The Project Gutenberg EBook of A Mao e A Luva, by Machado de Assis

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Title: A Mao e A Luva

Author: Machado de Assis

Release Date: September 20, 2016 [EBook #53101]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MAO E A LUVA ***




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A MO

E

A LUVA

De

MACHADO DE ASSIS

da Academia Brasileira

Livraria Garnier

109, Rua do Ouvidor,109
RIO DE JANEIRO

6, Rue des Saints-Pres, 6
PARIS


COLLECO DOS AUTORES CELEBRES

DA

LITTERATURA

1919




ADVERTNCIA DE 1907

Os trinta e tantos annos decorridos do apparecimento desta novella
 reimpresso que ora se faz parece que explicam as differenas de
composio e de maneira do autor. Se este no lhe daria agora a mesma
feio,  certo que lh'a deu outr'ora, e, ao cabo, tudo pode servir a
definir a mesma pessoa.

No existia, ha muito, no mercado. O autor acceitou o conselho de
confiar a reimpresso ao editor dos outros livros seus. No lhe
alterou nada; apenas emendou erros typographicos, fez correces de
orthographia, e eliminou cerca de quinze linhas. Vae como saiu em 1874.

M. DE A.



ADVERTNCIA DE 1874

sta novella, sugeita s urgncias da publicao diaria, saiu das mos
do autor capitulo a capitulo, sendo natural que a narrao e o estylo
padecessem com esse methodo de composio, um pouco fra dos hbitos
do autor. Se a escrevra em outras condies, dera-lhe desenvolvimento
maior, e algum colorido mais aos caracteres, que ahi ficam esboados.
Convem dizer que o desenho de taes caracteres,--o de Guiomar,
sobretudo,--foi o meu objecto principal, seno exclusivo, servindo-me a
aco apenas de tela em que lancei os contornos dos perfis. Incompletos
embora, tero elles saido naturaes e verdadeiros?

Mas talvez estou eu a dar propores muito graves a uma cousa de to
pequeno tomo. O que ahi vae so umas poucas paginas que o leitor
esgotar de um trago, se ellas lhe aguarem a curiosidade ou se lhe
sobrar alguma hora que absolutamente no possa empregar em outra
cousa,--mais bella ou mais util.

Novembro de 1814.

M. DE A.




A MO E A LUVA




I


O fim da carta.


--Mas que pretendes fazer agora?

--Morrer.

--Morrer? Que ideia! Deixa-te disso, Estevo. No se morre por to
pouco....

--Morre-se. Quem no padece estas dores no as pde avaliar. O golpe
foi profundo, e o meu corao  pusillanime; por mais aborrecivel que
parea a ideia da morte, peior, muito, peior do que ella,  a de viver.
Ah! tu no sabes o que isto ?

--Sei: um namoro gorado....

--Luiz!

--.... E se em cada caso de namoro gorado morresse um homem, tinha j
diminudo muito o genero humano, e Malthus perderia o latim. Anda, sobe.

Estevo metteu a mo nos cabellos com um gesto de augustia; Luiz
Alves sacudiu a cabea e sorriu. Achavam-se os dous no corredor da
casa de Luiz Alves,  rua da Constituio,--que ento se chamava dos
Ciganos;--ento, isto , em 1853, uma bagatella de vinte annos que l
vo, levando talvez comsigo as illuses do leitor, e deixando-lhe em
troca (usurarios!) uma triste, crua e desconsolada experiencia.

Eram nove horas da noite; Luiz Alves recolhia-se para casa, justamente
no occasio em que Estevo o ia procurar; encontraram-se  porta. Alli
mesmo lhe confiou Estevo tudo o que havia, e que o leitor saber daqui
a pouco, caso no aborrea estas historias de amor, velhas como Ado,
e eternas como o ceu. Os dous amigos demoraram-se ainda algum tempo no
corredor, um a insistir com o outro para que subisse, o outro a teimar
que queria ir morrer, to tenazes ambos, que no haveria meio de os
vencer, se a Luiz no occoresse uma transaco.

--Pois sim, disse elle, convenho em que deves morrer, mas ha de ser
amanh. Cede da tua parte, e vem passar a noite commigo. Nestas ultimas
horas que tens de viver na terra dar-me-has uma lio de amor, que eu
te pagarei com outra de philosophia.

Dizendo isto, Luiz Alves travou do brao de Estevo, que no resistiu
dessa vez, ou porque a ideia da morte no se lhe houvesse entranhado
deveras no cerebro, ou porque cedesse ao doloroso gosto de falar da
mulher amada, ou, o que  mais provavel, por esses dous motivos juntos.
Vamos ns com elles, escada acima, at a sala de visitas, onde Luiz foi
beijar a mo de sua me.

--Mame, disse elle, hade fazer-me o favor de mandar o ch ao meu
quarto; o Estevo passa a noite commigo.

Estevo murmurou algumas palavras, a que tentou dar um ar de gracejo,
mas que eram funebres como um cypreste. Luiz viu-lhe ento,  luz
das estearinas, alguma vermelhido nos olhos, e adivinhou,--no
era difficil,--que houvesse chorado. Pobre rapaz! suspirou elle
mentalmente. D'alli foram os dous para o quarto, que era uma vasta
sala, com tres camas, cadeiras de todos os feitios, duas estantes
com livros e uma secretaria,--vindo a ser ao mesmo tempo, alcova e
gabinette, de estudo.

O ch subiu dahi a pouco. Estevo, a muito rogo do hospede, bebeu dous
goles; accendeu um cigarro e entrou a passear ao longo do aposento,
em quanto Luiz Alves, preferindo um charuto e um soph, accendeu o
primeiro e estirou-se no segundo, cruzando beatificamente as mos sobre
o ventre e contemplando o bico das chinellas, com aquella placidez
de um homem a quem se no gorou nenhum namoro. O silencio no era
completo; ouvia-se o rodar de carros que passavam fra; no aposento,
porm, o unico rumor era dos botins de Estevo na palhinha do cho.

Cursavam estes dous moos a academia de S. Paulo, estando Luiz Alves,
no quarto anno e Estevo no terceiro. Conheceram-se na academia, e
ficaram amigos intimos, tanto quanto podiam sel-o dous espiritos
differentes, ou talvez por isso mesmo que o eram. Estevo, dotado de
extrema sensibilidade, e no menