha muito que a paz infecunda veiu immergir os
socios do Gun-Club em lastimosa inactividade. Depois de um periodo de
alguns annos, to cheio de incidentes, fomos forados a abandonar os
nossos trabalhos e a fazer alto de subito na senda do progresso. No me
arreceio de proclama-lo em voz bem alta, uma guerra qualquer que de novo
nos pozesse as armas nas mos, seria bem recebida...

--Apoiado,  guerra! exclamou o impetuoso J.-T. Maston.

--Ouam! ouam! disseram de todos os lados.

--Porm a guerra, proseguiu Barbicane, a guerra  impossivel nas
circumstancias actuaes, e por maiores que sejam as esperanas do meu
honrado interruptor, penso que muitos annos ho de correr antes que os
canhes americanos troem de novo no campo de batalha.  portanto
necessario que a isso nos resignemos e que busquemos n'outra ordem de
idas alimento para a actividade que nos devora!

A assembla percebeu que o presidente chegava ao ponto delicado;
redobrou a atteno.

Ha mezes, valentes collegas, continuou Barbicane, que perguntei eu a
mim proprio se, sem sair da nossa especialidade, poderiamos emprehender
alguma d'essas grandes experiencias dignas do seculo XIX, e se nos
permittiriam os progressos da balistica sair bem do nosso empenho.

Em consequencia, inquiri, trabalhei, calculei, e dos meus estudos
resultou a convico de que havemos de sar-nos bem de um
emprehendimento, que pareceria impraticavel em qualquer outro paiz. 
este projecto, por longo tempo elaborado, que vae ser assumpto da minha
communicao:  digno de vs, digno do passado do Gun-Club, e no pde
deixar de fazer estrondo no mundo!

--Bastante estrondo? perguntou um artilheiro enthusiasta.

--Muito estrondo, no verdadeiro sentido da palavra, respondeu Barbicane.

--No interrompam! disseram muitas vozes.

--Peo-lhes, pois, caros collegas, accrescentou o presidente, que me
dem completa atteno.

Um fremito percorreu a assembla inteira. Barbicane, depois de, com
gesto rapido, ter carregado o chapu na cabea, proseguiu no seu
discurso com voz placida:

No ha um s de vs, estimaveis collegas, que no tenha visto a Lua, ou
que, pelo menos, no ouvisse fallar n'ella. E no vos admireis de que
venha aqui fallar-vos do astro das noites. Talvez esteja para ns
reservado sermos os Colombos d'esse mundo ignoto. Seja eu comprehendido,
auxiliado com todo o poder de que os meus socios dispem, e
conduzi-los-hei  conquista d'esse novo mundo, cujo nome ha de vir
juntar-se aos dos trinta e seis estados que compem este grande paiz da
Unio!

--Hurrah pela Lua! gritou, como um s homem, o Gun-Club inteiro.

--Muito se tem estudado cerca da Lua, continuou Barbicane, a massa, a
densidade, o peso, o volume, a constituio, os movimentos, a distancia
emfim d'este astro, e o papel que elle desempenha no mundo solar esto
perfeitamente determinados: ha mappas selenographicos[11] cuja perfeio
 igual seno superior  dos mappas terrestres: pela photographia
tem-se obtido do nosso satellite provas de belleza imcomparavel.
Resumindo, sabemos cerca da Lua tudo quanto as mathematicas, a
astronomia, a geologia e a optica poderam ensinar-nos; mas at hoje
ainda se no estabeleceu meio algum directo de communicao com esse
astro.

A ultima phrase do orador excitou tal interesse e surpreza na assembla,
que chegou a produzir violenta agitao.

--Permittam-me, continuou este, que lhes traga  lembrana em poucas
palavras, como foi que alguns homens exaltados, tendo embarcado em
espirito para viagens imaginarias, pretenderam ter penetrado os segredos
do nosso satellite. No seculo XVII, um tal David Fabricius, gabou-se de
ter visto com os seus proprios olhos alguns habitantes da Lua. Em 1649,
um francez, Joo Baudoin, publicou um livro intitulado a _Viagem feita
ao mundo Lunar por Domingos Gonzalez, aventureiro hespanhol_. Na mesma
epocha, deu  luz da publicidade Cyrano de Bergerac, aquella celebre
expedio, que tanto renome teve em Frana. Algum tempo depois, outro
francez (porque estes senhores entretem-se muito com a Lua) chamado
Fontenelle escreveu a _Pluralidade dos mundos_, que foi, no seu tempo
uma obra prima; verdade  que a sciencia em seu caminhar constante at
as obras primas esmaga. Em 1835 um opusculo traduzido do jornal _New
York American_ contava que sir John Herschell, enviado ao Cabo da Boa
Esperana para ali fazer observaes astronomicas, tinha conseguido, por
meio de um telescopio aperfeioado por illuminao interior, trazer a
Lua a uma distancia apparente de oitenta jardas[12]. Por esta frma
observra distinctamente na Lua cavernas, nas quaes viviam hippopotamos,
verdejantes montanhas franjadas de renda de oiro, carneirinhos com armas
de marfim, brancos cabritos montezes e at habitantes com azas
membranosas como os morcegos. Este folheto, obra de um americano chamado
Loche[13], teve grande voga. Mas pouco depois conheceu-se que no era
seno uma mystificao scientifica, e os francezes foram as primeiras a
rir-se d'elle.

--Rir de um americano! exclamou J.-T. Maston; mas isso  um _casus
belli_!...

--Socegue o meu digno amigo, que antes de se rirem tinham sido os
francezes perfeitamente embaidos pelo nosso compatriota. Para terminar
esta breve resenha historica, accrescentarei que um tal Hans Pfaal de
Rotterdam, elevando-se n'um balo cheio de um gaz tirado do azote e
trinta e sete vezes mais leve que o hydrogeneo, chegou  Lua, depois de
dezenove dias de viagem, e tambem que esta viagem no passou, como as
anteriores, de uma tentativa da imaginao; era porm obra de um
escriptor popular na America, engenho singular e contemplativo.  como
se pronuncira o nome de Pe.

--Hurrah por Edgard Pe! exclamou a assembla electrisada pelas palavras
do presidente.

--Conclui o que tinha a dizer-vos, proseguiu Barbicane, no que diz
respeito a tentativas que considerarei puramente litterarias e
absolutamente insufficientes para estabelecer serias relaes com o
astro das noites. Devo todavia accrescentar, que alguns espiritos
praticos tentaram j pr-se em seria communicao com elle. Foi assim
que ha alguns annos um geometra allemo propoz que se mandasse aos
aridos steppes da Siberia uma commisso de homens de sciencia, para que
n'aquellas vastas planicies fizessem desenhar por meio de reflectores
luminosos, immensas figuras geometricas, entre outras a do quadrado da
hypothenusa, vulgarmente chamada pelos francezes le Pont aux nes.

Todo o ser intelligente, dizia este geometra, deve comprehender qual o
destino scientifico de taes figuras; portanto os selenitas[14], se  que
existem, ho de responder por meio de figuras similhantes, e uma vez
estabelecida a communicao, facil ser inventar um alphabeto, que d
meio de conversar com os habitantes da Lua.

Assim fallava o geometra allemo; mas tal alphabeto nunca teve execuo,
e at hoje nenhuma ligao directa existiu entre a Terra e o seu
satellite. Estava reservado para o engenho pratico dos americanos o
porem-se em relao com o mundo sideral. E o meio de consegui-lo 
simples, facil, certo, infallivel, e vae ser o assumpto da minha
proposta.

Estas palavras tiveram por ecco uma immensa algazarra, uma tempestade de
exclamaes e de applausos. No havia um s dos assistentes que no se
tivesse deixado dominar, arrastar e enthusiasmar pelas palavras do
orador.

Ouam! ouam! silencio! era o que se ouvia de todos os lados.

Logoque socegou a agitao, Barbicane continuou em voz mais grave o seu
interrompido discurso:

Sabeis todos, disse, que progressos se tem feito em balistica de alguns
annos a esta parte, e a que ponto de perfeio teriam chegado as armas
de fogo se a guerra tivesse continuado. Tambem no ignoraes que pde
affirmar-se, em geral, que a fora de resistencia do canho e a potencia
expansiva da polvora no tem limitao. Pois bem! Partindo d'este
principio, perguntei a mim proprio, se usando de um instrumento
adequado, collocado em condies determinadas de resistencia, seria
possivel enviar uma bala at a Lua!

Ao ouvir a assembla estas palavras, exhalou-se a um tempo, de mil
peitos arquejantes, uma exclamao de profundo pasmo; houve depois uma
pausa silenciosa, similhante  profunda calmaria que precede as
tempestades.

E effectivamente ribombou o trovo, mas um trovo de applausos, de
gritos, de clamores, que fez tremer a sala das sesses. O presidente
queria fallar, e no podia, s passados dez minutos conseguiu fazer-se
ouvir.

Deixem-me concluir, disse elle friamente. Estudei a questo sob todos
os seus aspectos, ataquei resolutamente o problema, e dos meus calculos
indiscutiveis resulta, que um projectil animado de uma velocidade
inicial de doze mil jardas[15] por segundo, e dirigido para a Lua, ha de
necessariamente l chegar. Tenho pois a honra, estimaveis collegas, de
propor-vos que tentemos esta pequena experiencia!




CAPITULO III

EFFEITO DA COMMUNICAO BARBICANE


 impossivel descrever o effeito produzido pelas ultimas palavras do
honrado presidente. Que gritos! que vociferaes! que successo de
grunhidos, de hurrahs, de hip! hip! hip! de todos aquellas onomatopeas
que superabundam na linguagem dos americanos. Era uma desordem, uma
algazarra indescriptivel! Gritavam as bcas, batiam as mos, e os ps
abalavam o pavimento das salas. Nem que todas as armas d'aquelle museu
de artilheria se disparassem a um tempo teriam agitado com maior
violencia as ondas sonoras. Nem o caso  para admirar. Artilheiros ha
mais ruidosos que os proprios canhes.

Barbicane permanecra impassivel no meio de todos estes clamores
enthusiastas; desejava talvez dirigir ainda mais algumas palavras aos
consocios, porque pelos gestos reclamava silencio, e o timbre fulminante
disparou to violenta como inutilmente. Porm nem sequer o ouviam. Pouco
depois arrancaram-n'o da cadeira presidencial e levaram-n'o em triumpho,
passando das mos dos fieis camaradas para os braos de uma multido no
menos exaltada.

No ha cousa n'este mundo capaz de causar pasmo a um americano. Muitas
vezes se tem repetido que a palavra impossivel no  franceza.
Certamente ha n'esta assero troca de diccionario. Na America  que
tudo  facil, tudo  simples, e pelo que diz respeito a difficuldades
mechanicas, essas esto mortas j antes de nascerem. Nem um s yankee
genuino teria permittido a si proprio sonhar sequer uma sombra de
difficuldade entre o projecto Barbicane e a sua realisao. Dito e
feito.

O passeio triumphal do presidente prolongou-se durante a noite. Foi uma
verdadeira marcha  luz dos archotes. Irlandezes, allemes, francezes,
toda a casta de individuos heterogeneos de que  formada a populao do
Maryland, gritavam na sua lingua patria. Os vivas, os hurrahs e os
bravos confundiam-se n'um enthusiasmo inesprimivel.

Por coincidencia a Lua, como se percebra que d'ella se tratava,
brilhava n'aquella noite com uma serena magnificencia, e eclipsava com a
intensa irradiao todas as luzes terrestres.

Os yankees dirigiam todos os olhos para o disco scintillante do astro:
saudavam-n'o uns com a mo, outros chamavam-lhe os nomes mais
carinhosos; estes mediam-n'a com os olhos, aquelles ameaavam-n'a de
murro fechado. Um fabricante de instrumentos de optica de
James-Fall-street fez fortuna a vender oculos desde as oito horas at 
meia noite. O astro das noites era contemplado atravez dos vidros das
lunetas, como se fra qualquer _lady_ da alta sociedade. Os americanos
procediam j para com elle com a sem-ceremonia de verdadeiros
proprietarios. Quem os visse diria, que a loura Phoeba era j dominio
d'aquelles conquistadores audazes, e parte integrante do territorio da
Unio.

E todavia mal comera ainda a agitar-se o problema de mandar-lhe um
projectil, maneira um tanto aspera de encetar relaes, mesmo com um
satellite, porm muito usada entre naes civilisadas.

Meia noite acabava de soar e o enthusiasmo no arrefecia; mantinha-se em
igual nivel em todas as classes da populao; magistrados, homens de
sciencia, negociantes, logistas e carrejes, tanto os homens de
intelligencia elevada e culta, como os estupidos e ignaros tinham
sentido abalo profundo na mais delicada fibra de seu ser; o caso de que
se tratava era um emprehendimento nacional, e por isso na cidade alta,
na cidade baixa, nos caes banhados pelas aguas do Patapsco, nos navios
fundeados nas docas, apinhava-se a multido, ebria de alegria, de _gin_
e de _wisky_; conversavam todos, peroravam, discutiam, disputavam,
approvavam ou applaudiam, desde o _gentleman_, que negligentemente
recostado no canap de algum botequim, defrontava com a sua _chope_ e de
_sherry-cobler_[16], at ao aguadeiro, que se emborrachava com
_mataratos_[17] n'alguma sombria taberna de Fells-Point.

Comtudo, pela volta das duas horas, acalmou-se a emoo, e o presidente
Barbicane conseguiu recolher a casa, moido, esfalfado e derreado. Nem um
Hercules teria resistido a tal enthusiasmo. A turba foi pouco e pouco
evacuando as praas e as ruas. Os quatro caminhos de ferro do Ohio, de
Susquehanna, de Philadelphia e de Washington, que entroncam em
Baltimore, foram lanar o publico hexogeneo nos quatro extremos dos
Estados Unidos, e a cidade comeou de repousar em relativa
tranquillidade.

Enganar-se-ia quem suppozesse que durante aquella memoravel noitada, s
Baltimore fra victima da agitao que descrevemos. Todas as grandes
cidades da Unio, Nova-York, Boston, Albany, Washington, Richmond, a
Cidade Crescente[18], Charleston, Mobile, desde o Texas at ao
Massachussets, e desde o Michigan at s Floridas, todas participaram
d'aquelle delirio, porque os trinta mil socios correspondentes do
Gun-Club, que j tinham conhecimento da carta do seu presidente,
esperavam com igual impaciencia a famosa communicao de 5 de outubro, e
portanto n'esta mesma noite,  medida que as palavras saam dos labios
do orador, iam correndo pelos fios telegraphicos, atravs dos Estados da
Unio, com a velocidade de duzentas e quarenta e oito mil quatrocentas e
quarenta e sete milhas[19] por segundo. Por consequencia pde dizer-se,
com absoluta certeza, que os Estados Unidos, que tem dez vezes o
tamanho da Frana, soltaram n'um mesmo instante um _hurrah_, unico e
unanime, e que vinte e cinco mil coraes, entumecidos de orgulho,
bateram a mesma pulsao.

No dia seguinte lanaram mo do assumpto mil e quinhentos periodicos
diarios, hebdomadarios, mensaes ou bi-mensaes, e estudaram-n'o sob os
differentes pontos de vista da physica, da meteorologia, da economia
politica e da moral; pelo lado da preponderancia politica, e pelo da
civilisao. Discutiam se a Lua era um mundo _acabado_, ou se estaria
ainda em via de transformao. Perguntavam se era similhante  terra na
epocha em que esta no tinha ainda atmosphera, qual era o aspecto da
face lunar invisivel do espheroide terrestre, e ainda que se no tratava
na occasio de mais do que enviar uma bala ao astro das noites, ninguem
duvidava que esse facto seria ponto de partida para uma serie de novas
experiencias, antes todos esperavam que um dia a America havia de
penetrar os mais occultos arcanos do mysterioso disco. Havia at j quem
parecesse arreceiar-se de que a conquista da Lua viesse a transtornar o
equilibrio europeu.

Discutiu-se  verdade o projecto, mas nem um unico jornal poz duvidas 
possibilidade da realisao d'elle; antes pelo contrario at as
revistas, folhetos, boletins e _magasines_ publicados por associaes
scientificas, litterarias ou religiosas se encarregaram de demonstrar as
vantagens de tal tentativa. A _sociedade de historia natural_ de Boston,
a _sociedade americana de sciencias e artes_ de Albany, a _sociedade
geographica e estatistica_ de New-York, a _sociedade philosophica
americana_ de Philadelphia, e o _Instituto Smithsoniano_ de Washington
enviaram ao Gun-Club milhares de cartas de felicitao, com
offerecimentos promptos de coadjuvao e dinheiro.

Pde portanto dizer-se que nunca proposta alguma alcanou to grande
numero de adheses; de hesitar, duvidar ou arreceiar-se pelo bom exito
d'ella,  que ninguem se lembrou; e se a alguem occorresse, como de
certo teria succedido na Europa, e particularmente em Frana, responder
com mofas, caricaturas ou canonetas epigrammaticas  ida de enviar um
projectil  Lua, de bem mau proveito lhe haviam de servir, que nem todos
os _guarda-vidas_[20] do mundo lhe poderiam guardar as costas contra a
indignao geral.

Ha cousas de que no  permittido rir no novo mundo.

A partir d'aquelle dia foi pois Impey Barbicane considerado como um dos
mais notaveis e maiores cidados dos Estados Unidos, uma especie de
Washington da sciencia; um s facto entre muitos bastar para evidenciar
a que ponto chegra aquella infeudao subita de um povo inteiro a um
homem.

[Figura: O observatorio de Cambridge (pag. 35).]

Passados alguns dias depois da famosa sesso do Gun-Club, annunciou, no
theatro de Baltimore, o director de uma companhia ingleza a
representao de _Much ado about nothing_[21]. Ora a populao da
cidade, que viu no titulo da comedia uma alluso offensiva aos projectos
do presidente Barbicane, invadiu a sala, escangalhou os bancos, e
obrigou o desgraado do director a alterar o cartaz. O director, que era
homem fino, soube curvar-se perante a vontade publica, e substituiu a
desventurada comedia por _As you like it_[22]. O resultado foi ter,
durante muitas semanas consecutivas, enchentes phenomenaes.

[Figura: Movimentos de translao da Lua (pag. 43).]




CAPITULO IV

RESPOSTA DO OBSERVATORIO DE CAMBRIDGE


Barbicane, apesar de todas as ovaes de que era alvo, no desperdiou
um s instante. A primeira cousa de que tratou foi de reunir os collegas
da mesa nas salas de commisso do Gun-Club, onde, com previa discusso,
se accordou que fossem consultados os astronomos cerca da parte
astronomica do projecto, e que depois de conhecida a resposta d'estes,
se discutissem ento os meios mechanicos, sem descurar cousa alguma para
tornar seguro o exito da grande experiencia.

Redigiu-se por consequencia uma _nota_ extremamente precisa, contendo
perguntas especiaes, que foi dirigida ao observatorio de Cambridge, no
Massachussets. A cidade de Cambridge, onde foi fundada a primeira
universidade dos Estados Unidos,  justamente nomeada pelo seu
observatorio astronomico, onde se encontram reunidos homens de sciencia
do mais elevado merecimento.  ali que funcciona o potente telescopio,
com o qual Bond conseguiu resolver a nebulosa de Andromedes, e Clarke
descobrir o satellite de Sirius. Todos os precedentes d'este
estabelecimento celebre justificavam portanto a confiana do Gun-Club.

E com effeito, dois dias depois, chegava s mos do presidente Barbicane
a resposta to impacientemente esperada.

Era concebida nos seguintes termos:

Do director do observatorio de Cambridge para o presidente do Gun-Club,
em Baltimore.

Logoque se recebeu a vossa honrosa missiva de 6 do corrente, endereada
ao observatorio de Cambridge em nome dos socios do Gun-Club, de
Baltimore, reuniu-se o pessoal scientifico d'este estabelecimento, e
houve por conveniente[23] responder como se segue:

As perguntas que lhe foram feitas so as seguintes:

1.^o Ser possivel enviar um projectil at  Lua?

2.^o Qual  a distancia exacta que ha entre a Terra e o seu satellite?

3.^o Quanto tempo durar o trajecto do projectil ao qual tenha sido
imprimida a velocidade inicial sufficiente, e por consequencia, em que
momento dever ser arremessado para que encontre a Lua n'um ponto
determinado?

4.^o Em que momento prefixo estar a Lua na posio mais favoravel para
ser alcanada pelo projectil?

5.^o A que ponto do cu deve fazer-se a pontaria com o canho destinado
a lanar o projectil?

6.^o Que logar ha de occupar a Lua no cu, no momento da partida do
projectil?

Em relao  primeira pergunta: Ser possivel enviar um projectil at 
Lua?

Sim,  possivel alcanar a Lua com um projectil, comtanto que se
consiga animar esse projectil de uma velocidade inicial de 12:000 jardas
por segundo. Demonstra o calculo que tal velocidade  bastante.

 medida que nos afastmos da terra, a aco da gravidade diminue na
raso inversa do quadrado das distancias, isto , por exemplo, para uma
distancia tres vezes maior, torna-se nove vezes menor. Por consequencia
o peso da bala ha de decrescer rapidamente, at chegar a ser
completamente nullo, o que ha de succeder no momento em que a attraco
da Lua fizer equilibrio  da Terra, isto , quando tiver percorrido
47/52 avos do seu trajecto. N'esse momento o projectil no ter peso
algum, e se passar alem d'esse ponto ha de car _para_ a Lua s por
effeito da attraco lunar. Fica portanto irrecusavelmente demonstrada a
possibilidade theorica da experiencia; emquanto ao seu bom exito, esse
depende unicamente da potencia do machinismo que se empregar.

Com respeito  segunda pergunta: Qual  a distancia exacta que ha entre
a Terra e o seu satellite?

A Lua no descreve em torno da terra uma circumferencia de circulo, mas
sim uma ellipse, n'um dos focos da qual est situado o nosso globo;
d'ahi vem por consequencia que a Lua est, ora mais proxima, ora mais
afastada da terra, ou em termos astronomicos, agora no apogeo, logo no
perigeo; e a differena entre a maior e a menor distancia 
relativamente bastante consideravel para que no devamos despreza-la.
Com effeito, no apogeo est a Lua a 247:552 milhas (99:640 leguas de 4
kilometros) e no perigeo a 218:657 milhas smente (88:010 leguas) da
Terra, o que d uma differena de 28:895 milhas (11:630 leguas), que 
mais da nona parte do percurso total. Portanto a distancia perigea da
Lua  que deve servir de base aos calculos.

cerca da terceira pergunta: Qual ser a durao do trajecto do
projectil ao qual tenha sido imprimida a velocidade inicial bastante, e
consequentemente em que momento dever ser lanado para que v encontrar
a Lua em um determinado ponto?

Se a bala conservasse indefinidamente a velocidade inicial de 12 jardas
por segundo, que lhe fosse imprimida no momento da partida, gastaria
apenas nove horas approximadamente para chegar ao seu destino; mas como
a velocidade inicial ha de ir continuamente decrescendo, deduz-se,
feitos os calculos, que o projectil ha de empregar 300:000 segundos ou
83 horas e 20 minutos para chegar ao ponto onde as attraces terrestre
e lunar se equilibram, e a partir d'este ponto ha de cair na superficie
da Lua em 50:000 segundos ou 13 horas, 53 minutos e 20 segundos. Convem
pois lanar o projectil 97 horas, 13 minutos e 20 segundos antes do
momento em que a Lua haja de chegar ao ponto de mira.

Em relao  quarta pergunta: Em que instante prefixo estar a Lua na
posio mais favoravel para ser alcanada pelo projectil?

Em consequencia do que deixmos dito, deve, em primeiro logar,
escolher-se a epocha em que a Lua estiver no perigeo, e simultaneamente
o instante em que passar pelo zenith, circumstancia que ha de diminuir
ainda o percurso do projectil de uma distancia igual ao raio da terra,
isto , de 3:919 milhas, vindo por esta frma a ser o trajecto
definitivo de 214:976 milhas (86:410 leguas). Porm a Lua, que passa
todos os mezes pelo seu perigeo, nem sempre se encontra no zenith no
mesmo instante, e s a largos intervallos satisfaz simultaneamente a
estas duas condies. Necessario  portanto esperar a coincidencia da
passagem pelo perigeo com a passagem pelo zenith.

Por feliz acaso, no dia 4 de dezembro do anno proximo, a Lua ha de
preencher as duas condies indicadas:  meia noite estar no perigeo,
isto , no ponto da sua orbita d'onde  mais curta a distancia  Terra,
e passar no mesmo instante pelo zenith.

Em relao  quinta pergunta: A que ponto do cu deve fazer-se a
pontaria com o canho destinado a lanar o projectil?

Suppondo admittidas as consideraes que precedem, o canho deve ser
dirigido para o zenith[24] do logar, por maneira que o tiro venha a ser
perpendicular ao plano do horisonte e o projectil fuja assim mais
rapidamente aos effeitos da attraco terrestre. Mas para que a Lua
passe pelo zenith de um logar terrestre,  necessario que este logar no
tenha latitude maior do que a declinao do astro, por outra que o logar
esteja comprehendido entre o equador e os parallelos, que distam d'elle
28^o para norte ou sul. Em qualquer outro logar da terra o tiro havia
necessariamente de ser obliquo, o que seria prejudicial ao bom exito da
experiencia.

A respeito da sexta pergunta: Que logar deve occupar a Lua no cu, no
instante da partida do projectil?

No momento em que o projectil for lanado ao espao, a Lua que avana
em cada dia 13^o, 10' e 35", deve estar afastada do ponto zenithal
quatro vezes esta grandeza, isto , 52^o, 42' e 20", espao que
corresponde ao caminho que ha de andar durante o percurso do projectil.
Mas como se deve tambem attender ao desvio que ha de vir ao projectil do
movimento de rotao da Terra, e como, quando a bala chegar  Lua, este
desvio deve ter attingido uma grandeza igual a dezeseis raios
terrestres, que contados sobre a superficie da Lua, do proximamente
11^o, devem juntar-se estes 11^o aos j mencionados, que exprimem o
atrazo da Lua, o que d 64^o em numeros redondos.

Consequentemente o raio visual dirigido para a Lua deve, no momento do
tiro, fazer com a vertical do logar um angulo de 64^o.

Taes so as respostas s perguntas feitas pelos socios do Gun-Club ao
observatorio de Cambridge.

Em resumo:

1.^o O canho deve ser collocado n'uma regio situada entre o equador e
os parallelos de 28 graus de latitude norte ou sul.

2.^o Deve ser dirigido para o zenith do logar.

3.^o O projectil deve ir animado de uma velocidade inicial de doze mil
jardas por segundo.

4.^o Deve ser lanado no dia 1.^o de dezembro do anno proximo, s onze
horas menos treze minutos e vinte segundos.

5.^o O projectil ha de encontrar a Lua, quatro dias depois da partida,
no dia 4 de dezembro  meia noite exacta, no momento em que o astro
passa pelo zenith.

Devem portanto os socios do Gun-Club dar comeo sem demora aos
trabalhos necessarios para realisar um emprehendimento de tal ordem, e
prepararem-se para a execuo no momento determinado, porque se deixarem
passar a data indicada de 4 de dezembro, s dezoito annos e onze dias
depois volver a Lua a entrar nas mesmas condies em relao ao zenith
e ao perigeo.

O pessoal scientifico do observatorio de Cambridge fica inteiramente 
disposio do Gun-Club para todos os assumptos de astronomia theorica, e
aproveita a occasio da presente para juntar as suas felicitaes s da
America inteira.

Pelo pessoal scientifico do estabelecimento.--_J. M. Belfast_, director
do observatorio de Cambridge.




CAPITULO V

O ROMANCE DA LUA


Um observador dotado de vista infinitamente penetrante e collocado no
centro, n'aquelle centro ignoto, em torno do qual gravita o mundo, teria
visto, na epocha cahotica do universo, o espao cheio de myriades de
atomos. Mas pouco e pouco, com o volver dos seculos produziu-se uma
mudana; manifestou-se uma lei de attraco,  qual obedeceram os atomos
outr'ora errantes; combinaram-se estes atomos chimicamente, segundo suas
affinidades, fizeram-se moleculas e formaram esses aggregados nebulosos
de que esto semeadas as profundezas do cu.

Animaram-se ento estes aggregados de um movimento de rotao em volta
do seu ponto central, e este centro formado de moleculas vagas poz-se
tambem a girar sobre si mesmo, ao passo que se ia progressivamente
condensando. Segundo as leis immutaveis da mechanica,  medida que se
lhe minguava o volume pela condensao, ia-se-lhe accelerando o
movimento de rotao e, persistindo estes dois effeitos, de cada centro,
resultou uma estrella principal, novo centro do aggregado nebuloso.

Se o observador olhasse ento attentamente, teria visto succeder com as
outras moleculas do aggregado, o mesmo que succedra com a estrella
central: condensaram-se adquirindo simultaneamente um movimento de
rotao progressivamente accelerado, e gravitaram em torno da central,
transformadas em outras tantas estrellas. E assim ficava formada uma
nebulosa[25]. No menos de cinco mil nebulosas conhecem, na actualidade,
os astronomos.

Ha uma, entre estas cinco mil nebulosas, a que os homens chamaram via
lactea[26], e que contm dezoito milhes de estrellas, cada uma das
quaes se transformou em centro de um mundo solar.

Se o observador, rodeado por estes dezoito milhes de astros, volvesse
especialmente a atteno para um dos mais modestos e menos
brilhantes[27], para uma estrella de quarta ordem, que orgulhosamente
appellidmos _o Sol_, debaixo dos olhos lhe teriam succedido todos os
phenomenos a que  devida a formao do universo.

Effectivamente havia de ver esse Sol, ainda no estado gazoso e composto
de moleculas moveis, a girar em torno do proprio eixo para concluir o
trabalho de concentrao, e este movimento, subordinado s leis da
mechanica, havia accelerar-se com a diminuio do volume, e um instante
havia de chegar em que a fora centrifuga venceria a fora centripeta,
que attrahe as moleculas para o centro.

Outro phenomeno ento havia de realisar-se diante dos olhos do
observador, as moleculas situadas no plano do equador, soltando-se como
a pedra da funda de que subito rebenta a corda, haviam de ir formar, em
volta do Sol, anneis concentricos como o de Saturno. A estes anneis de
materia cosmica, animados de movimento de rotao em volta da massa
central, chegaria depois a vez de partir-se e decompor-se em
nebulosidades secundarias, o que vale o mesmo que dizer, em planetas.

Concentrada ento toda a atteno do observador sobre os planetas havia
de ver realisarem-se n'elles os mesmos phenomenos que observra no Sol.
De cada um d'elles dimana um ou mais anneis cosmicos, origens dos astros
de ordem inferior a que chammos satellites.

Subindo assim do atomo  molecula, da molecula ao aggregado nebuloso, do
aggregado nebuloso  nebulosa, da nebulosa  estrella principal, da
estrella principal ao Sol, do Sol ao planeta, do planeta ao satellite,
examinmos a serie inteira de transformaes por que passaram os corpos
celestes desde os primeiros dias do mundo.

O Sol, que parece perdido na immensidade do mundo estellar, est todavia
ligado pelas ultimas theorias da sciencia  nebulosa chamada via lactea.
Ainda que no meio das regies ethereas nos parea pequeno,  todavia o
centro de um mundo, e  enorme, poisque o seu volume  igual a mil e
quatrocentas vezes o volume da Terra. Em torno d'ella gravitam oito
planetas, que nos primeiros tempos da creao lhe sairam das proprias
entranhas. So estes planetas, progredindo do mais proximo at ao mais
remoto, Mercurio, Venus, a Terra, Marte, Jupiter, Saturno, Urano e
Neptuno. Alem d'estes circulam, regularmente entre Marte e Jupiter,
outros corpos de volume menos consideravel, talvez restos errantes de
algum astro quebrado em milhares de pedaos; d'estes conta o telescopio
no menos de noventa e sete[28]. Alguns d'estes servidores que o Sol
mantm nas respectivas orbitas ellipticas por fora da grande lei da
gravitao, tambem tem seus satellites. Urano tem oito, Saturno oito,
Jupiter quatro, Neptuno talvez tres, a Terra s um; este, que  um dos
menos importantes do mundo solar, chama-se Lua, e  o que o engenho
audaz dos americanos pretendia conquistar.

O astro das noites, j pela proximidade relativa a que est, j por
virtude do espectaculo rapidamente renovado das diversas phases que
apresenta, partilhou sempre com o Sol a atteno dos habitantes da
Terra; mas o olhar para o Sol cansa, e os esplendores da luz solar
foram os contempladores d'este astro a baixar os olhos.

A loura Phoeba  mais humana, e cheia de modesta graa deixa-se ver com
complacencia;  suave para a vista, pouco ambiciosa, e comtudo toma s
vezes a liberdade de eclipsar seu irmo, o radiante Apollo, sem que
nunca fosse eclipsada por este. Comprehenderam os mahometanos a gratido
que era devida  fiel amiga da Terra; por isso regularam pela revoluo
d'ella a contagem dos mezes[29].

Votaram os primeiros povos culto particular a esta casta deusa.
Chamaram-lhe os egypcios Isis, os phenicios Astartea, e os gregos
adoraram-n'a sob o nome de Phoeba, como filha de Jupiter e de Latona, e
explicavam os eclipses por visitas mysteriosas de Diana ao bello
Endymio.

Diz-nos a lenda mythologica, que o leo de Nemea, antes de apparecer na
Terra, percorrra as campinas da Lua, e o poeta Agesianax, citado por
Plutarcho, celebrou em verso os dois olhos, o encantador nariz e a bca
amavel, que figuram as partes luminosas da adoravel Seln.

[Figura: Vista da Lua (pag. 47).]

Porm se os antigos comprehenderam perfeitamente o caracter, o
temperamento, emfim as qualidades moraes da Lua, sob o ponto de vista
mythologico, no  menos verdade, que os mais sabedores d'elles eram
extremamente ignorantes pelo que diz respeito a selenographia.

[Figura: Barbicane levanta-se para fallar (pag. 58).]

Todavia, muitos dos astronomos d'essas epochas longiquas, descobriram
algumas particularidades confirmadas pela sciencia dos nossos dias, e se
os arcadios pretenderam ter habitado a Terra em epocha em que ainda no
existia a Lua, se Simplicius a julgou immovel e ligada  abobada de
crystal, se Tatius a considerou como um fragmento destacado do disco
solar, se Clearco, discipulo de Aristoteles, fazia d'ella um espelho
polido em que se reflectia a imagem do Oceano, se outros finalmente a
consideraram como um aggregado de vapores exhalados pela Terra, ou um
globo, metade de fogo, metade de glo, que girava sobre si mesmo, alguns
sabios por meio de observaes sagazes, e postoque desajudados de
instrumentos de optica, suspeitaram pelo menos a existencia da maior
parte das leis que regem o astro das noites.

Assim  que Thales de Mileto, 460 annos antes de Jesus Christo, opinou
que a Lua era illuminada pelo Sol. Aristarcho de Samos deu verdadeira
explicao das phases. Cleomene ensinou que o brilho do disco lunar
vinha de luz reflexa. Berosio o chaldaico descobriu que a durao de uma
rotao da Lua era igual  da sua revoluo, e explicou por esta frma o
facto da Lua ser vista da Terra sempre pela mesma face. Finalmente
Hipparco, duzentos annos antes da era christ, reconheceu a existencia
de desigualdades nos movimentos apparentes do satellite da Terra.

Estas differentes observaes foram confirmadas no decorrer dos tempos e
serviram de proveito aos astronomos mais modernos. Ptolomeu no seculo
XVI, e o arabe Abul-Wefa no seculo X completaram as indicaes feitas
por Hipparco cerca das desigualdades que apparenta o movimento da Lua
na linha ondulada, que tem por orbita, sob a aco do Sol.

Mais proximos de ns, Copernico, no seculo XV, e Tycho Brahe no seculo
XVI explicaram completamente o systema do mundo e o papel que desempenha
a Lua no conjuncto dos corpos celestes.

N'esta epocha ficaram, com muita approximao, determinados todos os
movimentos lunares, mas da constituio physica do astro pouca cousa era
conhecida.

Foi por esse tempo que Galileu explicou os phenomenos luminosos que
succediam em algumas phases, pela existencia de montanhas lunares, a que
attribuiu uma altura media de 4:500 toezas.

Depois de Galileu, Hevelius, astronomo de Dantzig, avaliou mais pelo
baixo as mais elevadas d'estas alturas em 2:600 toezas; verdade  que
Riccioli, confrade d'este, tornou a corrigir esta apreciao,
elevando-as a 7:000 toezas.

Nos fins do seculo XVIII Herschell, ajudado por um telescopio de
poderoso alcance, reduziu mui notavelmente as medidas precedentes,
attribuindo s montanhas mais altas a elevao de 1:900 toezas, e
abaixando a media das differentes alturas a 400 toezas, no mais.

Mas tambem Herschell se enganava, e s pelas observaes de Shroeter,
Louville, Halley, Nasmyth, Bianchini, Pastorf, Lohrman, Gruithuysen, e
principalmente pelos estudos pacientes de Beer e Moedler se conseguiu
resolver definitivamente o problema. Graas a estes homens de sciencia 
hoje perfeitamente conhecida a elevao das montanhas da Lua.

Por virtude d'estes mesmos trabalhos completava-se o reconhecimento da
Lua; apparecia o astro crivado de crateras, e affirmava-se mais em cada
observao a natureza vulcanica d'elle. Concluiu-se da ausencia de
refraco nos raios dos planetas occultados pela Lua, a falta quasi
absoluta de atmosphera n'este astro.

Da falta de ar seguia-se concludentemente a falta de agua. Ficou
portanto bem claro, que se existiam selenitas, deviam, para existir em
taes condies, possuir organisao especial e notavelmente differente
da dos habitantes da Terra.

Finalmente, graas aos methodos novos, empregaram-se em constantes
inquiries cerca da Lua instrumentos mais perfeitos; no deixaram os
astronomos por explorar nem um s ponto da sua face visivel, devendo
notar-se que o diametro lunar mede 2:150 milhas[30]; a superficie  1/13
avos da superficie do nosso globo[31], o volume  1/49 avos do volume do
espheroide terrestre; mas nenhum dos segredos da Lua podia occultar-se
aos olhos dos astronomos, e estes habeis homens de sciencia foram ainda
mais longe nas prodigiosas observaes que relatmos.

Por esta frma notaram os observadores, que na epocha da lua cheia
apparecia o disco do astro, em algumas regies, raiado por linhas
brancas, e nas epochas das outras phases, raiado por linhas negras.
Estudando com mais atteno o phenomeno, conseguiram perceber
exactamente a natureza d'aquellas linhas. Eram sulcos compridos e
estreitos, cavados entre margens parallelas e que em geral iam terminar
nos contornos de crateras.

O comprimento dos sulcos estava comprehendido entre 10 e 100 milhas, e a
largura era proximamente de 800 toezas. Deram-lhes os astronomos o nome
de _ranhuras_; mas a dar-lhe este nome se limitou o seu saber. O
problema de saber se estas ranhuras eram ou no leitos seccos de antigos
rios no poderam resolve-lo completamente. Os americanos j concebiam a
esperana de que, mais dia menos dia, haviam de determinar com exactido
aquelle facto geologico. Reservavam tambem para opportunidade propria
fazer um reconhecimento sobre a serie de trincheiras parallelas
descobertas na superficie da Lua por Gruithuysen, sabio professor de
Munich, que as reputa um systema de fortificaes levantadas pelos
engenheiros selenitas. Estes dois pontos, ainda obscuros, e certamente
muitos outros, nunca podero ser definitivamente regulados, sem que se
estabelea primeiro communicao directa com a Lua.

Em relao  luz lunar nada havia j que aprender: era sabido que era
trezentas mil vezes mais fraca que a do Sol, e que o calor que a
acompanha no tem aco apreciavel sobre os thermometros. O phenomeno da
luz cendrada esse explica-se naturalmente pelo effeito dos raios do Sol
reflectidos na Terra, e que depois da reflexo se dirigem para a Lua.

Parece por este phenomeno completar-se o disco lunar, quando nas epochas
da sua primeira e ultima phase se nos apresenta sob a frma de um
crescente.

O que deixmos dito representava o peculio de conhecimentos adquiridos,
em relao ao satellite da Terra, peculio que o Gun-Club tentava
acrescentar sob todos os pontos de vista cosmographicos, geologicos,
politicos e moraes.




CAPITULO VI

O QUE NO  POSSVEL IGNORAR E O QUE J NO  PERMITTIDO ACREDITAR NOS
ESTADOS UNIDOS


A proposta Barbicane tivera como resultado immediato trazer para a tela
da discusso todos os factos astronomicos, relativos ao astro das
noites. Todos se empenharam em estuda-lo com assiduidade. Parecia que a
Lua apparecra pela vez primeira acima do horisonte, e que ninguem ainda
a tinha visto nos cus. Tornou-se o astro da moda; foi durante algum
tempo a _lea_ do dia, sem que por isso parecesse menos modesta, e tomou
logar entre as _estrellas_, sem que d'ahi lhe viesse maior altivez. Os
jornaes resuscitaram as antigas anecdotas, em que desempenhava papel o
_sol dos lobos_: trouxeram  memoria do publico as influencias que
attribuiu  Lua a ignorancia dos primeiros seculos; cantaram-n'a emfim
em todos os tons, e pouco faltou para que lhe attribuissem algum dito
chistoso. A America inteira foi atacada de selenomania.

As revistas scientificas tambem por sua parte estudaram o assumpto; mas,
tratando mais especialmente dos problemas que diziam respeito ao
projecto do Gun-Club, deram publicidade  carta do observatorio de
Cambridge, commentando-a e approvando-a sem restrices.

Por encurtar diremos que no foi desde ento permittido, nem ao mais
illetrado de todos os yankees, ignorar um unico facto relativo ao nosso
satellite, nem  mais crendeira de todas as velhas matronas americanas,
continuar agarrada aos erros supersticiosos, que lhe dizem respeito.
Entrava-lhes a sciencia em casa sob todas as frmas; penetrava-lhes
pelos olhos e pelos ouvidos; era impossivel ser um asno... em assumptos
astronomicos.

At ento muitas pessoas ignoravam como podra calcular-se a distancia
que ha entre a Terra e Lua. Aproveitou-se a occasio para lhes ensinar
que esta distancia se avaliava pela medida da parallaxe lunar. E a quem
a palavra parallaxe causava estranheza dizia-se, que significava o
angulo formado por duas linhas rectas tiradas de cada uma das
extremidades do raio terrestre para a Lua.

A quem punha em duvida a perfeio do methodo, provava-se, sem detena,
que no smente a distancia da Terra  Lua era na realidade de duzentas
e trinta e quatro mil trezentas e quarenta e sete milhas (94:330
leguas), mas tambem que os astronomos no erravam n'esta avaliao nem
setenta milhas (30 leguas).

Aos que estavam pouco ou nada familiarisados com os movimentos da Lua,
demonstravam os jornaes quotidianamente que este astro tem dois
movimentos distinctos, o primeiro chamado de rotao, em torno de um
eixo; o segundo chamado de revoluo, em volta da Terra, que ambos se
completam em tempos iguaes, isto , em vinte e sete dias e um tero
[32].

O movimento de rotao  o que d origem aos dias e s noites na
superficie da Lua, devendo notar-se que no ha seno um dia e uma noite
por mez lunar, e que cada dia ou cada noite dura trezentas e cincoenta e
quatro horas e um tero. Mas, por felicidade da Lua, a sua face, que
est voltada para o globo terrestre,  illuminada por este com a
intensidade luminosa de quatorze luas. A outra face, que  sempre
invisivel, tem por isso mesmo trezentas e cincoenta e quatro horas de
noite absoluta, apenas temperada pela _pallida claridade que dimana das
estrellas_. Este phenomeno provm unicamente da particularidade j
citada, de que os movimentos de rotao e de revoluo se completam em
tempos rigorosamente iguaes, e realisa-se tambem, segundo Casini e
Herschell, nos satellites de Jupiter, e provavelmente em todos os
demais.

Em certas cabeas bem dispostas, mas um tanto duras, custava a entrar, 
primeira, que a Lua voltava invariavelmente a mesma face para a terra,
durante a sua revoluo, pela raso de que no mesmo lapso de tempo fazia
um giro completo em torno do seu eixo. Mas a estes dizia-se: Entrae na
vossa casa de jantar, e dae uma volta completa  roda da mesa, olhando
sempre para o centro d'ella; quando tiverdes completado o vosso passeio
circular, tereis feito um giro perfeito sobre vs mesmos, visto como o
vosso olhar ha de ter percorrido successivamente todos os pontos da
sala. Ora pois! a sala  o cu, a mesa  a Terra, e a Lua sois vs! E
am-se satisfeitissimos com a comparao.

Como acabmos de ver, a Lua mostra constantemente a mesma face  Terra;
todavia, para fallar com rigor, devemos acrescentar, que, em virtude de
um certo movimento de oscillao de norte para sul e de oeste para
leste, chamado librao, podemos ver um pouco mais de metade da
superficie do globo lunar, cincoenta e sete centesimos, proximamente.

Quando os ignorantes chegaram a saber, com respeito ao movimento de
rotao da Lua, tanto como o director do observatorio de Cambridge,
comeou a inquietar-lhes o espirito o movimento de revoluo do
satellite em volta da Terra, mas em curto espao acabaram de os instruir
vinte e tantas revistas scientificas.

Aprenderam ento que o firmamento, com a sua infinidade de estrellas,
pde ser considerado como um immenso mostrador, por sobre o qual passeia
a Lua, indicando a hora verdadeira a todos os habitantes da Terra, e que
 n'este movimento que o astro das noites apresenta as suas differentes
phases. Mais, que  Lua cheia, quando est em opposio com o Sol, isto
, quando esto os tres astros na mesma linha recta, estando a Terra no
meio; que a Lua  nova, quando est em conjunco com o Sol, isto ,
quando est entre este e a Terra; e, finalmente, que a Lua entra no
quarto primeiro ou no ultimo, quando est no vertice de um angulo recto,
formado pelas duas rectas que d'ella se dirigem para a Terra e para o
Sol.

Alguns yankees mais perspicazes concluiam d'aqui, que no podia haver
eclipses seno nas epochas de conjunco e de opposio, e no deduziam
mal. Na conjunco a Lua pde eclipsar o Sol, e na opposio  a Terra
que pde eclipsar a Lua, e se em cada revoluo lunar no ha dois
eclipses,  porque o plano, segundo o qual se move a Lua,  inclinado
sobre a ecliptica, por outra, sobre o plano no qual se move a Terra.

Em relao  altura a que o astro das noites pde subir acima do
horisonte estava tudo dito na carta do observatorio de Cambridge.

Todos ficaram sabendo que tal altura varia com a latitude do logar de
observao, e que as unicas zonas do globo nas quaes a Lua passa pelo
zenith, isto , vem collocar-se directamente por cima da cabea dos que
a contemplam, esto forosamente comprehendidas entre os parallelos de
28^o e o equador. D'ahi vinha a importante recommendao de tentar a
experiencia n'um logar qualquer d'aquella parte do globo, para que o
projectil podesse ser lanado verticalmente, e escapar-se por isso mais
depressa  aco da gravidade. Era esta condio essencial para o bom
exito da empreza, e no deixava de preoccupar vivamente a opinio.

cerca da linha seguida pela Lua na sua revoluo em volta da Terra,
tinha o observatorio de Cambridge ministrado conhecimentos bastantes,
para que os ignorantes de todos os paizes ficassem sabendo que esta
linha  uma curva reentrante, no um circulo, mas uma ellipse, n'um dos
focos da qual est situada a Terra.

Esta especie de orbitas ellipticas  commum a todos os planetas, assim
como a todos os satellites, e prova-se rigorosamente na mechanica
racional que no podia succeder por outra frma. Bem entendido estava
que a Lua no apogeo est mais longe da Terra, e no perigeo mais proxima.

Ora eis-aqui o que por vontade ou sem ella sabia qualquer americano, e o
que ninguem decentemente podia ignorar.

Porm, se os verdadeiros principios se vulgarisaram com rapidez, muito
mais difficil foi extirpar grande quantidade de erros e illusorios
temores. Assim, por exemplo, algumas pessoas muito de bem, sustentavam
que a Lua era um antigo cometa, que no percurso da sua orbita alongada
em volta do Sol, tinha vindo a passar proximo da Terra que o retivera no
seu circulo de attraco. Pretendiam taes astronomos de sala explicar
por esta maneira o aspecto requeimado da Lua, desgraa irreparavel de
que accusavam o astro radiante do dia. Verdade seja, que, quando alguem
lhes fazia notar que os cometas tem atmosphera, e que a Lua pouca ou
nenhuma tem, tinham grande difficuldade em responder.

Outros, que pertenciam  raa d'aquelles que por tudo tremem e se
arreceiam, manifestavam singulares temores a respeito da Lua; tinham
ouvido dizer que desde as observaes feitas no tempo dos Califas, o
movimento de revoluo do astro se a accelerando em certa proporo;
d'aqui deduziam,  verdade que com rigorosa logica, que  tal
accelerao no movimento devia corresponder diminuio na distancia dos
dois astros, e que prolongando-se este duplo effeito indefinidamente, a
Lua havia de acabar um dia por cair sobre a Terra. Socegaram todavia
estes animos timoratos, e deixaram de temer pela sorte das geraes
futuras, quando lhes ensinaram que, segundo os calculos do illustre
mathematico francez Laplace, esta accelerao do movimento lunar est
comprehendida entre estreitos limites, e que no ha de tardar que lhe
succeda uma proporcional diminuio na velocidade, e que por
consequencia no poder, nos seculos futuros, ser alterado o equilibrio
do mundo solar.

Restava, por ultimo, a classe dos ignorantes supersticiosos, e estes
nunca se contentam em no saber; sabem at o que no existe, e, a
respeito da Lua, sabiam cousas por ahi alem. Consideravam alguns o disco
lunar como uma especie de espelho polido, por intermedio do qual os
homens se podiam ver uns aos outros e communicarem-se reciprocamente os
pensamentos, ainda que collocados em differentes pontos da Terra; outros
affirmavam que por cada milheiro de Luas novas observadas, novecentas e
cincoenta tinham trazido comsigo notaveis acontecimentos, taes como
cataclysmos, revolues, tremores de terra, diluvios, etc.

Acreditavam por isso na influencia mysteriosa do astro das noites sobre
os destinos do homem; consideravam-no como _verdadeiro contrapeso_ da
existencia; pensavam que cada selenita est ligado a um habitante da
Terra por um vinculo sympathico; sustentavam, como o dr. Mead, que o
systema vital est inteiramente dependente das influencias lunares,
affirmando, sem admittir replica, que os rapazes nascem quasi
exclusivamente na Lua nova, e as raparigas no quarto minguante, etc.,
etc. Mas por fim no houve mais remedio seno renunciar s crendices e
erros vulgares, e contentar-se smente com a verdade, e se a Lua,
despojada da sua influencia, perdeu a importancia para os espiritos de
alguns d'aquelles que so cortezos de todos os poderes, se alguns lhe
voltaram as costas, nem por isso deixou de ter por si a manifestao de
uma immensa maioria. Consistiu desde ento a unica ambio de todos os
yankees em tomar posse d'aquelle novo continente aerio e em arvorar no
mais alto vertice d'elle a bandeira estrellada dos Estados Unidos da
America.




CAPITULO VII

O HYMNO DA BALA


O observatorio de Cambridge tinha estudado, na memoravel carta de 7 de
outubro, o assumpto pelo lado astronomico, mas estava ainda sem soluo
o problema mechanico. As difficuldades do caso pareceriam insuperaveis
em qualquer outro paiz do mundo, mas na America resolveu-se o negocio
como de brincadeira.

O presidente Barbicane, sem perda de tempo, tinha escolhido entre os
socios do Gun-Club uma commisso executiva. A commisso estava obrigada
a elucidar, em tres sesses, os tres grandes problemas do canho, do
projectil e das polvoras; compunha-se de quatro membros todos muito
sabedores no assumpto, Barbicane, com voto de desempate, o general
Morgan, o major Elphiston, e finalmente o inevitavel J.-T. Maston, ao
qual foram confiadas as importantes funces de secretario relator.

[Figura: A Columbiada Rodman (pag. 61).]

No dia 8 de outubro reuniu-se a commisso em casa do presidente
Barbicane, rua da Republica n.^o 3, e como fosse de grande importancia
que as exigencias do estomago no viessem a perturbar to grave
discusso, sentaram-se os quatro socios do Gun-Club em volta de uma mesa
coberta de bandejas de sandwiches e de amplos bules de ch. Em seguida
atarraxou J.-T. Maston a pena no gancho de ferro que lhe servia de mo
direita e abriu-se a sesso.

[Figura: O canho da ilha de Malta (pag. 63).]

Barbicane encetou a discusso pela seguinte frma:

Caros collegas, temos de resolver um dos problemas mais importantes da
balistica, a sciencia por antonomasia, a que trata do movimento dos
projectis, isto , dos corpos arremessados ao espao, por uma fora de
impulso qualquer e depois abandonados a si proprios.

--Ai! balistica! balistica! exclamou J.-T. Maston em tom commovido.

--Talvez parecesse mais logico, proseguiu Barbicane, dedicar esta
primeira sesso  discusso do machinismo...

--E na verdade, interrompeu o general Morgan.

--Todavia, continuou Barbicane, depois de reflectir maduramente,
pareceu-me que o assumpto projectil devia ter primazia sobre o assumpto
canho, e que as dimenses d'este deveriam depender das d'aquelle.

--Peo a palavra, gritou J.-T. Maston.

Foi-lhe concedida a palavra com a boa vontade de que se tornava
merecedor pelos seus magnificos antecedentes.

Meus bons amigos, disse Maston, em tom de inspirao, o nosso
presidente tem raso em dar a primazia ao assumpto projectil sobre todos
os outros! A bala que ora vamos arremessar  Lua  um mensageiro, um
embaixador, e dem-me licena que a considere pelo lado puramente
moral.

Esta maneira nova de encarar um projectil excitou singularmente a
curiosidade dos membros da commisso; todos se prepararam para prestar a
mais solcita atteno s palavras de J.-T. Maston.

Caros collegas, proseguiu este; serei breve, porei de parte a bala
physica, a bala que mata, para considerar smente a bala mathematica, a
bala moral. Para mim a bala  a mais esplendida manifestao do poder do
homem; na bala resume-se este poder todo inteiro, e foi quando a
inventou que o homem mais se approximou do Creador!

--Muito bem! disse o major Elphiston.

--E na verdade, exclamou o orador, se Deus fez as estrellas e os
planetas, o homem fez a bala, que  o _criterium_ das velocidades
terrestres e uma imitao, em menores propores, dos astros que erram
no espao, que no so mais do que outros tantos projectis! Pertence a
Deus a velocidade da electricidade, a Deus a velocidade da luz, a
velocidade das estrellas, a velocidade dos cometas, a velocidade dos
planetas, a velocidade dos satellites, a velocidade do som, a velocidade
do vento! Mas a ns os homens a velocidade da bala, cem vezes superior 
velocidade da locomotiva ou do mais rapido corcel!

J.-T. Maston estava exaltado; entoando  bala este hymno sagrado,
percebiam-se-lhe na voz inflexes lyricas.

Querem algarismos? proseguiu elle; ei-los, e que fallam bem alto! Olhem
simplesmente a modesta bala de vinte e quatro[33], que corre oitocentas
mil vezes menos veloz que a electricidade, seiscentas e quarenta mil
vezes menos veloz que a luz, setenta e seis vezes menos veloz que a
Terra, no movimento de translao em volta do Sol, e que todavia, quando
se do canho, excede em rapidez o som[34], anda 200 toezas em cada
segundo, 2:000 toezas em 10 segundos, 14 milhas (6 leguas) em cada
minuto, 840 milhas (360 leguas) por hora, 27:100 milhas (8:640 leguas)
por dia, ou, o que vale o mesmo, 7.336:500 milhas (3.155:760 leguas) por
anno, velocidade igual  dos pontos do equador no movimento de rotao
do globo. Gastaria portanto 11 dias para ir  Lua, 12 annos para chegar
ao Sol, 360 annos para alcanar Neptuno, situado no extremo limite do
mundo solar. Eis o que fazia to modesta bala, producto de mos humanas!
Que ser quando vintuplicando-lhe a velocidade, a arremessarmos com a
velocidade de 7 milhas por segundo! Ah! soberba bala! esplendido
projectil! Exulto em acreditar que has de ser recebida l em cima com
todas as honras devidas a um embaixador terrestre!

Com repetidos hurrahs applaudiram os auditores esta altisonante
perorao, e J.-T. Maston sentou-se extremamente commovido e recebendo
felicitaes de todos os collegas.

E agora, disse Barbicane, que j demos largas  poesia, atiremo-nos
directamente ao assumpto.

--Estamos promptos, responderam os membros da commisso, absorvendo ao
mesmo tempo meia duzia de sandwiches por cabea.

--J tendes conhecimento do problema que temos de resolver, continuou o
presidente; trata-se de imprimir a um projectil uma velocidade de 12:000
jardas por segundo.

Tenho rases para acreditar que havemos de conseguir bom resultado.
Mas, por agora, limitemo-nos a examinar as velocidades obtidas at hoje;
o general Morgan pde instruir-nos cabalmente a este respeito.

--E com tanta maior facilidade, respondeu o general, que, durante a
guerra, fui eu membro da commisso de experiencias. Dir-vos-hei, pois,
que os canhes de cem de Dahlgreen, cujo alcance era de 2:500 toezas,
imprimiam ao projectil respectivo a velocidade inicial de 500 jardas por
segundo.

--Bem. E a Columbiada[35] Rodman, perguntou o presidente?

--A Columbiada Rodman, ensaiada no forte de Hamilton, proximo a New
York, arremessava uma bala, que tinha de peso meia tonelada,  distancia
de 6 milhas, com a velocidade de 800 jardas por segundo, resultado este
a que nunca chegaram, nem Armstrong, nem Palisser, em Inglaterra.

--Oh! os inglezes! murmurou J.-T. Maston, apontando para o horisonte
leste com o temivel gancho.

So portanto essas 800 jardas o _maximum_ de velocidade, proseguiu
Barbicane, que se tem podido obter at hoje?

-- verdade, respondeu Morgan.

--Todavia, replicou Maston, sempre devo dizer, que, se o meu morteiro
no tivera rebentado...

--Pois sim, mas rebentou, redarguiu Barbicane, acompanhando a resposta
com um gesto amigavel. Tomemos pois por ponto de partida a velocidade de
800 jardas. Ha de ser necessario vintuplica-la, e n'estes termos,
guardando para outra sesso o estudo dos meios proprios para produzir
tal velocidade, chamarei a vossa atteno, caros collegas, para as
dimenses que convem dar  bala.

Bem deveis imaginar que no caso presente no tratmos de projectis que
pesem quando muito meia tonelada.

--E porque? perguntou o major?

--Porque a bala que estamos discutindo, respondeu promptamente J.-T.
Maston, deve ser bastantemente volumosa para solicitar a atteno dos
habitantes da Lua, se  que l os ha.

-- verdade, redarguiu Barbicane, e tambem por outra raso ainda mais
importante.

--E qual  ella, Barbicane ? perguntou o major.

-- que no me parece bastante mandar um projectil  Lua, e ficar s
n'isso; julgo necessario que o acompanhemos durante a viagem e at ao
momento de bater no alvo.

--O que! disseram a um tempo. O general e o major, um tanto
surprehendidos com a proposta.

--Certamente, continuou Barbicane, como quem est conscio do que diz, de
certo, e seno a nossa experiencia no produziria resultado algum.

--Mas n'esse caso, replicou o major, haveis de dar ao projectil
dimenses enormes?

--Nada. Ora tende a bondade de ouvir-me. Sabeis todos que os
instrumentos de optica tem alcanado um elevado grau de perfeio; com
certos telescopios tem-se conseguido obter augmentos de seis mil por um
e trazer assim a Lua  distancia proximamente de 40 milhas (16 leguas).
Ora a esta distancia so distinctamente visiveis os objectos que tem 60
ps de lado. E se no se tem levado mais longe o poder de augmento dos
telescopios  que a amplificao cresce na raso inversa da clareza, e
porque a Lua, que no  seno um espelho de reflexo, no emitte luz
bastante intensa para que possa admittir amplificaes que vo alem do
limite que indiquei.

--E ento! que fazer? perguntou o general. Haveis de dar ao vosso
projectil 60 ps de diametro?

--Certamente que no!

--Tereis ento de tornar a Lua mais luminosa?

--Justamente.

--Isso l me parece muito! exclamou J.-T. Maston.

-- muito  verdade, mas muito simples, respondeu Barbicane. Com effeito
se eu conseguir que diminua a espessura da atmosphera que a luz da Lua
atravessa, acaso no terei tornado essa luz mais intensa!

--Evidentemente.

--Pois bem! Para obter tal resultado bastar-me-ha estabelecer um
telescopio em alguma montanha elevada. E  o que havemos de fazer.

--Basta, rendo-me, respondeu o major. Tendes uma tal maneira de
simplificar as cousas!

--E que amplificao esperaes obter por tal expediente?

--Uma amplificao de quarenta e oito mil por um, que ha de trazer-nos a
Lua a cinco milhas de distancia. N'esta hypothese bastar que qualquer
objecto tenha nove ps de lado para que seja perfeitamente visivel.

--Perfeitamente! exclamou J.-T. Maston, o nosso projectil ha de portanto
ter nove ps de diametro?

--Nem mais nem menos.

--Todavia, permittam-me que lhes diga, redarguiu o major Elphiston, que
ainda assim o projectil ha de ter um peso tal que...

--Oh! major, respondeu Barbicane, antes que discutamos o peso do
projectil consenti que vos diga que nossos paes faziam n'este genero
cousas realmente maravilhosas. Longe de mim a ida de affirmar que a
balistica no tem progredido, mas bom  que se saiba que j na idade
media se obtinham resultados surprehendentes; ousarei at acrescentar,
mais para surprehender que os que ns hoje alcanmos.

--Ora essa! replicou Morgan.

--Justificae o que affirmaes, exclamou com vehemencia J.-T. Maston.

--Nada mais facil, respondeu Barbicane; sobram-me os exemplos para
apoiar o que asseverei. Assim, no assedio de Constantinopla por Mahomet
II, em 1543, lanaram-se balas de pedra que pesavam mil e novecentas
libras, e que deviam ser de bonito tamanho.

--Oh! oh! disse o major, mil e novecentas libras,  j um algarismo
elevado!

--Em Malta, no tempo dos cavalleiros, um certo canho do forte de
Sant'Elmo arremessava projectis que pesavam duas mil e quinhentas
libras.

--Parece impossivel!

--Finalmente, segundo diz um historiador francez, no reinado de Luiz XI,
havia um morteiro que lanava bombas do peso smente de quinhentas
libras; em compensao estas bombas, partindo da Bastilha, logar onde os
loucos encarceravam os de espirito so, iam cahir em Charenton, logar
onde os de espirito so encarceravam os loucos.

--Muito bem! disse J.-T. Maston.

--E depois do que acabo de relatar, em summa, que temos visto? Os
canhes de Armstrong que arremessam balas de quinhentas libras, e as
Columbiadas Rodman projectis de meia tonelada! O que parece, portanto, 
que se os projectis ganharam em velocidade, perderam pelo menos em peso.
Se dirigirmos pois n'este sentido os nossos esforos, havemos de
conseguir, com o auxilio dos progressos da sciencia decuplicar o peso
das balas de Mahomet II e dos cavalleiros de Malta.

--Evidente, respondeu o major, mas que metal pensaes em empregar para
compor o projectil.

--Ferro fundido, nada mais, disse o general Morgan.

--Ora! ferro fundido! exclamou J.-T. Maston com profundo desdem,  cousa
bem ordinaria para fabricar uma bala destinada a ir  Lua.

--Nada de exageraes, honrado amigo, respondeu Morgan; ferro  quanto
basta.

--E ento! replicou o major Elphiston; olhem que sendo o peso da bala
proporcional ao seu volume, uma bala de ferro fundido que tenha nove ps
de diametro ha de ainda ter um tal peso que mette medo!

--Assim ser, se for massia, mas no se for oca, disse Barbicane.

--Oca! ento  um obuz?

--Onde podem metter-se correspondencias, replicou J.-T. Maston, e
amostras das produces terrestres!

--Sim, um obuz, respondeu Barbicane, assim  absolutamente necessario;
uma bala massia de cento e oito pollegadas pesaria mais de duzentas mil
libras, peso evidentemente excessivo; todavia como julgo necessario
guardar as condies de estabilidade na construco do projectil,
proponho que se lhe d o peso de cinco mil libras.

--Qual ha de ser ento a grossura das paredes? perguntou o major.

--Se nos cingirmos  proporo indicada nos regulamentos, continuou
Morgan, ao diametro de cento e oito pollegadas correspondem paredes de
dois ps de espessura, pelo menos.

--Seriam grossas de mais, respondeu Barbicane; notem bem, que se no
trata aqui de uma bala fabricada para furar couraas; basta que a bala
tenha paredes sufficientemente fortes para resistir  presso dos gazes
da polvora.

O problema portanto  este: qual  a espessura que deve ter um obuz de
ferro fundido para que no pese mais de vinte mil libras?

O nosso habil calculador e bom amigo Maston no-lo dir sem demora.

--Muito facilmente, replicou o honrado secretario da commisso.

E quando tal dizia ia j traando no papel algumas formulas algebricas;
viram-se-lhe sair dos bicos da pena [Grego: p] e _x_ elevados ao
quadrado. Pareceu at que, sem lhe pr a mo, extrahia, uma certa raiz
cubica, e disse:

As paredes ho de ter apenas duas pollegadas de grossura.

--E ser bastante? perguntou o major, com ares de quem duvida.

--No, respondeu o presidente Barbicane,  claro que no.

--E ento! que se ha de fazer? continuou Elphiston com ares de grande
irresoluo.

--Servir-se de outro metal e no do ferro fundido.

--Do cobre? disse Morgan.

--Nada, o cobre ainda  pesado demais, e tenho para vos propor cousa
melhor.

--Ento que ? disse o major.

--O aluminium, respondeu Barbicane.

--Aluminium! exclamaram os tres collegas do presidente.

--Certamente amigos meus. Sabeis que um illustre chimico francez,
Henry-Sainte-Claire-Deville, conseguiu em 1854 obter o aluminium em
massa compacta. Ora este precioso metal tem a brancura da prata, a
inalterabilidade do oiro, a tenacidade do ferro, a fusibilidade do cobre
e  leve como vidro; modela-se com facilidade, est espalhado com
profuso na natureza, visto como a alumina  base da maior parte das
rochas,  tres vezes mais leve que o ferro, e parece ter sido
expressamente creado para fornecer-nos materia para o nosso projectil.

--Hurrah pelo aluminium! exclamou o secretario da commisso, sempre
extremamente ruidoso nos momentos de enthusiasmo.

--Mas, caro presidente, disse o major, no ser extremamente elevado o
preo do aluminium?

--Assim era, respondeu Barbicane; nos primeiros tempos depois que foi
descoberto, custava a libra do aluminium entre duzentos e sessenta e
duzentos e oitenta dollars (approximadamente 1.500 francos[36]); depois
desceu a vinte e sete dollars (150 francos), e hoje finalmente, est a
nove dollars (48 francos e 75 centesimos).

--Mas a nove dollars por libra, replicou o major, que no cedia 
primeira, vem a dar ainda um preo enorme!

--Sem duvida, caro major, mas no inaccessivel.

--E, n'esse caso, qual ha de ser o peso do projectil? perguntou Morgan.

--O resultado dos meus calculos  o seguinte, respondeu Barbicane: uma
bala de cento e oito pollegadas de diametro e de doze pollegadas de
espessura[37], pesaria, no caso de ser de ferro fundido, sessenta e sete
mil quatrocentas e quarenta libras; sendo de aluminium fundido, o seu
peso ficar reduzido a dezanove mil duzentas e cincoenta libras.

--Muito bem! exclamou Maston, isso agora j cabe no nosso programma.

--Muito bem! Muito bem! Mas acaso ignoraes, que a dezoito dollars por
libra, esse projectil havia de custar-nos...

--Cento e setenta e tres mil duzentos e cincoenta dollars (928:437
francos e 50 centesimos), sei-o muito bem; mas no se assustem amigos,
no ha de faltar dinheiro para a realisao do nosso projecto; por isso
respondo eu.

--Ha de chover dinheiro nos nossos cofres, replicou J.-T. Maston.

--Ento! que me dizem ao aluminium! perguntou o presidente.

--Est adoptado, responderam os tres membros da commisso.

--Quanto  frma da bala, proseguiu Barbicane, pouca importancia tem,
visto como, logo que o projectil passe para alem da atmosphera, ha de
achar-se no vacuo, proponho portanto, que seja redonda, para que gire
sobre si mesmo, se o julgar conveniente, ou se porte como melhor lhe
ditar a phantasia.

Foi este o fecho da primeira sesso da commisso; ficou definitivamente
resolvida a questo do projectil, e J.-T. Maston exultou com a ida de
mandar aos Selenitas uma Bala de aluminium que havia dar-lhes a
entender que os habitantes c da Terra eram uns pimpes!




CAPITULO VIII

HISTORIA DO CANHO


As resolues tomadas na primeira sesso produziram grandissimo effeito
no publico. Algum mais timorato l se assustava com a ida da bala que
havia de pesar vinte mil libras. Punha-se em duvida se poderia
construir-se canho capaz de transmittir velocidade inicial bastante a
uma massa d'aquella ordem.

A acta da segunda sesso da commisso devia responder triumphantemente a
todas aquellas duvidas.

No dia seguinte ao cair da noite abancaram em volta da mesa os quatro
membros do Gun-Club defrontando com novas montanhas de sandwiches que
marginavam um verdadeiro oceano de ch. Atou-se o fio  discusso, e
d'esta vez sem preambulo.

Caros collegas, disse Barbicane, vamos occupar-nos do machinismo que ha
a construir, estudando-lhe o comprimento, a frma, a composio e o
peso.  provavel que havemos de concluir dando-lhe dimenses
gigantescas; mas, por maiores que sejam as difficuldades, o engenho
industrial dos americanos ha de vence-las com facilidade. Queiram
portanto ouvir-me, e no me poupem, venham objeces  queima roupa, que
as no temo!

Estas palavras foram recebidas com um grunhido de approvao.

No esqueamos, proseguiu Barbicane, a altura a que fomos levados
hontem pela discusso: apresenta-se-nos agora o problema nos seguintes
termos: imprimir a um obuz de cento e oito pollegadas de diametro, e que
pesa vinte mil libras a velocidade inicial de doze mil jardas por
segundo.

Com effeito,  exactamente esse o problema, respondeu o major Elphiston.

Prosigamos, tornou Barbicane. Que factos se passam, quando um projectil
 arremessado ao espao? Tres foras independentes o solicitam, a
resistencia do meio, a attraco da Terra, e a fora de impulso que lhe
imprimiram. Examinemos estas tres foras. A resistencia do meio, que
aqui  a resistencia do ar, ha de ser de pouca importancia; porque a
atmosphera terrestre no tem mais de quarenta milhas (16 leguas
proximamente) de altura. Ora, com a rapidez de doze mil jardas, o
projectil ha de atravessa-la em cinco segundos, tempo bastantemente
curto para que a resistencia do meio possa ser considerada
insignificante. Passemos  attraco da Terra, ou o que vale o mesmo 
aco da gravidade sobre o obuz.

Sabemos que o peso d'este ha de decrescer na raso inversa do quadrado
das distancias. Effectivamente ensina-nos a physica o seguinte: quando
um corpo abandonado a si proprio ce  superfcie da Terra, desce quinze
ps[38], e se o mesmo corpo fosse transportado para a distancia de
duzentos e cincoenta e sete mil quinhentas e quarenta e duas milhas, ou
o que  mesmo,  distancia a que est a Lua, o seu descenso ficaria
reduzido a meia linha, proximamente, no primeiro segundo. Quasi que  a
immobilidade. Trata-se portanto de vencer progressivamente a aco da
gravidade. E como havemos de consegui-lo? Pela fora de impulso.

--Ahi  que est a difficuldade, respondeu o major.

--Ahi est, na verdade, continuou o presidente, mas havemos de
supera-la, porque a fora de impulso de que havemos mister ha de
resultar do comprimento do machinismo e da quantidade de polvora que
empregarmos, e a verdade  que esta no tem mais limitao do que a
resistencia d'aquelle.

Tratemos pois hoje das dimenses que havemos de dar ao canho. Bem
entendido est que podemos estabelece-lo em condies de resistencia,
por assim dizer, infinita, visto como com tal canho no ha a fazer
manobras.

--Tudo isso  evidente, respondeu o general.

--At agora, disse Barbicane, os canhes de maior comprimento, as nossas
enormes Columbiadas, nunca excederam o comprimento de vinte e cinco ps,
e portanto a muita gente ho de causar espanto as dimenses que havemos
de ser forados a adoptar.

--Eh! indubitavelmente, exclamou J.-T. Maston; pela minha parte no me
contento com menos de meia milha de comprimento, para o canho!

--Meia milha! exclamaram o major e o general.

--Meia milha sim! e talvez devesse dizer o dobro.

--Ora vamos, Maston, isso  exagerao.

--Certamente que no, replicou o effervescente secretario, nem percebo,
na realidade, por que me accusaes de exagero.

--Porque ides longe de mais!

--Sabei, senhor, respondeu J.-T. Maston, assumindo os seus mais
imponentes ademanes, sabei que o artilheiro  como a bala, que nunca vae
longe de mais!

a a discusso tomando caracter de personalidade, mas o presidente
interveiu.

--Soceguem, amigos, e raciocinemos; evidentemente ha de ser necessario
um canho de grande tamanho, visto como o comprimento da pea ha de
augmentar a fora expulsiva dos gazes accumulados sob o projectil; mas 
inutil ir alem de certos limites.

--Muito bem, disse o major.

--Quaes so as regras applicaveis ao caso? De ordinario o comprimento do
canho  igual a vinte at vinte e cinco vezes o diametro da bala, e
pesa o canho duzentas e trinta e cinco a duzentos e quarenta vezes o
peso d'esta.

--No  bastante, clamou impetuoso, J.-T. Maston.

--Convenho n'isso, meu digno amigo, e, na realidade, se nos cingirmos 
proporo apontada, para um projectil de 9 ps de largura e de 30:000
libras de peso, no ter o machinismo mais do que 225 ps de comprimento
e de 7.200:000 libras de peso.

-- ridiculo, redarguiu J.-T. Maston. Tanto vale usar de uma pistola!

--Tambem penso assim, respondeu Barbicane, e  por isso que tenho teno
de quadruplicar esse comprimento, e de construir um canho de 900 ps de
comprido.

O general e o major apresentaram algumas objeces, entretanto a
proposta sustentada com animao pelo secretario do Gun-Club foi a final
definitivamente adoptada.

Decidido este ponto, disse Elphiston, que espessura havemos de dar s
paredes?

--Seis ps, respondeu Barbicane.

--De certo que no imaginaes collocar uma massa d'essa ordem em cima de
um reparo? perguntou o major.

--Isso  que havia de ser soberbo! disse J.-T. Maston.

--Mas impraticavel, respondeu Barbicane. Nada, penso que o machinismo
deve ser moldado mesmo no solo, guarnecido de arcos de ferro forjado, e
apertado n'uma obra bem espessa e solida de pedra e cal, por forma que
adquira toda a resistencia do terreno circumdante. Depois de fundida a
pea ha de se lhe brocar, calibrar e polir a alma com extremo cuidado,
para evitar que exista o vento[39] da bala.

[Figura: Vista ideal do canho de J.-T. Maston (pag. 70).]

Por esta frma no ha de haver perda alguma de gazes e a fora expansiva
da polvora transformar-se-ha toda em impulso.

[Figura: O monge Schwartz inventando a polvora (pag. 77).]

--Hurrah! hurrah! clamou J.-T. Maston, j temos canho.

--Ainda no! respondeu Barbicane, acalmando com o gesto a impaciencia do
amigo.

--E porque no?

--Porque ainda lhe no discutimos a frma. Ha de ser canho, obuz ou
morteiro?

--Canho, replicou Morgan.

--Obuz, redarguiu o major.

--Morteiro, clamou J.-T. Maston.

Nova e vehemente discusso ia encetar-se; cada qual preconisava j a sua
arma favorita, quando o presidente a interrompeu de prompto, dizendo:

Meus amigos, vou p-los a todos de accordo; a nossa columbiada ha de
ter alguma cousa de cada uma das tres bcas de fogo indicadas. Ha de ser
canho, por ter a camara da polvora de diametro igual ao da alma. Obuz,
porque ha de arremessar obuzes. Finalmente ser morteiro, visto como ha
de ser apontada por um angulo de 90^o, e que, sem poder recuar,
inabalavelmente ligada ao solo, communicar ao projectil toda a potencia
de impulso que se lhe accumular no ventre.

--Adoptado, adoptado, conclamaram os membros da commisso.

--Permittam-me uma simples reflexo, disse Elphiston, ha de ser raiado
esse canh-obuz-morteiro?

--No, respondeu Barbicane, no; precismos de uma enorme velocidade
inicial, e sabeis muito bem que as balas sem menos velozes dos canhes
raiados do que dos canhes de alma lisa.

-- exacto.

--At que emfim d'esta vez  que j temos canho! repetiu J.-T. Maston.

--Ainda no  tanto assim, replicou o presidente.

--Ento porque?

--Porque ainda no sabemos de que metal ha de ser feito.

--Decida-se isso sem demora.

--Era o que eu ia propor-vos.

Cada um dos membros da commisso foi engulindo a sua duzia de sandwiches
acompanhadas de um bule de ch, depois recomeou a discusso.

Meus bons collegas, disse Barbicane, o nosso canho deve ter grande
tenacidade e grande dureza, e ser infusivel pelo calor, insoluvel e
inoxydavel pela aco corrosiva dos acidos.

--Isso no tem duvida alguma, respondeu o major, e como ha de ser
necessario empregar uma quantidade consideravel de metal, no havemos de
hesitar muito na escolha.

N'esse caso, disse Morgan, proponho para a fabricao da columbiada a
melhor das ligas que  conhecida at hoje, isto , cem partes de cobre,
doze de estanho e seis de lato.

--Meus amigos, respondeu o presidente, confesso que esta composio tem
dado excellentes resultados; mas para o nosso caso, custaria
excessivamente cara, e difficilmente poderiamos emprega-la.

Cuido portanto que devemos adoptar uma materia excellente, e de baixo
preo, tal como o ferro fundido.

No ser esta a vossa opinio, major?

--Exactamente, respondeu Elphiston.

--Com effeito, proseguiu Barbicane, o ferro fundido, custa dez vezes
mais barato que o bronze,  de facil fuso, molda-se com simplicidade em
moldes de areia, manipula-se com rapidez; d pois simultaneamente
economia de tempo e de dinheiro. Alem d'isto esta materia  excellente,
e bem me recordo de que, durante a guerra, no crco de Atlanta, algumas
peas de ferro fundido atiraram cada uma mil tiros de vinte em vinte
minutos, sem que por isso soffressem alterao.

--Todavia, o ferro fundido  muito quebradio, respondeu Morgan.

-- verdade, mas tambem  muito resistente, e de mais asseguro-vos que
no havemos de rebentar, por isso respondo eu.

--Rebentar no  deshonra, replicou em ar de sentena J.-T. Maston.

--Est claro, respondeu Barbicane. Pedirei portanto ao nosso digno
secretario que nos calcule o peso de um canho de ferro fundido, de
novecentos ps de comprimento e com um diametro interior de nove ps, e
com as paredes de seis ps de espessura.

--N'um instante, respondeu J.-T. Maston.

E, assim como fizera na vespera, escrevinhou umas formulas, com
facilidade de pasmar, e disse passado um minuto.

Esse canho ha de pesar sessenta e oito mil e quarenta toneladas
(68.040:000 kilogrammas).

--E a dois centesimos[40] (10 centimos) por libra, ha de custar?...

--Dois milhes quinhentos e dez mil setecentos e um dollars (13.608:000
francos).

J.-T. Maston, o major e o general olharam para Barbicane com ar de
inquietao.

E ento! Repito-lhes, senhores, o que j lhes disse hontem, estejam
descansados, que os milhes no nos ho de faltar.

Seguros na palavra do seu presidente, separaram-se os membros da
commisso, depois de terem combinado para o dia seguinte a terceira
sesso.




CAPITULO IX

QUESTO DA POLVORA


S faltava tratar da questo da polvora. Esperava o publico com
anciedade esta deciso final. Dados o volume do projectil e o
comprimento do canho, qual seria a quantidade de polvora necessaria
para produzir a impulso? Aquelle agente temivel, de que o homem,
todavia conseguiu dominar e dirigir os effeitos, ia ser chamado a
desempenhar o seu papel habitual, mas em propores nunca usadas.

 geralmente acreditado, e diz-se vulgarmente, que a polvora foi
inventada no seculo XIV, pelo monge Schwartz, que pagou com a vida a
grande descoberta que fizera. Mas na actualidade quasi que se pde dar
como provado que esta historia merece ser classificada a par de muitas
outras lendas da idade media. A polvora ninguem a inventou, deriva
directamente dos fogos gregos, como ella compostos de enxofre e de
salitre. A differena  que os mixtos que em tempos remotos davam apenas
polvora de foguete transformaram-se, com o decorrer dos tempos, em
mixtos detonantes ou polvoras de tiro. Porm se os eruditos conhecem
perfeitamente a imaginaria historia da inveno da polvora, pouca gente
ha que saiba devidamente apreciar a sua potencia mechanica, que 
exactamente o que  necessario saber para comprehender a importancia do
assumpto sujeito  commisso.

Um litro de polvora pesa, proximamente, duas libras (900 grammas)[41], e
produz quando se inflamma quatrocentos litros de gazes; estes gazes, em
liberdade, e sob a aco de uma temperatura elevada at dois mil e
quatrocentos graus, occupam um espao equivalente a quatro mil litros.

Portanto o volume da polvora em gro est para o volume dos gazes
produzidos pela sua deflagrao, assim como um est para quatro mil.
Avalie-se por isto a espantosa impulso que ho de produzir estes gazes,
quando comprimidos n'um espao quatro mil vezes mais apertado do que o
que naturalmente haviam de occupar.

Isto tudo sabiam, e perfeitamente, os membros da commisso quando no dia
seguinte abriram a sesso. Barbicane concedeu a palavra ao major
Elphiston, que tinha sido director das fabricas de polvora no tempo da
guerra.

Caros camaradas, disse aquelle notavel chimico, vou comear pela
citao de algarismos irrecusaveis que ho de ser a base dos nossos
calculos. A bala de vinte e quatro, de que em termos to poeticos nos
fallou antes de hontem o honrado J.-T. Maston,  expellida da bca de
fogo apenas por dezeseis libras de polvora.

--Estaes seguro d'esse algarismo? Perguntou Barbicane.

--Absolutamente seguro, respondeu o major. O canho Armstrong carrega-se
s com setenta e cinco libras de polvora para um projectil de oitocentas
libras de peso, e a columbiada de Rodman no gasta mais de sessenta
libras de polvora para arremessar a seis milhas de distancia a sua bala
de meia tonelada. So factos que no podem ter contestao, porque eu
proprio tomei nota d'elles nas actas da commisso de artilheria.

--Muito bem, respondeu o general.

--Ora pois! proseguiu o major, a consequencia que devemos tirar d'estes
dados  a seguinte: que a quantidade de polvora no augmenta na
proporo do peso da bala; e, na verdade, so necessarias dezeseis
libras de polvora para uma bala de vinte e quatro; por outras palavras,
gastam-se nos canhes ordinarios quantidades de polvora que pesam um
tero do peso da bala, mas a proporcionalidade no  constante. Se
fizessemos o calculo, haviamos de reconhecer que para a bala de meia
tonelada, o peso da polvora necessaria, que se reduz a sessenta libras
apenas, seria, segundo a proporo, de trezentas e trinta e tres libras.

--E a que concluso quereis por ahi chegar? Perguntou o presidente.

Levando essa theoria at aos seus ultimos limites, meu caro major, disse
J.-T. Maston, haveis de chegar  seguinte concluso final: que, se pde
dispensar a polvora, toda a vez que a bala exceda um certo peso.

--O nosso Maston  sempre faceto, mesmo quando se trata de cousas
serias, mas esteja descansado que lhe hei de propor quantidades de
polvora, capazes de lisonjear o seu amor proprio de artilheiro. O que eu
pretendo que fique claramente estabelecido,  que, no tempo da guerra, o
peso da polvora foi, por experiencia, reduzido para os maiores canhes 
decima parte do peso da bala.

--Nada ha mais verdadeiro, disse Morgan. Lembro entretanto, que ser
conveniente que accordemos cerca da natureza da polvora, antes de
decidir qual  a quantidade d'ella necessaria para a impulso calculada.

--Havemos de usar da polvora bombardeira, respondeu o major, porque a
combusto total d'esta  mais rapida que a da polvora miuda.

-- verdade, replicou Morgan, mas  muito quebradia, e no fim de tempos
vem a deteriorar a alma das peas.

--Ora! isso poderia ser um inconveniente para qualquer canho destinado
a fazer longos servios, mas para a nossa columbiada no. Perigo de
exploso no temos ns que temer, o que  essencial  que a polvora se
inflamme instantaneamente, para que o seu effeito mechanico seja
completo.

--Talvez se podesse abrir na pea mais de um ouvido, disse J.-T. Maston,
e assim dar fogo em muitos pontos simultaneamente.

--Pois sim, respondeu Elphiston, mas isso iria difficultar a manobra.
Insisto portanto na minha bombardeira, que evita essas difficuldades.

--V, respondeu o general.

[Figura: O capito Nicholl (pag. 78).]

--Rodman, proseguiu o major, usava para carregar a sua columbiada de uma
polvora, cujos gros eram do tamanho de uma castanha, e fabricada com
carvo de salgueiro mal torrado em caldeiras de ferro fundido. Esta
polvora era dura e luzidia, e incendiando-se na mo no deixava
vestigios; continha hydrogenio e oxygenio em grandes propores, ardia
instantaneamente, e, apesar de ser muito quebradia, no deteriorava
sensivelmente as bcas de fogo.

[Figura: Nicholl publicou grande numero do cartas (pag. 91).]

--Em vista d'isso, respondeu J.-T. Maston, parece-me que no ha que
hesitar, e que a escolha est de per si feita.

--A no ser que deis preferencia ao oiro _pulverisado_, replicou rindo,
o major, riso que o susceptivel secretario pagou com um gesto ameaador
do seu gancho.

Barbicane conservra-se at aquelle momento estranho  discusso.
Deixava fallar e ouvia. Era evidente que tinha o juizo formado cerca do
assumpto. Por isso limitou-se a dizer o seguinte:

Em concluso, meus amigos, que quantidade de polvora, reputaes
necessaria?

Entre-olharam-se por um momento os tres socios do Gun-Club.

Duzentas mil libras, disse por fim Morgan.

--Quinhentas mil, replicou o major.

--Oitocentas mil! exclamou J.-T. Maston.

D'esta vez no se atreveu Elphiston a alcunhar o collega de exagerado. E
com raso, que se tratava de arremessar  Lua um projectil de vinte mil
libras de peso, e de communicar a este uma fora inicial de doze mil
jardas por segundo. Seguiu-se portanto um momento de silencio  triplice
proposta feita pelos tres collegas.

Quebrou-o finalmente o presidente Barbicane.

Estimaveis camaradas, disse este com voz placida, parto eu do
principio, que a resistencia do nosso canho, construido nas condies
requeridas,  illimitada. Portanto vou causar surpreza ao honrado J.-T.
Maston, affirmando-lhe que ainda foi timido nos seus calculos, e
proponho que sejam duplicadas as oitocentas mil libras de polvora em que
fallou.

--Um milho e seiscentas mil libras? disse J.-T. Maston, dando um salto
na cadeira.

--Nada menos.

--Mas, n'esse caso, voltmos ao meu canho de meia milha de comprimento.

-- claro, disse o major.

--Um milho e seiscentas mil libras de polvora, continuou o secretario
da commisso, ho de occupar um espao igual a vinte e dois mil ps
cubicos[42] approximadamente; e como o canho em que accordastes tem um
volume interno apenas igual a cincoenta e quatro mil ps cubicos[43], ha
de ficar cheio at quasi ao meio, sendo por esta forma a alma pequena,
para que a fora expulsiva dos gazes imprima ao projectil impulso
bastante.

Isto no tinha replica. O que J.-T. Maston dizia era a pura verdade.
Voltaram-se todos para Barbicane.

Apesar de tudo, tornou o presidente, insisto na quantidade de polvora
que indiquei. Reflecti que um milho e seiscentas mil libras de polvora
ho de transformar-se em seis milhares de milhes de litros de gazes.
Ouviram bem? Seis milhares de milhes!

--Mas ento o que se ha de fazer? perguntou o general.

-- muito facil; havemos de reduzir o volume d'esta enorme quantidade de
polvora, sem lhe diminuir por frma alguma a potencia mechanica.

--Bem! Mas por que meio?

-- o que vou dizer-vos, respondeu sem nenhum entono Barbicane.

Os interlocutores devoravam-n'o com o olhar.

Com effeito, continuou elle, nada  mais facil do que reduzir essa
massa de polvora a um volume quatro vezes menor. Todos tendes
conhecimento d'essa curiosa substancia que constitue os tecidos
elementares dos vegetaes e que se chama cellulose.

--Ah! interrompeu o major. Comeo a comprehender, meu caro Barbicane.

--Essa substancia, disse o presidente, extrahe-se no estado de perfeita
pureza de diversos corpos, e principalmente do algodo, que no  seno
a penugem das sementes do algodoeiro. Ora o algodo, combinado a frio
com o acido azotico, transforma-se em uma substancia eminentemente
insoluvel, eminentemente combustivel e eminentemente explosiva.
Descobriu esta substancia ha j annos, em 1832, o chimico francez
Braconnot, e poz-lhe o nome de xyloidina. Em 1838 outro francez,
Pelouze, estudou-lhe as differentes propriedades; e finalmente em 1846,
Shonbein, professor de chimica em Ble, propo-la para polvora de guerra.
Esta polvora  o algodo azotico.

--Ou pyroxylo, respondeu Elphiston.

--Ou algodo-polvora, respondeu Morgan.

--Pois no haver um nome de americano que se possa escrever ao lado
d'essa descoberta? exclamou J.-T. Maston, movido por vivo sentimento de
amor proprio nacional.

--Infelizmente nem um s, respondeu o major.

--Apesar d'isso, continuou o presidente, por dar prazer a Maston, sempre
lhe direi que pde estabelecer-se proxima relao entre os trabalhos de
um nosso concidado e o estudo da cellulose; porque o collodion, que 
um dos agentes principaes da photographia, no  seno pyroxylo
dissolvido em ether misturado com alcool, e o collodion foi descoberto
por Maynard, que era ento estudante de medicina em Boston[44].

--Pois ento, hurrah! por Maynard e pelo algodo-polvora! exclamou o
ruidoso secretario do Gun-Club.

--Voltemos ao pyroxylo, proseguiu Barbicane. Conheceis-lhe j as
propriedades que no-lo vo tornar precioso: prepara-se com extrema
facilidade:  mergulhar algodo no acido azotico fumegante durante
quinze minutos, lava-lo depois em grande quantidade de agua, secca-lo e
nada mais.

-- na realidade extremamente simples, disse Morgan.

--Alem d'isto o pyroxylo  inalteravel pela humidade, qualidade que
devemos reputar preciosa, visto como ho de ser necessarios muitos dias
para carregar o nosso canho;  inflammavel a cento e setenta graus
centigrados, em vez de duzentos e quarenta, e arde to subitamente, que
pde ser queimado em cima de polvora vulgar, sem que esta tenha tempo de
inflammar-se.

--Perfeitamente, respondeu o major.

--Tem s um inconveniente:  caro.

--Isso que importa? interrompeu J.-T. Maston.

--Em concluso; communica aos projectis velocidade quatro vezes maior
que a da polvora. Acrescentarei ainda que, misturado com oito decimos do
seu peso de nitrato de potassa, lhe augmenta a potencia explosiva em
proporo notavel.

--E ser necessario faze-lo? perguntou o major.

--Creio que no, respondeu Barbicane. Em concluso, em vez de um milho
e seiscentas mil libras de polvora, teremos apenas quatrocentas mil
libras de algodo-polvora, e como se podem comprimir sem perigo, em
vinte e sete ps cubicos, quinhentas libras de algodo azotico, esta
substancia vem a encher a nossa columbiada smente at  altura de
trinta toezas. Por esta maneira ter a bala a percorrer mais de
setecentos ps de alma do canho, sob a aco do esforo de seis
milhares de milhes de litros de gazes antes de voar em liberdade para o
astro das noites.

Ao ouvir o final d'este periodo no pde, de commovido, conter-se J.-T.
Maston; lanou-se nos braos do amigo com vehemencia de projectil;
mettia-lhe as costellas dentro, se a solida construco de Barbicane no
estivera  prova de bomba.

Terminou com este incidente a terceira sesso da commisso. Barbicane e
os seus audazes collegas, a quem nada parecia impossivel, tinham acabado
de resolver o problema to complexo do projectil, do canho e das
polvoras. Elaborado o plano, restava a execuo.

Insignificantes pormenores, bagatella, lhe chamava J.-T. Maston.




CAPITULO X

UM INIMIGO POR VINTE E CINCO MILHES DE AMIGOS


O publico americano encontrava poderosos incentivos de curiosidade at
nos mais insignificantes pormenores do emprehendimento do Gun-Club, e
seguia passo a passo as discusses da commisso.

Os preparativos mais simples para aquella grande experiencia, as
questes de algarismos que d'ella nasciam, as difficuldades mechanicas
que havia a resolver, n'uma palavra a sua _mise en train_ eram o que
preoccupava em grau elevadissimo a opinio.

Mais de um anno havia de decorrer ainda entre o comeo e o termo final
dos trabalhos preparatorios; mas este intervallo de tempo no havia de
ser esteril em emoes; a escolha de logares para a perfurao, a
construco do molde, a fundio da columbiada e o perigosissimo
carregamento d'ella, tudo era mais que sufficiente para excitar a
curiosidade publica.

O projectil, apenas expellido, havia de escapar em poucos decimos de
segundo ao alcance da vista; depois para poucos privilegiados era verem
com os proprios olhos o que lhe havia de succeder, como se haveria
atravs do espao, e por que frma havia de alcanar a Lua. Por este
motivo  que os preparativos para a experiencia e os exactos pormenores
da execuo eram, para a maioria, a parte verdadeiramente interessante
d'ella.

E todavia o attractivo puramente scientifico do emprehendimento recebeu
de um subito incidente novo incitamento.

J dissemos de quo numerosas legies de admiradores e amigos tinha o
projecto Barbicane trazido a adheso ao seu auctor, e comtudo por mais
honrosa e extraordinaria que fosse, aquella maioria no tinha de ter
unanimidade. Um s homem, um s em todos os Estados da Unio, lavrou
protesto contra a tentativa do Gun-Club, que atacou com violencia sempre
que se lhe proporcionou para isso occasio; e, tal  a natureza humana,
que para Barbicane valeu mais aquella opposio de um s do que os
applausos de todos os outros.

Apesar de que Barbicane bem conhecia quaes os motivos de tal antipathia,
e d'onde vinha aquella solitaria inimizade, que era pessoal e de antiga
data, e finalmente em que rivalidades de amor proprio crera raizes.

Aquelle perseverante inimigo, nunca o presidente do Gun-Club o tinha
visto. E felizmente, porque o encontro d'aquelles dois homens havia por
certo de trazer consequencias funestas.

Aquelle rival era, como Barbicane, um homem de sciencia, natureza
altiva, audaz, convicta e violenta, um yankee puro. Chamavam-lhe o
capito Nicholl, e habitava em Philadelphia.

Ninguem desconhece a curiosa luta que durante a guerra federal se travou
entre o projectil e a couraa dos navios blindados; aquelle tinha por
fito especial varar esta; esta obstinava-se decididamente a no se
deixar varar.

D'este facto proveio uma transformao de raiz na marinha dos
differentes estados dos dois continentes.

Bala e couraa lutaram com obstinao nunca vista; crescia o volume de
uma, augmentava logo a espessura da outra, e em constante proporo.

Os navios marchavam para o fogo armados de peas formidaveis e abrigados
por invulneravel concha. Os _Merrimac_, os _Monitor_, os _Ram-Tenesse_,
os _Weckausen_[45] arremessavam enormes projectis, depois de
encouraados contra os projectis alheios. Faziam a outrem o que no
queriam que lhes fizessem, que  o principio immoral sobre que assenta
toda a arte da guerra.

Ora se Barbicane fra notavel fundidor de projectis, Nicholl no lhe
ficra a dever nada como forjador de chapas para couraas. Fundia um de
noite e de dia em Baltimore, forjava o outro de dia e de noite em
Philadelphia. Cada um d'elles seguia ordem de idas diametralmente
oppostas.

Barbicane a inventar nova bala, e Nicholl a inventar nova couraa.
Passava o presidente do Gun-Club a vida a abrir buracos, e o capito
gastava os dias da existncia a impedir-lh'o. D'aqui nasceu uma
rivalidade de todos os instantes, que dos factos foi passando s
pessoas. Apparecia Nicholl a Barbicane em sonhos sob frma de
impenetravel couraa de encontro  qual se ia fazer pedaos, Barbicane
apparecia nas vises nocturnas de Nicholl qual projectil que o varava de
lado a lado.

E comtudo, apesar de caminharem por linhas divergentes, estes homens
tinham de encontrar-se um dia, apesar de todos os axiomas da sciencia
geometrica; mas havia de ser no terreno do duello. Muito felizmente para
cidados to uteis ao seu paiz, separavam-nos boas cincoenta ou sessenta
milhas, e os amigos de ambos semearam-lhe o caminho de taes e tantos
obstaculos, que nunca conseguiram encontrar-se.

L qual dos dois inventores levava a palma ao outro,  que ninguem sabia
ao certo: os resultados obtidos tornavam difficil apreciar com justia.
No fim de contas, o que mais plausivel parecia,  que a couraa havia de
ser a primeira a ceder  bala, e todavia para os competentes ainda era
caso de duvida. Por occasio das ultimas experiencias feitas, os
projectis cylindro-conicos de Barbicane tinham ido espetar-se como
alfinetes nas couraas de Nicholl; n'esse dia reputou-se o forjador de
chapas de couraa de Philadelphia plenamente victorioso, e o mais
profundo desprezo pareceu-lhe ainda sentimento demasiadamente elevado
para pagar os merecimentos do seu rival; mas quando este, algum tempo
depois, substituiu por simples obuzes de seiscentas libras as balas
conicas, teve o capito que descer do alto pedestal das suas pretenses.
E na realidade estes projectis, aindaque animados de mediocre
velocidade[46], esmigalharam, esburacaram, fizeram voar em pedaos as
chapas de melhor metal.

Tinham as cousas chegado a estes pontos, e a todos parecia que a bala
devia ficar com a palma da victoria, quando terminou a guerra no mesmo
dia em que Nicholl dava a ultima demo a uma nova couraa de ao
forjado! No seu genero, era esta verdadeira obra prima, e capaz de
desafiar todos os projectis imaginaveis. F-la o capito transportar
para o polygono de Washington, e mandou cartel ao presidente do
Gun-Club, desafiando-o a var-la.

Barbicane, como a paz j estava feita, no quiz tentar a experiencia.
Nicholl, ento, furioso, offereceu expor a chapa que inventara ao choque
das balas mais inverosimeis, massias, cas, esphericas ou conicas.
Recusa do presidente, que decididamente no queria arriscar os louros da
ultima victoria que alcanra.

Nicholl, ainda mais estimulado por aquella inqualificavel obstinao,
quiz tentar Barbicane dando-lhe de partido todas as probabilidades
favoraveis, e propoz-lhe collocar a chapa a duzentas jardas de distancia
do canho. E Barbicane a teimar na recusa. A cem jardas? Nem a setenta e
cinco.

Pois ento a cincoenta, clamou o capito pela voz dos jornaes, ou a
vinte e cinco jardas, e ponho-me eu por detrs da minha couraa!

Barbicane mandou responder que no atiraria, nem que o capito Nicholl
se pozesse diante em vez de se pr de trs.

Ao ler esta ultima replica no pde Nicholl conter-se mais, e arrastou a
discusso para o campo das personalidades, insinuando que a cobardia era
cousa indivisivel, e que o homem que se recusa a disparar um tiro de
canho no est muito longe de ter-lhe medo, que em summa esses
artilheiros que nos tempos de agora se batem a seis milhas de distancia
substituiam prudentemente a coragem individual por formulas de
mathematicas, e que no fim de contas tanta coragem havia em esperar
placidamente uma bala detrs de uma couraa; como em arremessa-la com
todas as regras da arte.

Nem palavra respondeu Barbicane a taes insinuaes; talvez mesmo nem
d'ellas tivesse conhecimento, que lhe absorviam por ento todas as
foras do espirito os calculos previos do seu grande projecto.

Quando Barbicane realisou a famosa communicao ao Gun-Club,  que a
raiva do capito Nicholl chegou ao paroxysmo. Referviam-lhe com ella
n'alma um ciume immenso e um sentimento de impotencia absoluta! Que
havia de inventar que fosse superior quella columbiada de novecentos
ps! Qual havia de ser a couraa capaz de resistir a um projectil de
trinta mil libras!

Nos primeiros momentos ficou Nicholl aterrado, aniquilado, esmigalhado
por aquelle tiro de canho; mas depois levantou-se, e resolveu esmagar
a proposta debaixo do peso da sua argumentao.

Combateu por consequencia com grande violencia os trabalhos do Gun-Club;
publicou grande numero de cartas, de que os jornaes no recusaram a
reproduco. Tentou demolir scientificamente a obra de Barbicane, e uma
vez iniciada a guerra, serviu-se de toda a casta de argumentos, que,
fora  dize-lo, foram as mais das vezes especiosos e de baixo quilate.

O ataque a Barbicane comeou, e com summa violencia, pelas questes de
algarismos; Nicholl tentou demonstrar por A+B que eram falsas as
formulas de que se servia o presidente, e accusou-o de ignorar os
principios rudimentares da balistica. Entre outros erros de que lhe
fazia cargo, apontava-lhe a impossibilidade, demonstrada, segundo os
calculos d'elle Nicholl, de imprimir a um corpo qualquer a velocidade de
doze mil jardas por segundo; sustentou com a algebra em punho, que ainda
mesmo animado d'essa velocidade, nunca projectil de peso tal havia de ir
alem dos limites da atmosphera terrestre! Nem sequer oito leguas havia
de percorrer! Ainda mais. Dado, mas no concedido que se podesse
conseguir tal velocidade, e ainda reputada esta sufficiente, nem o obuz
poderia resistir  presso dos gazes, que se haviam de desenvolver pela
inflammao de um milho e seiscentas mil libras de polvora, nem que
resistisse a essa presso poderia supportar temperatura de tal ordem.
Havia sim de derreter-se ao sair da columbiada, e cair em chuva de fogo
por sobre os craneos dos imprudentes espectadores. Barbicane nem deu
mostras de perceber o ataque, e proseguiu na obra encetada.

[Figura: Foi necessario pr sentinellas  vista aos deputados (pag.
103).]

Nicholl ento discutiu o assumpto por outra ordem de consideraes; no
fallando j na provada inutilidade da experiencia sob todos os
respeitos, considerou-a como extremamente perigosa, quer para os
cidados que viessem auctorisar com a sua presena to condemnavel
espectaculo, quer para as cidades que ficassem proximas do deploravel
canho; fez tambem notar que se o projectil no alcanasse o alvo, o
contrario do que era alis absolutamente impossivel, evidentemente havia
de cair na Terra, e que a quda de uma massa d'aquella ordem,
multiplicada pelo quadrado da respectiva velocidade, viria a pr em
grave risco um qualquer ponto do globo: em concluso que, em
circumstancias taes, casos havia em que, sem atacar nem de leve os
direitos dos cidados livres, se tornava necessaria a interveno do
governo, poisque se no devia pr em risco a segurana de todos por dar
satisfao aos caprichos de um s.

[Figura: Abriram-se as subscripes (pag. 108).]

Do que deixmos dito se deprehende qual o grau de exagerao a que se
deixra arrastar o capito Nicholl. Da opinio que professava era o
capito sectario unico, e por conseguinte ninguem lhe ligou importancia
s agourentas prophecias. Deixaram-no gritar  vontade, e que seccasse
os bofes, j que o levava em gosto.

Fizera-se o capito defensor de uma causa de antemo perdida: ouviam-no,
mas ninguem o escutava, e nem um s admirador pde arrancar ao
presidente do Gun-Club. Este nem se deu ao trabalho de refutar os
argumentos do adversario.

Nicholl, mettido n'este beco sem sada, e sem poder ao menos arriscar o
corpo em prol da causa que defendia, resolveu arriscar ao menos o
dinheiro. Em consequencia propoz publicamente no _Enquirer_ de Richmond
uma serie de apostas em proporo ascendente, cujo quadro  o seguinte:

Apostava o capito:


     1.^o Que no chegariam a realisar-se fundos sufficientes para levar
     a effeito o emprehendimento do Gun-Club      1:000 dollars

     2.^o Que a operao de fundir um canho de novecentos ps de
     comprimento era impraticavel e no podia ter bom exito      2:000
     dollars

     3.^o Que havia de ser impossivel carregar a columbiada, e que o
     pyroxylo se havia de inflammar por si proprio s pela presso do
     projectil 3:000 dollars

     4.^o Que a columbiada havia de rebentar ao primeiro tiro      4:000
     dollars

     5.^o Que a bala no havia de percorrer nem seis milhas de
     trajectoria, e tornaria a cair na Terra alguns segundos depois de
     disparado o tiro      5:000 dollars


Por aqui se v que importante somma arriscava o capito, s por
sustentar a sua invencivel teimosia. Eram nada menos de quinze mil
dollars[47].

Apesar da importancia da aposta, recebeu o capito no dia 19 de maio um
bilhete lacrado, concebido nos termos de soberbo laconismo que se
seguem:

Baltimore, 18 de outubro.--Acceito.--_Barbicane_.




CAPITULO XI

A FLRIDA E O TEXAS


Entretanto estava ainda uma questo por decidir; faltava escolher logar
propicio para fazer a experiencia. Segundo as recommendaes do
observatorio de Cambridge, devia o tiro ser dirigido perpendicularmente
ao plano do horisonte, isto , para o zenith; e visto como a Lua no
chega ao zenith seno dos logares terrestres situados entre 0^o e 28^o
de latitude, ou, por outras palavras, como a declinao lunar maxima 
apenas de 28^o[48], estava o problema reduzido a determinar exactamente
o ponto do globo onde deveria ser fundida a immensa columbiada.

No dia 20 de outubro estava reunido o Gun-Club em sesso magna, e
Barbicane levra comsigo um magnifico mappa dos Estados Unidos, de Z.
Belltropp. Porm J.-T. Maston, sem lhe dar tempo nem para o desenrolar,
pediu a palavra com a sua vehemencia habitual, e encetou o debate nos
seguintes termos:

Honrados collegas, o assumpto que vae hoje aqui ser discutido tem uma
importancia verdadeiramente nacional, e vae offerecer-nos occasio de
praticarmos um grande acto de patriotismo.

Os socios do Gun-Club olharam uns para os outros, sem que ninguem
lograsse attingir o ponto de mira do orador.

Nenhum de vs, proseguiu este, pensa sequer em transigir em cousa que
diga respeito  gloria do seu paiz, e se algum direito ha que a Unio
possa com justia reivindicar,  por certo o de conter em seus flancos o
formidavel canho do Gun-Club. Ora, nas circumstancias actuaes...

--Caro Maston, interrompeu o presidente.

Permitti-me que desenvolva o meu pensamento, proseguiu o orador. Nas
circumstancias actuaes somos forados a escolher um logar terrestre
sufficientemente proximo do equador, para que a experiencia seja feita
em boas condies...

--Se me daes licena, tornou Barbicane.

--Peo livre discusso das idas de cada um, replicou o effervescente
J.-T. Maston, e sustento que o territorio d'onde ha de partir o nosso
glorioso projectil deve ser parte integrante da Unio americana.

--Isso no tem a menor duvida! responderam alguns socios.

--Pois bem! J que nossas fronteiras no so bastantemente amplas, j
que pela parte do sul o Oceano nos oppe insuperavel obstaculo, j que
nos  foroso ir alem dos Estados Unidos e a um paiz limitrophe buscar
esse vigesimo oitavo parallelo, considero o facto como um legitimo
_casus belli_, e proponho que se declare guerra ao Mexico!

--Nada! isso no! exclamaram de todos os lados.

--No! replicou J.-T. Maston.  essa uma palavra que pasmo de ouvir
n'este recinto!

--Mas attendei!...

--Nunca! No tenho que attender! exclamou o fogoso orador. Mais tarde ou
mais cedo ha de vir a realisar-se essa guerra, e o que vos proponho 
que rebente hoje mesmo.

--Maston, disse Barbicane, forando a atteno do orador pela ruidosa
detonao da campainha presidencial, retiro-vos a palavra!

Maston ainda queria replicar, mas alguns dos collegas conseguiram
conte-lo.

Concordo, disse Barbicane, em que a experiencia no pde nem deve ser
tentada seno em terras da Unio; mas se o meu impaciente amigo me
tivera deixado fallar, se tivera sequer volvido os olhos para um mappa,
saberia que  perfeitamente inutil declarar guerra aos vizinhos, visto
como algumas das fronteiras dos Estados Unidos se estendem alem do
parallelo vigesimo oitavo. Seno vejam: temos ao nosso dispor toda a
parte meridional do Texas e das Floridas.

Terminou por aqui o incidente; mas no foi sem custo que J.-T. Maston se
deixou convencer. Decidiu-se, em consequencia, que a columbiada havia de
ser fundida e moldada no solo do Texas ou no da Florida. Porm esta
resoluo estava destinada para fazer nascer uma rivalidade sem exemplo
entre as cidades d'estes dois estados.

O vigesimo oitavo parallelo corta a costa americana pela peninsula da
Florida, que divide em duas partes approximadamente iguaes, lana-se
depois no golpho do Mexico, e subtende o arco formado pelas costas do
Alabama, do Mississipi e da Luiziania. Passa d'ahi ao Texas, do qual
corta uma saliencia, e prolonga-se atravs do Mexico, transpe a Sonora,
salta por cima da velha California e vae perder-se nos mares do
Pacifico. No havia pois seno as pores da Florida e do Texas,
situadas ao sul d'esse parallelo, que estivessem nas condies de
latitude recommendadas pelo observatorio de Cambridge.

Na parte meridional da Florida no se encontram cidades de importancia,
e s por ali pullulam fortalezas levantadas para servir de defeza contra
os indios nomadas. S uma cidade, Tampa-Town, podia reclamar em favor da
sua situao na lide e apresentar-se com alguns direitos a ser
attendida.

Pelo contrario, no Texas so mais numerosas e mais importantes as
cidades. Corpus-Christi no _condado_ de Nucces, e todas as cidades
situadas no Rio Bravo, taes como Laredo, Comalites e Santo Ignacio; no
Web, taes como Roma e Rio Grande City; no Stow, taes como Edimburgo; no
Hidalgo, Santa Rita, El Panda e Brownsville e as do Camron formaram uma
liga imponente contra as pretenses da Florida.

Assim, logo que se tornou publica a resoluo chegaram a Baltimore pela
via mais rapida os deputados floridenses e texianos, e a partir d'esse
momento o presidente Barbicane e os socios de influencia do Gun-Club
viram-se cercados dia e noite de reclamaes formidaveis.

Na Grecia foram sete as cidades que disputaram a honra de terem sido
bero de Homero; aqui dois Estados inteiros estiveram quasi a chegar s
do cabo por causa de um canho.

Viram-se ento aquelles ferozes irmos passeiar armados pelas ruas da
cidade. E sempre que se encontravam era de temer conflicto, que poderia
ter serias consequencias.

Mas emfim l estavam a habilidade e a prudencia do presidente Barbicane
para conjurar o perigo. s demonstraes pessoaes serviu de derivativo a
publicidade dos jornaes dos differentes Estados. Foram sustentaculos da
causa do Texas o _New York Herald_ e a _Tribuna_, ao passo que o _Times_
e a _American Review_ tomaram decididamente as partes pelos deputados
floridenses.

Os socios do Gun-Club  que no sabiam a quem haviam de dar ouvidos.

Apresentava-se altivo o Texas com seus vinte e seis condados, dispostos
a modo de bateria; respondia-lhe a Florida, que para territorio seis
vezes menor valem doze condados mais do que vinte e seis.

O Texas impava com os seus trezentos e trinta mil indigenas; mas a
Florida, que tem menor superficie, jactava-se de poder reputar-se mais
povoada com os seus cincoenta e seis mil; e no ficava por aqui: chegava
a accusar o Texas de possuir certa especialidade de febres paludosas,
que uns annos por outros lhe vinham a custar alguns milhares de
habitantes, e o caso  que no mentia.

O Texas, pela sua parte replicava: que a respeito de febres, nada tinha
a Florida que lhe invejar, e que era, pelo menos, imprudente quem
chamava aos outros paizes insalubres, tendo a honra de ter em casa o
_vomito negro_ no estado chronico. E o caso  que o Texas tambem fallava
verdade.

Demais a mais, accrescentavam os texianos pela via do _New-York
Herald_, de alguma considerao  credor o estado onde nasce o melhor
algodo de toda a America, o estado que produz a melhor madeira de
carvalho para construco de navios, o estado que tem nas entranhas dos
seus terrenos soberba _hulha_, e minas taes, que o seu producto em ferro
 de cincoenta por cento do minerio puro.

A isto replicava o _American Review_, que o solo da Florida, sem ter
alis tantas riquezas, offerecia todavia melhores condies para moldar
e fundir a columbiada, visto como era composto de areias e terras
argillosas.

Porm, tornavam os do Texas, antes de fundir seja l o que for n'um paiz
qualquer,  preciso l ir; e as communicaes com a Florida so
difficeis, entretanto que a costa do Texas tem a bahia de Galveston, que
mede quatorze leguas em seu contorno, e que era capaz de alojar a um
tempo todas as esquadras do mundo.

Pois muito bem!  essa ento a via de communicao que apresentaes; a
bahia de Galveston, que est situada ao norte do vigesimo nono
parallelo?

E ns no temos a bahia do Espirito Santo, que se abre precisamente no
vigesimo oitavo grau de latitude, e pela qual os navios vo directamente
at Tampa-Town?

--Bonita bahia! respondia o Texas; meia entupida pelas areias!

--Entupidos estaro elles! exclamava a Florida. Cuidam que tratam com
algum paiz de selvagens?

--Verdade , que os seminolas ainda fazem correrias nas planicies da
Florida!

--E ento! e os apaches, e os comanches,  gente civilisada!

Proseguia este dize tu direi eu havia j dias, quando os da Florida
tentaram arrastar os adversarios para outro terreno. Uma bella manh o
_Times_ insinuou surrateiramente, que como o emprehendimento era
essencialmente americano, no podia ser tentado seno em territorio
essencialmente americano!

--Estas palavras fizeram ir aos ares os do Texas: Americanos! e no o
seremos ns com tanto direito como vs outros? Pois o Texas e a Florida
no foram ambos encorporados na Unio em 1845?

--Ninguem o contesta, respondeu o _Times_, mas ns c sempre pertencemos
ao numero dos americanos desde 1820.

--Bem sabemos, replicou a _Tribuna_; foram hespanhoes ou inglezes por
alguns duzentos annos, e depois foram vendidos aos Estados Unidos por
cinco milhes de dollars!

--E isso que importa! replicaram os da Florida,  acaso motivo que nos
faa crar? E a Luiziania no foi comprada a Napoleo em 1803, por
dezeseis milhes de dollars!?[49]

 mesmo uma vergonha! clamaram os deputados de Texas. Atrever-se um
miseravel bocado de terra tal como a Florida a querer comparar-se com o
Texas, que em vez de se vender conquistou por seus proprios esforos a
independencia, que expulsou os mexicanos em 2 de maro de 1836, que se
declarou republica federativa depois da victoria alcanada por Samuel
Houston nas margens do San-Jacinto sobre as tropas de Sant'Anna!
Finalmente, com um paiz que se uniu voluntariamente aos Estados Unidos
da America!

-- porque tinha medo dos mexicanos! respondeu a Florida.

Medo! desde o dia em que escapou tal palavra, na realidade um tanto
violenta, a _posio tornou-se_ intoleravel. Era crena geral que
haveria carnificina dos dois partidos nas ruas de Baltimore. Julgou-se
necessario mandar guardar os deputados com sentinellas  vista.

O presidente Barbicane  que no sabia para onde se havia de virar.
Choviam-lhe em casa notas, documentos, cartas prenhes de ameaas. Que
soluo havia de adoptar? Em relao ao apropriado do solo,  facilidade
de communicaes, da rapidez dos transportes, no havia differena nos
direitos dos dois estados. s personalidades politicas no havia que
attender em assumpto tal.

Durava esta hesitao, esta perplexidade ha muito, quando Barbicane
tomou a resoluo de cortar de vez o n; fez por conseguinte reunir os
collegas e propoz-lhes uma soluo profundamente sensata, como vae
ver-se.

Reflectindo seriamente, lhes disse, no que acaba de passar-se entre a
Florida e o Texas,  claro que ho de reproduzir-se as mesmas
difficuldades entre as cidades do estado que favorecermos. A rivalidade
ha de descer do genero  especie, do estado  cidade, e ns ficaremos na
mesma. Ora o Texas possue onze cidades nas condies requeridas, que ho
de disputar entre si a honra do emprehendimento, e se escolhermos alguma
d'ellas, vamos forjar por nossas proprias mos novos dissabores,
entretanto que a Florida s tem uma. Seja pois a Florida o estado, e
Tampa-Town a cidade escolhida!

Esta deciso, logoque se deu a publico, foi o ultimo golpe nos deputados
do Texas, dos quaes se apossou _indescriptivel furia_, chegando a
dirigir provocaes pessoaes aos socios do Gun-Club. No tiveram mais
remedio os magistrados de Baltimore, e foi d'elle que usaram, do que
fazer apromptar um comboio especial, onde por vontade ou por fora
obrigaram a embarcar os do Texas, que largaram assim da cidade com a
rapidez de trinta milhas por hora.

Porm, apesar da velocidade, com que am levados, ainda lhes sobrou
tempo para arremessarem aos adversarios um ultimo e ameaador sarcasmo.

Alludindo  pequena largura da Florida, estreita peninsula apertada
entre dois mares, affirmaram que no havia de resistir ao abalo do tiro,
e que havia de despedaar-se com a fora d'elle.

Pois deixa-la despedaar! responderam os da Florida com laconismo
digno dos tempos antigos.




CAPITULO XII

URBI ET ORBI


Vencidas as difficuldades astronomicas, mechanicas e topographicas,
vinha naturalmente a pllo a questo de dinheiro. A realisao do
projecto exigia uma despeza enorme. No havia particular nem mesmo
estado que podesse dispor s por si de tantos milhes quantos eram
necessarios.

Tomou portanto o presidente Barbicane a resoluo de fazer do
emprehendimento, ainda que americano, um negocio de interesse universal,
e de pedir a todos os povos a sua cooperao financeira. Era a um tempo
dever e direito de toda a terra intervir nos negocios do seu satellite.
A subscripo aberta em Baltimore n'este sentido estendeu-se ao mundo
inteiro, _urbi et orbi_.

Estava esta subscripo destinada a ter um exito superior a tudo que era
de esperar, apesar de se tratar de quantias dadas que no emprestadas. A
operao era puramente desinteressada, porque no apresentava nem remota
probabilidade de lucro.

Porm o effeito da proposta Barbicane, e que no tinha parado nas
fronteiras dos Estados Unidos; antes tinha saltado por cima do Atlantico
e do Pacifico, para invadir a um tempo a Asia e a Europa, a Africa e a
Oceania. Os differentes observatorios da Unio pozeram-se desde logo em
communicao immediata com os observatorios do estrangeiro; alguns, como
o de Paris, de Petersburgo, do Cabo, de Berlim, de Altona, de
Stockholmo, de Varsovia, de Hamburgo, de Buda, de Bolonha, de Malta, de
Lisboa, de Benars, de Madrasta, de Pekin dirigiram cumprimentos de
felicitao ao Gun-Club; outros conservaram-se em prudente expectativa.

[Figura: A fabrica de Goldspring, perto de New York (pag. 112).]

O observatorio de Greenwich, esse, com approvao dos outros vinte e
dois estabelecimentos similares da Gran-Bretanha, foi claro e
terminante; e negou com firmeza a possibilidade de bom exito, seguindo
sem hesitao as theorias do capito Nicholl. E n'estes termos, ao passo
que muitas sociedades scientificas promettiam at enviar delegados seus
a Tampa-Town, o pessoal scientifico do observatorio de Greenwich reunido
em sesso, apresentada a proposta Barbicane, passou brutalmente  ordem
do dia.

[Figura: Tampa-Town, antes da operao (pag. 117).]

Bello ciume de inglez para americano, nada mais.

Em geral, foi excellente o effeito produzido no mundo scientifico, e
d'ahi se communicou s massas, que, pela maior parte, se tomaram de
paixo pelo assumpto. Facto este de magna importancia, poisque estas
mesmas massas iam ser convidadas a subscrever para a realisao de um
capital consideravel.

No dia 8 de outubro j o presidente Barbicane tinha publicado um
manifesto cheio de enthusiasmo, no qual appellava para todos os homens
de boa vontade da Terra. Este documento, alis traduzido em todas as
linguas, deu optimo resultado.

Abriram-se as subscripes parciaes nas principaes cidades da Unio,
para serem centralisadas no banco de Baltimore, rua de Baltimore n.^o 9,
e depois nos differentes estados dos dois continentes:


Em Vienna na casa S.-M. de Rothschild;
Em Petersburgo, casa Stieglitz e C.^a;
Em Paris, no Credito mobiliario;
Em Stockholmo, casa Totie e Arfuredson;
Em Londres, casa de N.-M. de Rothschild e filhos;
Em Turim, casa Ardouin e C.^a;
Em Berlim, casa Mendelsohn;
Em Genebra, casa Lombard, Odier e C.^a;
Em Constantinopla, no Banco ottomano;
Em Bruxellas, casa S. Lambert;
Em Madrid, casa Daniel Weisweller;
Em Amsterdam, no Credito neerlandez;
Em Roma, casa Torlonia e C.^a;
Em Lisboa, casa Lecesne;
Em Copenhague, no Banco privativo;
Em Buenos-Ayres, no banco Mau;
No Rio de Janeiro, na mesma casa;
Em Montevideo, na mesma casa;
Em Valparaizo, casa Thoms La Chambre e C.^a;
No Mexico, casa Martin Daran e C.^a;
Em Lima, casa Thomaz La Chambre e C.^a


Tres dias depois da publicao do manifesto do presidente Barbicane
estavam subscriptos nas differentes cidades da Unio, quatro milhes de
dollars[50]. Com esta somma, por conta de maior quantia, j o Gun-Club
podia ir fazendo alguma cousa. Dias depois, noticiavam os despachos
telegraphicos  America que as subscripes no estrangeiro eram cobertas
com verdadeiro enthusiasmo. Alguns paizes faziam-se notaveis pela
generosidade da sua offerta. A outros l custava mais a desapertar os
cordes  bolsa. Questo de temperamento.

Em summa, mais eloquentes so os algarismos que as palavras, e eis a
descripo official das sommas que foram escripturadas no activo do
Gun-Club, logoque se encerrou a subscripo.

A Russia deu como contingente a enorme quantia de trezentos sessenta e
oito mil setecentos e trinta e tres rublos[51], e s poder causar
espanto a grandeza da quantia a quem desconhecer o gosto dos russos
pelas sciencias, e o progresso que imprimem aos estudos astronomicos,
devido aos numerosos observatorios que possuem, dos quaes um, o de mais
importancia, custou dois milhes de rublos.

A Frana comeou por se rir das pretenses dos americanos. Serviu ali a
Lua de pretexto a mil calembourgs j estafados, e a algumas dezenas de
_vaudevilles_ em que o mau gosto e a ignorancia disputavam primazias.
Porm os francezes, que j de antiga data trazem o habito de cantar e
ainda em cima pagar, d'esta vez riram, mas tambem depois pagaram,
subscrevendo com a quantia de um milho e duzentos e cincoenta tres mil
novecentos e trinta francos[52]. Por este preo realmente assistia-lhes
o direito de se divertirem um bocado.

A Austria, apesar dos seus apertos financeiros, mostrou generosidade
bastante. Elevou-se a parte d'esta potencia, na contribuio geral, 
quantia de duzentos e dezeseis mil florins[53], que bem boa conta
fizeram.

Cincoenta e dois mil rixdales[54] foi o obolo da Suecia e da Noruega. A
cifra j era de considerao em proporo do paiz; porm, maior ainda
teria sido, se a subscripo se tivera aberto ao mesmo tempo em
Christiania e em Stockholmo. Seja l por que raso for, o caso  que os
norueguezes no gostam de mandar o seu dinheiro para a Suecia.

A Prussia deu testemunho, mandando duzentos e cincoenta mil thalers[55],
de que prestava  tentativa a sua alta approvao. Os differentes
observatorios d'esta nao contribuiram de boa vontade com uma quantia
importante, e foram dos que com mais ardor animaram o presidente
Barbicane.

A Turquia portou-se com generosidade, e no admira porque estava
pessoalmente interessada n'aquelle assumpto, visto ser a Lua quem lhe
fixa o curso dos mezes e a epocha dos jejuns do Ramadan. Nem lhe ficava
bem dar menos de um milho trezentas e setenta e duas mil seiscentas e
quarenta piastras[56], que foi o que effectivamente deu, e com ardor tal
que parecia at dar a entender que houvera certa presso da parte do
governo da Porta.

A Belgica distinguiu-se entre todos os estados de segunda ordem por um
donativo de quinhentos e treze mil francos[57], proximamente treze
centimos[58] por habitante.

A Hollanda e suas colonias tomaram parte na operao com cento e dez mil
florins[59], mas sempre foram pedindo cinco por cento de desconto, visto
pagarem de contado.

A Dinamarca, um tanto restricta em extenso territorial sempre rendeu
novecentos mil ducados de oiro fino[60], o que  prova do amor que os
dinamarquezes consagram s expedies scientificas.

A Confederao germanica cooperou com trinta e quatro mil duzentos e
oitenta e cinco florins[61]; no se lhe podia exigir mais, nem que lh'o
exigissem o daria.

Apesar dos seus grandes apuros a Italia sempre encontrou nas algibeiras
dos seus filhos duzentas mil liras[62], mas foi preciso rebusca-las bem.
Se a Italia j estivera de posse do Veneto melhor iria o negocio, mas o
caso  que ainda no possuia o Veneto.

Os Estados da Igreja entenderam no dever mandar menos de sete mil e
quarenta escudos romanos[63], e Portugal levou a sua dedicao pela
sciencia at trinta mil cruzados.

O Mexico, esse deu o obolo da viuva, oitenta e seis piastras fortes[64];
verdade  que os imperios, nos primeiros tempos da sua fundao, sempre
vivem pouco  larga de meios.

De duzentos e cincoenta e sete francos[65] foi o auxilio modesto
prestado pela Suissa  obra americana. Fora  dize-lo e francamente, a
Suissa no percebia o lado pratico da operao; no se lhe afigurava que
o acto de arremessar uma bala  Lua fosse preliminar adequado para
entabolar relaes commerciaes com o astro das noites, e n'este
presupposto pareceu-lhe pouco prudente empenhar capitaes em tentativa
to aleatoria. E no fim de contas talvez a Suissa tivesse raso.

Em Hespanha  que foi impossivel juntar mais de cento e dez reales[66],
circumstancia a que serviu de pretexto ter a nao que acabar os seus
caminhos de ferro. Mas a verdade  que a sciencia no  cousa l muito
bem vista em tal paiz, que ainda est um tanto atrazado. E demais, havia
certos hespanhoes, e no eram dos menos illustrados, que no concebiam
com exactido que relao havia entre a massa do projectil comparada com
a da Lua, e que temiam que o choque fosse alterar a orbita do astro,
perturba-lo no seu papel de satellite, provocando-lhe a quda na
superficie do globo terrestre. Em casos taes o melhor era abster-se. E
foi o que, com differena de alguns poucos _reales_, fizeram os
hespanhoes.

Falta a Inglaterra. J dissemos com que desdenhosa antipathia fra ali
recebida a proposta Barbicane. Os inglezes tem todos uma s e mesma
alma para todos os vinte e cinco milhes de habitantes que povoam a
Gran-Bretanha. Limitaram-se a dar a entender que o emprehendimento do
Gun-Club era contrario ao principio de no interveno, e nem com um
ceitil concorreram.

O Gun-Club, quando soube tal nova, deu-se por satisfeito em erguer os
hombros, e proseguiu na sua grande tarefa. Logoque a America do Sul,
isto , Peru, Chili, Brazil, provincias do Plata, Columbia entregaram a
sua quota de trezentos mil dollars[67], ficou o Gun-Club de posse do
consideravel capital cujo computo detalhado segue:


                                           Dollars
Subscripo dos Estados Unidos            4.000:000
Subscripes estrangeiras                 1.446:675
                                          ---------
                          Somma           5.446:675
                                          ---------


Eram portanto cinco milhes quatrocentos e quarenta e seis mil
seiscentos e setenta e cinco dollars[68], que o publico tinha despejado
nos cofres do Gun-Club.

A ninguem deve causar surpreza a importancia de tal somma. Os trabalhos
de fundio e brocagem, obra de pedra e cal, transporte de operarios e
installao d'estes n'uma regio quasi deshabitada, construco de
fornos e edificios diversos, acquisio de ferramenta para officinas,
polvora, projectil e despezas perdidas, deviam, segundo os oramentos
feitos, absorve-la quasi por inteiro. Houve tiro na guerra federal que
ficou por mil dollars, no era pois de admirar que o do presidente
Barbicane, unico nos fastos da artilheria, custasse cinco mil vezes
mais.

No dia 20 de outubro assignou-se um contrato com a fabrica de fundio
de Goldspring, perto de New-York, que, durante a guerra, fra a que
melhores canhes de ferro fundido fornecra a Parrott.

Estipulou-se entre os outorgantes, que a fabrica de fundio de
Goldspring se obrigava a transportar para Tampa-Town, cidade da Florida
meridional, todo o material necessario para a fundio da Columbiada.

A operao da fundio devia concluir-se, o mais tardar, at ao dia 15
de outubro proximo, e at ao mesmo dia ser entregue o canho e em bom
estado, sob pena de multa de cem dollars[69] por dia at aquelle em que
a Lua se tornasse a apresentar nas mesmas condies, isto , por tantos
dias quantos se contam em dezoito annos e onze dias.

O engajamento de operarios, ferias e accommodaes necessarias ficavam
por conta da companhia de Goldspring.

O contrato, feito em duplicado e _bona fide_, foi assignado por J.
Barbicane, na qualidade de presidente do Gun-Club, e por J. Murphison,
como director da fabrica de fundio de Goldspring, e cada uma das
partes deu plena approvao s estipulaes da escriptura.




CAPITULO XIII

STONE'S-HILL


Desde que se tornra notoria a escolha feita pelos socios do Gun-Club em
prejuizo do Texas, toda a gente na America, onde tudo sabe ler, se
julgou obrigada a estudar a geographia da Florida. Nunca os livreiros
venderam tanto exemplar de _Bartram's travel in Florida_, do _Romans's
natural history of East and West Florida_, do _William's territory of
Florida_, do _Cleland on the culture of the Sugar-Cane in East Florida_,
etc. Tornou-se necessaria a impresso de novas edies. Era um
verdadeiro delirio.

Barbicane no era homem que se contentasse com leituras, queria ver as
cousas com os proprios olhos e escolher em pessoa a collocao da
Columbiada. Por consequencia, sem perda de um momento, poz  disposio
do observatorio de Cambridge os fundos necessarios para a construco de
um telescopio, contratou com a casa Broadwill & C.^a de Albany a feitura
do projectil de aluminium, e partiu logo de Baltimore acompanhado por
J.-T. Maston, pelo major Elphiston e pelo director da fabrica de
Goldspring.

No dia seguinte chegavam os quatro companheiros de jornada  Nova
Orleans, onde embarcaram sem demora no _Tampico_, aviso da marinha
federal, que o governo puzera  disposio d'elles. Aquecidas as
fornalhas, em poucos momentos deixaram de enxergar as praias da
Luiziania.

No foi comprida a viagem; dois dias depois da partida, e tendo
percorrido quatrocentas e oitenta milhas[70], chegou o _Tampico_  vista
da costa da Florida.

Ao passo que o navio se approximava da costa, a apparecendo aos olhos
de Barbicane um territorio baixo, chato, com apparencias de pouca
fertilidade.

Depois de costear uma serie de enseadas abundantes em ostras e lagostas,
entrou finalmente o _Tampico_ na bahia do Espirito Santo.

Divide-se esta bahia em duas barras estreitas e compridas, a de Tampa e
a de Hillisboro, cuja apertada embocadura o steamer passou em poucos
momentos. Pouco tempo depois j se destacavam por cima das ondas as
baterias rasantes do forte Brooke, e apparecia a cidade de Tampa
negligentemente recostada no fundo do pequeno porto natural formado pela
foz do rio Hillisboro.

N'este logar fundeou o _Tampico_, a 22 de outubro, pelas sete horas da
noite; os quatro passageiros desembarcaram immediatamente.

Barbicane sentiu que lhe palpitava com violencia o corao quando pisou
o solo da Florida. Parecia palpa-lo com os ps, como faz o architecto
que pretende experimentar a segurana de um edificio. J.-T. Maston, esse
excavava a terra com a ponta do gancho.

Senhores, disse ento Barbicane, no temos tempo a perder, j manh
havemos de montar a cavallo para fazer um primeiro reconhecimento no
paiz.

No momento em que Barbicane desembarcava, os tres mil habitantes de
Tampa-Town, tinham avanado a sar-lhe ao encontro, honra bem cabida no
presidente do Gun-Club, que os favorecra na escolha por elle indicada.
Receberam-no com formidaveis acclamaes, mas Barbicane escapou-se a
todas aquellas ovaes, e conseguiu metter-se n'um quarto do hotel
Franklin, onde no quiz receber pessoa alguma. Decididamente no lhe
quadrava o papel de homem celebre.

No dia seguinte, 23 de outubro, j lhe curveteavam debaixo das janellas
uns pequenos cavallos de raa hespanhola, todos fogo e vigor. Mas no
eram quatro seno cincoenta, com outros tantos cavalleiros.

Barbicane desceu acompanhado pelos tres companheiros, e admirou-se a
principio de se achar rodeado de to numerosa cavalgata. Tambem fez
reparo em que cada cavalleiro trazia a sua carabina a tiracolo e
pistolas nos coldres. Mas foi logo informado por um moo floridense dos
motivos de similhante apparato de fora.

Senhor,  por causa dos seminlas.

--Quaes seminlas?

--Os selvagens que percorrem a planicie; foi por isso que julgmos
prudente escoltar-vos.

--Ora qual! interrompeu J.-T. Maston, conseguindo iar-se por escalada
ao dorso do animal que lhe fra destinado.

--Emfim, volveu o floridense, sempre  mais seguro.

--Meus senhores, respondeu Barbicane, agradeo-vos as vossas attenes,
e agora a caminho!

E o pequeno rancho abalou logo, desapparecendo no meio de nuvens de
poeira. Eram cinco da manh, o sol j estava resplandecente e o
thermometro marcava 84^o[71]; entretanto as frescas viraes do mar
moderavam a ardencia excessiva da temperatura.

Barbicane logoque sau de Tampa-Town inclinou para o sul, seguindo a
costa com o fim de alcanar o creek[72] de Alifia, que  um arroio que
vae desaguar na bahia de Hillisboro, doze milhas abaixo de Tampa-Town.
Continuaram Barbicane e companheiros seguindo a margem direita, subindo
para leste.

Dentro em pouco foram-se escondendo por detrs de um accidente do
terreno as aguas da bahia, e no viram os viajantes seno campinas da
Florida.

A Florida pde dividir-se em duas partes: uma ao norte, mais abundante
em populao, menos abandonada, tem por capital Tallashassa e possue
Pensacola, um dos mais importantes arsenaes maritimos dos Estados
Unidos; a outra, encerrada entre a America e o golpho do Mexico, que a
estreitam entre suas aguas,  apenas uma delgada peninsula corroida pela
corrente do Gulf-Stream, lingua de terra como que perdida por entre as
ilhas de um pequeno archipelago, e que incessantemente dobram os
numerosos navios que buscam o canal de Bahama.  como que um posto
avanado do golpho das grandes tempestades.

[Figura: Tiveram de passar a vau muitos rios (pag. 120).]

A superficie da Florida  de trinta e oito milhes e trinta e tres mil
duzentos e sessenta e sete acres[73], dentro dos quaes se devia escolher
um situado para quem do vigesimo oitavo parallelo, e em condies
convenientes para a tentativa; por isso Barbicane, ao passo que
cavalgava, a examinando com atteno a configurao e a particular
distribuio do solo.

[Figura: Os trabalhos avanavam regularmente (pag. 129).]

A Florida, descoberta por Juan Ponce de Leon em 1512, no domingo de
Ramos, deveu a esta circumstancia seu primeiro nome de Paschoa-Florida,
encantadora denominao bem mal cabida n'aquellas costas aridas e
abrazadas.

Mas a algumas milhas da praia, a pouco e pouco mudando a natureza do
terreno, e o paiz mostrando-se digno do nome primitivo; o solo era
cortado por uma rede de creeks, de rios, de ribeiros, de lagoas e de
pequenos lagos; mas logo a campina comeou a elevar-se sensivelmente, e
dentro em pouco deixou ver plainos onde se davam admiravelmente todas as
produces vegetaes do norte e do meio dia, campos immensos, onde todas
as despezas e trabalhos da cultura so feitos pelo sol dos tropicos e
pelas aguas retidas no subsolo de argilla, e finalmente prados de
ananazes, de inhames, de tabaco, de arroz, de algodo, de canna de
assucar, que se estendiam a perder de vista, ostentando com descuidosa
prodigalidade immensas riquezas.

Barbicane mostrou-se muito satisfeito quando verificou que o terreno se
a elevando progressivamente, e como J.-T. Maston o interrogasse a tal
respeito:

--Meu digno amigo, respondeu, temos interesse de primeira ordem em
fundir a Columbiada em terreno alto.

--Para estar mais perto da Lua? exclamou o secretario do Gun-Club.

--No, respondeu Barbicane sorrindo-se; que valem algumas poucas toezas
de mais ou de menos? No  por isso, mas porque no centro de terrenos
elevados ho de proseguir com maior facilidade os nossos trabalhos: no
teremos de lutar com as aguas, circumstancia que nos ha de poupar
tubagens compridas e caras, o que  objecto de vulto quando se trata de
abrir um fosso de novecentos ps de profundidade.

--Tendes raso, disse ento o engenheiro Murchison, devemos afastar-nos
quanto possivel dos lenoes de agua na direco da brocagem; entretanto
se encontrarmos nascentes, no  mal sem remedio, ou havemos de
esgota-las com machinas, ou desvia-las.  caso diverso dos poos
artesianos[74], estreitos e escuros, onde verruma, cubo e sonda, toda a
ferramenta do perfurador, em summa, trabalha s escuras. Aqui no.
Havemos de trabalhar com o cu  vista,  luz do dia, com o alvio e
picareta em punho; e com o auxilio de algumas minas, a tarefa ha de ir
andando com rapidez.

--Todavia, replicou Barbicane, se pela elevao do solo ou pela natureza
do terreno podrmos evitar a luta com as aguas subterraneas, mais rapido
e perfeito ha de ser o trabalho: tratemos pois de abrir fosso em terreno
situado a algumas centenas de toezas acima do nivel do mar.

--Tem raso, senhor Barbicane, e se me no engano, dentro em pouco
havemos de achar sitio adequado.

--Ai! o que eu queria era ouvir j a primeira enxadada, disse o
presidente.

--E eu a ultima! exclamou J.-T. Maston.

--L havemos de chegar, senhores, e acreditem que a companhia da fabrica
Goldspring no ha de ter que pagar-lhe a multa por mora.

--Por Santa Barbara! que deveis ter raso! replicou J.-T. Maston; cem
dollars por dia at que a Lua volte a estar nas mesmas condies, isto
, durante dezoito annos e onze dias, vem a dar, como bem deveis saber,
seiscentos e cincoenta e oito mil e cem dollars[75]?

--No, senhor, nem o sabemos, respondeu o engenheiro, nem havemos de ter
necessidade de que no-lo faam saber.

Por volta das dez horas da manh; j o pequeno rancho tinha andado a sua
duzia de milhas: s campinas ferteis succedra a regio das florestas.
Desenvolviam-se ali com profuso tropical as mais variadas essencias.
Eram formadas aquellas quasi impenetraveis florestas de romeiras,
laranjeiras, limoeiros, figueiras, oliveiras, damasqueiros, bananeiras,
e grandes cepas de vinha, cujos fructos e flores rivalisavam em colorido
e perfume.  fragrante sombra d'aquellas magnificas arvores cantavam e
esvoaavam numerosissimas aves pintadas de brilhantes cres, entre as
quaes se distinguiam mais particularmente as garas americanas, cujo
ninho deveria ser um guarda-joias para ser digno d'aquellas
preciosidades empennadas.

J.-T. Maston e o major no podiam ter diante de si to opulenta natureza
sem lhe admirar as esplendidas bellezas.

Mas o presidente Barbicane  que era pouco sensivel a tantas maravilhas,
e estava com pressa de proseguir, porque regio to fertil por sua mesma
fertilidade lhe desagradava. No era hydroscopo[76], mas apesar d'isso
presentia a agua debaixo dos ps, porque debalde procurava signaes de
aridez incontestavel.

Entretanto am avanando; tiveram de passar a vau alguns rios, e no sem
perigo, que os camans de quinze a dezoito ps de comprimento abundam
por aquelles logares. J.-T. Maston ameaava-os atrevidamente com a
temivel ganchorra, mas no conseguia atemorisar seno pelicanos,
narsejas e phaetontes, selvagens habitantes d'aquellas margens. T os
grandes flamingos cr de rosa o olhavam com ar de estupidez.

Por fim aquelles habitantes das regies humidas tambem foram
desapparecendo; j as arvores, menos grossas, appareciam rareadas em
matas menos espessas; alguns grupos isolados se destacavam nas infinitas
planuras onde perpassavam em manadas os gamos assustados.

At que emfim! exclamou Barbicane, levantando-se nos estribos, chegmos
 regio dos pinheiros.

--Que  tambem a dos selvagens, respondeu o major.

E viam-se na verdade no horisonte alguns seminlas; agitavam-se, corriam
de uns para os outros nos rapidos corseis, brandindo compridas lanas ou
descarregando as espingardas de detonao surda de que costumam usar.
Tambem ficaram-se n'estas demonstraes de hostilidade, sem mais
inquietar Barbicane e companheiros.

Estes estavam collocados no meio de um plaino pedregoso, local vasto e
descoberto, de grande numero de acres de extenso, que o sol inundava
com raios abrazadores. Era este plaino formado por uma grande
entumescencia de terreno, que parecia offerecer aos socios do Gun-Club
todas as condies requeridas para a collocao da Columbiada.

Alto! disse Barbicane, parando. Este sitio tem nome c no paiz?

--Chama-se Stone's Hill[77], respondeu um dos da Florida.

Barbicane, sem dizer mais palavra, apeou-se, pegou dos instrumentos e
comeou a determinar a posio com grande preciso; o pequeno rancho
reunido em volta d'elle olhava-o em profundo silencio.

N'aquelle momento passava o sol pelo meridiano. Barbicane, passados
instantes, escreveu rapidamente o resultado da observao que fizera e
disse:

Este logar est situado a trezentas toezas acima do nivel do mar, a
27^o 7' de latitude e a 5^o 7' de longitude oeste[78]; afigura-se-me que
a sua natureza arida e penhascosa apresenta todas as condies
favoraveis para a experiencia; ser portanto n'esta planura que havemos
de construir armazens, officinas, fornos, cabanas para operarios, e ser
d'aqui, d'aqui mesmo, repetiu batendo com o p no vertice de
Stone's-Hill, que o nosso projectil ha de alar-se para os espaos do
mundo solar!




CAPITULO XIV

ALVIO E TROLHA


N'aquella mesma noite voltava Barbicane e companheiros a Tampa-Town, e o
engenheiro Murchison tornava a embarcar no _Tampico_ para Nova Orleans.
Tinha de engajar ali um exercito de operarios, e de trazer comsigo, no
regresso, a maior parte do material. Os socios do Gun-Club ficaram em
Tampa-Town, para organisarem os primeiros trabalhos com o auxilio da
gente do paiz.

Oito dias depois do da partida, voltava o _Tampico_  bahia do Espirito
Santo acompanhado de uma esquadrilha de barcos de vapor. Murchison tinha
conseguido angariar mil e quinhentos trabalhadores. Nas tristes epochas
da escravido todo o tempo e trabalho que se empregasse em tal empenho
teria sido perdido. Porm, desde que a America, terra da liberdade, no
conta em seu seio seno homens livres, correm estes onde quer que os
chama trabalho bem retribuido. Ora dinheiro  que no faltava ao
Gun-Club, que offerecia aos seus salariados, alem de uma feria elevada,
gratificaes consideraveis e em proporo.

O operario engajado para a Florida podia contar, concluida a obra, com
um capital depositado em seu nome no banco de Baltimore. Murchison pde
portanto, sem mais incommodos, escolher  vontade e levantar a bitola no
que dizia respeito  intelligencia e habilidade dos operarios.

 de crer que alistasse n'aquella legio do trabalho a flor dos
machinistas, fogueiros, fundidores, caleiros, mineiros, tijoleiros e
trabalhadores de todos os generos, pretos ou brancos, sem distinco de
cores.

No dia 31 de outubro, pelas dez horas da manh, desembarcou toda aquella
multido nos caes de Tampa-Town; imagine-se que movimento e que
actividade haviam de reinar na pequena cidade, cuja populao se elevou
ao dobro no espao de um s dia. Tampa-Town havia de lucrar enormemente
com a iniciativa do Gun-Club, no tanto com os operarios, que
immediatamente foram mandados para Stone's-Hill, como com a affluencia
de curiosos que a pouco e pouco foram convergindo de todos os pontos do
globo para a peninsula floridense.

Nos primeiros dias trabalhou-se na descarga da ferramenta que viera na
esquadrilha, assim como machinas, viveres e grande numero de casas de
ferro, em peas separadas enumeradas, para se poderem armar.

Pela mesma epocha ia Barbicane cravando as primeiras bandeirolas de
alinhamento de um caminho de ferro de quinze milhas, destinado a ligar
Stone's-Hill com Tampa-Town.

So bem conhecidas as condies em que so construidos os caminhos de
ferro na America: rodeios a capricho, declives arrojados, obras de arte
e parapeitos pem-se de parte, collinas sobem-se de escalada, valles
saltam-se, e est feito um caminho de ferro que corre s cegas, sem se
importar com linhas rectas; nem custa grandes quantias nem grandes
trabalhos; tem s um inconveniente, completa liberdade de
descarrilamentos e de saltos. O de Tampa-Town a Stone's-Hill foi uma
perfeita bagatella, que nem grande dinheiro nem grande trabalho exigiu
para ficar prompto.

Quanto ao mais, Barbicane era a alma d'aquelle mundo que surgira  sua
voz. Era elle quem tudo animava, e a todos communicava a propria vida,
enthusiasmo e convico; em toda a parte estava, como se possura condo
de ubiquidade, e sempre acompanhado de J.-T. Maston, que desempenhava
junto d'elle o papel de mosca zumbideira. Com Barbicane, nem havia
obstaculos, nem difficuldades, nem hesitaes; era to mestre nos
officios de mineiro, de pedreiro ou de machinista como no de artilheiro;
tinha sempre resposta prompta para qualquer pergunta, e resoluo para
qualquer problema. Sustentava correspondencia activa com o Gun-Club ou
com a fabrica de Goldspring, aguardando-lhe as ordens, no molhe de
Hillisboro, o _Tampico_, sempre com as fornalhas accesas e o vapor sob
presso, a toda a hora do dia e da noite.

Saiu Barbicane no 1.^o de novembro de Tampa-Town com um destacamento de
trabalhadores, e j no dia seguinte se erguia em volta de Stone's-Hill
uma cidade de casas mechanicas, que cercaram de palissadas, e em poucos
dias, em relao a movimento e actividade, parecia uma das grandes
cidades da Unio. A vida foi ali regulada disciplinarmente, e deu-se
comeo aos trabalhos em perfeita ordem.

A natureza do terreno fra j reconhecida por via de sondagens
cuidadosamente praticadas, e pde-se dar comeo  excavao a 4 de
novembro.

N'aquelle dia convocou Barbicane para uma reunio todos os chefes de
officina, e disse-lhes:

Meus amigos,  conhecido de vs todos o motivo por que vos reuni n'esta
regio selvatica da Florida. Trata-se de fundir um canho de nove ps de
diametro interior, com seis ps de espessura de parede, e dezenove ps e
meio no revestimento exterior de pedra; em summa, o que  necessario
excavar, , por consequencia, um poo de diametro de sessenta ps e de
novecentos ps de profundidade. Mais. Esta obra momentosa ha de estar
concluida dentro de oito mezes; tendes portanto dois milhes quinhentos
e quarenta e tres mil e quatrocentos ps cubicos de terreno a extrahir,
em duzentos e cincoenta e cinco dias, isto , em numeros redondos, dez
mil ps cubicos de desaterro por dia. Esta obra que nem difficuldade
poderia dizer-se para mil operarios que trabalhassem  sua vontade e com
os movimentos perfeitamente desembaraados, ha de ser muito mais ardua
no espao relativamente apertado em que tendes de trabalhar. Entretanto,
j que tal trabalho tem de fazer-se, feito ha de ser, e conto tanto com
a vossa habilidade, como com a vossa coragem.

s oito horas da manh deu-se a primeira enxadada no terreno da Florida,
e desde aquelle instante nem um s momento esteve ocioso o valente ferro
nas mos dos mineiros. Os operarios revezavam-se de seis em seis horas.

A operao, aindaque collossal, no ia alem do limite das foras
humanas. Bem longe d'isso. Quantos trabalhos ha de mais real
difficuldade, e nos quaes  necessario combater frente a frente os
elementos, em que se tem obtido bom resultado! Restringindo-se a obras
analogas, bastar citar o _Poo do padre Joseph_, construido perto do
Cairo pelo sulto Saladin, e em tempos em que ainda no havia machinas
que centuplicassem a fora humana, poo que alcana at ao nivel do
Nilo, a trezentos ps de profundeza! E aquell'outro poo aberto em
Coblentz pelo margrave Joo de Bade, que entra seiscentos ps pela terra
dentro! Pois bem! em summa, aqui o que havia a fazer? Triplicar essa
profundidade, mas em largura decupla, circumstancia que alis tornava
mais facil a perfurao! Por estas rases no havia contramestre nem
mesmo simples operario que tivesse duvidas cerca do bom exito da
operao.

Houve uma importante deciso tomada pelo engenheiro Murchison, de
accordo com o presidente Barbicane, que permittiu ainda maior rapidez no
andamento dos trabalhos. Fra estipulado n'um dos artigos do contrato
que a Columbiada havia de ser apertada por arcos de ferro forjado e
batido quente. Era luxo de precaues inuteis, porque o colossal
machinismo podia evidentemente dispensar os taes anneis compressores.
Desistiu-se portanto de tal clausula, e d'ahi veiu grande economia de
tempo, porque se tornou ento possivel empregar o novo systema de
excavao, j agora adoptado na construco de todos os pos, e por
meio do qual se vae fazendo a obra de pedra e cal simultaneamente com a
brocagem.

Graas a este processo extremamente simples, j no  necessario
aguentar as terras com estroncas;  a parede construida que as aguenta
com resistencia inabalavel, e que ao mesmo tempo vae descendo pelo
proprio peso.

Esta manobra no devia comear seno quando o alvio tivesse chegado 
parte solida do terreno.

A 4 de novembro, cincoenta operarios excavaram mesmo no centro do
recinto da estacada, isto , na parte mais alta de Stone's-Hill, uma
abertura circular de sessenta ps de diametro.

A primeira camada que encontrou o alvio era uma especie de terra
vegetal preta, e tinha seis pollegadas de espessura. Seguiram-se uns
dois ps de areia fina, que se guardou com cuidado, porque tinha de
servir para a feitura do molde interno.

Depois da areia appareceu argilla branca, bastante compacta, similhante
aos marnes de Inglaterra, acamada na espessura de quatro ps.

Faiscou por fim o ferro das picaretas de encontro  camada dura do
terreno, especie de rocha composta de conchas petrificadas, muito secca,
muito solida e ultima que at a final o ferro encontrou.

N'estas alturas tinha a abertura seis ps e meio de fundo, e deu-se
comeo  obra de pedra e cal.

Construiu-se no fundo da excavao uma _roda_ de madeira de carvalho,
especie de disco bem cavilhado e de solidez a toda a prova; era furada
no centro, e a abertura tinha diametro igual ao diametro exterior da
Columbiada. Em cima d'esta roda  que vieram assentar as primeiras bases
da obra de pedra e cal, cujas pedras estavam ligadas com inflexivel
tenacidade por cimento hydraulico.

Feito o revestimento interno, da circumferencia para o centro, ficaram
os operarios encerrados n'um poo de vinte e um ps de largura.

Acabada esta parte da obra, volveram os mineiros  picareta e alvio.
Comearam a atacar a rocha mesmo por baixo da roda, com o cuidado de a
ir sempre aguentando em _tins_[79] extremamente resistentes.

Sempre que o buraco alcanava mais dois ps, tiravam-se successivamente
os _tins_; descia a roda a pouco e pouco e em cima d'ella o massio
annular de pedra e cal, na camada superior do qual trabalhavam sem
descanso os pedreiros, deixando regularmente distribuidos respiradouros
por onde haviam de sar os gazes durante a operao da fundio.

[Figura: A fundio (pag. 137).]

Aquelle genero de trabalho exigia da parte dos operarios extrema
habilidade e constante atteno; mais de um foi gravemente e at
mortalmente ferido pelos estilhaos de pedra, mas nem por isso affrouxou
a actividade um s instante, quer de dia quer de noite: de dia,  luz do
sol que, mezes depois, irradiava noventa e nove graus[80] de calor por
sobre aquellas calcinadas planuras; de noite, ao claro de jactos de luz
electrica.

[Figura: Tampa-Town depois da operao (pag. 141).]

O ruido da picareta batendo na rocha viva, as detonaes das minas, o
estridor das machinas, os turbilhes de fumo espalhados no ar, envolviam
ento Stone's-Hill n'um circulo tal de terror, que nem manadas de
bufalos, nem destacamentos de seminolas se atreveram a transpo-lo.

Entretanto iam proseguindo os trabalhos com toda a regularidade, e os
guindastes a vapor tornavam rapida a safa do aterro e entulho;
obstaculos inesperados poucos, e das difficuldades previstas todos se
foram sando com habilidade.

Decorrido o primeiro mez tinha o poo chegado  profundidade de antemo
calculada em proporo do praso, isto , a cento e doze ps.

Em dezembro era duplicada e em janeiro triplicada a altura. No decurso
do mez de fevereiro tiveram os trabalhadores que lutar com um lenol de
agua que surdiu atravs da crusta de terra. Foi necessario recorrer a
poderosas bombas e a apparelhos de ar comprimido para estancar as aguas
e poder assim betumar o orificio das nascentes, como quem veda a
abertura por onde um navio faz agua. Por fim sempre conseguiram
vencer-se as malditas correntes.

No entretanto, em virtude da pouca consistencia do terreno, a roda cedeu
em parte e houve um desabamento parcial. Imagine-se qual seria a
espantosa impulso d'aquelle disco de pedra e cal de setenta e cinco
toezas de altura! O accidente custou a vida de alguns operarios.

Tiveram de se perder tres semanas a escorar e concertar o revestimento
de pedra e a tornar a pr a roda nas condies de solidez primitiva.
Mas, graas  habilidade do engenheiro e  potencia das machinas
empregadas, volveu ao prumo a edificao, por momentos em risco, e os
trabalhos de perfurao continuaram.

Nenhum outro incidente interrompeu o andamento regular da obra, e a 10
de junho, vinte dias antes de expirarem os prasos fixados por Barbicane,
tinha o poo, completamente revestido do seu paramento de pedras,
attingido a altura de novecentos ps. No fundo assentava a obra de pedra
e cal n'um cubo massio de trinta ps de espessura; no limite superior
vinha nivelar com o terreno.

Barbicane e os socios do Gun-Club felicitaram cordialmente o engenheiro
Murchison; aquelle trabalho de cyclopes fra realmente concluido em
extraordinarias condies de brevidade.

No decurso dos oito mezes que levou a obra no deixra Barbicane um s
instante Stone's-Hill; seguindo sempre de perto as obras de perfurao,
no lhe dava menos constante cuidado o bem-estar e a saude dos
operarios. To feliz que conseguiu evitar as epidemias que so vulgares
nas grandes agglomeraes de homens e to fataes em regies, como
aquella, expostas a todos os influxos do tropico.

Verdade  que muito operario pagou com a vida as imprudencias inherentes
a to arriscados trabalhos; mas desgraas d'essa ordem, alis
lamentaveis, no  possivel evita-las, so pormenores com que pouco se
preoccupam os americanos. Mais cuidado lhes d a humanidade em geral do
que cada individuo em particular. Barbicane, todavia, professava, por
excepo, doutrinas contrarias, a que em todas as occasies dava
applicao. E por esta raso, graas aos cuidados d'elle, 
intelligencia que demonstrou e  interveno que tinha em todos os casos
difficeis,  prodigiosa e caritativa sagacidade que soube desenvolver, a
media das catastrophes no excedeu o que costuma succeder nos paizes
d'aquem mar, ainda nos que so citados pelo luxo de precaues, em
Frana, por exemplo, em que se conta, termo medio, com um accidente por
cada duzentos mil francos de obras.




CAPITULO XV

A FESTA DA FUNDIO


No decurso dos oito mezes que levou a operao da perfurao, tinham-se
simultaneamente, e com grande rapidez, realisado os trabalhos
preparatorios da fundio; bem surprehendido ficaria qualquer
forasteiro, que por aquella occasio viesse a Stone's-Hill, com o
espectaculo que se lhe havia de apresentar diante dos olhos.

Em disposio circular, em torno do poo como centro, e a seiscentas
jardas d'elle, erguiam-se mil e duzentos fornos de reverberao, cada um
de seis ps de largura, e separados uns dos outros por um intervallo de
meia toeza. A linha, que contornava os mil e duzentos fornos, tinha duas
milhas[81] de comprimento. Eram todos construidos pelo mesmo modelo, de
chamin alta e quadrangular, e produziam effeito extremamente singular.
J.-T. Maston achava soberba aquella disposio architectonica, que lhe
trazia  lembrana os monumentos de Washington. Para esse  que no
havia nada mais bello, nem mesmo na Grecia, onde alis, segundo elle
proprio confessava, nunca tinha posto os ps.

Deve o leitor estar lembrado que, na terceira sesso da commisso, se
decidira que a Columbiada havia de ser de ferro fundido, e em especial
de ferro fundido gris.

E com raso, porque o ferro em taes circumstancias tem maior tenacidade
e ductilidade e  mais macio, mais facil de polir e apropriado para
todas as operaes de molde, e ainda porque, tratado pelo carvo
mineral,  de qualidade superior para todas as obras de grande
resistencia, taes como canhes, cylindros de machinas a vapor, prensas
hydraulicas, etc.

Mas raras vezes com uma s fuso se consegue obter ferro fundido
bastante homogeneo; na segunda fuso  que elle se refina e purifica,
abandonando os ultimos depositos terrosos.

Por este motivo, j o minerio de ferro, antes de ser expedido para
Tampa-Town, fra transformado em carbonato, submettendo-o nos altos
fornos de Goldspring ao contacto com carvo e silicium levados a uma
elevada temperatura[82]. Depois d'esta primeira operao  que o metal
foi mandado para Stone's-Hill. Mas como se tratava de cento e trinta e
seis milhes de libras de ferro fundido, massa cuja expedio pelos
caminhos de ferro havia de ficar excessivamente cara, s o preo do
transporte vinha a dobrar o preo do material. Pareceu portanto
preferivel fretar navios em New York e carrega-los de ferro fundido em
barra; foram necessarias nada menos de sessenta e oito embarcaes de
mil toneladas, verdadeira esquadrilha, que a 3 de maio largou das
paragens de New York, tomou a via do oceano, prolongou-se com as costas
da America, embocou pelo canal de Bahama, dobrou a ponta da Florida e,
entrando a 10 do mesmo mez na bahia do Espirito Santo, veiu largar
ferro, sem avaria, no porto de Tampa-Town. Ahi se fez a descarga dos
navios para os wagons da via ferrea de Stone's-Hill, e pelo meado de
janeiro estava toda aquella enorme massa de metal no logar para que fra
destinada.

Facilmente se concebe que no eram de mais mil e duzentos fornos para
liquefazer simultaneamente sessenta mil toneladas de ferro fundido. Cada
forno podia conter proximamente quatorze mil libras de metal, e todos
tinham sido construidos pelo modelo dos que tinham servido para fundir o
canho Rodman, que eram de frma trapesoidal e muito baixos de tecto. A
fornalha e a chamin eram nos extremos oppostos do forno, por frma que
em toda a extenso d'elle havia a mesma temperatura. As paredes dos
fornos eram construidas de tijolo refractario, e encerravam apenas uma
grelha para fazer arder o carvo mineral e um crysol chato para collocar
as barras de ferro, inclinado por um angulo de vinte e cinco graus para
deixar escorrer o metal em fuso para as caldeiras destinadas a
recebe-lo; d'estas caldeiras conduziam-no mil e duzentas caleiras
convergentes para o poo central.

No dia seguinte quelle em que finalisaram as obras de pedra e as de
perfurao, fez Barbicane dar comeo  construco do molde interno. O
caso estava em erguer no centro do poo e na direco do eixo d'elle, um
cylindro de novecentos ps de altura e nove de largura, que enchesse
exactamente o espao reservado para a alma da Columbiada. Foi este
cylindro feito de areia e barro argilloso de mistura com palha e feno. O
intervallo que ficava entre o molde interno e o revestimento de pedra e
cal havia de preenche-lo o metal fundido, que vinha assim a formar em
torno do molde uma parede de seis ps de espessura.

Para manter em equilibrio o cylindro, foi necessario refora-lo com
gatos de ferro e aguenta-lo de distancia a distancia com espeques
chumbados no revestimento interno de pedra, o que no apresentava
inconveniente algum, porque, depois da fundio, haviam de ficar os
espeques como que perdidos no grosso da massa de metal.

Concluiu-se esta operao a 8 de julho, e fixou-se o dia seguinte para a
fundio.

Que bella ceremonia ha de ser a da festa da fundio, disse J.-T.
Maston ao amigo Barbicane.

--De certo, respondeu Barbicane, mas festa publica  que no!

--Como assim! pois no haveis de mandar abrir as portas d'este recinto a
quem quer que venha?

--D'essa me livrarei eu, Maston; a fundio da Columbiada  operao
delicada, por no dizer perigosa, e prefiro realisa-la  porta fechada.
Quando o projectil largar, quantas festas quizerem, at l nada.

E o presidente tinha raso; a operao podia apresentar perigos
imprevistos, a que uma grande affluencia de espectadores estorvaria de
occorrer. Era mister conservar inteira liberdade de movimentos. Por
consequencia a ninguem se deu entrada no recinto, excepto a uma
delegao dos socios do Gun-Club que, expressamente para assistir 
festa, fizera jornada at Tampa-Town. Figuravam n'ella, entre outros, o
fogoso Bilsby, Tom Hunter, coronel Blomsberry, major Elphiston, general
Morgan e _tutti quanti_, tomavam a fundio da Columbiada como negocio
seu pessoal. J.-T. Maston tinha-se feito cicerone d'estes, e no lhes
perdoou nem o mais insignificante dos pormenores; levou-os a toda a
parte: aos armazens, s officinas, por entre as machinas, e at os
obrigou a fazer visita aos mil e duzentos fornos um por um. Quando
chegaram a mil e duzentos j no tinham alma para mais.

A fundio estava fixada para o meio dia em ponto, e j de vespera
ficra cada forno carregado com cento e quatorze mil libras de metal em
barras dispostas em pilhas encruzadas, para que o ar quente podesse
circular em liberdade por entre ellas. Desde pela manh que as mil e
duzentas chamins arrojavam para a atmosphera torrentes de chammas, e
que o solo era agitado por surdas trepidaes. Havia a queimar tantas
libras de hulha, quantas eram as libras de metal que se am derreter.
Eram portanto sessenta e oito mil toneladas de carvo que arremessavam
por diante do disco solar um espesso vu de fumo negro.

Dentro em pouco tornou-se o calor intoleravel dentro do circulo dos
fornos, cujos roncos pareciam troves; a tudo isto vinha juntar-se o
soprar continuo de potentes ventiladores que saturavam de oxygenio todos
aquelles focos incandescentes.

Dependia essencialmente o bom exito da operao da rapidez. A um signal
dado por um tiro de pea deviam todos os fornos simultaneamente dar
sada ao metal em fuso e vasarem-se completamente.

Tomadas estas disposies, esperavam, tanto os chefes como os operarios,
com impaciencia misturada de boa dse de emoo, o instante prefixado.
J no estava mais ninguem no recinto, e todos os contra-mestres
fundidores estavam a postos, cada um junto a uma das aberturas por onde
o ferro em fuso havia de entrar no molde.

Barbicane e os collegas assistiam  operao situados n'uma eminencia
proxima. Diante d'elles estava uma pea de artilheria prompta a dar fogo
ao primeiro signal dado pelo engenheiro.

Alguns minutos antes do meio dia comearam a correr as primeiras gotas
de metal, encheram-se pouco e pouco as caldeiras, e quando o metal
chegou a completa liquefaco, deixaram-no assentar por alguns instantes
para facilitar a separao das substancias estranhas.

Soou meio dia, e no mesmo instante ribombou o canho arremessando pelos
ares o fulvo relampago. Abriram-se a um tempo as mil e duzentas
aberturas, e alastraram-se na direco do poo central mil e duzentas
serpes de fogo, desenrolando-se em anneis incandescentes. Ali foram
precipitar-se com temeroso estrepito, na profundidade de novecentos ps.
O espectaculo era magnifico e para impressionar. Tremia a terra, e
aquelle mar de metal em fuso arrojando ao cu turbilhes de fumo, ao
mesmo tempo volatilisava a humidade do molde e a expellia pelos
respiradouros do revestimento de pedra, sob a frma de impenetraveis
vapores. Desenrolavam-se aquellas nuvens artificiaes em espiraes
espessas e erguiam-se para o zenith at quinhentas toezas de altura.
Algum selvagem errante para alem dos limites do horisonte podia crer que
se estava formando alguma nova cratra nos seios da terra floridense, e
comtudo nem era aquillo erupo, nem tromba, nem tempestade, nem luta de
elementos, nem nenhum dos phenomenos terriveis que s a natureza  capaz
de produzir! No! O homem  que tinha dado o ser quelles avermelhados
vapores, quellas chammas gigantescas e dignas de qualquer vulco,
quellas oscillaes estrondosas similhantes ao sacudir dos tremores de
terra, quelles mugidos rivaes dos furaces e das tempestades, e a mo
do homem  que precipitra um Niagara inteiro de metal em fuso n'um
abysmo tambem por mos humanas cavado.




CAPITULO XVI

A COLUMBIADA


E teria tido feliz resultado a operao da fundio? O caso s podia
apreciar-se por conjecturas. Entretanto tudo levava a crer que o
resultado fra bom, visto como o molde absorvra a massa inteira do
metal fundido nos fornos. Fosse l como fosse, por muito tempo havia de
ser impossivel verificar a cousa directamente.

Effectivamente, quando o major Rodman fundiu o seu canho de cento e
sessenta mil libras de peso, nada menos de quinze dias levou o metal a
arrefecer. Quanto tempo ento haveria de furtar-se s vistas de seus
admiradores, coroada de turbilhes de fumo e defendida pelo seu intenso
calor, a Columbiada monstro? Era cousa difficil calcula-lo.

Durante esse lapso de tempo passou por uma prova real a paciencia dos
socios do Gun-Club. Mas no havia outro remedio. J.-T. Maston ia ficando
assado por excesso de dedicao. Quinze dias depois da fundio ainda se
erguia para o cu immenso pennacho de fumo, e ainda o cho queimava os
ps n'um raio de duzentos passos em volta do cume de Stone's-Hill.

Passaram-se dias e dias, decorreram semanas e semanas. No havia meio de
arrefecer o immenso cylindro; era at impossivel approximar-se d'elle.
Era fora esperar, e os socios do Gun-Club mordiam-se de impacientes.

Estamos j a 10 de agosto, disse uma bella manh J.-T. Maston. Temos
apenas quatro mezes d'aqui at 1 de dezembro! Sacar o molde interno,
calibrar a alma da pea, carregar a Columbiada, tudo est por fazer!
Nada, j no temos tempo para nos apromptar! Nem ainda a gente se pde
approximar do canho! Pois elle nunca ha de acabar de arrefecer. Isso 
que era uma caoada cruel!

Tentavam todos, mas debalde, moderar o impaciente secretario; s
Barbicane no dizia palavra, mas o silencio d'este occultava surda
irritao. Ver-se absolutamente detido por um obstaculo que s o tempo
podia vencer, e ento o tempo, que  implacavel inimigo em taes
circumstancias, e estar  discrio do inimigo, que era to duro para
aquella gente bellicosa.

Entretanto as observaes quotidianas denunciavam certa mudana no
estado do solo.

Por volta de 15 de agosto tinham diminuido notavelmente em intensidade e
espessura os vapores projectados para o cu. Dias depois j o terreno
exhalava apenas ligeira fumaa, ultimo alento do monstro encerrado no
seu tumulo de pedra.

Pouco e pouco vieram a diminuir as oscillaes do solo, e o circulo de
calorico estreitou-se; approximaram-se os espectadores mais impacientes;
n'um dia conseguiram avanar duas toezas, no seguinte quatro, e, a 23 de
agosto Barbicane, os collegas e o engenheiro, poderam finalmente tomar
logar mesmo em cima do jacto solidificado de ferro fundido que nivelava
com o vertice de Stone's-Hill, logar seguramente muito hygienico, porque
no era possivel ter l os ps frios.

At que emfim! exclamou o presidente do Gun-Club, soltando immenso
suspiro de satisfao.

Recomearam os trabalhos no mesmo dia.

Tratou-se immediatamente de extrahir o molde interno para desembaraar a
alma da pea; alvio, picareta e ferramenta de brocar, tudo trabalhou
sem descanso; o barro argilloso e a areia tinham adquirido extrema
consistencia sob a aco do calor; mas com auxilio de machinas,
conseguiu-se vencer aquelle mixto ainda inflammado pelo contacto das
paredes de ferro fundido; o material extrahido safaram-n'o com rapidez
carros movidos a vapor, e tanto fizeram, tanto ardor houve no trabalho,
Barbicane apertou tanto com os trabalhadores, e to fortes argumentos
empregou, sob frma de dollars, que, a 3 de setembro, tinha
desapparecido o ultimo vestigio de molde.

Comeou desde logo a operao da calibragem; installaram-se sem demora
os machinismos adequados que faziam mover com rapidez potentes brocas de
polir, cujo gume cortante mordia nas rugosidades do ferro fundido.
Poucas semanas depois estava exactamente cylindrica a superficie interna
do tubo, e a alma da pea perfeitamente polida.

[Figura: Festim na Columbiada (pag. 146).]

Finalmente, no dia 22 de setembro, menos de um anno depois da
communicao Barbicane, o enorme machinismo, rigorosamente calibrado,
n'uma exactissima posio vertical verificada por via de instrumentos
delicados, ficou prompto para funccionar. Faltava s esperar pela Lua,
mas essa certo era que no havia de falhar ao ajustado encontro.

[Figura: O presidente Barbicane  sua janella (pag. 151).]

A alegria de J.-T. Maston no tinha limites; esteve at por pouco a dar
uma horrorosa quda, quando intentava penetrar com a vista a
profundidade do tubo de novecentos ps. Se no lhe acudra Blomsberry
com o brao direito, que o digno coronel por fortuna conservra, o
secretario do Gun-Club teria, qual novo Erostrato, encontrado a morte
nas profundezas da Columbiada.

Estava pois terminado o canho; nem j era permittido ter duvidas cerca
de sua perfeita execuo; n'estes termos, a 6 de outubro, o capito
Nicholl, com vontade ou sem ella, desempenhou-se para com o presidente
Barbicane, e este inscreveu no seu livro de contas e na columna das
receitas, a quantia de dois mil dollars.

Devemos suppor que a furia do capito chegou ao ultimo extremo. No
entretanto havia ainda ajustadas mais tres apostas de tres, quatro e
cinco mil dollars, e comtantoque o capito ganhasse duas fazia negocio,
que sem ser j excellente, ainda no era de todo mau. Porm o dinheiro
nem sequer lhe entrava nos calculos; o bom exito obtido pelo rival que
conseguira fundir um canho, a que nem chapas de dez toezas de espessura
poderiam resistir,  que fra para Nicholl terrivel golpe.

Desde 23 de setembro que se tornra francamente accessivel ao publico o
recinto de Stone's-Hill. Qual foi a affluencia de vizitantes facilmente
se comprehender. E na realidade, convergia de todos os pontos dos
Estados Unidos para a Florida uma quantidade de curiosos sem conta. A
cidade de Tampa tinha augmentado prodigiosamente no decurso d'aquelle
anno inteiramente consagrado s obras do Gun-Club, e contava ento cento
e cincoenta mil almas. A cidade que comera por entrelaar o forte
Brooke n'uma rede de ruas, estendia-se agora por sobre a lingueta de
terra que separa os dois molhes da bahia do Espirito Santo; bairros
novos, novas praas, uma floresta inteira de casas tinham como que
brotado d'aquellas praias ainda ha pouco desertas, pela intensidade do
calor do sol americano. Organisaram-se companhias para construir
igrejas, escolas e habitaes particulares, e em menos de um anno estava
a cidade dez vezes maior.

 bem sabido que o yankee nasce commerciante; para onde quer que o
arremesse o destino, da zona gelida  zona torrida, ho de
exercer-se-lhe com utilidade os instinctos de negocio. Por esta raso os
simples curiosos, a gente que viera  Florida com o unico fito de seguir
as operaes do Gun-Club, deixou-se arrastar para operaes commerciaes
logoque se achou installada em Tampa. Os navios fretados para
transportar o material e os operarios tambem tinham trazido ao porto um
grau de actividade sem igual, e dentro em pouco muitos outros navios de
todas as frmas e tonelagens sulcaram a bahia e os dois molhes;
estabeleceram-se vastos estabelecimentos de armador e escriptorios de
corretor de navios, e a _Shipping-Gazete_ registava todos os dias novas
embarcaes entradas no porto de Tampa.

Ao passo que se iam multiplicando as estradas em torno da cidade,
mereceu esta a final ser ligada por via ferrea aos Estados meridionaes
da Unio, em considerao ao prodigioso augmento que se realisra na sua
populao e commercio. Assentou-se um railway entre a Mabile e
Pensacola, o maior arsenal maritimo do sul; e em seguida d'este ponto
importante para Tallahassee.

D'ali j estava construido um pequeno ramal de via ferrea de vinte e uma
milhas de comprimento, que punha em communicao Tallahassee com
Saint-Marks, localidade do littoral. Foi este ramal que se prolongou at
Tampa-Town, e que na passagem veiu despertar ou dar vida s regies
adormecidas ou mortas da Florida. Tampa, graas quelles milagres da
industria, devidos  ida que um bello dia despontra n'um cerebro
humano, pde assumir com legitimo fundamento ares de grande cidade.
Cognominaram-na _Moon-City_[83]. A capital das Floridas  que soffreu
ecclypse total e visivel de todos os logares do globo.

Toda a gente comprehender agora por que fra to grande a rivalidade
entre Texas e Florida, e a irritao dos texianos quando viram
indeferidas as pretenes que tinham  preferencia do Gun-Club.

Com previdente sagacidade tinham os do Texas comprehendido quanto
qualquer paiz haveria de ganhar com a experiencia tentada por Barbicane,
e de que somma de beneficios havia de vir acompanhado um tal tiro de
canho. Perdia o Texas com a deciso que o desfavorecra um importante
centro de commercio, varios caminhos de ferro e um augmento consideravel
de populao. Estas vantagens todas iam parar quella miseravel
peninsula floridense, arremessada qual outro maracho entre as ondas do
golpho e as vagas do oceano atlantico. Por isso Barbicane partilhava com
o general Sant'Anna todas as antipathias dos texianos. Entretanto,
apesar de entregue ao furor do commercio e ao ardor da industria, a
populao nova de Tampa-Town no esqueceu por frma alguma as
interessantes operaes do Gun-Club. Pelo contrario. Tomavam todos calor
e paixo pelos pormenores mais infimos da obra, pela mais insignificante
enxadada. Era um constante vae-vem entre a cidade e Stone's-Hill, uma
procisso, ou para melhor dizer, uma romaria.

J podia prever-se que, no dia da experiencia, a agglomerao de
espectadores havia de contar-se por milhes, porque j elles de todos os
pontos da Terra iam chegando e accumulando-se na estreita peninsula.

Emigrava a Europa para a America. Mas, at quelle ponto, fora 
dize-lo, pouca e mediocre satisfao tivera a curiosidade dos que, em
grande numero, am chegando. Muita gente esperava assistir ao
espectaculo da fundio e s lhe viu o fumo. Era pouco para olhos to
avidos, mas Barbicane no quiz admittir pessoa alguma a presenciar a
operao. Em consequencia no faltou quem praguejasse, murmurasse ou por
qualquer outra frma mostrasse descontentamento; censuravam o
presidente; accusavam-n'o de absolutismo; declaravam finalmente que o
procedimento d'elle era pouco americano.

a havendo sedio em volta das palissadas de Stone's-Hill.

Barbicane, j se sabe, conservou-se inabalavel na resoluo que tomra.

Mas desde o momento em que se deu por inteiramente acabada a Columbiada,
 que no foi possivel conservar por mais tempo porta fechada; e tambem
fechar as portas em tal caso, seria prova de m vontade, ou o que 
ainda cousa peior, imprudencia que iria tornar hostil  empreza o
sentimento publico.

Barbicane mandou portanto abrir as portas do recinto a toda a gente;
entretanto inspirado pelo seu espirito pratico, resolveu fazer dinheiro
com a curiosidade publica.

J no era pouco contemplar a immensa Columbiada, porm descer-lhe s
profundezas, isso  que se afigurava aos Americanos ser o _non plus
ultra_ das felicidades d'este mundo. Nem um s curioso por consequencia
deixou de querer experimentar o goso de visitar o interior d'aquelle
abysmo de metal. Os espectadores podiam satisfazer a sua curiosidade por
meio de apparelhos suspensos de um sarilho a vapor. A cousa fez furor.
Mulheres, creanas, velhos, todos tomaram como obrigao penetrar at ao
fundo da _alma_ nos mysterios do colossal canho. Fixou-se o preo da
descida em cinco dollars por cabea. E apesar de ser preo alto, tal foi
a affluencia de visitantes, que metteu nas burras do Gun-Club, no
decurso dos dois mezes que antecederam a experiencia, perto de dois
milhes e quinhentos mil dollars[84].

Escusado  dizer que os primeiros visitantes da Columbiada foram os
socios do Gun-Club, vantagem esta justamente reservada para aquella
illustre assembla. Realisou-se esta visita solemne no dia 25 de
setembro. Desceu ento uma caixa de honra com o presidente Barbicane,
J.-T. Maston, major Elphiston, general Morgan, coronel Blomsberry,
engenheiro Murchison e outros socios de distinco do celebre Club. Ao
todo seriam uns dez. Fazia ainda um calor menos mau no fundo do comprido
tubo de metal!

Mal se podia respirar! Mas que alegria! que contentamento! Estava mesa
posta para dez convivas em cima do massio que aguentava a Columbiada, e
o interior d'esta illuminado _a giorno_, por um jacto de luz electrica.
Numerosas e delicadas iguarias, que pareciam descer do cu, vieram
successivamente collocar-se em frente dos convivas, e correram com
profuso os mais finos vinhos de Frana durante o esplendido banquete
servido a novecentos ps debaixo da terra.

O festim correu extremamente animado e at extremamente ruidoso;
cruzavam-se numerosos os _toasts_; bebeu-se em honra do globo terrestre,
do seu satellite, do Gun-Club, da Unio, da Lua, de Phoebea, de Diana,
de Selne, do astro das noites, e finalmente do pacifico correio
feminino do firmamento!

Tantos foram os hurrahs, repercutidos em ondas sonoras dentro d'aquelle
immenso tubo acustico que chegaram  extremidade d'elle qual trovo, e a
multido acampada em torno de Stone's Hill, unia-se pelo corao e pelos
gritos aos dez convivas soterrados no fundo da gigantesca Columbiada.

J.-T. Maston nem j podia ter mo em si; e  ponto difficil de averiguar
o que  que elle fez em maior escala, se gritar e gesticular, se beber e
comer. Em todo o caso, o que elle no largava era o logar, nem a troco
de um imperio. No, aindaque o canho estivera carregado, escorvado,
prompto a dar fogo por instantes, e a arremessa-lo feito em estilhas aos
espaos planetarios.




CAPITULO XVII

UM DESPACHO TELEGRAPHICO


Estavam, pde assim dizer-se, concluidas as grandes obras emprehendidas
pelo Gun-Club, e no entretanto ainda tinham de decorrer dois mezes antes
de chegar o dia em que o projectil havia de largar vo para a Lua. Dois
mezes, que  impaciencia universal haviam de parecer dois annos! At
ento tinham tido reproduco na imprensa diaria at os mais infimos
pormenores da operao, e os jornaes eram devorados com olhos avidos e
ardentes; mas era de temer que d'ora vante aquelle dividendo de
noticias interessantes, distribuido at ento ao publico, diminuisse
notavelmente; e todos se assustavam com a ida de no terem j de
receber a respectiva quota de emoes quotidianas. Pois nada d'isto
succedeu; um incidente, o mais extraordinario, o mais incrivel, o mais
inverosimil dos incidentes, veiu de subito fanatisar os espiritos
anhelantes, e lanar novamente o mundo inteiro sob a influencia de uma
sobrexcitao pungente.

Certo dia, 30 de setembro, s tres horas e quarenta e sete minutos da
tarde, chegou com direco ao presidente Barbicane um telegramma
transmittido pelo cabo submarino immerso entre Valentia (na Irlanda),
Terra Nova e a costa americana.

O presidente Barbicane rasgou o sobrescripto, leu o despacho, e, apesar
da faculdade que tinha em alto grau de dominar-se, empallideceram-lhe os
labios, e turvou-se-lhe a vista com a leitura das vinte palavras do
telegramma.

Eis o texto do tal despacho, que na actualidade figura entre os
documentos do archivo do Gun-Club:

Frana, Paris, 30 de setembro, s quatro horas da manh--Barbicane,
Tampa, Florida, Estados Unidos.--Substituir obuz espherico por projectil
cylindro-conico. Partirei dentro. Chego pelo vapor _Atlanta_.--_Miguel
Ardan_.




CAPITULO XVIII

O PASSAGEIRO DO ATLANTA


Se aquella nova fulminante, em vez de ter voado pelo fio electrico,
tivera chegado simplesmente pelo correio, fechada e lacrada; se os
empregados telegraphicos da Frana, da Irlanda, da Terra Nova e da
America no estivessem, por necessidade de officio, no segredo do
telegrapho, certamente Barbicane nem por um instante teria hesitado.
Calava-se no s por prudencia, mas para no desacreditar a propria
obra.

Era bem possivel que sob a frma de telegramma ali se, encobrisse uma
caoada, demais a mais vindo o telegramma de um francez. Por ventura era
de crer que houvesse homem bastantemente ousado para conceber sequer o
pensamento de uma viagem tal? E, ainda no caso de existir tal homem, no
seria porventura um louco, mais no caso de se encerrar n'uma gaiola do
que n'uma bala?

Porm o texto do telegramma era de certo j conhecido, porque os
apparelhos de transmisso electrica so por sua propria natureza pouco
discretos, e a proposta de Miguel Ardan corria j seguramente pelos
differentes estados da Unio. Consequentemente Barbicane no tinha
motivo algum para se calar; portanto reuniu os collegas que estavam em
Tampa-Town, e sem dar mostra do que lhe a no pensamento, sem discutir o
maior ou menor credito de que o telegramma era merecedor, leu-lhes
friamente o laconico texto.

 impossivel! Inverosimil! Pura chalaa! Mangaram comnosco! Ridiculo!
Absurdo! Em poucos minutos ouviu-se ali uma colleco completa de todas
as expresses que servem para exprimir duvida, incredulidade ou
qualificar a tolice e a loucura, e com acompanhamento de gestos usuaes
em taes casos. Todos sorriam, riam, encolhiam os hombros ou desatavam s
gargalhadas, cada um segundo a respectiva disposio e genio. J.-T.
Maston foi o unico que teve uma sada soberba:

E no  m ida, no!

-- verdade, respondeu o major; mas se  permittido ter de vez em quando
idas d'essas,  s com a condio de nem por sonhos pensar em leva-las
 execuo.

--E porque no? replicou com vivacidade o secretario do Gun-Glub, j
prompto para discutir. Mas no quizeram pica-lo mais.

Entretanto j o nome de Miguel Ardan corria de bca em bca pela cidade
de Tampa. Forasteiros e indigenas olhavam-se, interrogavam-se e mofavam,
no do europeu, especie de mytho ou individualidade chimerica, mas de
J.-T Maston, que tinha chegado a acreditar na existencia de tal
personagem lendario. Quando Barbicane propozera arremessar um projectil
 Lua todos acharam o emprehendimento natural, praticavel, pura questo
de balistica! Mas offerecer-se um ente racional para tomar passagem
dentro do projectil e tentar aquella viagem inverosimil, isso l era
proposta de phantasia, zombaria, caoada, ou, querendo usar de um termo
que tem traduco exacta e precisa na linguagem familiar franceza,
_humbug_![85]

At  noite sem interrupo durou a risota, podendo at affirmar-se que
a Unio inteira desatou a um tempo n'uma casquinada de riso
inextinguivel, o que alis no est l muito nos habitos de um paiz em
que at as emprezas mais claramente impossiveis encontram com facilidade
panegyristas, adeptos e partidarios. Todavia a proposta de Miguel Ardan,
como succede a toda a ida nova, no deixou de dar que fazer a certos
espiritos. A cousa sempre vinha alterar o curso das emoes habituaes.
Ninguem pensra em tal! E o incidente por sua mesma estranheza em
breve se tornou como que em pesadelo geral. Caso  que j n'elle
pensavam. Quantas cousas se negam na vespera, e que o dia seguinte vem
transformar em realidades! E porque  que tal viagem se no havia de vir
a fazer mais tarde ou mais cedo? Em todo o caso, o homem que assim
queria arriscar a pelle era forosamente doido, e decididamente j que o
projecto que sonhra no podia ser tomado a serio, melhor era ter-se
calado, do que vir inquietar um povo inteiro com to ridiculos
devaneios.

Mas, e antes de tudo; acaso tal personagem existia realmente? Magna
questo! Aquelle nome de Miguel Ardan j no era inteiramente
desconhecido na America! Seno que pertencia a um europeu muito citado
por seus ousados emprehendimentos. De mais a mais aquelle telegramma
enviado atravez das profundezas do Atlantico, aquella indicao positiva
do navio em que o francez dizia ter j tomado passagem, e a da data
proxima em que havia de chegar, tudo eram circumstancias que davam 
proposta certo caracter de verosimilhana. O que todos desejavam era uma
soluo clara e positiva que lhes socegasse o espirito. Pouco a pouco
reuniram-se em grupos os individuos isolados; os grupos foram-se
condensando por influencia da curiosidade, como os atomos se aggregam em
virtude da attraco mollecular, e a final vieram a transformar-se em
multido compacta, que tomou em direitura  morada do presidente
Barbicane.

Este, desde que chegra o telegramma, no dera por frma alguma a
conhecer o que d'elle pensava; deixra correr a opinio de J.-T. Maston,
sem manifestar approvao nem censura; estava mettido ao canto, e na
ida de esperar pelos acontecimentos, mas com que elle no contava era
com a impaciencia publica; por isso viu com olhos de pouca satisfao
accumular-se-lhe debaixo das janellas a populao de Tampa. Em breve o
foraram a mostrar-se ao publico, mil murmurios e vociferaes.  de ver
que o presidente tinha todos os deveres e portanto todos os incommodos
attributos da celebridade.

Logo que Barbicane appareceu reinou silencio na multido e um cidado
que tomou a palavra dirigiu-lhe, sem mais rodeios, a seguinte pergunta:
O personagem designado no telegramma pelo nome de Miguel Ardan, seguiu
ou no viagem para a America?

--Meus senhores, respondeu Barbicane, tanto o sei eu como vs outros.

--Pois  necessario sabe-lo, exclamaram algumas vozes impacientes.

--O tempo  que nos ha de desenganar, respondeu friamente o presidente.

--Ao tempo no assiste direito para conservar um paiz inteiro em
suspenso, replicou o orador. E os planos do projectil j se mandaram
modificar, como se pede no telegramma?

[Figura: Michel Ardan (pag. 154).]

--Ainda no, meus senhores; mas, todos tem muita raso,  necessario
desenganarmo-n'os; o telegrapho foi que causou todas estas emoes, pois
seja o telegrapho quem complete as noticias que trouxe.

--Ao telegrapho! ao telegrapho! bradou a multido.

[Figura: O meeting (pag. 161).]

Barbicane desceu de casa, e tomando  frente d'aquelle immenso
ajuntamento dirigiu-se para a repartio da administrao dos
telegraphos.

Poucos minutos depois enviava-se um telegramma ao syndico dos corretores
de navios de Liverpool em que se lhe pedia resposta s seguintes
perguntas:

Que especie de navio  o _Atlanta_?

Quando  que largou esse navio da Europa?

Estaria a bordo um francez chamado Miguel Ardan?

Duas horas depois recebia Barbicane esclarecimentos por tal frma
precisos, que nem deixavam logar  menor duvida.

O paquete _o Atlanta_, de Liverpool, fez-se ao mar no dia 2 de outubro,
fazendo-se de vla para Tampa-Town; a bordo ia um francez, inscripto no
livro dos passageiros com o nome de Miguel Ardan.

Quando o presidente viu assim confirmado o contedo do primeiro
telegramma, brilharam-lhe os olhos em subita chamma, cerraram-se-lhe
violentamente os punhos, e houve at quem o ouvisse murmurar:

Ento, sempre  verdade! sempre  possivel! existe esse francez! e
dentro em quinze dias ha de estar aqui! Mas , por certo, um louco! um
cerebro escandecido!... Nunca consentirei...

E apesar d'isso, n'aquella mesma noite j escrevia  casa Breadwill e
C.^a, para lhe pedir que suspendesse at nova ordem a fundio do
projectil.

Relatar a emoo que se apossou da America inteira; como o effeito da
communicao Barbicane foi excedido no decuplo; o que disseram os
jornaes da Unio, por que modo acceitaram a nova e em que rythmo
contaram a chegada do heroe do velho continente; pintar a febril
agitao, em que todos viviam contando as horas, os minutos e os
segundos; dar ida mesmo longiqua, da pesada obsesso que se apoderou de
todos os cerebros dominados por um pensamento unico; mostrar como todas
as occupaes cederam a uma unica preoccupao; os trabalhos parados, o
commercio suspenso, navios que estavam promptos a levantar ferro a
ficarem ancorados no porto para no faltarem  chegada do _Atlanta_, os
comboios a chegarem cheios e a sarem vasios, a bahia do Espirito Santo
sulcada sem cessar por _steamers_, _packets-boats_, hiates de recreio e
_fly-boats_ de todas as dimenses; enumerar os milhares de curiosos que
no espao de quinze dias quadruplicaram a populao de Tampa-Town, a
ponto de terem de acampar em barracas como um exercito em campanha, 
tarefa que excede as foras humanas, e que sem temeridade ninguem
poderia emprehender.

No dia 20 de outubro, pelas nove horas da manh, dava o telegrapho
semaphorico do canal de Bahama noticia de fumo espesso no horisonte.
Duas horas depois um grande _steamer_ trocava com o telegrapho signaes
de reconhecimento. Immediatamente foi expedido para Tampa-Town o nome do
_Atlanta_. s quatro horas dava o navio inglez entrada na bahia do
Espirito Santo. s cinco passava a barra de Hillisboro a todo o vapor.
s seis largava ferro no porto de Tampa.

Ainda a ancora no tinha mordido no fundo de areia, j quinhentas
embarcaes estavam em volta do _Atlanta_, e tomavam o _steamer_ de
assalto. Barbicane foi o primeiro que saltou ao convez, e que em voz de
que debalde tentra occultar a commoo exclamou:

Miguel Ardan!--Presente! respondeu um individuo que estava no castello
de popa.

Barbicane, cruzados os braos, com o olhar interrogador e a bca
silenciosa, olhou fito para o passageiro do _Atlanta_.

Era este homem de quarenta e dois annos, alto, mas j um tanto curvado,
como os cariatides que aguentam nos hombros as sacadas dos balces. A
cabea volumosa, verdadeira cabea de leo, sacudia a cada instante a
cabelleira ardente que a adornava como verdadeira juba. A cara curta,
larga nas fontes, enfeitada por um bigode hirsuto como as barbas de um
gato, e com pincelinhos de pellos amarellados que irrompiam mesmo do
meio das faces, os olhos redondos e um tanto desvairados, o olhar de
myope, completavam-lhe a physionomia eminentemente felina. Mas o nariz
era ousadamente modelado, a bca particularmente humana, a fronte alta,
intelligente e sulcada qual campo que nunca esteve de pousio. Finalmente
o tronco robustamente desenvolvido e assente a prumo em cima de
compridas pernas, os braos musculosos como possantes e bem articuladas
alavancas, faziam do europeu um magano de solida construco, feito na
forja, que no no cadinho, como diria quem quizesse ir buscar  arte
metallurgica termos de comparao.

Qualquer discipulo de Lavater ou de Gratiolet encontraria sem
difficuldade no craneo e na physionomia do personagem os indicios mais
indiscutiveis da combatividade, isto , da coragem na occasio do
perigo, e da tendencia para despedaar todos os obstaculos; como tambem
os da benevolencia e da _maravilhosidade_, instincto que incita certos
temperamentos a tomarem-se de paixo pelas cousas sobrehumanas; em
compensao era absoluta a carencia das bossas que indicam os instinctos
de posse e acquisio, que os phrenologos designam pela palavra
_adquisividade_.

Para dar o ultimo toque na descripo do typo physico do passageiro do
_Atlanta_, convem notar que o fato que usava era largo de frmas e
folgado de cavas. A cala e o _paletot_ eram feitos com tal abundancia
de fazenda, que o proprio Miguel Ardan chamava a si mesmo o
_mata-panno_; a gravata desapertada, o colleirinho aberto com largueza,
deixavam ver o pescoo robusto; dos punhos invariavelmente desabotoados
saiam-lhe as mos febris. Bem se via que era homem que, nem na maior
fora do inverno, nem na maior fora do perigo, havia de ter frio, nem
mesmo na raiz do cabello.

Nunca estava quieto, no tombadilho do _steamer_, no meio da multido, de
c para l, sem nunca parar navegando sobre as amarras, como dizia a
maruja; sempre a gesticular, tratando todos por tu e roendo as unhas com
nervosa avidez. Era um d'aquelles typos originaes que o Creador inventa
n'um momento de phantasia, quebrando-lhe desde logo o molde.

E na realidade, a personalidade de Miguel Ardan dava campo largo s
observaes do analysta. Aquelle homem espantoso vivia em perpetua
disposio para a hyperbole, no passra ainda alem da idade dos
superlativos; desenhavam-se-lhe os objectos na retina com dimenses
desmarcadas, e d'ahi lhe vinha uma associao de idas gigantescas; via
tudo em ponto grande, excepto os homens e as difficuldades. E comtudo
isto era de uma natureza luxuriante, artista por instincto, moo de
espirito, que sem dar descargas de ditos chistosos, sabia entretanto na
conversao esgrimir como o mais habil atirador. Nas discusses, pouca
importancia lhe merecia a logica. Rebelde ao syllogismo, que por certo
nunca teria inventado, tinha um modo de argumentar s proprio d'elle.

Passando por cima de tudo e de todos, atirava em cheio ao adversario uns
argumentos _ad hominem_ de effeito certeiro e seguro, e fazia gosto em
defender com unhas e dentes as causas perdidas.

Entre outras manias tinha a de se proclamar um ignorante sublime, como
Shakspeare, e fazia profisso do desprezo pelos sabios: Elles, dizia,
entretem-se a marcar os pontos, e ns c  que jogmos a partida.

Em summa, era um bohemio do paiz dos montes e das maravilhas,
aventuroso, mas no aventureiro, uma cabea ca, um Phaetonte que guiava
a toda a brida o carro do Sol, um Icaro com azas de sobresallente. E era
homem que sabia arriscar e arriscar a serio a propria pessoa, que se
arrojava de cabea levantada s mais loucas emprezas, cortando a si
proprio a retirada com mais enthusiasmo ainda do que Agathcles quando
incendiou a esquadra que commandava. Prompto a toda a hora a arriscar a
pelle, tinha por sorte invariavel, por maior que fosse a cambalhota,
car sempre de p como os bonequitos de sabugo com que brincam as
creanas.

Em duas palavras, tinha por divisa: _d por onde der!_ e por _ruling
passion_[86], segundo a bella expresso de Pope, o amor pelo impossivel.

Mas tambem era para ver-se como aquelle magano emprehendedor possuia os
defeitos inherentes s suas boas qualidades. Diz o vulgo, que quem se
no aventurou no perdeu nem ganhou.

Miguel Ardan bastas vezes se tinha aventurado, e nem por isso tinha
ganho!

Para dar cabo de dinheiro era um verdugo, um tonel das Danades. Homem
alis perfeitamente desinteressado, tantas eram as asneiras que lhe
dictava o grande corao, como as que lhe insinuava a estouvada cabea;
esmoler, cavalheiroso, incapaz de assignar o enforque-se do seu mais
cruel inimigo, mas muito capaz de se vender para resgatar um negro.

Em Frana, na Europa, toda a gente conhecia este personagem brilhante e
estrepitoso. Nem era para admirar que assim succedesse a quem trazia j
enrouquecidos de servi-lo e apregoar-lhe o nome as cem vozes da fama, a
quem vivia como que dentro de uma casa de vidro, e tomava por confidente
dos seus mais intimos segredos o universo inteiro. Por estas mesmas
rases tambem Ardan possuia uma admiravel colleco de inimigos, de
entre aquelles que elle, acotovelando para abrir caminho por entre a
multido, mais ou menos magura, ferira ou derrubra sem d nem piedade.

E no entretanto era geralmente bemquisto e at tratado com excessivo
mimo. Era d'aquelles homens a quem pde applicar-se a expresso popular
 pegar ou largar, e o caso  que todos lhe pegavam, todos tomavam
interesse nos arrojados commettimentos d'elle, e lhe seguiam com
inquietao as peripecias porque j era de todos conhecida a imprudente
audacia que o caracterisava. A algum amigo, que no intuito de lhe
suspender os designios, vinha prophetisar-lhe catastrophe imminente,
respondia sempre Ardan com amavel sorriso: Da lenha das proprias
arvores nasce e lavra o incendio da floresta. Quem lhe diria a elle que
citava ento o mais bonito de todos os proverbios arabes!

Tal era o passageiro do _Atlanta_, sempre em agitao, sempre a ferver,
sempre debaixo da aco de um fogo interior, sempre commovido, no pelo
que vinha fazer  America, que nem em tal cogitava, mas por virtude da
ardente organisao de que era dotado.

Nunca houve duas personalidades que apresentassem contraste mais
saliente que o francez Miguel Ardan e o yankee Barbicane; todavia ambos,
cada um l a seu modo, eram emprehendedores, atrevidos e audaciosos.

Em breve foi interrompida pelos hurrahs e vivas da multido a
contemplao a que se entregra o presidente do Gun-Club em presena do
rival que viera desterra-lo da posio principal para o segundo logar. E
to phrenetica se tornou a gritaria, tornaram-se por tal frma pessoaes
as manifestaes do enthusiasmo, que Miguel Ardan, depois de ter
apertado um milheiro de mos, em que ia deixando os dez dedos das
d'elle, teve que se refugiar no camarim.

Barbicane seguiu-o sem lhe ter dito nem palavra.

Sois Barbicane? perguntou Miguel Ardan logoque se acharam a ss, e com
a intonao de quem fallava a um amigo de vinte annos.

--Sou, respondeu o presidente do Gun-Club.

--Pois ento muito bons dias, Barbicane. Como vae isso? Excellentemente?
Ora vamos; bom  que assim seja: tanto melhor!

--Com que, disse Barbicane, sem buscar melhor entrada em materia, sempre
estaes decidido a partir?

--Absolutamente decidido.

--E nada poder impedir-vo-lo?

--Cousa alguma. E os planos do projectil mandaste-los modificar em
harmonia com as indicaes do meu telegramma?

--Estava  espera da vossa chegada. Mas, perguntou Barbicane, insistindo
novamente, reflectistes bem?...

--Reflectir! E que tempo tenho eu para o estar a perder!? Apanho
occasio de ir dar um passeio at  Lua, e aproveito-a, nada mais. Nem
me parece que seja cousa que merea maiores reflexes.

Barbicane devorava com o olhar aquelle homem que fallava de tal projecto
de viagem com tanta leviandade, to completo socego e to perfeita
ausencia de cuidados.

--Mas pelo menos, disse, haveis de ter plano formado, meios de
execuo.

--Excellentes, meu caro Barbicane. Mas dae-me licena que faa uma s
observao: o que eu gostava era de contar a minha historia toda de uma
vez s e a toda a gente, e no tratar mais do assumpto. Evitam-se assim
as repeties. Consequentemente, salvo melhor conselho, convocae os
vossos amigos, vossos collegas, toda a cidade, a Florida inteira, a
America em peso, se vos parecer, e manh estou prompto para expor os
meus meios como para responder a todas as objeces, sejam l quaes
forem. Descansae que hei de espera-las a p firme. Convem-vos isto?

Convem-me, respondeu Barbicane.

Accordado isto, saiu o presidente do camarim e veiu communicar 
multido a proposta de Miguel Ardan.

Receberam-lhe as palavras com pateadas e grunhidos de alegria. A cousa
assim feita obviava a todas as difficuldades. No dia seguinte todos
poderiam contemplar  vontade o heroe europeu. Entretanto um ou outro
espectador houve mais cabeudo que no quiz largar o tombadilho do
_Atlanta_, e passou a noite a bordo. Entre outros, J.-T. Maston, que
tinha atarraxado a ganchorra no parapeito do castello de ppa; nem um
cabrestante de l poderia arranca-lo!

 um heroe! um heroe! berrava elle em todas as intonaes, ns  que
somos umas fracas mulheres, em comparao com esse europeu!

O presidente, esse depois de convidar a retirarem-se todos os
visitantes, volveu ao camarim do passageiro e no mais o largou at ao
momento em que a sineta de bordo tocou o quarto da meia noite. Mas
n'essa occasio, j os dois rivaes em popularidade se apertavam
reciproca e calorosamente as mos, e Miguel Ardan j tratava por tu ao
presidente Barbicane.




CAPITULO XIX

UM MEETING


No dia seguinte levantou-se o astro do dia um tanto tarde para
corresponder  impaciencia publica. Para desempenhar o papel de Sol na
illuminao de similhante festa, acharam-n'o um tanto preguioso. Por
vontade de Barbicane, que se arreceiava de perguntas indiscretas para
Miguel Ardan, teria o auditorio sido reduzido a um pequeno numero de
adeptos, os collegas, por exemplo. Mas isso!.. era mais facil pr um
dique  corrente do Niagara. Por consequencia teve de renunciar ao que
projectra, e de consentir que o amigo de recente data corresse todos os
riscos de uma conferencia publica. Apesar das suas dimenses colossaes,
julgou-se ainda insufficiente para a realisao de tal ceremonia a nova
sala da Bolsa de Tampa-Town, porque a reunio projectada assumira
propores de verdadeiro meeting.

O logar escolhido foi uma vasta planicie situada fra da cidade, e em
poucas horas conseguiram abriga-la dos raios solares; todos os arranjos
necessarios para a construco de uma barraca colossal foram ministrados
pelos navios surtos no porto, abundantes em velame, cordame, mastros e
vergas de sobresalente.

Dentro em pouco estendia-se por sobre a planicie calcinada, a defende-la
contra as ardencias do dia, um immenso cu de panno debaixo do qual
trezentas mil pessoas acharam abrigo para poderem aguentar impunemente
por espao de muitas horas, emquanto esperavam pelo francez, uma
temperatura de abafar. De toda aquella turba de espectadores s 
primeira tera parte era dado ver e ouvir; a segunda mal via e nem
palavra ouvia; quanto  terceira, essa nada via, e ainda menos ouvia. E
nem por isso foi a menos prompta a prodigalisar applausos.

s tres horas, realisou-se a appario de Miguel Ardan, em companhia dos
socios principaes do Gun-Club. Dava Miguel o brao direito ao presidente
Barbicane e o brao esquerdo a J.-T. Maston, mais radiante e quasi to
rutilante como o Sol ao meio dia. Ardan subiu a um estrado, de cima do
qual se lhe estendia a vista por sobre aquelle oceano de chapus.

No se percebia n'elle o menor signal de acanhamento, nem de impostura;
estava ali como quem est em sua casa, alegre, familiar e amavel; depois
de responder com uma graciosa inclinao de cabea aos hurrahs com que o
acolheram, e de reclamar com um gesto de mo silencio, tomou a palavra
em inglez, exprimindo-se, com extrema correco de linguagem, nos
seguintes termos:

Meus senhores, apesar do grande calor que faz, tomarei a liberdade de
abusar dos vossos momentos para dar algumas explicaes cerca de
projectos que, segundo parece, vos interessam.

No sou orador nem homem de sciencia, e no contava fallar em publico;
disse-me porm o meu amigo Barbicane que isso vos seria agradavel, e
tanto bastou para me decidir a esse sacrificio. Consequentemente,
escutae-me com os vossos seiscentos mil ouvidos, e tende a bondade de
desculpar os erros do auctor.

Mereceu grande apreo aos circumstantes aquelle exordio sem ceremonia;
um immenso murmurio de satisfao deu prova do contentamento da
multido.

Meus senhores, proseguiu Ardan, todos e quaesquer signaes de approvao
ou desapprovao so permittidos. Isto posto, comearei Em primeiro
logar, no deveis esquecer que estaes tratando com um ignorante, e to
longe vae sua ignorancia, que at as difficuldades ignora. Pareceu-lhe
portanto cousa simples, natural e facil tomar passagem dentro de um
projectil, e partir para a Lua. Era viagem que mais tarde ou mais cedo
se havia de vir a fazer, e pelo que diz respeito ao modo de locomoo
adoptado, esse no era mais do que simples consequencia da lei do
progresso. O homem comeou por viajar com as mos pelo cho, depois, um
bello dia, s nos dois ps, depois n'uma carroa, depois em calea,
depois em carroo, depois em diligencia, depois em caminho de ferro;
pois bem! o projectil  a viatura do futuro; que, a fallar a verdade, os
planetas no so seno outros tantos projecteis, simples balas de canho
arremessadas pela mo do Creador.

[Figura: Os comboios de projecteis para a Lua (pag. 163).]

Mas voltemos ao nosso vehiculo. Algum de vs, senhores, poder ter
pensado que a velocidade que tem de imprimir-se-lhe,  excessiva; pois
no  assim; todos os astros tem superior rapidez, e a propria Terra,
em seu movimento de translao em volta do Sol, nos leva comsigo com
triplicada velocidade. Vou apresentar-vos alguns exemplos, e pedirei
permisso para me exprimir contando por leguas, porque no estou muito
familiarisado com as medidas americanas e tenho receio de me embarulhar
nos calculos.

[Figura: Ataque e replica (pag. 174).]

Ninguem oppoz difficuldades  concesso pedida, que pareceu
perfeitamente rasoavel, e o orador continuou o discurso:

Eis-aqui, senhores, a velocidade dos differentes planetas. Apesar da
minha ignorancia, fora  confessa-lo, conheo com muita exactido estas
miudezas astronomicas. Mas em menos de dois minutos estareis a esse
respeito to instruidos como eu. Sabei pois, que Neptuno anda cinco mil
leguas por hora; Urano, sete mil; Saturno, oito mil oitocentas e
cincoenta e oito; Jupiter, onze mil seiscentas e setenta e cinco; Marte,
vinte e duas mil e onze; a Terra, vinte e sete mil e quinhentas; Venus,
trinta e duas mil cento e noventa; Mercurio, cincoenta e duas mil
quinhentas e vinte; certos cometas, um milho e quatrocentas mil leguas
no perihelio! Ns c, verdadeiros passeiantes, gente de poucas posses,
no havemos de ir alem de nove mil novecentas leguas de velocidade, e
mais ha de esta ir sempre diminuindo. Perguntarei eu agora, se ha aqui
motivo para pasmar, e se todas estas velocidades no ho de ser um dia
excedidas por outras ainda maiores, de que provavelmente sero agentes
mechanicos a luz ou a electricidade?

Ninguem pareceu pr em duvida a assero de Miguel Ardan.

Caros auditores, proseguiu este, se formos a dar credito a uns certos
espiritos acanhados,--e  exactamente esta a qualificao que melhor
lhes cabe--est a humanidade encerrada n'um circulo de Popilius, que
alem do qual no pde dar passo, e condemnada a vegetar no globo
terraqueo sem esperana sequer de poder abrir vo para os espaos
planetarios! Pois no  assim! Agora vamos  Lua, e ainda havemos de ir
aos planetas, ainda havemos de ir s estrellas, como se vae hoje de
Liverpool a New-York, com facilidade, rapidez e segurana. Em breve
sero atravessados o oceano atmospherico, bem como os oceanos da Lua! A
distancia  apenas um termo de relao, e havemos de chegar a final a
reduzi-la a zero.

A assembla, apesar de muito enlevada pelo heroe francez, ficou um tanto
attonita com aquella theoria audaciosa. Miguel Ardan pareceu perceb-lo,
e proseguiu com amavel sorriso:

Parece-me que no estaes l muito convencidos, estimaveis hospedes.
Pois bem! Discutmos um pouco. Sabeis quanto tempo seria necessario a um
comboio expresso para chegar  Lua? Trezentos dias. Nada mais. O
trajecto  de oitenta e seis mil quatrocentas e dez leguas, mas isso que
? No chega a ser nove vezes um circuito em volta da Terra; no ha
marinheiro ou viajante digno d'esse nome que no tenha andado mais do
que isso no decurso da vida! Pensae pois, que eu no hei de gastar mais
de noventa e sete horas no caminho! Ah! estaes imaginando que a Lua est
a grande distancia da Terra, e que no seria mau reflectir antes de
tentar a aventura! Que dirieis ento se se tratasse de ir a Neptuno que
gravita a um milho cento e quarenta e sete mil leguas do Sol! Isso 
que  viagem que poucos poderiam intentar, ainda que mais no custasse
que a cinco soldos por kilometro! Nem o baro de Rothschild com os seus
mil milhes tinha com que pagasse o logar; faltavam-lhe ainda cento e
quarenta e sete milhes para no ficar no caminho!

Esta maneira de argumentar pareceu ser muito do agrado da assembla.
Miguel Ardan, por sua parte, bem possuido como estava do assumpto,
deixava-se arrastar ao sabor da argumentao com soberbo enthusiasmo;
percebra que era ouvido com avidez, e proseguiu portanto com admiravel
confiana: Pois bem, amigos, ainda esta distancia de Neptuno ao Sol no
 nada, se a compararmos com a das estrellas; effectivamente para
avaliar o afastamento de taes astros  necessario lanar mo de uma
classe de numeros deslumbrantes, o menor dos quaes tem nove algarismos,
tomar emfim por unidade o milhar de milhes. Peo-vos perdo de me
mostrar to sabido no assumpto, mas  por ser de um interesse
palpitante. Ouvi e julgae. Alpha do Centauro est a oito billies de
leguas, Wega a cincoenta billies, Sirius a cincoenta billies, Arcturus
a cincoenta e dois billies, a Polar a cento e dezesete billies de
leguas, a Cabra a cento e setenta billies, as outras estrellas a
milhares de billies e de trillies de leguas! E ainda haver quem falle
na distancia que medeia entre o Sol e os planetas! E haver ainda quem
sustente que existe tal distancia! Erro, falsidade! aberrao dos
sentidos! Quereis saber o que eu penso cerca d'esse mundo que comea no
astro radiante e acaba em Neptuno? Quereis conhecer a minha theoria? 
muito simples! Para mim o mundo solar  um corpo solido, homogeneo; os
planetas que o formam, apertam-se, tocam-se, adherem, e o espao que
entre elles existe  como o espao que medeia sempre entre as molleculas
do mais compacto metal, seja prata, seja ferro, oiro ou platina! Julgo
portanto ter direito para affirmar, e repito-o com convico, que ha de
communicar-se a vs todos: A distancia  uma palavra v, a distancia
nem sequer existe!

--Bem dito! Bravo! Hurrah! gritou _una voce_ a assembla electrisada
pelo gesto, pela accentuao do orador e pelo ousado das concepes.

--No, exclamou J.-T. Maston ainda mais energicamente que os outros, a
distancia no existe!

E, arrastado pela violencia dos movimentos, pelo impulso do proprio
corpo que mal podia dominar, a cando do alto do estrado no cho.
Conseguiu, todavia, retomar a posio de equilibrio, e livrar-se de uma
quda que lhe havia de provar brutalmente que a distancia no era
palavra de todo v. Em seguida proseguiu no seu discurso o attrahente
orador.

Amigos, disse Miguel Ardan, cuido que tal problema deve j agora ter-se
como resolvido. Se no logrei convencer-vos a todos, foi de certo porque
fui timido nas demonstraes, fraco na argumentao, e a culpa  da
minha insufficiencia de estudos theoricos. Seja l como for, repito, a
distancia da Terra ao seu satellite  realmente pouco importante e
indigna de preoccupar qualquer espirito grave. Creio que no ser ir
muito alem da verdade affirmar que em breve se ho de vir a estabelecer
trens de projecteis, nos quaes poder fazer-se com toda a commodidade a
viagem da Terra  Lua. N'estes  que no haver que receiar, nem
choques, nem abalos, nem descarrilamentos, e chegar-se-ha ao termo da
viagem, sem cansao em linha recta, a vo de abelha, para fallar na
linguagem dos caadores c da America. D'aqui a vinte annos, de certo j
metade da Terra tem ido visitar a Lua!

Hurrah! hurrah! por Miguel Ardan, clamaram os circumstantes ainda os
menos convencidos.

--Hurrah por Barbicane! respondeu modestamente o orador.

Aquelle acto de gratido para com o promotor da empreza, foi recebido
pelos espectadores com applausos unanimes.

Agora, amigos, proseguiu Miguel Ardan, se alguem tem qualquer pergunta
a fazer-me, por certo que embaraar um pobre homem como eu, entretanto
farei todos os esforos para responder.

At aquelle momento no tivera o presidente do Gun-Club seno motivos de
satisfao pela direco que a discusso tomava. Versando esta sobre
theorias especulativas, Miguel Ardan, levado pela sua viva imaginao,
mostrava-se extremamente brilhante. Por consequencia, o que a Barbicane
parecia necessario, era pr impedimento a que se desviasse para questes
praticas, de que por certo Ardan se havia de sar menos airoso.

Barbicane apressou-se portanto a tomar a palavra, para perguntar ao
amigo de recente data qual era o seu modo de ver em respeito a
habitantes da Lua e dos planetas.

 um grande problema esse que me propes para resolver, meu digno
presidente, respondeu o orador sorrindo; todavia, se me no engano,
homens de grande intelligencia, taes como Plutarco, Swedenborg,
Bernardin de Saint-Pierre e muitos outros pronunciaram-se pela
affirmativa. Olhando a questo pelo lado da philosophia natural, sou
levado a pensar em harmonia com a opinio d'elles; a mim proprio digo
que cousa alguma inutil existe no mundo, e respondendo  tua pergunta,
com outra pergunta, affirmarei que se os mundos so habitaveis,  porque
so habitados, porque o foram, ou porque ainda o ho de ser.

Muito bem! clamaram as primeiras linhas de espectadores, cuja opinio
tinha fora de lei para com as ultimas.

--Com mais logica e a proposito  que no ha responder, disse o
presidente do Gun-Club. A minha pergunta transforma-se portanto na
seguinte: Sero porventura os mundos habitaveis?

--Pela minha parte parece-me que o so.

E eu c por mim, estou seguro d'isso, respondeu Miguel Ardan.

--Todavia, replicou um dos circumstantes, argumentos ha que vo de
encontro  theoria da habitabilidade dos mundos. Para que estes podessem
ser habitaveis, era evidentemente necessario, que na maior parte
d'elles, fossem modificados os principios da vida. N'estes termos, e no
me referindo j seno a planetas, n'uns d'elles seria o homem queimado e
n'outros gelado, segundo a respectiva distancia solar.

--Sinto, respondeu Miguel Ardan, no conhecer pessoalmente o meu honrado
contradictor. A objeco que apresenta tem seu valor, mas creio que pde
ser combatida com bom exito, assim como todas as que se oppe 
habitabilidade dos mundos. Se eu fra um physico, havia de dizer-lhe
que, se ha menos calorico em movimento nos planetas proximos do sol, e
pelo contrario mais, nos planetas mais afastados, esse mesmo phenomeno 
bastante para equilibrar o calor e tornar a temperatura de todos os
mundos supportavel para seres organisados como ns outros. Se fra
naturalista havia de repetir-lhe, depois de o terem dito muitos sabios
illustres, que a natureza mesmo c na Terra nos fornece exemplos de
animaes que vivem em condies bem diversas de habitabilidade; que os
peixes respiram n'um ambiente que  mortal para os outros animaes; que
os amphibios tem uma existencia dupla bastante difficil de explicar;
que ha certos habitantes dos mares que se mantem nas camadas de grande
profundidade, onde aguentam, sem serem esmagados, presses de cincoenta
ou sessenta atmospheras; que ha diversos insectos aquaticos insensiveis
 aco da temperatura, que se encontram tanto nas nascentes de agua a
ferver como nos plainos gelados do oceano polar; e finalmente que 
fora reconhecer na natureza uma diversidade de meios de aco por vezes
incomprehensivel, mas que nem por isso  menos real, e que chega at 
omnipotencia. Se eu fra chimico, havia de dizer-lhe que os aerolithos,
corpos evidentemente formados fra do mundo terrestre, tem revelado pela
analyse vestigios indiscutiveis de carbonio, e que esta substancia s
tem origem nos seres organisados, e que, em virtude das experiencias de
Reichenbach, deve necessariamente ter estado animalisada. Emfim, se
fra theologo, dir-lhe-a que, segundo S. Paulo, parece que a redempo
divina se applicra, no smente  Terra, mas a todos os mundos
celestes. Mas no sou theologo, nem chimico, nem naturalista, nem
physico. E portanto, na minha perfeita ignorancia das grandes leis que
regem o universo, limitar-me-hei a responder:

--No sei se os mundos so ou no habitados, e por isso mesmo que no
sei, vou l ver!

Se o adversario de Miguel se abalanou ou no a apresentar outros
argumentos  que ns no podemos dizer, porque os gritos freneticos da
multido tornaram-se ento capazes de impedir que qualquer opinio fosse
sequer ouvida. Logoque se restabeleceu o silencio, ainda nos mais
afastados grupos, o triumphante orador terminou, contentando-se em
acrescentar as seguintes consideraes:

Bem deveis pensar, estimaveis Yankees, que apenas toquei de leve to
momentosa questo; eu no vim aqui para fazer um curso publico e
defender theses cerca de to vasto assumpto. Ha ainda uma colleco
completa de argumentos de natureza inteiramente differente a favor da
habitabilidade dos mundos. P-los-hei de parte. Dem-me entretanto
licena que insista cerca de um unico ponto. quelles que sustentam que
os planetas no so habitados, deve responder-se:--Pde ser que tenhaes
raso, se  que est demonstrado que a Terra  o melhor dos mundos
possiveis; mas isso  que no  assim, apesar do que Voltaire disse a
tal respeito. A Terra tem um s satellite, emquanto Jupiter, Urano,
Saturno e Neptuno tem muitos ao seu servio, vantagem que no  para
desdenhar. Mas o que, mais que tudo, torna o nosso globo pouco
_confortable_,  a inclinao do eixo sobre a orbita. D'esta vem a
desigualdade dos dias e das noites; d'esta a incommoda diversidade das
estaes. No nosso desgraado espheroide faz sempre frio ou calor
demasiado; gela-se por c no inverno, e arde-se no estio;  o planeta
dos defluxos, dos coryzas e das constipaes, emquanto na superficie de
Jupiter, por exemplo, cujo eixo tem pequena inclinao[87], os
habitantes, se  que existem, podem gosar temperaturas invariaveis; ali
ha uma zona das primaveras, uma zona dos estios, uma zona dos outonos e
uma zona de invernos perpetuos; cada habitante de Jupiter pde escolher
o clima que mais lhe convier, e pr-se para toda a vida ao abrigo das
variaes de temperatura. Haveis portanto de conceder-me sem
difficuldade a superioridade de Jupiter em relao ao nosso planeta, sem
fallar j das revolues annuas d'aquelle astro, que duram cada uma doze
annos dos nossos! Ainda mais,  para mim evidente, que com taes
auspicios e em to maravilhosas condies de existencia, os habitantes
d'esse mundo afortunado so entes superiores; que ali os sabios so mais
sabios, os artistas mais artistas, os maus peiores, e os bons melhores.
Ai! e que nos falta a ns, pobre espheroide, para chegar a tal
perfeio? Bem pouca cousa. Um eixo de rotao, com menos inclinao
sobre o plano da orbita!

--Pois bem! clamou uma voz impetuosa, unmos os nossos esforos,
inventemos machinas e indireitemos o eixo da Terra!

Rebentou ao ouvir-se tal proposta uma trovoada de applausos; o auctor da
proposta fra, e nem outro podia ser, J.-T. Maston.  provavel que o
fogoso secretario se deixasse arrastar a aventar to ousada ida pelos
seus instinctos de engenheiro. Fora  dize-lo porm, porque  a
verdade, muitos o applaudiram com enthusiasmo, e por certo se tivessem o
ponto de apoio que Archimedes reclamava, os americanos teriam construido
uma alavanca capaz de levantar o mundo e de endireitar-lhe o eixo. Mas o
que lhes faltava, quelles temerarios constructores, era exactamente o
ponto de apoio.

Entretanto aquella ida eminentemente pratica teve um exito enorme;
suspendeu-se a discusso por um bom quarto de hora, e por muito tempo,
por muito tempo ainda, se fallou nos Estados Unidos da America da
proposta formulada, com tanta energia pelo secretario perpetuo do
Gun-Club.




CAPITULO XX

ATAQUE E REPLICA


Parecia que aquelle incidente devia pr termo  discusso. Estava dita
a ultima palavra e a melhor no poder ser. Todavia, quando acalmou a
agitao, ouviram-se as seguintes palavras, pronunciadas por uma voz
forte e severa:

Agora que o orador j deu mais do que devra dar  phantasia, por certo
no se negar a entrar de novo no assumpto, construindo menos theorias,
e discutindo a parte pratica da expedio que intenta?

Volveram-se todos os olhares para o personagem que fallava d'aquella
frma. Era um homem magro, secco, de physionomia energica, com
abundantes barbas, talhadas  americana, que lhe saam debaixo do queixo
inferior. Conseguira pouco e pouco collocar-se nas primeiras filas, 
sombra dos diversos movimentos que se tinham realisado na assembla.
Ali, cruzados os braos, com o olhar ousado e scintillante, fixava-o
imperturbavelmente no heroe do meeting. Depois de ter formulado a
pergunta, calou-se sem parecer impressionado pelos milheiros de olhares
que para elle convergiam, nem pelo murmurio desapprovador, que
suscitaram as palavras que pronuncira. E como a resposta se a fazendo
esperar, repetiu de novo a pergunta, com a mesma accentuao precisa e
terminante, e acrescentando:

Estamos aqui para tratar da Lua, que no da Terra.

--Tendes raso, senhor, respondeu Miguel Ardan, a discusso desviou-se
um tanto do caminho regular. Volvamos  Lua.

--Senhor, replicou o desconhecido, affirmaes que o nosso satellite 
habitado. Bem. Mas se existem selenitas, certamente essa especie de
gente vive sem respirar, porque--e por interesse vosso  que vos vou
prevenindo--no ha uma unica mollecula de ar  superficie da Lua.

Ao ouvir tal assero, sacudiu Ardan a fulva juba: comprehendeu que com
aquelle homem  que a luta a engajar-se a serio e na parte mais
melindrosa do assumpto.

Olhou tambem fixo para elle e disse:

Ah! Ento no ha ar na Lua! E, se me d licena, quem  que o affirma?

--Os homens da sciencia.

--Na verdade?

--Na verdade.

--Senhor, replicou Miguel Ardan, fra de qualquer brincadeira, tenho
profunda estima pelos homens de sciencia que sabem, mas tambem profundo
desdem pelos sabios que nada sabem.

--E conheceis alguns que pertenam  ultima categoria?

--Muito particularmente. Em Frana ha um que sustenta que
mathematicamente as aves no podem voar, e outro cujas theorias
demonstram que os peixes no foram feitos para viver na agua.

--No  d'esses que trato, senhor, e para apoiar a minha assero
poderia citar-vos nomes que de certo no havieis de recusar.

--N'esse caso, senhor, muito havieis de embaraar um pobre ignorante,
que, alis, nada deseja tanto como instruir-se!

--Ento, se no estudastes as questes scientificas, porque  que vos
abalanaes a discuti-las? perguntou com bastante rudeza o desconhecido.

--Porque? respondeu Ardan. Pela simples raso que  sempre arrojado
aquelle que nem suspeita tem dos perigos! Nada sei,  verdade, mas 
exactamente n'esta fraqueza que consiste a minha fora.

[Figura: Arrancaram o estrado de repente (pag. 184).]

--A vossa fraqueza chega a ser loucura, exclamou o desconhecido com
intonao de mau humor.

[Figura: Irrompeu Maston pelo quarto dentro (pag. 187).]

--Sim!? Tanto melhor, replicou o francez, se essa loucura me levar at 
Lua!

Barbicane e os collegas devoravam com o olhar o intruso, que com tanto
arrojo vinha apresentar-se em opposio  empreza. Ninguem o conhecia, e
o presidente pouco seguro cerca das consequencias da discusso to
francamente posta, olhava com tal ou qual apprehenso para o seu novo
amigo. A assembla mostrava-se attenta e seriamente inquieta, porque a
disputa tivera como resultado chamar-lhe a atteno para os perigos, ou
talvez verdadeiras impossibilidades da expedio.

Senhor, proseguiu o adversario de Miguel Ardan, so numerosas e
indiscutiveis as rases que provam a ausencia completa de atmosphera em
volta da Lua. At _a priori_ pde affirmar-se que se alguma vez existiu
essa atmosphera da Lua, deve ter-lhe sido subtrahida pela Terra. Prefiro
entretanto objectar-vos factos irrecusaveis.

--Objectae, senhor, respondeu Miguel Ardan com perfeita cortezania,
objectae  vossa vontade!

--Sabeis, disse o desconhecido, que quando os raios luminosos atravessam
um meio qualquer tal como o ar, so desviados da linha recta, ou, por
outras palavras, que experimentam uma refraco. Pois bem! quando a Lua
occulta alguma estrella, os raios luminosos que emanam d'esta, mesmo
quando so tangentes  peripheria do disco lunar, nunca experimentam o
menor desvio nem do o mais leve indicio de refraco. D'ahi flue como
consequencia evidente que a Lua no est circumdada por uma atmosphera.

Olharam todos para o francez, porque admittida que fosse a observao,
as consequencias tiradas eram perfeitamente rigorosas.

Em verdade, respondeu Miguel Ardan,  esse o vosso mais valioso, por
no dizer o unico, argumento, e qualquer homem de sciencia havia de
ver-se extremamente embaraado para responder-lhe; eu c direi smente
que tal argumento no tem valor absoluto, porque suppe que o diametro
angular da Lua est perfeitamente determinado, o que no  exacto. Mas
passemos adiante, e dizei-me, meu caro senhor, se admittis a existencia
de vulces  superficie da Lua.

--De vulces extinctos, sim; inflammados, no.

--Deixar-me-heis comtudo acreditar, e sem transpor de certo os limites
da logica, que esses vulces estiveram em actividade em outra epocha?

--Isso  positivo, mas como tambem era possivel que os proprios vulces
fornecessem o oxygenio necessario para a combusto, o facto das erupes
no prova de modo algum a existencia de atmosphera lunar.

--Passemos adiante, respondeu Miguel Ardan, e ponhmos de parte tal
genero de argumentos para chegarmos s observaes directas. Previno-vos
porm que vou citar os nomes proprios.

--Pois citae.

-- o que farei. Em 1715, os astronomos Louville e Halley, na observao
do eclipse de 3 de maio, notaram certas fulminaes de natureza
singular. Essa especie de relampagos, rapidos e a miudo repetidos, foi
por estes observadores attribuida a tempestades que se desencadeavam na
atmosphera da Lua.

Em 1715, replicou o desconhecido, tomaram os astronomos Louville e
Halley por phenomenos lunares phenomenos que eram puramente terrestres,
taes como bolidos, aerolithos ou outros similhantes, e que se realisaram
na nossa atmosphera.  isto o que responderam os homens da sciencia 
enunciao de taes factos, e  o que eu com elles responderei tambem.

--Adiante pois, respondeu Ardan, sem se perturbar com a replica.

E Herschel, em 1787, no observou um grande numero de pontos luminosos
na superficie da Lua?

-- certo, mas o proprio Herschel, que alis no deu explicao alguma
cerca da origem d'esses pontos luminosos, no tirou por concluso do
que observra a forada existencia de uma atmosphera lunar.

--Bem respondido, disse Miguel Ardan cumprimentando o antagonista, vejo
que sois muito entendido em selenographia.

--Verdade  que sou bastante entendido no assumpto, senhor; devo porm
acrescentar, que os mais habeis observadores, os que mais a fundo tem
estudado o astro das noites, os srs. Beer e Moedler, esto commigo de
accordo cerca da falta absoluta de ar na superficie d'elle.

Houve certa sensao entre os circumstantes, que pareceram
impressionados pelos argumentos do singular personagem.

Continuemos a passar adiante, respondeu Miguel Ardan com a maior
placidez, que chegaremos a final a um facto importante. Um habil
astronomo francez, M. Laussedat, na observao do eclipse de 18 de julho
de 1860, verificou que as extremidades do crescente solar estavam
arredondadas e truncadas. Ora tal phenomeno s podia ser produzido por
um desvio dos raios solares que atravessassem uma atmosphera da Lua;
outra explicao admissivel no ha.

--E esse facto  positivo? perguntou com vivacidade o desconhecido.

--Absolutamente positivo!

Realisou-se ento na assembla um movimento inverso do anterior, e que
fez de novo pender os espiritos para o heroe favorito, cujo antagonista
ficra silencioso. Ardan retomou a palavra, e sem se ufanar com a
decidida vantagem que acabava de obter, disse com simpleza:

Vdes por consequencia, meu caro senhor, que no devemos pronunciar-nos
de uma frma absoluta contra a existencia de atmosphera  superficie da
Lua; essa atmosphera  provavelmente pouco densa, muito subtil, mas na
actualidade a sciencia admitte geralmente a existencia d'ella.

--No nas montanhas, em que vos peze, replicou o desconhecido, que no
queria dar o brao a torcer.

No, mas no fundo dos valles, e sem que a sua altura passe de alguns
centos de ps.

--Em todo o caso, no ser mau que tomeis todas as precaues, porque
esse ar ha de estar terrivelmente rarefeito.

--Oh! meu estimavel senhor, sempre ha de haver que farte para um homem
s; e demais, depois de l estar em cima, eu tratarei de o economisar o
melhor que podr; no respirarei seno nas grandes occasies!

Retumbou uma estrepitosa gargalhada aos ouvidos do mysterioso
interlocutor, que estendeu a vista por toda a assembla, como que
desafiando-a, altivo.

Consequentemente, proseguiu Miguel Ardan, visto como estamos de accordo
cerca da existencia de tal ou qual atmosphera, somos forados a
admittir tambem a presena de tal ou qual quantidade de agua. E  uma
consequencia esta com que, pela minha parte, me alegro em extremo. Alem
d'isto permittir o meu amavel contradictor que lhe submetta ainda mais
outra observao. Ns s conhecemos uma das faces do disco da Lua, e se
pouco ar pde haver na face que olha para ns,  possvel que haja muito
na face opposta.

--E porque raso?

--Porque a Lua, em virtude da attraco terrestre  que tomou a frma de
um ovo, que ns vemos pelo lado da ponta mais achatada; e d'ahi vem a
consequencia obtida pelos calculos de Houven, que o centro de gravidade
da Lua est situado no outro hemispherio. E d'ahi tambem por concluso,
que todas as massas aereas e aquosas devem ter sido arrastados para a
outra face do nosso satellite nos primeiros tempos da sua creao.

--Puras phantasias! exclamou o desconhecido.

--Isso no! mas sim puras theorias, alis fundadas nas leis da
mechanica, e que me parecem de difficil refutao. Appello portanto para
o juizo da assembla, e ponho  votao a questo de saber se a vida,
tal como existe na Terra,  ou no possivel na superficie da Lua?

Trezentos mil auditores applaudiram simultaneamente a proposio. O
adversario de Miguel Ardan ainda quiz fallar, mas nem podia fazer-se
ouvir. Cau-lhe em cima como uma saraivada de gritos e ameaas.

Basta! Basta! diziam uns.

--Fra o intruso! repetiam outros.

--Fra! Fra! clamava a multido irritada.

O desconhecido porm, firme, agarrado e bem seguro ao estrado, no
arredou p e deixou passar a tormenta, que teria assumido propores
formidaveis se Miguel Ardan no a tivera apaziguado com um gesto. Ardan
era muito cavalheiro para abandonar um adversario em taes extremos.

Desejaes acrescentar mais algumas palavras? perguntou Ardan com a mais
graciosa intonao.

--Um cento! ou um milheiro! respondeu iracundo o desconhecido. Ou, para
melhor dizer, no, basta s uma! Se perseveraes na empreza,  porque
sois...

--Imprudente! E com que fundamento me trataes vs por similhante frma,
a mim, que at pedi ao meu amigo Barbicane que a bala fosse
cylindro-conica, s para no andar  roda no caminho como qualquer
esquilo?

--Mas, desgraado, logo  partida ha de fazer-vos em estilhas a
horrorosa repercusso do tiro!

--Meu caro contradictor, agora sim, agora  que pozestes o dedo na
chaga, na verdadeira e unica difficuldade; entretanto o conceito que
formo do engenho industrial dos americanos  muito elevado para que me
permitta acreditar que no ho de conseguir resolve-la.

--E o calor desenvolvido pela velocidade do projectil ao atravessar as
camadas da atmosphera?

--Oh! as paredes do projectil so espessas, e depois tanto  o tempo que
eu hei de levar a atravessar a atmosphera!?

--Mas viveres e agua?

--J calculei que podia levar commigo provises para um anno, e a viagem
dura s quatro dias!

--E ar para respirar no caminho?

--Hei de fabrica-lo por processos chimicos.

--Mas a quda na Lua, dado mesmo que consigaes l chegar?

--Ha de ser seis vezes menos rapida do que o seria na superficie da
Terra, visto como a gravidade  seis vezes menor na superficie da Lua.

--Ainda assim ha de ser mais do que sufficiente para vos fazer em
pedaos como a um bocado de vidro!

--E quem  que me ha de impedir de retardar a queda por meio de foguetes
convenientemente dispostos e inflammados em occasio opportuna.

--Mas, emfim, demos que esto resolvidas todas as difficuldades,
aplanados todos os obstaculos, e que se juntam ainda a vosso favor todas
as probabilidades, admittamos que chegaes  Lua so e salvo, como  que
haveis de voltar?

--No volto!

Ao ouvir tal resposta sublime em sua mesma simplicidade, a assembla
ficou muda. Mas aquelle silencio era mais eloquente do que quaesquer
clamores de enthusiasmo. D'elle se aproveitou o desconhecido para lavrar
o seu ultimo protesto.

-- um suicidio infallivel, exclamou, e a vossa morte, que ser apenas a
morte de um insensato, nem ao menos servir de proveito  sciencia!

--Continuae, generoso desconhecido, prognosticaes, na verdade, por modo
to agradavel!

--Ah! isto  de mais! exclamou o adversario de Miguel Ardan, nem sei
porque tenho estado a perder o meu tempo em discusso to pouco seria!
Prosegui  vontade n'essa empreza louca. A culpa no  a vs que se deve
tornar!

--Oh! no faa ceremonia!

--No! a outrem cabe a responsabilidade inteira dos vossos actos.

--Ento a quem, se me faz favor? perguntou Miguel Ardan com voz
imperiosa.

--Ao ignorante que organisou essa tentativa to impossivel como
ridicula.

O ataque era directo. Barbicane que desde que o desconhecido interviera
na discusso fazia esforos violentos para se conter, e queimar o
proprio fumo como as fornalhas fumivoras de certas caldeiras, vendo-se
agora claramente designado e com tamanha affronta, levantou-se
precipitadamente e a j sobre o adversario que o desafiava cara a cara,
quando de subito se viu separado d'elle.

Cem braos vigorosos arrancaram n'um momento o estrado, e o presidente
do Gun-Club teve que partilhar com Miguel Ardan as honras do triumpho. O
broquel era pesado, mas os que o levavam revezavam-se de continuo,
disputando, lutando todos e combatendo para prestarem com os proprios
hombros decidido apoio  manifestao.

E todavia o desconhecido no se aproveitra do tumulto para se escapar.
E porventura teria podido faze-lo, rodeado como estava por aquella
multido compacta? Por certo que no.

Caso  que se conservra na primeira fila, e de braos cruzados devorava
com os olhos o presidente Barbicane.

Este por sua parte no o perdia de vista; os olhares d'aquelles dois
homens estavam em cruzamento permanente como duas espadas frementes.

Os clamores da multido immensa mantiveram-se no _maximum_ de
intensidade durante todo o tempo que durou a marcha triumphal. Miguel
Ardan deixava-se levar com evidente satisfao ao sabor das turbas.
Irradiava-lhe do rosto a alegria. Por vezes o estrado parecia jogar de
ppa a proa, e de bombordo a estibordo como um navio batido pelas ondas.
Mas os dois heroes do _meeting_ que tinham p de marinheiro, nem
vacillavam; e chegou-lhes a nave sem avaria ao porto de Tampa-Town.

Miguel Ardan conseguiu, por fortuna, escapar-se aos ultimos amplexos e
apertos de mo dos seus vigorosos admiradores; safou-se para o hotel
_Franklin_, subiu com presteza para o quarto, e metteu-se rapidamente na
cama, emquanto um exercito de cem mil homens velava debaixo das
janellas.

N'aquella mesma hora passava-se entre o personagem mysterioso e o
presidente do Gun-Club uma scena curta, porm grave e decisiva.

Barbicane apenas se vira livre, caminhra direito ao adversario.

Vinde! lhe disse com voz breve.

O outro seguiu-o para o caes e, dentro em pouco, acharam-se a ss 
entrada de um _Warfe_ que deitava para Jone's-Fall. Chegados quelle
logar miraram-se os dois inimigos ainda ento desconhecidos um para o
outro.

Quem sois vs? perguntou Barbicane.

--Sou o capito Nicholl.

--J o suspeitava. At este momento nunca o acaso nos proporcionra
occasio de nos vermos frente a frente...

--Busquei-a eu!

--Insultastes-me!

--E em publico.

--Haveis de dar-me satisfao do insulto!

--J.

--No. Desejo que se passe tudo secretamente e s entre ns. Ha um
bosque situado a tres milhas de Tampa-Town, o bosque de Skersnow.
Conheceis-lo?

--Conheo.

--Ser do vosso agrado entrar l manh s cinco da manh por
determinado lado?...

--Sim, se  mesma hora l entrardes pelo outro.

--E que no esquea o _rifle_? disse Barbicane.

--Tanto como vs haveis de esquecer o vosso, respondeu Nicholl.

Pronunciadas friamente estas palavras, o presidente do Gun-Club e o
capito separaram-se. Barbicane voltou para casa, mas em vez de
descansar por algumas horas, passou a noite a buscar meios de evitar a
repercusso do tiro dentro do projectil, a resolver o difficil problema
que Miguel Ardan apresentra na discusso do _meeting_.




CAPITULO XXI

COMO UM FRANCEZ ARRANJA UMA PENDENCIA DE HONRA


Emquanto entre o presidente e o capito se discutiam as convenes do
duello, duello terrivel e selvagem, em que cada um dos adversarios se
transforma em caador de outro homem, repousava Miguel Ardan das fadigas
do triumpho.

Repousar no  na realidade o termo adequado, porque as camas na America
podem disputar primazias em dureza com qualquer mesa de marmore ou de
granito. Dormia por consequencia Ardan, mas mal, dava voltas e voltas
entre os dois guardanapos que lhe serviam de lenoes, sonhando que
installava dentro do seu projectil uma camasinha mais _comfortable_,
quando um estrepito violento veio arranca-lo da regio dos sonhos.
Empurravam-lhe a porta com pancadas desordenadas, que pareciam dadas com
instrumento de ferro. De envolta com aquelle tumulto excessivamente
matutino, ouviam-se formidaveis berros.

Abre! abre, pelo amor de Deus!

Ardan no tinha motivo algum para annuir a um pedido feito com tanto
arruido. No obstante levantou-se, e foi abrir a porta, no instante em
que ella estava para ceder aos esforos do teimoso visitante.

Irrompeu pelo quarto dentro o secretario do Gun-Club, que nem uma bomba
teria entrado com maior semcerimonia.

Hontem  noite, prorompeu J.-T. Maston _ex abrupto_, o nosso presidente
foi insultado em publico no _meeting_! Desafiou o adversario, que  nem
mais nem menos que o capito Nicholl! Batem-se esta manh no bosque de
Skersnow! De tudo fui informado pela propria bca de Barbicane! A morte
d'este  a aniquilao de nossos projectos! Por consequencia 
necessario pr impedimento a tal duello! Um s homem n'este mundo exerce
no espirito de Barbicane influencia bastante para desvia-lo de seus
intentos, e esse homem  Miguel Ardan!

Emquanto Maston assim dizia, Miguel Ardan, que logo desistra de o
interromper, precipitra-se dentro das vastas calas, e menos de dois
minutos eram passados, j os dois amigos chegavam  desfilada aos
suburbios de Tampa-Town.

[Figura: No centro da teia debatia-se uma avesinha (pag. 193).]

No decurso d'aquella rapida carreira  que Maston foi pondo Ardan mais
ao facto da situao. Contou-lhe ento as verdadeiras causas da
inimisade de Barbicane e Nicholl, como era de antiga data tal inimisade,
e por que rases, nunca at quella occasio, Barbicane e o capito
tinham logrado encontrar-se cara a cara, graas aos esforos de communs
amigos; disse-lhe tambem que no havia ali mais do que rivalidade de
bala e chapa, e finalmente que a scena do _meeting_ fra apenas a
occasio de ha muito procurada por Nicholl, para satisfazer antigos
rancores.

[Figura: Mappa da Florida (pag. 113).]

Nada ha mais terrivel que a frma de duello peculiar da America, em que
os contendores se buscam por entre as matas, se espreitam pelas abertas
das aras, e atiram um ao outro, no meio das devezas, como quem atira a
um animal feroz.

N'esse momento  que ambos os adversarios devem ter inveja das
maravilhosas qualidades que caracterisam os indios das planicies, da
rapida intelligencia e da engenhosa astucia de que estes so dotados, do
faro e da peculiar percepo dos rastos que os distinguem, quando seguem
pela pista o inimigo. Em taes occasies  que o menor erro, a menor
hesitao, um passo s que seja, dado em falso, podem trazer por
consequencia a morte. Em taes recontros levam por vezes os yankees de
companhia os seus ces, e perseguem-se assim durante horas inteiras,
desempenhando a um tempo os papeis de caa e caador.

Que diabo de gente so estes americanos! exclamou Miguel Ardan, depois
que o companheiro acabou de lhe descrever com extrema energia todas
aquellas scenas.

--Somos assim tal qual, respondeu com modestia J.-T. Maston; mas vamos
apressando o passo.

Entretanto por mais que Maston e Ardan corressem atravs da planicie,
ainda humida do orvalho da noite, passando arrozaes e ribeiros, tomando
sempre pelo caminho mais curto, no lograram chegar ao bosque de
Skersnow, antes das cinco horas e meia. Barbicane j havia boa meia hora
que devia ter-lhe passado a orla.

Trabalhava ali um velho _bushman_, cuja occupao era desfazer em
cavacos as arvores que derrubava com o machado.

Maston correu para elle a gritar:

Vistes entrar na mata um homem armado de _rifle_, Barbicane, o
presidente... o meu melhor amigo?...

O digno secretario do Gun-Club pensava ingenuamente que o seu presidente
havia por fora de ser conhecido do mundo inteiro. Mas o _bushman_ no
deu mostras de o comprehender.

Um caador, disse ento Ardan.

--Um caador, sim vi, respondeu o _bushman_.

--E ha muito?

--Ha de haver uma hora.

--J  tarde! clamou Maston.

--E ouvistes tiros de espingarda? perguntou Miguel Ardan.

--Nada.

--Nem um s?

--Nem um. No me parece que o tal caador tenha feito l muito grande
caada!

--Que se ha de fazer? disse Maston.

-- entrar na mata, mesmo correndo risco de apanhar algum balasio, que
no nos fosse destinado.

--Ah! exclamou Maston com accentuao, de cuja franqueza no era
permittido duvidar-se, antes eu queria apanhar dez balas na minha
propria cabea, de que acertasse uma s na de Barbicane.

--Ento vante! replicou Ardan, apertando a mo do companheiro.

Segundos depois desappareciam os dois amigos na espessura da mata, que
era formada de cyprestes-gigantes, sycomoros, tulipeiras, oliveiras,
tamarindos, carvalheiras e magnolias. Entrelaavam-se as ramadas
d'aquellas differentes arvores, em to emmaranhada confuso, que no
consentiam que a vista alcanasse muito ao longe. Miguel Ardan e Maston
caminhavam um junto do outro, passando em silencio por entre as hervas
altas, abrindo caminho por entre agudas silvas e vigorosas trepadeiras,
inquirindo com o olhar as moitas ou as ramadas perdidas por entre a
sombria espessura da folhagem, e esperando a cada instante ouvir a
temivel detonao dos _rifles_.

Rasto de Barbicane, na sua passagem atravs do bosque,  que no
logravam reconhecer. Caminhavam s cegas por aquellas veredas apenas
pisadas, em que qualquer indio teria seguido passo por passo a marcha do
adversario.

Passada uma hora em pesquizas inuteis, fizeram alto os dois
companheiros. Redobrra-lhes a inquietao de espirito.

 porque est tudo acabado, disse Maston desanimado. Barbicane no era
homem que jogasse astucias com o inimigo, nem que lhe armasse laos ou
usasse de manobras!  franco e corajoso de mais para isso. Caminhou em
frente, direito ao perigo, e por certo a tal distancia do _bushman_ que
o vento levou, sem que este a ouvisse, a detonao das armas de fogo!

--Mas ns! respondeu Miguel Ardan. Desde que entrmos no bosque no
haviamos de ter ouvido alguma cousa!

--E se chegmos tarde! exclamou Maston com intonao de desespero.

--Miguel Ardan como no tinha replica que dar-lhe proseguiu com Maston
na marcha interrompida.

De tempos a tempos davam grandes gritos: chamavam ora por Barbicane, ora
por Nicholl; mas nenhum dos dois adversarios respondia s vozes d'elles.
Apenas alegres bandos de aves, despertadas pelo ruido, desappareciam por
entre as ramadas, ou algum gamo assustado fugia precipitado atravs da
mata.

Por mais uma hora ainda se prolongaram as pesquizas. J fra explorada a
maior parte da mata, e nada que revelasse a presena dos combatentes.
Era caso para pr em duvida as asseres do _bushman_, e Ardan pensava
j em desistir de continuar por mais tempo uma busca inutil, quando, de
subito, Maston estacou.

--Chit! murmurou elle. Est acol alguem!

--Alguem? respondeu Miguel Ardan.

--Sim! um homem! Parece estar immovel. J no tem o _rifle_ nas mos.
Que estar fazendo?

--Mas reconheces-lo? perguntou Ardan, a quem, myope como era, de pouco
servia a vista em tal conjunctura.

--Sim! sim! L se volta, respondeu Maston.

--E ?

--O capito Nicholl!

--Nicholl! clamou Miguel Ardan, que sentiu apertar-se-lhe violentamente
o corao.

Nicholl sem arma! Seria por nada ter j que receiar do adversario?

Vamos ter com elle, disse Miguel Ardan; ficaremos desenganados.

Mas apenas teriam caminhado uns cincoenta passos, elle e o companheiro
estacaram, para mais attentamente examinarem o capito. Cuidavam
encontrar um homem sequioso de sangue, todo entregue a pensamentos de
vingana!

Ao verem-no pararam estupefactos. Distendia-se entre dois tulipeiros
gigantescos uma rede de apertada malha; mesmo no centro da teia,
debatia-se uma avesinha presa pelas azas, soltando lastimosos gritos. O
passarinheiro que assim dispozera a inextricavel rede no fra um ser
humano, seno uma peonhenta aranha, peculiar d'aquellas regies, de
volume igual ao de um ovo de pomba e dotada de pernas enormes. Mas o
horrendo animalejo, no momento em que a arrojar-se sobre a presa,
tivera de retirar, buscando asylo nas altas ramadas do tulipeiro, porque
por sua vez fra ameaado por temivel inimigo.

Effectivamente, Nicholl largra a espingarda e esquecido dos perigos da
situao, tratava de desembaraar com extremos de delicadeza a victima
enlaada nas redes da monstruosa aranha. E quando concluiu a obra, deu a
liberdade  pequena avesinha, que bateu alegremente as azas e
desappareceu.

Ainda Nicholl contemplava enternecido a avesinha que fugia de ramo em
ramo, quando ouviu as seguintes palavras ditas em tom de commoo:

Isto  que  homem valente e de alma bem formada!

Voltou-se, e encarou com Miguel Ardan, que repetia em todas as
intonaes:

 homem que merece ter amigos!

--Miguel Ardan! exclamou o capito. Que vindes fazer aqui, senhor?

--Apertar-vos a mo, Nicholl, e impedir que mateis Barbicane, ou que
sejaes morto por elle.

--Barbicane! exclamou o capito, Barbicane, que eu procuro ha duas horas
sem lograr encontra-lo! Onde estar elle escondido?

--Nicholl, disse Miguel Ardan, isso  falta de cortezia! deve sempre
prestar-se respeito ao adversario; descansae, que se Barbicane  vivo
havemos de encontra-lo, e com tanta maior facilidade que, se  que no
passou o tempo como vs, entretido em soccorrer alguma avesinha
opprimida, deve andar em vossa procura. Mas quando dermos com elle, sou
eu, Miguel Ardan quem vo-lo diz, no  de duellos que se ha de tratar.

--Entre mim e o presidente Barbicane, respondeu com gravidade Nicholl,
ha rivalidades de tal ordem, que s a morte de um dos dois...

--Ora vamos, vamos, replicou Miguel Ardan, homens valentes e almas bem
formadas como vs outros,  possivel que se detestem, mas por certo
tambem se estimam. No haveis de bater-vos.

--Hei-de bater-me, senhor!

--Isso  que no.

--Capito, disse ento J.-T. Maston com generoso animo, sou amigo do
presidente, o seu _alter ego_, outro elle; se desejaes absolutamente
matar alguem, disparae sobre mim, que  exactamente o mesmo.

--Senhor, disse Nicholl apertando com mo convulsa o _rifle_, essas
zombarias...

--O amigo Maston no est zombando, respondeu Miguel Ardan, e eu c por
mim comprehendo perfeitamente a sua ida de se fazer matar em vez do
homem de quem  amigo! Mas nem elle nem Barbicane ho de cair aos tiros
do capito Nicholl, porque tenho a fazer aos dois rivaes uma proposta
por tal frma seductora, que por certo ho de acceita-la com
enthusiasmo.

--Que proposta  ento essa? perguntou Nicholl com visivel
incredulidade.

--Haja paciencia, respondeu Ardan, no posso fazer a communicao seno
na presena de Barbicane.

--Pois vamos por elle, exclamou o capito.

No mesmo instante pozeram-se os tres a caminho; o capito desarmou o
_rifle_, po-l'o ao hombro, e caminhou com passo soffreado, sem dizer
palavra.

Por espao de meia hora ainda, foram inuteis todas as pesquizas. Maston
sentia-se dominado por sinistro presentimento, e observava Nicholl com
severidade, perguntando a si proprio se no estaria j satisfeita a
vingana do capito, e Barbicane jazendo ferido de bala ao p de alguma
moita ensanguentada. Miguel Ardan parecia dominado pelas mesmas idas, e
ambos inquiriam com os olhos o capito Nicholl, quando Maston estacou de
subito.

Encostado ao tronco de uma catalpa gigantesca via-se a uns vinte passos
o busto immovel de um homem com o corpo meio occulto por entre as
hervas.

 elle! murmurou Maston.

Barbicane nem se movia. Ardan olhou fito para os olhos do capito, mas
este no trepidou. Ardan deu alguns passos, gritando:

Barbicane! Barbicane!

Nada de resposta.

Ardan encaminhou-se precipitado para o amigo, mas no momento em que a
agarra-lo pelo brao, estacou de repente, soltando uma exclamao de
surpreza.

Barbicane, de lapis em punho, escrevia frmulas e traava figuras
geometricas n'uma carteira. A espingarda, essa jazia desarmada no cho.

O homem de sciencia, absorto pelo trabalho, esquecendo por sua parte
duello e vingana, nada vra nem ouvra. Mas quando Miguel Ardan lhe poz
a mo nas d'elle, levantou-se e olhou com ar de espanto.

--Ah! exclamou por fim, tu aqui! Encontrei, amigo! encontrei!

--O que?

--Os meios!

--Mas que meios?

--Meios de annullar o effeito da repercusso do tiro  partida do
projectil!

--Realmente? disse Miguel Ardan, olhando de soslaio para o capito.

-- verdade! agua, agua pura servir de almofada.

Ah! Maston! exclamou Barbicane, tambem vs!

--Em propria pessoa, respondeu Miguel Ardan, e d-me licena que te
apresente tambem por esta occasio o estimavel capito Nicholl!

--Nicholl! exclamou Barbicane, levantando-se de subito. Perdo, capito,
tinha-me esquecido... mas estou prompto...

Miguel Ardan metteu-se de permeio sem dar tempo aos dois inimigos para
que se interpellassem.

Por vida minha! disse Ardan, que foi uma verdadeira felicidade que dois
homens de alma generosa e elevada como vs dois se no tivessem
encontrado mais cedo! Tinhamos agora que estar chorando um dos dois! Mas
graas a Deus, que se metteu no negocio, j nada ha que receiar. Quando
dois homens esquecem os seus odios para se entregarem  resoluo de
problemas de mechanica ou fazer partidas s aranhas,  porque taes odios
no so perigosos para ninguem.

E Miguel Ardan narrou ao presidente a aventura do capito.

--Ora perguntarei eu agora, disse Miguel em concluso, se duas boas
pessoas como vs outros foram feitas para se esmigalharem reciprocamente
a cabea a tiros de carabina?

Havia n'aquella situao, um tanto ridicula, alguma cousa de to
inesperado, que Barbicane e Nicholl no sabiam como comportar-se um em
relao ao outro. Miguel, que bem o percebeu, resolveu precipitar a
reconciliao.

Estimaveis amigos, disse deixando apontar aos labios o mais agradavel
dos sorrisos, nunca houve entre vs dois seno equivocos. Nada mais.
Pois bem! para dar prova de que todas as contendas esto terminadas, e
visto como sois homens que no temem arriscar a pelle, acceitae sem
hesitar a proposta que vou fazer-vos.

--O amigo Barbicane pensa que o seu projectil ha de ir direitinho  Lua?

--Certamente que sim, replicou o presidente.

--E o amigo Nicholl est persuadido que o projectil ha de car na Terra.

--Estou seguro d'isso, exclamou o capito.

--Muito bem! proseguiu Miguel Ardan. Eu  que no tenho pretenses a
pr-vos de accordo, mas smente vos direi mui lhana e simplesmente:
Vinde commigo, para vermos assim se ficmos ou no a meio caminho.

--Hum! exclamou J.-T. Maston estupefacto.

Ao ouvirem to inesperada proposta, os dois rivaes levantaram os olhos
um para o outro. Observavam-se attentamente. Barbicane aguardava a
resposta do capito. Nicholl estava  espreita da primeira palavra do
presidente.

Ento? disse Miguel Ardan com intonao das mais convidativas. Visto
nada haver que receiar da repercusso!...

--Acceito! exclamou Barbicane.

Mas, por depressa que esta palavra fosse pronunciada pelo presidente,
tambem Nicholl a concluira ao mesmo tempo.

--Hurrah! bravo! viva! hip! hip! hip! clamou Miguel Ardan estendendo as
mos aos dois adversarios. E agora que a pendencia est pacificamente
terminada, meus amigos, consintam-me que os trate  franceza. Vamos
almoar.




CAPITULO XXII

O NOVO CIDADO DOS ESTADOS UNIDOS


N'aquelle mesmo dia toda a America foi informada a um tempo do desafio
de Barbicane com o capito Nicholl, e da aventura singular que lhe
puzera termo. O papel que desempenhra n'aquelle recontro o cavalheiroso
europeu, a proposta inesperada que viera cortar todas as dificuldades, a
acceitao simultanea dos dois rivaes, aquella conquista do continente
lunar, para emprehender a qual am marchando de accordo Frana e Estados
Unidos, tudo se reuniu para ainda mais augmentar a popularidade de
Miguel Ardan.

 sabido qual o phrenesi com que os yankees se apaixonam por qualquer
individualidade. Imagine-se qual seria a paixo desencadeada em favor do
audacioso francez, n'aquelle paiz onde at os mais graves magistrados
no duvidam puxar  carruagem de qualquer dansarina para a levarem em
triumpho. Se no desatrelaram os cavallos de Ardan, foi provavelmente
porque elle os no tinha, que no demais foram-lhe prodigalisadas todas
as provas imaginaveis de enthusiasmo. No houve um s cidado que seno
unisse a elle de alma e corao. _Ex pluribus unum_, que  a divisa dos
Estados Unidos.

A partir d'aquelle dia, no teve Miguel Ardan um s momento de socego.
Vinham procura-lo deputaes de todos os cantos da Unio, que o
attribulavam e que no promettiam ter fim, nem tregua. E o mais  que
tinha que as receber, com vontade ou sem ella. Quantos apertos de mo
deu, a quanta gente tratou por tu,  cousa que nem pde calcular-se.
Dentro em pouco tempo estava exhausto de foras, a voz j mal lhe saa
dos labios em sons inintelligiveis, rouca dos innumeraveis _speechs_; a
arranjando uma gastro-enterite de tanto _toast_ que se viu obrigado a
fazer a todos os condados da Unio. Um triumpho tal teria subido 
cabea a outro qualquer logo no primeiro dia, mas Ardan teve artes de
nunca passar de uma espirituosa e encantadora semi-ebriedade.

Entre as deputaes de todos os generos que por aquella occasio o
assaltaram, no soube esquecer quanto devia ao futuro conquistador da
Lua, a dos lunaticos. Certo dia, alguns d'estes pobres diabos,
abundantes na America, vieram ter com elle e pedir-lhe que os levasse
comsigo para o paiz natal. Alguns houve que affirmaram saber fallar a
lingua selenita e que at a quizeram ensinar a Miguel Ardan.
Prestou-se este de bom grado a to innocente mania, e at se encarregou
de recados e encommendas para os amigos que os pobres diabos diziam ter
na Lua.

Singular loucura, disse Ardan a Barbicane, depois que os despediu, e
loucura que ataca as mais das vezes as intelligencias mais agudas.
Dizia-me Arago, um dos nossos mais illustres homens de sciencia, que
muitas pessoas, alis extremamente sensatas e cautelosas nas suas
concepes, se deixam arrastar a grande exaltao e a incriveis
singularidades, todas as vezes que se occupam da Lua. E tu no ds
credito  influencia da Lua sobre as doenas?

[Figura: Parti commigo para vermos (pag. 197).]

--Pouco, respondeu o presidente do Gun-Club.

[Figura: O gato tirado da bomba (pag. 206).]

--Tambem eu no; apesar de que a historia tem registrado factos que,
pelo menos, so para causar admirao. Assim em 1693, durante certa
epidemia, morreu muita mais gente no dia 21 de janeiro, por occasio de
um eclipse. O celebre Bacon desmaiava nas occasies de eclipse da Lua, e
s voltava a si depois da completa emerso do astro. O rei Carlos VI
recau por seis vezes em demencia, no decurso do anno de 1399, e sempre
em occasio de Lua nova ou de Lua cheia. Affirmam alguns medicos que a
epilepsia deve classificar-se entre as doenas que acompanham as phases
da Lua. As molestias nervosas tambem por vezes parecem depender da
influencia lunar. Conta Mead que havia no seu tempo um menino que
entrava em convulses logo que a Lua entrava em opposio. Gall notou
que a exaltao das pessoas debeis cresce duas vezes em cada mez, uma no
_novi-lunio_, outra no _pleni-lunio_. Finalmente, ha mais de um milheiro
de observaes d'este genero, em respeito a vertigens, febres malignas e
ataques de somnambulismo, que todos tendem a provar que o astro das
noites gosa de mysteriosa influencia sobre o curso das doenas
terrestres.

--Mas como? porque? perguntou Barbicane.

--Porque? respondeu Ardan.  f que te hei de dar a mesma resposta que
Arago repetia dezenove seculos depois de Plutarco: Talvez seja
exactamente por no ser verdade!

No meio do seu triumpho, no logrou Miguel Ardan escapar-se a nenhuma
das massadas inherentes ao estado de homem celebre. Os especuladores de
vogas e celebridades de occasio tentaram p-lo em exhibio. Barnum
chegou a offerecer-lhe um milho para adquirir o direito de o
transportar de cidade em cidade, em todos os Estados Unidos, e mostra-lo
qual animal raro. A resposta de Miguel Ardan foi alcunha-lo de _cornac_,
e manda-lo a elle Barnum... passeiar.

Todavia, recusando-se alis a satisfazer por tal frma a curiosidade
publica, deixou Ardan pelo menos que seus retratos corressem pelo mundo
inteiro e occupassem logar de honra em todos os albums; d'elles se
tiraram provas de todas as dimenses, desde as de tamanho natural at as
da grandeza microscopica da estampilha do correio. Estava ao alcance de
toda a gente possuir a imagem do heroe, em qualquer das posies
imaginaveis; cabea s, meio corpo, corpo inteiro, de frente, de perfil,
de tres quartos e at de costas. Tirou-se mais de milho e meio de
exemplares. A occasio era bem boa para se desfazer em reliquias, mas
Ardan  que a no soube aproveitar. S a vender os cabellos a dollar
cada um, podia fazer uma fortuna, e mais j no eram muitos!

A popularidade, querendo fallar com inteira franqueza, no lhe era
desagradavel. Pelo contrario, Ardan punha-se  disposio do publico, e
correspondia-se com o universo inteiro. Por toda a parte se contavam,
repetiam e propalavam os ditos conceituosos d'elle, muito principalmente
os que elle nem tinha proferido. Como  uso, por isso mesmo que n'essa
parte lhe sobrava a riqueza,  que mais lhe queriam dar ou emprestar. E
no smente soube tornar propicios os homens, seno tambem as mulheres.
Bastaria que lhe tivesse passado pela cabea a phantasia de entrar no
rol dos homens serios, para ter arranjado um numero infinito de bellos
casamentos. Principalmente as velhas _misses_, d'estas que ha bons
quarenta annos se mirravam por no casar, todas devaneiavam dia e noite
diante das photographias d'elle.

Certo  que teria achado companheiras aos centos, aindaque lhes
impuzesse como condio acompanharem-n'o na aerea viagem; que as
mulheres quando lhes no d para de tudo terem medo, so verdadeiramente
intrepidas. Porm, como Ardan no tinha intento de fazer estirpe no
continente lunar, nem de para l transportar raa atravessada de francez
e americano, recusou-se formalmente a todos os enlaces.

Ir eu l para cima, dizia elle, fazer o papel de Ado com uma filha de
Eva, obrigado! E se l encontrasse serpentes!...

Ardan, logoque alfim logrou subtrahir-se s alegrias exageradamente
repetidas do triumpho, foi com os amigos fazer uma visita  Columbiada,
que bem lh'o merecia. De mais a mais, depois que Ardan vivia em contacto
com Barbicane, J.-T. Maston e _tutti quanti_ tinha-se tornado muito
sabedor em questes de balistica. O seu maior prazer consistia ento em
repetir aos estimaveis artilheiros, que no eram elles mais do que
amaveis e sabios assassinos. cerca de tal assumpto nunca se lhe
esgotava a musa epigrammatica. No dia em que visitou a Columbiada,
admirou-a com enthusiasmo e desceu at ao fundo da alma do gigantesco
morteiro, que em breve havia de arremessa-lo para o astro das noites.

Este canho ao menos, disse, no ha de fazer mal a ninguem; o que da
parte de um canho j no  pouco para admirar. Mas no me venham c
fallar d'esses machinismos que destroem, que incendeiam, que despedaam,
que matam, e ainda menos dizer-me que tem alma, que l isso  que eu
nunca hei de acreditar!

Vem a pllo narrar n'este logar um caso que diz respeito a J.-T. Maston.
Quando o secretario do Gun-Club ouviu que Nicholl e Barbicane acceitavam
a proposta de Miguel Ardan, resolveu l no intimo juntar-se com elles, e
fazer assim uma parceirada de quatro; um bello dia pediu para entrar
na viajata. Barbicane, sentindo immenso ter que lhe responder com uma
recusa, fez-lhe ver que o projectil no tinha lotao para tanto
passageiro. J.-T. Maston, desesperado, foi ter com Miguel Ardan, que o
convidou a resignar-se, fazendo at valer certos argumentos _ad
hominem_.

Ora pensa bem, meu velho Maston, e no vs tomar as minhas palavras em
mau sentido; mas aqui para ns, a verdade  que ests muito incompleto
para te apresentar assim na Lua!

--Incompleto! exclamou o velho invalido.

--Sim! meu estimavel amigo! Ora pe-te no caso de encontrarmos
habitantes l em cima. Quererias tu dar-lhes to triste ida do que se
passa c por baixo, patentear-lhe o que  a guerra, demonstrar-lhes que
empregmos por c o melhor do nosso tempo a devorar-nos, a comer-nos, a
quebrar-nos reciprocamente pernas e braos, e isto n'um globo que
poderia alimentar cem mil milhes de habitantes, e que apenas tem mil e
duzentos milhes d'elles? Ora vamos, meu digno amigo, isso era at caso
de nos prem de l fra, por tua causa!

--Mas se vs l chegardes feitos em pedaos, replicou J.-T. Maston,
estareis to incompletos como eu!

--De certo, respondeu Miguel Ardan, mas a verdade  que no havemos de
chegar l feitos em pedaos!

Effectivamente, uma experiencia preparatoria, que se tentou a 18 de
outubro, dera optimo resultado e fizera conceber as mais fundadas
esperanas. Barbicane, que desejava conhecer exactamente o effeito da
repercusso do tiro no momento da partida do projectil, fez trazer do
arsenal de Pensacola um morteiro de trinta e duas pollegadas (0,75
centimetros), que installaram na praia do molhe de Hillisboro, para que
a bomba viesse a cair no mar e o choque da quda fosse amortecido pela
agua, visto tratar-se smente de experimentar cerca do abalo  partida
e no do choque  chegada.

Foi preparado com os maiores cuidados para a realisao d'esta curiosa
experiencia um projectil co. Estofava-lhe as paredes internas um
expesso acolchoado assente em cima de uma rede de molas de ao da mais
fina tempera. Era um verdadeiro ninho cuidadosamente almofadado.

Que pena no caber eu l dentro! dizia J.-T. Maston, lamentando que o
proprio volume lhe no consentisse tentar a aventura. N'aquella
encantadora bomba, que fechava por meio de uma tampa de rosca,
introduziram primeiro um gato, depois um esquilo pertencente a J.-T.
Maston, e a que o secretario do Gun-Club tinha particular affeio. Mas
havia desejos de saber como  que aquelle animalsinho, pouco sujeito a
vertigens, supportaria a viagem de experiencia.

Carregou-se o morteiro com cento e sessenta libras de polvora, e
collocada a bomba na pea, fez-se fogo. No mesmo instante elevou-se
rapidamente o projectil, descreveu magestosamente a sua parabola, chegou
 maxima altura de approximadamente mil ps e foi-se abysmar por entre
as vagas, descendo por graciosa curva.

Dirigiu-se sem perda de tempo uma embarcao para o logar onde caira a
bomba, precipitaram-se habeis mergulhadores debaixo de agua e amarraram
cabos s auriculas da bomba que de prompto foi iada a bordo. Nem cinco
minutos tinham decorrido entre o momento em que os animaes tinham sido
encerrados na bomba e aquelle em que se lhes desatarraxou a tampa da
priso.

Ardan, Barbicane, Maston e Nicholl estavam na embarcao e assistiram 
operao com um sentimento de interesse facil de conceber. Apenas se
abriu a bomba, saltou fra o gato um tanto machucado  verdade, mas
cheio de vida, e sem ares de quem regressava de tal expedio. Mas a
respeito de esquilo  que nada. Procurou-se. Nem rasto. A final no
houve mais remedio de que reconhecer a verdade. O gato tinha comido o
companheiro de viagem.

J.-T. Maston ficou extremamente contristado com a perda do pobre
esquilo, e assentou que devia inscrever-lhe o nome no martyrologio da
sciencia.

Caso  que depois d'aquella experiencia desappareceram todas as
hesitaes e todos os temores. Demais, os planos de Barbicane ainda
haviam de aperfeioar o projectil e annullar quasi completamente os
effeitos da repercusso. Portanto nada mais restava a fazer, seno
partir.

Dois dias depois Miguel Ardan recebeu uma mensagem do presidente da
Unio, honra a que se mostrou notavelmente sensivel.

O governo, tomando exemplo do que se praticra para com o cavalheiroso
marquez de La Fayette, compatriota de Ardan, conferira a este o titulo
de cidado dos Estados Unidos da America.




CAPITULO XXIII

O WAGON-PROJECTIL


Depois que ficra concluida a celebre Columbiada, volvra-se
immediatamente a atteno publica para o projectil, novo vehiculo
destinado a conduzir atravs do espao os tres ousados aventureiros. A
ninguem esquecra, que Miguel Ardan tinha pedido, no telegramma de 30 de
setembro, que se modificassem os planos combinados pelos membros da
commisso.

Pensava ento o presidente Barbicane, e com justa raso, que era de
pouca importancia a frma do projectil, porque depois de atravessar a
atmosphera em poucos segundos, havia de realisar o resto do percurso no
vasio absoluto.

Adoptra por consequencia, a commisso a frma espherica, para que a
bala podesse girar sobre si propria e comportar-se como lhe acudisse 
phantasia. Mas logoque a transformavam em vehiculo, o caso era outro.

Miguel Ardan nenhum prazer tinha por certo em fazer viagem  maneira de
esquilo; desejava subir, sim, mas de cabea para cima e de ps para
baixo, com tanta dignidade e compostura como se viajra na barquinha de
qualquer balo; seguramente com maior rapidez, mas sem se ver obrigado a
fazer uma serie de cambalhotas menos decorosas.

[Figura: Chegada do projectil a Stone's-Hill (pag. 210).]

Mandaram-se portanto novos planos  casa Breadwill e C.^a de Albany, e
com expressa recommendao de os pr sem demora em execuo.

[Figura: J.-T. Maston tinha engordado! (pag. 217).]

O projectil fundiu-se, com as modificaes apontadas, a 2 de novembro, e
foi expedido immediatamente para Stone's-Hill pela via ferrea de leste.

A 10, chegou sem accidente ao logar a que era destinado. Miguel Ardan,
Barbicane e Nicholl esperavam com a maior impaciencia o
wagon-projectil em que haviam de tomar passagem para voarem 
descoberta de um mundo novo.

O projectil, fora  confess-lo, era uma pea de metal magnifica, um
producto metallurgico que dava honra ao engenho industrial dos
americanos. Pela vez primeira fra o aluminium obtido em massa to
consideravel, e esse resultado s por si merecia com justia ser
considerado como um prodigio.

O precioso projectil scintillava aos raios do sol. Quem o visse com
aquellas suas frmas de metter respeito, coberto com o seu chapu
conico, facilmente o tomaria por uma d'aquellas macissas torres em frma
de pimenteiro, que os architectos da idade media suspendiam dos angulos
dos castellos fortificados. S lhe faltavam grimpa e setteiras.

Est-se-me figurando, exclamou Miguel Ardan, que vae d'ali sar um
homem de armas com o seu arcabuz e o seu corsalete de ao. Havemos de
estar l dentro quaes senhores feudaes. Se levassemos alguma artilheria
poderiamos d'ali fazer frente a todos os exercitos selenitas, se  que
ha exercitos na Lua.

--Com que ento agrada-te o vehiculo? perguntou Barbicane ao amigo.

--Sim! Sim! de certo, respondeu Miguel que o estava examinando como
artista.

--Sinto unicamente que no tenha as frmas mais esbeltas e ligeiras, o
cone mais gracioso; deviam ter-lhe posto como remate um floro de
ornatos de metal lavrado, com uma chimera, por exemplo, uma carranca, ou
uma salamandra a sar do fogo com as azas desdobradas e as fauces
abertas...

--E para que servia tudo isso? disse Barbicane, cujo espirito positivo
era pouco sensivel s bellezas da arte.

--Para que servia, amigo Barbicane! Ai de mim! s pelo facto de m'o
perguntares fico quasi seguro de que nunca o has de vir a comprehender!

--Vae sempre dizendo, estimavel companheiro.

--Pois ouve l;  minha opinio que devemos sempre attender um pouco 
arte em tudo quanto fazemos. Conheces acaso uma comedia india intitulada
o _Carro do menino_?

--Nem de nome, respondeu Barbicane.

--Tambem no admira, proseguiu Miguel Ardan. Sabe pois, que n'essa
comedia ha um ladro que na occasio em que est para furar a parede de
uma casa, cogita se ha de dar ao buraco a frma de lyra, de flor, de ave
ou de amphora?

Ora responde l, amigo Barbicane, se n'aquella epocha fosses membro do
jury, condemnavas o tal ladro?

--Sem hesitar, respondeu o presidente do Gun-Club, e com a circumstancia
aggravante do arrombamento.

--Pois eu c absolvia-o, amigo Barbicane! E aqui est a raso porque tu
nunca me has de comprehender!

--Nem trato d'isso, meu valente artista.

--Pelo menos, proseguiu Ardan, j que o exterior do nosso
_wagon-projectil_ fica quem dos meus desejos, ho de me dar licena que
o mobile a meu geito e com todo o luxo que quadra a embaixadores da
Terra!

--L a esse respeito, meu caro Miguel, respondeu Barbicane, fars o que
te dictar a phantasia, deixar-te-hemos fazer o que melhor te aprouver.

O presidente do Gun-Club porm, antes de passar ao agradavel, cuidra do
util, e conseguira fazer applicar os meios por elle inventados para
diminuir os effeitos da repercusso, com perfeita intelligencia.

Tinha Barbicane pensado, e com raso, que nenhuma especie de molas teria
fora bastante para amortecer o choque, e no decurso d'aquelle famoso
passeio da matta de Skersnaw, consegura resolver aquella grande
difficuldade por uma frma engenhosa.  agua  que elle contava ser
devedor de to assignalado servio. Eis por que maneira:

Encher-se-ia o projectil, at a altura de tres ps, de uma camada de
agua destinada a aguentar um disco de madeira perfeitamente estanque que
escorregasse com attrito pelas paredes internas do projectil.

Em cima d'aquella especie de jangada  que haviam de ir collocados os
viajantes. A massa liquida havia de ser dividida por tabiques
horisontaes que o choque  partida espedaaria successivamente. N'esse
mesmo momento todos os lenoes de agua, desde o debaixo at ao de cima,
sando por tubos de despejo para a parte superior do projectil, fariam
almofada; no podendo o disco, alis guarnecido como era de possantes
chapuzes, ir de encontro  culatra do projectil seno depois de terem
sido successivamente esmagados os differentes tabiques. Por certo que os
viajantes sempre haviam de soffrer violenta repercusso depois da sada
completa da massa liquida, mas o primeiro choque havia de ser quasi
completamente amortecido por aquella mola de grande potencia. Verdade ,
que tres ps de altura de agua n'uma rea de cincoenta e quatro ps
quadrados haviam de pesar perto de onze mil e quinhentas libras; mas a
fora elastica dos gazes accumulados dentro da Columbiada na opinio de
Barbicane, havia de ser bastante para vencer mais aquelle augmento de
peso; demais o choque havia de expellir aquella agua toda em menos de um
segundo, e o projectil de prompto retomaria o peso normal.

Era isto o que o presidente do Gun-Club imaginra, esta a maneira por
que pensava ter resolvido o importante problema do amortecimento da
repercusso do tiro.

De mais a mais, aquelle trabalho fra comprehendido com perfeita
intelligencia pelos engenheiros da casa Breadwill, e tambem
maravilhosamente executado. Produzido o effeito desejado, e expellida a
totalidade da agua, podiam os viajantes, desembaraar-se com facilidade
dos tabiques espedaados, e desarmar o disco movel que os aguentra no
momento da partida.

As paredes superiores do projectil, essas eram cobertas de um acolchoado
expesso de couro, assente sobre espiraes do mais fino ao, to flexiveis
como molas de relogio. Os tubos de esgoto escondidos por debaixo do
acolchoado nem deixavam suspeitar que existiam.

Tinham-se portanto tomado por aquella frma todas as precaues
imaginaveis para amortecer o primeiro choque, e, segundo dizia Ardan,
quem ainda assim se deixasse esmagar,  porque era de m raa.

Media o projectil, pela parte de fra, doze ps de altura sobre nove de
largura.

E, para que no excedesse o peso calculado, tinham-lhe diminuido um
pouco a espessura das paredes, e reforado a culatra que tinha de
aguentar toda a violencia dos gazes desenvolvidos pela deflagrao do
pyroxylo.

Assim succede geralmente com as bombas e obuzes cylindro-conicos, cuja
maior espessura  sempre na culatra.

A entrada para aquella torre de metal era por uma estreita abertura
reservada nas paredes do cone, similhante aos buracos de homem que
tem as caldeiras a vapor, e que fechava hermeticamente por meio de uma
chapa de aluminium, apertada da parte de dentro por possantes parafusos
de presso. Podiam portanto os viajantes sar  vontade da sua movel
priso, logoque lograssem chegar ao astro das noites.

Mas o caso no estava s em ir, estava tambem em ir vendo pelo caminho.
Nada mais facil. Por debaixo do acolchoado das paredes estavam quatro
vigias com vidros lenticulares de grande espessura, duas abertas na
parede circular do projectil, uma no fundo e outra no chapu conico.
Teriam portanto os viajantes toda a facilidade para observarem durante o
percurso, quer a Terra que deixavam, quer a Lua que am buscar, quer os
espaos constellados do cu.

As vigias estavam defendidas do choque  partida por chapas fortemente
encaixadas, que era facil fazer car para a parte de fra desatarraxando
porcas collocadas pela parte de dentro. Tornavam-se por aquella maneira
possiveis quaesquer observaes, sem que o ar contido no projectil
podesse de l sar.

Todos aquelles mechanismos, admiravelmente construidos e collocados,
trabalhavam com a maior facilidade; os constructores tambem no deram
menor prova de intelligencia na arrumao interna do wagon-projectil.

Para a conduco da agua e viveres necessarios para os tres viajantes
havia recipientes solidamente seguros, e at aos passageiros era dado
obter fogo e luz, porque tambem levavam gaz armazenado em recipiente
especial debaixo de uma presso equivalente a muitas atmospheras. Era
abrir uma torneira, e tinham gaz para lhes illuminar e aquecer o
confortable vehiculo para seis dias.

Claro est que no lhes faltava nada do que se pde reputar essencial 
vida ou mesmo  commodidade. Alem d'isto, e graas aos instinctos de
Miguel Ardan, veio ainda o agradavel juntar-se ao util, sob frma de
obras de arte; Miguel se no lhe faltra espao, fazia do projectil um
verdadeiro _atelier_ de artista.

Errada seria a supposio de quem imaginasse que tres pessoas no
estavam bem  larga n'aquella torre de metal.

Media-lhe a capacidade interna uma superficie de proximamente cincoenta
e quatro ps quadrados por dez ps de altura, espao que j consentia
aos viajeiros certa liberdade de movimentos. Nem que fossem no mais
_confortable_ wagon dos Estados Unidos estariam tanto  sua vontade.

Estando resolvida a questo de mantimentos e illuminao, faltava ainda
a questo do ar. Era evidente que o ar contido no projectil no podia
chegar para a respirao dos tres viajantes pelo espao de quatro dias;
effectivamente, cada homem gasta n'uma hora todo o oxygenio contido em
cem litros de ar. Barbicane, os dois companheiros e dois ces que
tencionavam levar, haviam de consumir s em vinte e quatro horas, dois
mil e quatrocentos litros de oxygenio, em peso proximamente sete libras.
Foroso era portanto renovar o ar do interior do projectil. Mas como?
Por um processo muito simples, o dos srs. Reiset e Regnault, o mesmo a
que Miguel alludra no correr da discusso do meeting.

 vulgarmente sabido que o ar se compe essencialmente de vinte e uma
partes de oxygenio e setenta e nove de azoto. E o que  que succede no
acto da respirao? Um phenomeno muito simples. O homem absorve o
oxygenio do ar, gaz eminentemente proprio para sustentar a vida e
expelle o azoto intacto. O ar expirado perdeu perto de cinco por cento
do seu oxygenio e contm um volume proximamente igual de acido
carbonico, que  o producto definitivo da combusto dos elementos do
sangue pelo oxygenio inspirado. Portanto, em qualquer logar fechado, ha
de succeder sempre, depois de certo tempo, transformar-se todo o
oxygenio do ar em acido carbonico, gaz que  essencialmente deleterio.

Como o azoto se conservava intacto, reduzia-se portanto a questo ao
seguinte: 1.^o, refazer o oxygenio absorvido; 2.^o, destruir o acido
carbonico expirado. E no ha nada mais facil, por meio do chlorato de
potassa e da potassa caustica.

O chlorato de potassa  um sal que se apresenta sob frma de palhetas
brancas; aquecido a uma temperatura superior a quatrocentos graus,
transforma-se em chloreto de potassium, abandonando todo o oxygenio que
contm. Dezoito libras de chlorato de potassa rendem por este processo
sete libras de oxygenio, isto , a quantidade d'elle necessaria aos
viajantes para vinte e quatro horas. E aqui est como se havia de fazer
o oxygenio.

A potassa caustica, essa  uma substancia muito avida do acido carbonico
misturado com o ar. Basta agita-la no ambiente para que elle se apodere
do acido carbonico, formando bicarbonato de potassa. E aqui est tambem
como havia de ser destruido o acido carbonico.

Estes dois meios combinados restituem seguramente ao ar viciado todas as
suas qualidades vivificadoras. Prova-o a experiencia feita com bom exito
pelos dois chimicos, os srs. Reiset e Regnault.

Mas, fora  confessar, que as experiencias at ento feitas tinham
sempre sido realisadas _in anima vili_. Ignorava-se absolutamente qual
seria o effeito d'ellas sobre o homem, apesar da extrema preciso
scientifica com que tinham sido executadas.

Esta foi a observao que a todos se offereceu na sesso em que foi
ventilado to grave assumpto. Miguel Ardan, que nem por sombras duvidava
da possibilidade de viver por meio do ar, assim artificialmente
preparado, offereceu-se para experimenta-lo antes da partida.

Porm Maston reclamou para si proprio com energia a honra de tentar o
ensaio.

J que me no deixam partir, dizia o valente artilheiro, no ser
grande favor deixarem-me ao menos habitar no projectil por uns oito
dias.

Recusar em tal caso, era prova de m vontade. Satisfizeram-lhe portanto
os desejos. Puzeram-se  disposio de Maston quantidades de chlorato de
potassa, de potassa caustica e viveres bastantes para oito dias: em
seguida e depois do aperto de mo aos amigos, encaixou-se o estimavel
secretario no projectil, cuja tampa foi hermeticamente fechada, a 12 de
novembro s seis horas da manh, recommendando expressamente que lhe no
abrissem a priso antes do dia 20 s seis horas da tarde.

O que l dentro se passava no decurso d'aquelles oito dias, no era
possivel imagina-lo, que a espessura das paredes do projectil impedia
que se percebesse c de fra qualquer ruido interior.

A 20 de novembro, s seis horas em ponto, desaparafusou-se a chapa: os
amigos de Maston sempre estavam um tanto desassocegados de espirito. Mas
de prompto lhes serenou o animo uma voz alegre, que soltava formidavel
hurrah.

Pouco depois appareceu no vertice do cone o secretario do Gun-Club em
postura de triumphador.

Tinha engordado!




CAPITULO XXIV

O TELESCOPIO DAS MONTANHAS PENHASCOSAS


A 20 de outubro do anno anterior, depois de fechada a subscripo, tinha
o presidente do Gun-Club aberto um credito a favor do observatorio de
Cambridge, no valor das quantias necessarias para construir um enorme
instrumento optico. Devia tal apparelho, luneta ou telescopio, ser de
fora bastante para tornar visivel na superficie da Lua qualquer objecto
de nove ps de largura maxima.

Ha uma differena importante entre uma luneta e um telescopio, que 
conveniente recordar aqui: a luneta compe-se de um tubo, que tem na
extremidade superior uma lente convexa, chamada objectivo, e na
extremidade inferior outra lente chamada ocular, a que se applica o olho
do observador. Os raios que emanam do objecto luminoso atravessam a
primeira lente e vo, em virtude da refraco, formar uma imagem
invertida do objecto no foco[88] d'ella. Essa imagem  que  observada
por meio do ocular, que a amplifica exactamente como qualquer lupa.
Claro est pois que o tubo da luneta fica fechado n'uma e n'outra
extremidade pelo objectivo e pelo ocular.

O tubo do telescopio, pelo contrario,  aberto na extremidade superior.
Os raios luminosos que partem do objecto observado penetram livremente
no tubo e vo incidir n'um espelho metallico concavo, e portanto
convergente. D'ahi partem esses raios depois de reflectidos a encontrar
um espelho menor que os envia para um ocular, disposto por frma que
amplifique a imagem produzida.

Nas lunetas portanto desempenha papel principal a refraco, nos
telescopios a reflexo.  d'ahi que vem dar-se s primeiras o nome de
refractores, e aos segundos o de reflectores. A principal difficuldade
de execuo de taes apparelhos de optica est na construco dos
objectivos, quer sejam lentes, quer espelhos metallicos.

Entretanto na epocha em que o Gun-Club tentou a sua grande experiencia,
estavam j estes instrumentos notavelmente aperfeioados, e davam
resultados magnificos. Longe ia o tempo em que Galileu observra os
astros com a sua pobre luneta, que apenas amplificava na proporo de
sete para um, se tanto. Do seculo XVII at ento tinham os instrumentos
de optica crescido em comprimento e largura em propores consideraveis,
que permittiam explorar os espaos estellares at uma profundidade at
quella epocha ignorada.

Entre os instrumentos refractores que j ento funccionavam, podem
citar-se a luneta do observatorio de Pulkowa, na Russia, cujo objectivo
mede quinze pollegadas (38 centimetros[89]), em largura, a luneta do
constructor francez Lerebours, que tinha um objectivo igual ao da
anterior, e finalmente a luneta do observatorio de Cambridge, com um
objectivo de dezenove pollegadas de diametro (48 centimetros).

A respeito de telescopios, dois eram j conhecidos de notavel fora e de
gigantescas dimenses. O mais antigo, construido por Herschel tinha
trinta e seis ps de comprimento e um espelho de quatro ps e meio de
largura. Com este instrumento se obtinham amplificaes de seis mil por
um. O segundo fra construido na Irlanda, em Kreastle no parque de
Parsoastown, a expensas de lord Rosse. O comprimento do tubo d'este
ultimo era de quarenta e oito ps, e a largura do espelho de seis ps (1
metro e 83 centimetros)[90]; amplificava na proporo de seis mil e
quatrocentos para um, e fra necessario construir uma immensa mole de
pedra e cal para dispr os apparelhos necessarios para a manobra do
instrumento, que pesava vinte e oito mil libras.

Mas, como acabmos de ver, apesar d'estas colossaes dimenses, no
podra obter-se amplificao em proporo superior a seis mil para um,
numeros redondos; ora uma amplificao na proporo de seis mil para um,
apenas trs a Lua  distancia de trinta e nove milhas (16 leguas),
distancia  qual os objectos que tem sessenta ps de diametro so
apenas perceptiveis, a no ser que sejam extremamente alongados.

[Figura: O telescopio das Montanhas penhascosas (pag. 225).]

E como no caso em questo, se tratava de um projectil de nove ps de
largura por quinze de comprimento, foroso era trazer a Lua a cinco
milhas (2 leguas) pelo menos, e n'esse intuito, realisar amplificaes
na proporo de quarenta e oito mil para um.

[Figura: Interior do projectil (pag. 231).]

Era este o problema proposto ao observatorio de Cambridge, a quem
smente incumbia resolver difficuldades materiaes, pois que as
pecuniarias lhe no tolhiam o passo.

Primeiro que tudo, teve o observatorio de optar entre telescopios e
lunetas. As lunetas levam certa vantagem aos telescopios. Com igual
objectivo, obtem-se por meio de uma luneta amplificaes em proporo
mais consideravel, porque os raios luminosos que atravessam as lentes
perdem menos pela absorpo de que pela reflexo no espelho metallico do
telescopio. Em compensao a espessura de que  possivel construir-se
uma lente  limitada, porque sendo a lente demasiado espessa, no deixa
passar os raios luminosos. Alem d'isto a construco das enormes lentes
a que nos vamos referindo  extremamente difficil e leva um tempo to
consideravel, que se mede aos annos.

Conseguintemente, apesar de serem as imagens mais illuminadas nas
lunetas, vantagem alis de subido preo quando se trata de observar a
Lua que apenas emitte luz reflectida, decidiu o observatorio usar de um
telescopio que se podia construir com mais promptido e que permittiria
obter amplificaes em proporo maior. E como os raios luminosos perdem
grande parte da sua intensidade no atravessar da atmosphera, resolveu o
Gun-Club que o instrumento fosse assente n'uma das mais elevadas
montanhas da Unio, circumstancia esta que havia de diminuir a espessura
das camadas aereas atravessadas pela luz lunar.

Nos telescopios, como j dissemos,  a lente collocada no olho do
observador, o ocular, que produz a amplificao, e o objectivo que
maiores amplificaes consente,  o que tem mais extenso diametro e
maior distancia focal. Para conseguir amplificaes na proporo de
quarenta e oito mil para um, foroso era ir nas dimenses muito alem das
objectivas de Herschell e de lord Rosse. E exactamente ahi  que estava
a difficuldade, porque a fundio dos espelhos de tal grandeza 
operao estremamente delicada.

Por fortuna, inventra poucos annos antes, um homem de sciencia do
instituto de Frana, Lon Foucault, um processo que tornra muito facil
e muito rapida a operao de polir os objectivos telescopicos,
substituindo os espelhos metallicos por espelhos prateados. Por este
processo basta fundir um pedao de vidro do tamanho requerido,
metallisar-lhe depois a superficie por meio de um sal de prata, e est
construido e polido o espelho. Foi este o processo, de resultados alis
excellentes, que se empregou na fabricao do objectivo.

Acrescente-se a isto, que o espelho objectivo foi collocado em harmonia
com o methodo que Herschell imaginra para os seus telescopios. No
grande apparelho do astronomo de Slough vinha a imagem dos objectos
reflectida pelo espelho inclinado formar-se no fundo do tubo, na outra
extremidade d'elle onde estava collocado o ocular. Por esta disposio o
observador, em vez de estar collocado na parte inferior do tubo,
iava-se a parte superior d'elle, e d'ali, munido da respectiva lupa, 
que mergulhava a vista dentro do enorme cylindro. Esta combinao tinha
a vantagem de supprimir o espelho pequeno cuja funco  reenviar a
imagem para o ocular. A imagem passava assim por uma reflexo unica em
vez de duas. Por consequencia, menor era a quantidade de raios luminosos
extincta, e menos enfraquecida ficava a imagem, obtendo-se portanto
maior clareza, vantagem preciosa especialmente na observao que havia a
fazer[91].

Tomadas estas resolues, comearam os trabalhos. Segundo os calculos do
pessoal do observatorio de Cambridge, o tubo do novo reflector devia ter
duzentos e oitenta ps de comprido, e o espelho dezeseis ps de
diametro. Por mais colossal que fosse tal instrumento, nem sequer era
digno de comparar-se com um telescopio de dez mil ps (3 kilometros e
meio) de comprimento, cuja construco o astronomo Hooke propunha ha
poucos annos. E no entretanto as difficuldades que apresentava a
construco e assentamento, tal como era, j no eram pequenas.

A questo da collocao, essa foi de prompto resolvida. Tratava-se de
escolher uma elevada montanha, e as montanhas de grande elevao no
abundam nos Estados Unidos.

Effectivamente, o systema orographico d'aquelle grande paiz reduz-se
apenas a duas cadeias de montanhas de mediana altura, entre as quaes
corre o magnifico rio Mississipi que os americanos appellidariam o rei
dos rios se para elles no fra inadmissivel uma realeza qualquer.

A leste, esto os Apalaches, cujo vertice mais elevado, no
New-Hampshire, no vae alem de cinco mil e seiscentos ps, altura na
realidade extremamente modesta.

A oeste, pelo contrario, encontram-se as Montanhas penhascosas, immensa
corda que comea no estreito de Magalhes, acompanha a costa occidental
do sul com o nome de Andes ou Cordilheiras, transpe o isthmo de Panam
e corre atravs da America do Norte at s praias do mar polar.

No so muito elevadas estas montanhas; os Alpes ou o Hymalaya podiam
com justa raso olha-las de alto da propria grandeza com supremo desdem.

Com effeito, o mais alto vertice d'ellas tem apenas dez mil e setecentos
ps de altura, ao passo que o monte Branco mede quatorze mil
quatrocentos e trinta e nove, e o Kintschindjinga[92], vinte e seis mil
setecentos e setenta e seis, acima do nivel do mar.

O Gun-Club, porm, visto ter empenho em que o telescopio assim como a
Columbiada fossem assentes nos Estados da Unio, teve de se contentar
com as montanhas Penhascosas, e mandou dirigir todo o material
necessario para a cumiada de Long's Peak, no territorio do Missouri.

Nem a penna nem a palavra humana poderiam narrar as difficuldades de
todos os generos que os engenheiros americanos tiveram de vencer, os
prodigios de audacia e de habilidade que realisaram. Este trabalho foi
um verdadeiro _tour de force_. Foi necessario levantar pedras
monstruosas, pesadissimas peas forjadas, pilastras de ingente peso, os
pedaos enormes do cylindro, o objectivo, que s por si pesava trinta
mil libras, e levantar tudo acima do limite das neves perpetuas, a mais
de dez mil ps de altura, e isto depois de ter transposto planicies
desertas, florestas impenetraveis, temerosos saltos em torrentes
impetuosas, longe dos centros de populao, em meio de regies selvagens
em que cada um dos pormenores da existencia se transformava em problema
quasi insoluvel.

Apesar de tantos obstaculos o engenho dos americanos de tudo soube
triumphar. Menos de um anno depois do comeo dos trabalhos, pelos
ultimos dias de setembro, o gigantesco reflector erguia nos ares o seu
tubo de duzentos e vinte e quatro ps de comprido suspenso de um enorme
andaime de ferro, manobrando com facilidade por meio de engenhosos
machinismos em direco a todos os pontos do cu, e podendo seguir os
astros de um a outro extremo do horisonte no decurso da sua marcha
atravs do espao.

Custra este telescopio mais de quatrocentos mil dollars. A primeira vez
que o dirigiram para a Lua, experimentaram os observadores uma sensao
mixta de curiosidade e inquietao. Que iriam descobrir no campo
d'aquelle telescopio que amplificava na proporo de quarenta e oito mil
para um as dimenses dos objectos observados? Populaes, rebanhos de
animaes lunares, cidades, lagos, oceanos? No, nada que  sciencia no
fra j conhecido: a natureza vulcanica da Lua verificou-se com absoluta
preciso em todos os pontos do disco.

Entretanto o telescopio das montanhas Penhascosas, antes de servir ao
Gun-Club, prestou immensos servios  astronomia.

Graas ao poder de penetrao de tal instrumento, sondaram-se at aos
ultimos limites as profundezas do cu, poderam medir-se com rigor os
diametros apparentes de muitas estrellas, e at M. Clarke, membro do
pessoal technico de Cambridge, decompoz a _crab nebula_[93] de Taurus,
que o reflector de lord Rosse no logrra reduzir.




CAPITULO XXV

ULTIMOS PORMENORES


Contava j vinte e dois dias o mez de novembro, e a partida suprema
devia realisar-se dez dias depois. Faltava ainda conseguir feliz exito
n'uma unica operao, mas delicada, perigosa, que demandava infinitas
precaues, e contra o bom resultado da qual ajustra o capito Nicholl
a sua terceira aposta.

Era o caso, carregar a Columbiada introduzindo-lhe as quatrocentas mil
libras de algodo-polvora. Pensra Nicholl, e com justo fundamento
talvez, que da manipulao de to formidavel quantidade de pyroxylo
haviam de provir graves catastrophes, e que, quando peior no
succedesse, aquella massa eminentemente explosiva havia de inflammar-se
por si mesma sob a presso do projectil.

Havia n'isto serios perigos, que maiores se tornavam pela negligencia e
leviandade habitual dos americanos. Haja vista o que succedeu durante a
guerra federal: ninguem se incommodava a tirar o charuto da bca para
carregar uma bomba. Mas l estava Barbicane, que tinha a peito chegar a
bom resultado e no naufragar j dentro do porto; que escolheu por
consequencia os melhores operarios, e que os fez trabalhar debaixo das
suas proprias vistas, no os largando de olho um s momento, conseguindo
assim  fora de prudencia e de precauo, pr a seu favor todas as
probabilidades de bom exito.

Antes de tudo, teve Barbicane o maior cuidado em no mandar a carga
inteira de uma vez para o recinto de Stone's-Hill, seno a pouco e pouco
e em caixotes perfeitamente fechados. As quatrocentas mil libras de
pyroxylo foram depositadas em pacotes de quinhentas libras, dando assim
para oitocentos grandes cartuchos fabricados com o maior esmero pelos
mais habeis pyrotechnicos de Pensacola. Cada caixo tinha capacidade
para dez cartuchos, e os caixes am chegando uns aps outros pela via
ferrea de Tampa-Town; por esta frma nunca havia a um tempo mais de
cinco mil libras de pyroxylo dentro do recinto. Caixo que chegava era
logo descarregado por operarios descalos, e cada cartucho transportado
para o orificio da Columbiada para dentro da qual descia por meio de
guindastes manobrados a brao.

Tinham-se posto de parte todas as machinas que trabalhavam a vapor, e
apagado todos os fogos n'um circuito de duas milhas de raio. J era mais
que bastante ter que preservar dos ardores do sol, mesmo em novembro,
aquellas massas de algodo-polvora.

O trabalho, por este motivo, era de preferencia feito de noite ao claro
de uma luz produzida no vacuo por meio dos apparelhos de Ruhmkorff, que
ministrava uma illuminao artificial que chegava ao fundo da
Columbiada. Dentro do canho ficavam os cartuchos arrumados com perfeita
regularidade e ligados uns aos outros por meio de um fio metallico
destinado a conduzir instantaneamente ao centro de cada um d'elles a
faisca electrica.

E effectivamente por meio da pilha,  que se havia de dar fogo aquella
massa de algodo-polvora.

Os fios metallicos todos envolvidos em capas de substancia isoladora,
iam reunir-se em um s n'um estreito orificio aberto na altura em que o
projectil havia de ficar; n'esse ponto atravessavam a espessa parede de
ferro fundido, subindo depois at ao solo por um dos respiradouros do
revestimento de pedra, especialmente reservado para este fim.

A partir do vertice de Stone's-Hill corria o fio por sobre postes pelo
espao de duas milhas, terminando n'uma pilha de Bunsen munida do
competente apparelho de interrupo. Por consequencia logoque que se
carregasse no boto do apparelho a corrente electrica restabelecia-se
instantaneamente e a dar fogo s quatrocentas mil libras de
algodo-polvora. Claro est que a pilha s tinha de funccionar no ultimo
momento.

A 28 de novembro, j os oitocentos cartuchos estavam arrumados no fundo
da Columbiada. Logrra bom exito esta parte da operao.

Mas quantos incommodos, quantas inquietaes, quantas luctas tinha
soffrido ou sustentado o presidente Barbicane? Debalde prohibra a todos
a entrada de Stone's-Hill; todos os dias um ou outro curioso subia por
escalada as palissadas, e alguns houve que, levando a imprudencia at 
loucura, foram pr-se a fumar mesmo no meio dos fardos de
algodo-polvora. Barbicane tinha ataques de furor todos os dias. J.-T.
Maston fazia quanto em si cabia para o auxiliar, dando caa aos intrusos
com grande vigor, e apanhando as pontas de charuto ainda a arder que os
yankees deitavam para toda a parte. E a tarefa era de estafar, que mais
de 300:000 pessoas faziam crco em volta das palissadas. Verdade  que
Miguel Ardan tambem se offerecra para escoltar os caixes at  bca da
Columbiada; mas o presidente do Gun-Club, que o apanhou em propria
pessoa com um enorme charuto na bca, ao tempo que ia perseguindo alguns
imprudentes a quem dava assim to funesto exemplo, logo percebeu que no
podia contar com to intrepido fumista, e viu-se obrigado a faze-lo
vigiar a elle, e com muita especialidade.

Emfim, como  certo que ha um Deus especial para os artilheiros, no
houve a menor exploso, e conseguiu-se a final pr a carga inteira a so
e salvo. Muito duvidosa estava portanto a terceira aposta do capito
Nicholl. Faltava s introduzir o projectil na Columbiada e colloc-lo em
cima da espessa camada de algodo-polvora.

Antes porm de se dar comeo a esta ultima operao, foram collocados e
arrumados no wagon-projectil todos os objectos necessarios aos
viajantes, que eram bastante numerosos e que, se tivessem deixado fazer
a Miguel Ardan a sua vontade, dentro em pouco teriam enchido todo o
espao reservado para as pessoas. Ninguem imagina que cousas o amavel
francez queria levar para a Lua. Uma verdadeira carregao de
inutilidades. Interveio porm Barbicane, e no houve mais remedio de que
reduzir-se ao estrictamente necessario. Na caixa dos instrumentos a
grande numero de barometros, thermometros e de oculos de alcance.

Os viajantes estavam com curiosidade de examinar a Lua no decurso da
viagem, e levavam, para facilitar o reconhecimento d'aquelle novo mundo,
um excellente mappa de Beer e Moedler, o _Mappa selenographico_,
publicado em quatro folhas, e que, com justo fundamento, tem fama de
verdadeira obra prima de observao e paciencia. Reproduz este mappa com
escrupulosa exactido os mais insignificantes pormenores da face do
astro que olha para a Terra; montanhas, valles, circos, crateras, picos,
ranhuras, tudo ali se encontra com exactido nas dimenses e fidelidade
na orientao e denominaes, desde os montes Doerfel e Leibnitz, cujas
altas cumiadas se erguem no extremo oriental do disco at ao _Mare
Frigoris_, que se estende pelas regies circumpolares do norte.

Era portanto este mappa, para os viajantes, um guia precioso, porque
lhes tornava possivel o estudo do paiz, antes de l porem os ps.

Levavam tambem os viajantes tres _riffles_ e tres carabinas de caa do
systema de bala explosiva, e alem d'isto grande quantidade de chumbo e
polvora.

Dizia a este respeito Miguel Ardan: Ns no sabemos com quem vamos l
haver-nos; sejam homens ou sejam animaes podem levar a mal que lhes
vamos fazer uma visita! Por consequencia convem que cada qual tome as
suas precaues.

Acrescentaremos, que as armas de defeza pessoal iam acompanhadas de
picaretas, alvies, serras de mo e a mais ferramenta indispensavel, sem
fallar dos vestuarios adequados para todas as temperaturas, desde o frio
das regies polares at aos calores da zona torrida.

Miguel Ardan desejava levar na expedio certo numero de animaes, que se
no chegava a ser um casal de cada uma das especies conhecidas,  porque
Ardan no reputava cousa necessaria acclimar na Lua nem serpentes, nem
tigres, nem crocodilos, nem quaesquer outros animalejos damninhos.

Tanto no, dizia elle a Barbicane, mas alguns animaes de carga, por
exemplo bois, vaccas, burros ou cavallos, no s haviam de fazer bello
effeito na paizagem, como nos haviam de servir de grande utilidade.

Estou de accordo, meu caro Ardan, respondia o presidente do Gun-Club,
mas o nosso wagon-projectil  que no  nenhuma arca de Ne. Nem tem
capacidade que chegue, nem para isso foi destinado; por consequencia
fiquemo-nos nos limites do possivel.

Finalmente, depois de longa discusso, concordou-se em que os viajantes
tinham de se contentar em levar uma excellente cadella de caa que
pertencia a Nicholl, e um vigoroso Terra-Nova de fora prodigiosa.
Entraram tambem no numero dos objectos uteis muitas caixas de sementes
das mais usuaes. Miguel Ardan, por sua vontade levaria tambem alguns
sacos de terra para as semear. Em todo o caso, sempre foi mettendo a um
canto do projectil uma duzia de arbustos embrulhados em bainhas de
palha.

Restava ainda a questo de viveres, porque necessario era ir prevenido
para o caso de arribar a alguma regio da Lua completamente esteril.

Barbicane tanto fez, que conseguiu metter no projectil provises para um
anno.  necessario acrescentar, para que ninguem d'isto se admire, que
estes viveres consistiam em conservas de carnes e legumes, reduzidas ao
minimo volume pela aco da prensa hydraulica, que todavia continham
grande abundancia de elementos nutritivos; a variedade  que no era
grande; mas tambem n'uma expedio d'aquellas no era occasio propria
para alguem se mostrar niquento. Levavam tambem os viajantes uma reserva
de aguardente, que montaria a uns cincoenta galles[94], e agua para
dois mezes apenas, porque, na verdade, em consequencia das ultimas
observaes astronomicas, j ninguem punha em duvida a existencia de
certa quantidade de agua  superficie da Lua. Quanto a viveres,
reputar-se-a at insensato quem suppozesse que habitantes da Terra no
haviam de l encontrar farto alimento.

Miguel Ardan no conservava sombra de duvida a tal respeito. Se a
conservra por certo no estaria decidido a partir.

E demais, disse elle um dia aos amigos, os camaradas c da Terra de
certo nos no ho de abandonar completamente, antes tero todo o cuidado
em nos no esquecer.

[Figura: Desde pela manh uma multido... (pag. 236).]

--Certamente, respondeu J.-T. Maston.

--Como se entende isso? perguntou Nicholl.

[Figura: Fogo! (pag. 241).]

--Muito simplesmente, respondeu Ardan. Porventura no continua a
Columbiada a estar no mesmo logar? Pois ento! no podero mandar-nos
obuzes carregados de viveres que ns esperaremos em dias prefixos, por
exemplo, todas as vezes que a Lua se apresentar em condies favoraves
de zenith, seno de perigeo, isto , quasi uma vez por anno?

--Hurrah! hurrah! clamou J.-T. Maston como quem l tinha a sua ida;
isso  que  bem dito! De certo, estimaveis amigos, de certo que vos no
havemos de esquecer!

--Conto com isso!

E assim teremos, como acabaes de ver, e com toda a regularidade
novidades do globo, e pela nossa parte tambem, s se formos muito pouco
habilidosos  que no havemos de conseguir pr-nos em communicao com
os nossos bons amigos da Terra!

Respirava n'estas palavras to grande confiana, que Miguel Ardan com o
seu ar resoluto e soberbo denodo teria levado atrs de si o Gun-Club
inteiro. Tudo quanto Ardan dizia parecia simples, elementar, facil, de
bom exito seguro; era preciso que alguem estivesse na realidade agarrado
com muito apoucamento a este miseravel globo terraqueo, para que
ouvindo-o se no promptificasse a ser companheiro dos tres viajantes na
sua expedio lunar.

Logoque ficaram collocados e arrumados no projectil os diversos
objectos, introduziu-se entre os respectivos tabiques a agua destinada a
amortecer a repercusso, e no recipiente proprio o gaz de illuminao.
De chlorato de potassa e de potassa caustica mettra Barbicane, que se
arreceiava das demoras imprevistas no caminho, no projectil, quantidade
tal d'estas substancias que chegava para renovar o oxygenio e absorver o
acido carbonico por espao de dois mezes. A restituio ao ar das suas
qualidades vivificadoras e a purificao completa d'elle, estavam a
cargo de um apparelho extremamente engenhoso, que funccionava
automaticamente. Conseguintemente estava prompto o projectil, e nada
mais restava a fazer seno po-lo no fundo da Columbiada, operao alis
cheia de difficuldades e de perigos.

Conduziram o enorme obuz ao cume de Stone's-Hill, onde ficou seguro e
suspenso de possantes guindastes por cima do poo de metal.

Aquelle momento foi palpitante! Se succedesse quebrarem-se as cadeias
com o enorme peso, a quda de similhante massa seguramente teria
produzido instantanea inflammao do algodo polvora. Felizmente no
succedeu assim, e algumas horas depois, o wagon-projectil que descra
lentamente pela alma do canho, descansava em cima da sua cama de
pyroxylo, verdadeiro _dredon_ fulminante. O unico resultado que veio da
presso do projectil foi ficar mais atacada a carga da Columbiada.

Perdi, disse o capito, entregando ao presidente Barbicane a quantia
de tres mil dollars.

Barbicane no queria receber dinheiro de um companheiro de viagem; teve
porm que ceder perante a obstinao de Nicholl, que tinha empenho em
satisfazer quantos compromissos contrahra, antes de deixar a Terra.

 vista d'isso, disse Miguel Ardan, s uma cousa tenho a desejar-vos,
meu estimavel capito.

--Qual? perguntou Nicholl.

--Que vos dem igual proveito as outras duas apostas. Se assim succeder,
estaremos seguros de no nos ficarmos no caminho.




CAPITULO XXVI

FOGO!


Chegra o primeiro dia de dezembro, dia fatal, porque se a partida do
projectil se no effeituasse n'aquella mesma noite s dez horas quarenta
e seis minutos e quarenta segundos da tarde, mais de dezoito annos
haviam de decorrer antes que a Lua volvesse a apresentar-se nas mesmas
condies simultaneas de zenith e perigeo.

O tempo estava magnifico; apesar da proximidade do inverno, o sol
resplandecia e banhava com seus radiantes effluvios aquella mesma Terra
que tres dos habitantes d'ella am abandonar em troca de um mundo novo.

Quanta gente mal dormiu durante a noite que precedeu aquelle dia com
tanta impaciencia desejado! Quantos peitos opprimidos pelo pesado fardo
da anciedade! Todos os coraes palpitaram de inquietao, excepto o
corao de Miguel Ardan. Este personagem impassivel andava de c para l
com o seu ar habitual de quem tem muitos affazeres, mas nada denunciava
n'elle preoccupao insolita. Dormira a somno solto, como dormia Turenne
antes da batalha, encostado ao reparo de um canho. Desde pela manh
innumeravel multido cobria as planicies que se estendem a perder de
vista em torno de Stone's-Hill.

De quarto em quarto de hora chegava pela via ferrea de Tampa-Town um
comboio carregado de novos curiosos; em breve espao assumiu aquella
emigrao propores fabulosas; segundo a estatistica do _Tampa-Town
Observer_, pisaram, n'aquelle dia memoravel, o solo da Florida cinco
milhes de espectadores.

Havia j um mez que a maior parte d'aquella multido acampava em volta
do recinto, dando comeo  fundao de uma cidade que depois se chamou
Ardan's-Town. A planicie estava coberta de abarracamentos, cabanas,
choupanas e tendas, habitaes ephemeras que davam guarida a uma
populao bastantemente numerosa para causar inveja s maiores cidades
da Europa.

Ali tinham representantes todos os povos da Terra, fallavam-se ali a um
tempo todos os dialectos do mundo. Dir-se-a que reinava l a confuso
das linguas como nos tempos biblicos da torre de Babel. Ali se
confundiam em absoluta igualdade as diversas classes da sociedade
americana. Banqueiros, lavradores, maritimos, moos de recados,
corretores, cultivadores de algodo, negociantes, barqueiros,
magistrados, tudo ali se acotovelava com sem cerimonia primitiva.
Fraternisavam os creoulos da Luiziania com os fazendeiros da Indiana; os
_gentlemen_ do Kentucky e do Tenessee, os virginienses elegantes e
altivos mettiam conversa com os caadores semi-selvagens dos Lagos, e
com os contratadores de gado de Cincinnati. Usavam na cabea chapu de
castor branco de aba larga ou o classico panam, vestiam cala de
guinguamp azul, das fabricas de Opelousas, envolviam o corpo nas dobras
de elegantes blusas de cotim cru, e os ps em botins de cores
brilhantes, trazendo em exposio extravagantes bofes de fina cambraia,
e fazendo scintillar nos peitos das camisas, nos punhos, nas gravatas,
nos dez dedos, e at nas orelhas, um sortimento completo de anneis,
cadeias, argolas e _breloques_, cujo mau gosto corria parelhas com o
subido preo. Outras tantas mulheres, creanas e creados, em trajes no
menos opulentos acompanhavam, seguiam, precediam ou rodeiavam aquelles
maridos, paes ou amos, que mais pareciam chefes de tribu cercados das
innumeraveis familias. Era cousa digna de ver-se aquella gente toda s
horas de refeio deitar-se s iguarias peculiares dos Estados Unidos e
devorar, com appetite ameaador para o abastecimento de viveres da
Florida, alimentos que causariam repugnncia a qualquer estomago
europeu, taes como rs de fricass, macacos estufados, fish-chowder[95],
sarigua assada, opossum ainda em sangue, ou racoon na grelha.

Mas em compensao tambem, que variada serie de licores e de bebidas
para facilitar a digesto d'aquelles indigestos alimentos! Que gritos
excitantes, que vociferaes convidativas echoavam nos _bar-rooms_ ou
nas casas de pasto profusamente adornadas de copos, cangires, frascos,
garrafas brancas e pretas de frmas inverosimeis, de almofarizes para
pisar o assucar, e de mlhos de palha!

Aqui ha o julepe de hortel! gritava o dono de um estabelecimento em
tom retumbante.

--Prompta! a _sangaree_ de vinho de Bordus! replicava outro em voz de
pipia.

--E o _gin-sling_, repetia o segundo.

--E o _cocktail_! e _brandy-smash_! gritava o primeiro.

--Quem quer provar do verdadeiro _mint-julep_,  ultima moda? gritavam
alguns destros vendedores, fazendo passar com rapidez de um para outro
copo, como qualquer prestidigitador faria a uma noz muscada, o assucar,
o limo, a hortel verde, o glo partido, a agua, o cognac e o anans de
que se compe aquelle refresco.

Habitualmente, repetiam-se e cruzavam-se no ar, produzindo infernal
barulho, aquelles incitamentos dirigidos s guellas seccas pela aco
abrasadora das especiarias. Mas n'aquelle dia, no primeiro de dezembro,
eram raros os gritos. Tambem bem poderiam os vendedores enrouquecer a
provocar os freguezes, que todos os seus esforos seriam baldados.
Ninguem pensava em comer nem beber; quantos espectadores circulavam por
entre a multido, que s quatro horas da tarde ainda nem tinham comido o
seu _lunch_ do costume! Symptoma ainda mais significativo, a paixo
violenta dos americanos pelo jogo fra vencida pela emoo. Quem visse
os paulitos do _tempins_ deitados no cho, os dados do _creps_ a dormir
nos copos, a _roleta_ immovel, o _cribbage_ abandonado, as cartas do
_whist_, do vinte e um, do _rouge et noire_, do _monte_ e do _faro_
socegadamente fechadas em seus envolucros intactos, logo comprehendia
que o acontecimento do dia absorvra qualquer outra necessidade, e no
deixra logar para distraces.

At  noite correu pela multido anhelante uma agitao surda, sem
clamores, como a que precede as grandes catastrophes. Dominava os
espiritos uma ancia indescriptivel, um torpor pesado, um sentimento
indefinivel que opprimia o corao. O que todos desejavam era que j
estivesse tudo acabado.

Entretanto, por volta das sete horas, dissipou-se repentinamente aquelle
pesado silencio. Nascia ento a Lua no horisonte, e muitos milhes de
_hurrahs_ lhe saudaram a appario. Era exacta ao _rendez-vous_.

Subiram os clamores at aos cus, rebentaram applausos de todos os
lados, e a loura Phoeba brilhava serena no cu admiravel acariciando
com os mais affectuosos de seus raios a multido innebriada.

N'aquelle momento appareceram os tres intrepidos viajantes. Ao v-los,
redobraram em intensidade os clamores. Unanimemente, instantaneamente,
soltou-se de todos aquelles peitos anhelantes a cano nacional dos
Estados Unidos, e o _Yankee doodle_, repetido em cro por cinco milhes
de cantores, ergueu-se como uma tempestade sonora at ao extremo limite
da atmosphera.

Depois, passado aquelle primeiro e irresistivel arranco de enthusiasmo,
emmudeceu o hymno, extinguiram-se pouco e pouco as derradeiras
harmonias, os echos perderam-se no espao, e vagueou por sobre a
multido to fundamente impressionada um rumorejar silencioso. No
entretanto, o francez e os dois companheiros tinham transposto o recinto
reservado em torno do qual se apertava a multido immensa.
Acompanhavam-nos os socios do Gun-Club e as deputaes enviadas pelos
differentes observatorios europeus.

Barbicane ia frio e sereno e dava tranquillamente as ultimas ordens.
Nicholl, de beios apertados e mos encruzadas atrs das costas,
caminhava com passo firme e pausado.

Miguel Ardan, sempre despreoccupado, em traje de perfeito viajante,
polainas de coiro nos ps, bolsa de viagem a tiracolo, mochilla s
costas, a nadar dentro do amplo fato de velludo castanho, de charuto na
bca, distribuia na passagem cordeaes apertos de mo com prodigalidade
de principe. Prosa e alegria nunca lhe faltavam; ria, chalaceava e fazia
ao digno J.-T. Maston partidas de garoto, n'uma palavra mostrava-se
francez, e, o que peior , parisiense at ao ultimo segundo.

Soaram dez horas. Era chegado o momento de tomar logar dentro do
projectil, porque a manobra necessaria para descer, o aparafusar da
chapa-tampa, e a safa dos guindastes e andaimes que pendiam dentro das
fauces da Columbiada, sempre haviam de levar ainda algum tempo.
Barbicane regulra o seu chronometro, com erro inferior a um decimo de
segundo, pelo do engenheiro Murchison, encarregado de dar fogo 
polvora, por meio da fasca electrica; d'esta maneira os viajantes
podiam, encerrados dentro do projectil, seguir com os olhos o ponteiro
impassivel que havia de marcar o instante exacto da partida.

Chegra o momento das despedidas. Foi uma scena tocante. Miguel Ardan,
apesar de toda a sua febril alegria, sentiu-se commovido. J.-T. Maston
logrra encontrar sob as aridas palpebras uma velha lagrima que estava
como de reserva para aquella occasio, e que o bom do secretario verteu
na fronte do seu caro e estimavel presidente.

E se eu tambem fosse? disse elle, ainda estmos a tempo!

-- impossvel, meu velho Maston, respondeu Barbicane.

Poucos instantes depois, estavam os trs companheiros de viagem
installados no projectil, cuja chapa-porta tinham aparafusado pela parte
de dentro, e abria-se livremente para o cu, inteiramente desembaraada
a bca da Columbiada.

Nicholl, Barbicane e Miguel Ardan estavam definitivamente entaipados no
wagon de metal.

Quem poderia pintar a anciedade universal, que ento attingra ao seu
paroxysmo?

A Lua a caminhando n'um firmamento de limpida pureza, e apagando na
passagem os lumes scintillantes das estrellas; percorriam aquelle
momento a constellao dos Gemeos e estava a igual distancia do
horisonte e do zenith. Para todos era facil de comprehender que a
pontaria era feita adiante do alvo, como a faz o caador que aponta
adiante da lebre que quer ferir.

Pesava por sobre aquella scena toda um silencio atterrador. Nem um sopro
de vento na terra! Nem um suspiro de tanto peito. Nem os coraes
ousavam palpitar. Os olhos fixavam-se todos como que assustados nas
fauces abertas da Columbiada. Murchison seguia com os olhos o ponteiro
do chronometro. Faltavam apenas quarenta segundos para soar o instante
da partida. Cada segundo parecia um seculo.

Ao bater do vigesimo segundo tudo estremeceu;  que accudra ao
pensamento d'aquella multido que tambem os audaciosos viajantes
encerrados no projectil contavam aquelles segundos terriveis!
Soltaram-se ento gritos isolados que diziam:

Trinta e cinco! trinta e seis! trinta e sete! trinta e oito! trinta e
nove! quarenta! Fogo!!!

No mesmo instante, Murchison, carregando com o dedo no interruptor do
apparelho, restabeleceu a corrente electrica e lanou a fasca para o
fundo da Columbiada.

Instantaneamente produziu-se uma detonao horrorosa, inaudita,
sobrehumana, de que cousa alguma poderia dar ida, nem o ribombar do
trovo, nem o estampido das erupes. Das entranhas do solo, como de uma
cratera, surgiu um jacto immenso de fogo. A terra tremeu e abriu-se, e
apenas um ou outro espectador pde por instantes entrever o projectil
que fendia victoriosamente os ares envolto em chammejantes vapores.




CAPITULO XXVII

CU ENCOBERTO


No momento em que se ergueu para os cus, at prodigiosa altura, o jacto
incandescente, a effuso de labaredas illuminou a Florida inteira; por
inapreciaveis instantes, tornou-se a noite em claro dia n'uma extenso
consideravel de territorio. Aquelle immenso penacho de fogo viu-se a cem
milhas de distancia no mar, tanto no Atlantico como no golpho, e mais de
um capito de navio notou no diario de bordo a appario d'aquelle
gigantesco meteoro.

A detonao da Columbiada foi acompanhada de um verdadeiro tremor de
terra. A Florida sentiu-se abalada at s entranhas. Os gazes da
polvora, dilatados pelo calor, repelliram com violencia incomparavel as
camadas atmosphericas, e aquelle furaco artificial, cem vezes mais
rapido que o furaco das tempestades, passou como um cyclone atravs dos
ares.

Nem um s espectador ficou de p; homens, mulheres, creanas, todos
foram deitados ao cho, como espigas pela borrasca; houve um
inexprimivel tumulto, e grande numero de pessoas que ficaram gravemente
feridas. J.-T. Maston, que de encontro a todos os dictames da prudencia
estava perto de mais, foi arremessado a vinte toezas de distancia, e
passou por sobre as cabeas dos seus concidados como uma bala.

Trezentas mil pessoas ficaram por alguns momentos surdas, e como que
tocadas de estupor.

A corrente atmospherica depois de ter derrubado os abarracamentos, de
ter virado de pernas ao ar cabanas, de ter desarreigado arvores, n'um
raio de vinte milhas, de ter impellido os comboios do caminho de ferro
at Tampa, caiu sobre a cidade como uma _avalanche_, destruindo um cento
de casas, entre outras a igreja de Saint-Mary, e o novo edificio da
Bolsa, que abriu fendas em toda a sua extenso. Algumas das embarcaes
surtas no porto, abalroando umas de encontro s outras, foram a pique, e
uns dez navios fundeados no molhe foram at  costa, partidas as amarras
como fios de algodo.

Mas o circulo das devastaes estendeu-se muito mais ao largo, ainda
alem dos limites dos Estados Unidos. O effeito da repercusso, auxiliado
pelos ventos de oeste, fez-se sentir no Atlantico a mais de trezentas
milhas das praias da America. Arremessou-se por sobre os navios com
inaudita violencia uma tempestade artificial, uma tempestade inesperada,
que nem o almirante Fitz-Roy podra prever; muitas embarcaes
envolvidas n'aquelles horrorosos turbilhes, sem tempo sequer para
colher panno, sossobraram a panno largo, entre outros o _Childe-Harold_,
de Liverpool, catastrophe esta muito para lamentar, que deu origem a
recriminaes violentas por parte da Inglaterra.

Finalmente, para tudo relatar, aindaque o facto no offerea maior
garantia do que a affirmao de alguns indigenas, asseguram os
habitantes da Gora e de Serra Lea ter ouvido, meia hora depois da
partida do projectil, um abalo surdo, derradeiro fremito das ondas
sonoras, que depois de terem atravessado o Atlantico, vinham morrer nas
plagas africanas.

Mas volvmos  Florida. Passados os primeiros instantes do tumulto
despertaram os surdos, os feridos, emfim a multido inteira, e
ergueram-se at aos cus clamores freneticos de: hurrah por Ardan!
hurrah por Barbicane! hurrah por Nicholl! Milhes de homens de ventas
para o ar, armados de telescopios, de lunetas, de oculos de alcance,
interrogavam o espao, esquecidos de contuses e emoes, para se
occuparem exclusivamente do projectil. Mas debalde pesquisavam, que o
projectil j no podia ver-se, e fora era resignar-se a esperar pelos
telegrammas de Long's-Peak.

[Figura: Effeito da detonao (pag. 243).]

O director do observatorio de Cambridge[96] estava no seu posto, que a
elle, astronomo habil e perseverante,  que tinham sido confiados os
trabalhos de observao. Porm um phenomeno imprevisto, alis facil de
prever, e contra o qual nada havia a fazer, veiu dentro em pouco
submetter a dura prova a impaciencia publica.

[Figura: O director estava no seu posto (pag. 245).]

O tempo at ali to bello, mudou do repente, o cu de subito toldado
cobriu-se de nuvens. Nem podia deixar de assim succeder, depois da
terrivel deslocao das camadas atmosphericas e da disperso de to
enorme quantidade de vapores, producto da deflagrao de quatrocentas
mil libras de pyroxylo.

A ordem natural fra completamente perturbada. Nem  cousa que cause
admirao, visto como, nos combates navaes, por vezes se tem observado
repentinas modificaes do estado atmospherico, exclusivamente causadas
pelas descargas de artilheria.

No dia seguinte surgiu o sol de um horisonte carregado de espessas
nuvens, pesado e impenetravel vu estendido entre o cu e a terra, e que
por desgraa alcanava at s regies das montanhas Penhascosas. Foi uma
fatalidade. Ergueu-se de todos os cantos do globo um concerto de
reclamaes. A natureza porm pouco se commovia; decididamente j que os
homens tinham perturbado a atmosphera com a detonao, justo era que lhe
soffressem as consequencias.

No decurso do primeiro dia todos diligenceavam penetrar o opaco vu de
nuvens; baldados esforos! Deve tambem notar-se que todos se enganavam
levantando os olhos para o cu, porque em consequencia do movimento
diurno do globo, o projectil corria n'aquelle momento pela linha dos
antipodas. Fosse como fosse, quando a Lua volveu acima do horisonte,
envolvida como estava a Terra em noite impenetravel e profunda, foi
impossivel distinguir o astro das noites; era caso para dizer que a Lua
de proposito se furtava s vistas dos temerarios que lhe tinham atirado.

Consequentemente no havia possibilidade de observao, e os despachos
de Long's-Peak no fizeram mais do que vir confirmar aquelle
desagradavel contratempo.

Entretanto, se  que a experiencia logrra feliz exito, os viajantes que
tinham partido no 1.^o de dezembro s dez horas quarenta e seis minutos
e quarenta segundos da tarde, deviam chegar no dia 4  meia noite, e
portanto at quella epocha, e visto como, por fim de contas, sempre
havia de ser muito difficil observar em taes condies corpo to pequeno
como o obuz, todos se mostraram pacientes sem grande alarido.

A 4 de dezembro, das oito horas da tarde at  meia noite devia ser
possivel seguir o rasto do projectil, que devia apparecer qual ponto
negro no disco brilhante da Lua. Mas o cu conservou-se encoberto sem
piedade, facto que levou a exasperao publica ao paroxysmo. Chegaram
at a injuriar a Lua, s porque se no mostrava. Triste compensao das
cousas d'este mundo!

J.-T. Maston, desesperado, partiu para Long's-Peak. Desejava observar
por seus proprios olhos. No lhe restava duvida de que os amigos deviam
ter chegado ao termo da viagem. E tambem a ninguem constava que o
projectil tivesse tornado a car em qualquer ponto das ilhas ou dos
continentes terrestres, e J.-T. Maston no queria admittir nem por
instantes a possibilidade da quda nos oceanos que cobrem as tres
quartas partes da extenso do globo terraqueo.

No dia 5, tempo, o mesmo. Os grandes telescopios do velho mundo, o de
Herschell, o de Rosse, o de Foucault estavam invariavelmente apontados
para o astro das noites, porque o tempo na Europa estava exactamente
n'aquella occasio magnifico; mas o pouco alcance relativo de taes
instrumentos, impedia qualquer observao util.

No dia 6, tempo, o mesmo. Mordiam-se de impaciencia as tres quartas
partes do globo. Chegaram a propor-se os meios mais insensatos para
dissipar as nuvens accumuladas no ar.

No dia 7, pareceu que o estado do cu se modificava um tanto. Renasceu a
esperana, mas no durou por muito tempo;  noite, j as nuvens de novo
acastelladas defendiam a abobada estrellada contra todas as inspeces.

O caso ento tornou-se serio. Effectivamente no dia 11, s nove horas e
onze minutos da manh devia a Lua entrar no ultimo quarto. Passado esse
momento havia de ir declinando, e aindaque o cu limpasse diminuiriam
notavelmente as probabilidades de observao; com effeito a Lua havia de
mostrar ento uma parte sempre decrescente do disco, at tornar-se em
Lua nova, isto , at que nascesse e se pozesse simultaneamente com o
Sol, cujos raios a tornariam absolutamente invisivel. Seria portanto
necessario esperar at 3 de janeiro at ao meio dia e quarenta minutos
para que voltasse a Lua cheia, e se podessem recomear as observaes.

Os jornaes publicavam estas reflexes com mil commentarios, e no
occultavam ao publico, que era necessario armar-se de angelica
paciencia.

No dia 8, nada. No dia 9 o sol appareceu por um instante como para
zombar dos americanos. Cobriram-no de vaias, e offendido, certamente com
tal acolhimento, mostrou-se avaro de seus raios.

No dia 10, nada de mudana. J.-T. Maston ia enlouquecendo, chegou a
haver suas apprehenses em relao ao cerebro daquelle estimavel
cavalheiro, to bem conservado at ento, pelo seu craneo de
gutta-percha.

No dia 11 porm desencadeou-se na atmosphera uma d'aquellas horrorosas
tempestades privativas das regies inter-tropicaes. Varreram fortes
ventaneiras de leste as nuvens ha tanto tempo encastelladas, e  noite o
disco meio corroido do astro das noites ostentou-se magestoso por entre
as limpidas constellaes do cu.




CAPITULO XXVIII

UM ASTRO NOVO


N'aquella mesma noite, a palpitante nova com tanta impaciencia esperada
rebentou como um raio nos Estados da Unio, e d'ali correndo atravs do
oceano, percorreu todos os fios telegraphicos do globo. O projectil fra
visto, graas ao gigantesco reflector de Long's-Peak.

Eis a nota redigida pelo director do observatorio de Cambridge, que
contm as concluses scientificas da grande experiencia do Gun-Club.

Long's-Peak, 12 de dezembro.--Aos ex.^{mos} srs. membros do pessoal
technico do observatorio de Cambridge.

O projectil arremessado pela Columbiada de Stone's-Hill foi visto pelos
srs. Belfast e J.-T. Maston, no dia 12 de dezembro, s oito horas e
quarenta e sete minutos da tarde, j a Lua entrra no ultimo quarto.

O projectil no deu no alvo, passou-lhe ao lado, mas todavia
bastantemente proximo para ficar retido pela attraco lunar.

Chegado ali, transformou-se-lhe o movimento rectilineo em movimento
circular de rapidez vertiginosa, e actualmente percorre uma orbita
elliptica em volta da Lua, da qual se tornou verdadeiro satellite.

Os elementos do novo astro no poderam ainda determinar-se. Nem 
conhecida a sua velocidade de translao, nem a de rotao. A distancia
a que est da superficie da Lua, pde avaliar-se em duas mil oitocentas
e trinta e tres milhas approximadamente.

N'estes termos, uma de duas hypotheses pde realisar-se, que ha de ter
por consequencia modificao no actual estado de cousas.

Ou vencer a attraco da Lua, e n'este caso chegaro os viajantes ao
termo da sua viagem;

Ou o projectil mantido n'uma ordem immutavel, gravitar at final dos
seculos em volta do disco lunar.

 o que nos ho de dizer um dia as observaes; at agora porm, a
tentativa do Gun-Club no colheu outro resultado seno enriquecer com um
astro novo o nosso systema solar.--_J. T. Belfast_.

Quantos problemas surgiram d'esta inesperada soluo! Que situao cheia
de mysterios reservava o futuro s investigaes da sciencia! Graas 
coragem e  dedicao de tres homens, aquella empreza apparentemente
asss futil, de arremessar uma bala  Lua, acabava de ter um resultado
immenso, e cujas consequencias eram incalculaveis. Os viajantes
encerrados no novo satellite, se no tinham realisado o seu fim, faziam
pelo menos parte do mundo lunar; gravitavam em torno do astro das
noites, cujos mysterios o olho do homem a pela vez primeira penetrar.
Os nomes de Nicholl, Barbicane e Miguel Ardan devem portanto para todo o
sempre ser celebrados nos fastos da astronomia, porque estes ousados
exploradores, avidos de alargar o circulo dos conhecimentos humanos,
lanaram-se audaciosamente atravs do espao, e jogaram a vida na mais
notavel tentativa dos tempos modernos.

Como quer que fosse, logoque foi do dominio publico a nota de
Long's-Peak, apossou-se do universo inteiro um sentimento de surpreza e
de espanto. Acaso seria possivel prestar auxilio quelles ousados
habitantes da Terra? No, por certo, que se tinham collocado fra da
humanidade, logo que transpozeram os limites impostos por Deus s
creaturas terrestres. Ar podiam elles obte-lo pelo espao de dois mezes.
Viveres, levavam-n'os para um anno. Mas depois?... Ao formular-se tal
pergunta palpitavam at os coraes mais insensiveis.

S havia um homem, um s, que no podia admittir que a situao fosse
para desesperar. Um s tinha confiana, e era esse o amigo dedicado dos
tristes, e tanto como elles audaz e resoluto, era o estimavel J.-T.
Maston.

E tambem no os largava de olho. Assentra definitivamente os penates no
posto de Long's-Peak, onde tinha por unico horisonte o espelho do
immenso reflector. Logoque a Lua surgia acima do horisonte, fixava-a no
campo do telescopio e no a perdia de vista nem um momento, seguindo-a
com assiduidade na sua marcha atravs dos espaos estellares; observava
com eterna paciencia a passagem do projectil pelo disco de prata; na
realidade podia dizer-se que o estimavel secretario estava em perpetua
communicao com os tres amigos, que ainda, um dia esperava tornar a
ver.

Havemos de nos corresponder com elles, dizia a quem queria ouvi-lo,
logoque as circumstancias o permittam. Havemos de ter novidades de l, e
elles tambem as ho de ter de c! E demais, eu conheo-os, so homens
engenhosos. Juntos os tres, levaram comsigo para o espao todos os
recursos da arte, da sciencia e da industria. Com taes elementos faz-se
tudo quanto se quer. Ho de sar-se da difficuldade, e seno veremos!




FIM DE DA TERRA  LUA.




INDICE DOS CAPITULOS


Capitulos                            Pag.

I O Gun-Club      5
II Communicao do presidente Barbicane      16
III Effeitos da communicao Barbicane      27
IV Resposta do observatorio de Cambridge      34
V Romance da Lua      40
VI O que no  possivel ignorar, e o que j no  permittido acreditar
nos Estados Unidos      49
VII Hymno da bala      55
VIII Historia do canho      68
IX A questo da polvora      76
X Um inimigo por vinte e cinco milhes de amigos      86
XI A Florida e o Texas      95
XII _Urbi et Orbi_      103
XIII Stone's-Hill      112
XIV O alvio e a trolha      122
XV Festa da fundio      132
XVI A Columbiada      137
XVII Um despacho telegraphico      147
XVIII O passageiro do _Atlanta_      148
XIX Um _meeting_      161
XX Ataque e replica      174
XXI Como um francez arranja uma pendencia de honra      186
XXII O novo cidado dos Estados Unidos      198
XXIII O wagon-projectil      207
XXIV O telescopio das montanhas penhascosas      217
XXV Ultimos pormenores      226
XXVI Fogo!      235
XXVII Cu encoberto      242
XXVIII Um astro novo      249
*/


Notas:

[1] Escola militar dos Estados Unidos.

[2] Papalvo.

[3] Litteralmente, club-canho. Pelo sentido, club dos artilheiros.

[4] Quinhentos kilogrammas.

[5] Cada milha vale 1:609 metros e 31 centimetros. Sete milhas valem
approximadamente tres leguas kilometricas.

[6] O jornal abolicionista mais enthusiasta dos Estados Unidos.

[7] Navalha de folha larga.

[8] Governo de si proprio.

[9] Administradores da cidade eleitos pelo povo, vereadores.

[10] Cadeiras de balouo, muito usadas nos Estados Unidos.

[11] De [Grego: seln] (selne), palavra grega, que significa Lua.

[12] A jarda vale approximadamente 91 centimetros.

[13] Este folheto foi publicado em Frana pelo republicano Laviron,
morto no assedio de Roma em 1849.

[14] Habitantes da Lua.

[15] Approximadamente 11:000 metros.

[16] Mistura de rhum, sumo de laranja, assucar, canella e noz moscada. 
uma bebida de cr amarellada.

[17] Bebida horrorosa do povo mais baixo; em inglez litteralmente:
_thoroug knoch me down_.

[18] Cognome da Nova Orleans.

[19] Cem mil leguas.  a velocidade da electricidade.

[20] _Guarda-vida_ (life-preserver). Arma de algibeira, formada de um
feixe de barbas de baleia, ligadas n'uma das extremidades por uma bola
de metal.

[21] _Muita bulha para nada_, comedia de Shakspeare.

[22] _Como vos aprouver_, outra comedia de Shakspeare.

[23] Est no texto a palavra _expedient_, que  absolutamente
intraduzivel em portuguez.

[24] O zenith  o ponto da abobada celeste, situado na vertical que
passa pelo observador.

[25] A nebulosa , como se deprehende do texto, um aggregado de alguns
milhes de soes ou estrellas que esto entre si a grandissimas
distancias. Estes aggregados, por virtude da enorme distancia de cada
uma das suas partes  terra, apparecem-nos  vista simples, como se
fossem corpos continuos, nuvens, d'ahi lhes vem a denominao. Exemplo
notavel de nebulosa  a _via lactea_ ou estrada de S. Thiago, da qual o
nosso sol  estrella componente.

                                                (_Nota do traductor._)

[26] Da palavra grega [Grego:galachtos], que significa leite. 
conhecida vulgarmente pelo nome de estrada de S. Thiago.

[27] O diametro de Sirius , segundo Wolaston, doze vezes maior que o do
Sol, isto , igual a 4.300:000 leguas.

[28] Alguns d'estes astros so to pequenos, que se poderia fazer n'um
dia a passo gymnastico uma volta completa em volta d'elles.

[29] Vinte e nove dias e meio approximadamente  o que dura uma
revoluo lunar.

[30] Oitocentas e sessenta e nove leguas, um pouco mais da quarta parte
do raio da terra.

[31] Trinta e oito milhes de kilometros quadrados.

[32] Esta  a durao da revoluo sideral, isto , intervallo de tempo
que ha entre duas passagens consecutivas da Lua pela mesma estrella.

[33] Isto  de calibre vinte e quatro, que pesa vinte e quatro libras.

[34]  por esta raso que depois de termos ouvido a detonao da pea j
no podemos ser feridos pela bala.

[35] Columbiadas chamaram os americanos quellas enormes machinas de
destruio.

[36] Duzentos e setenta mil ris ao cambio medio de cento e oitenta ris
por franco.

                                                (_Nota do traductor._)

[37] Trinta centimetros: a pollegada americana vale 25 millimetros.

[38] Isto , 4 metros e 90 centimetros.  distancia a que est a Lua o
descenso seria smente de 1 millimetro e 1/3 ou 590 millesimos da linha.

[39] Intersticio que existe s vezes entre a bala e a alma da pea, e
que provm de no serem exactamente iguaes os diametros.

[40] Centesimos do dollar, 36 ris approximadamente.

[41] A libra americana vale 453 grammas.

[42] Pouco menos de oitocentos metros cubicos.

[43] Dois mil metros cubicos.

[44] N'esta discusso reivindica o presidente Barbicane para um
compatriota seu a inveno do collodion.

Em que pese ao estimavel Maston, diremos que ha aqui erro, que vem da
similhana de nomes. Em 1847, Maynard, estudante de medicina em Boston,
teve,  verdade, a ida de applicar o collodion ao tratamento das
chagas; mas o collodion j era conhecido desde 1846.  a um francez,
espirito distincto, homem de sciencia, a um tempo pintor, poeta,
philosopho, hellenista e chimico, Luiz Mnard, que cabe a honra d'esta
grande descoberta.

[45] Navios de guerra americanos.

[46] O peso de polvora empregado era apenas um duodecimo do peso do
obuz.

[47] Oitenta e um mil e trezentos francos ou quatorze contos seiscentos
e trinta e quatro mil ris, a cento e oitenta ris o franco.

[48] A declinao de um astro  a sua distancia ao equador celeste
medida no seu meridiano. A ascenso recta  o arco do equador
comprehendido entre o meridiano do astro e o ponto vernal.

[49] Quatorze mil setecentos e sessenta contos de ris ao cambio de
novecentos e dezoito ris o dollar.

[50] Tres mil seiscentos setenta e dois contos de ris.

[51] Duzentos sessenta e cinco contos e quinhentos mil ris.

[52] Duzentos e vinte e cinco contos setecentos e sete mil e
quatrocentos ris.

[53] Noventa e tres contos e seiscentos mil ris.

[54] Cincoenta e dois contos novecentos e setenta e oito mil cento e
quarenta ris.

[55] Cento e sessenta e oito contos setecentos e cincoenta mil ris.

[56] Sessenta e dois contos trezentos e oito mil e oitocentos ris.

[57] Noventa e dois contos trezentos e quarenta mil ris.

[58] Vinte e tres ris e quatro decimos.

[59] Quarenta e dois contos trezentos e setenta e dois mil ris.

[60] Vinte e um contos cento e trinta e quatro mil quinhentos e vinte
ris.

[61] Doze contos novecentos e sessenta mil ris.

[62] Trinta e seis contos de ris.

[63] Seis contos oitocentos e quarenta e dois mil oitocentos e oitenta
ris.

[64] Trezentos e dez mil oitocentos e sessenta ris.

[65] Quarenta e seis mil duzentos e sessenta ris.

[66] Cinco mil cento e setenta ris.

[67] Duzentos e noventa e dois contos seiscentos e oitenta mil ris.

[68] Cinco mil trezentos e treze contos setecentos e setenta e sete mil
e doze ris.

[69] Noventa e sete mil quinhentos e sessenta ris.

[70] Proximamente duzentas leguas.

[71] 84^o do thermometro Fahrenheit, que equivalem a 28 do thermometro
centigrado.

[72] Riacho.

[73] 15 365:440 hectares.

[74] Gastaram-se nove annos para abrir o poo de Grenelle, que tem
quinhentos e quarenta e sete metros de altura.

[75] Seiscentos quarenta e dois contos, quarenta e dois mil trezentos e
sessenta ris.

[76] Em termo vulgar, vedor.

                                                (_Nota do traductor_.)

[77] Collina das pedras.

[78] A contar do meridiano de Washington. A differena para o meridiano
de Lisboa  de 67^o 56' 31",35. Esta longitude  portanto, em relao ao
meridiano de Lisboa 73^o 3' 31",35 O.

                                                (_Nota do traductor_.)

[79] Tin, especie de cavalete.

[80] 40 graus centigrados.

[81] Tres mil e seiscentos metros, proximamente.

[82] Em portuguez chama-se vulgarmente ferro fundido (traduco do termo
francez fonte de fer) no ao ferro puro em fuso ou depois de ter sido
fundido, mas a um carbonato silicioso de ferro que se obtem submettendo
o minerio de ferro a differentes operaes.

                                                (_Nota do traductor_.)

[83] Cidade da Lua.

[84] Quatrocentos e trinta e tres contos e seiscentos mil ris.

[85] Mystification. Mystificao.

[86] Paixo dominante.

[87] A inclinao do eixo de Jupiter, sobre a sua orbita,  apenas de
3^o 6'.

[88] Ponto onde se reunem os raios luminosos depois de refractos.

[89] Custou oitenta mil rublos, isto , cincoenta e sete contos e
seiscentos mil ris.

[90] De muitas outras lunetas reza a chronica que tinham bem maior
comprimento, entre outras uma construida por iniciativa de Domingos
Cassini, no observatorio de Paris, que tinha trezentos ps de foco;
convem todavia saber que taes lunetas no tinham tubo. O objectivo
estava suspenso nos ares por meio de mastros, e o observador
collocava-se com a possivel exactido no foco do objectivo, com o ocular
na mo.  bem patente quo pouco commodo haveria de ser o emprego de
taes instrumentos, e a difficuldade que haveria em ajustar os centros de
duas lentes collocadas em similhantes condies.

[91] Esta especie de reflectores chamam-se front view telescope, isto
 telescopios de viso directa.

[92] O mais alto cume do Hymalaya.

[93] Nebulosa que tem a frma de um carangueijo.

[94] Duzentos litros approximadamente.

[95] Comida composta de diversos peixes.

[96] J. M. Belfast.


Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+---------------------+----------------------+
  |          |      Original       |      Correco       |
  +----------+---------------------+----------------------+
  |#pg.  106| briram-se          | Abriram-se           |
  |#pg.  107| trinte              | trinta               |
  |#pg.  111| surpeza             | surpreza             |
  |#pg.  202| todos as dimenses  | todas as dimenses   |
  |#pg.  223| annos annos         | annos                |
  |#pg.  236| falubosas           | fabulosas            |
  |          |                     |                      |
  |#nota    9| eleito              | eleitos              |
  +----------+---------------------+----------------------+

Os nomes prprios foram mantidos tal e qual como surgiram impressos.



***END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK DA TERRA  LUA***


******* This file should be named 28341-8.txt or 28341-8.zip *******


This and all associated files of various formats will be found in:
http://www.gutenberg.org/dirs/2/8/3/4/28341



Updated editions will replace the previous one--the old editions
will be renamed.

Creating the works from public domain print editions means that no
one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
(and you!) can copy and distribute it in the United States without
permission and without paying copyright royalties.  Special rules,
set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark.  Project
Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
charge for the eBooks, unless you receive specific permission.  If you
do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
rules is very easy.  You may use this eBook for nearly any purpose
such as creation of derivative works, reports, performances and
research.  They may be modified and printed and given away--you may do
practically ANYTHING with public domain eBooks.  Redistribution is
subject to the trademark license, especially commercial
redistribution.



*** START: FULL LICENSE ***

THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK

To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
distribution of electronic works, by using or distributing this work
(or any other work associated in any way with the phrase "Project
Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
Gutenberg-tm License (available with this file or online at
http://www.gutenberg.org/license).


Section 1.  General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
electronic works

1.A.  By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
and accept all the terms of this license and intellectual property
(trademark/copyright) agreement.  If you do not agree to abide by all
the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.

1.B.  "Project Gutenberg" is a registered trademark.  It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement.  There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
even without complying with the full terms of this agreement.  See
paragraph 1.C below.  There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
works.  See paragraph 1.E below.

1.C.  The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
collection are in the public domain in the United States.  If an
individual work is in the public domain in the United States and you are
located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
are removed.  Of course, we hope that you will support the Project
Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
the work.  You can easily comply with the terms of this agreement by
keeping this work in the same format with its attached full Project
Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

1.D.  The copyright laws of the place where you are located also govern
what you can do with this work.  Copyright laws in most countries are in
a constant state of change.  If you are outside the United States, check
the laws of your country in addition to the terms of this agreement
before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
creating derivative works based on this work or any other Project
Gutenberg-tm work.  The Foundation makes no representations concerning
the copyright status of any work in any country outside the United
States.

1.E.  Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1.  The following sentence, with active links to, or other immediate
access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
copied or distributed:

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org

1.E.2.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
and distributed to anyone in the United States without paying any fees
or charges.  If you are redistributing or providing access to a work
with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
1.E.9.

1.E.3.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
with the permission of the copyright holder, your use and distribution
must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
terms imposed by the copyright holder.  Additional terms will be linked
to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
permission of the copyright holder found at the beginning of this work.

1.E.4.  Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
License terms from this work, or any files containing a part of this
work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.

1.E.5.  Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
electronic work, or any part of this electronic work, without
prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
active links or immediate access to the full terms of the Project
Gutenberg-tm License.

1.E.6.  You may convert to and distribute this work in any binary,
compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
word processing or hypertext form.  However, if you provide access to or
distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
form.  Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7.  Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.8.  You may charge a reasonable fee for copies of or providing
access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
that

- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
     the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
     you already use to calculate your applicable taxes.  The fee is
     owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
     has agreed to donate royalties under this paragraph to the
     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
     must be paid within 60 days following each date on which you
     prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
     address specified in Section 4, "Information about donations to
     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
your equipment.

1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.gutenberg.org/fundraising/pglaf.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://www.gutenberg.org/about/contact

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org

Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://www.gutenberg.org/fundraising/donate

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit:
http://www.gutenberg.org/fundraising/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.

Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.

Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.

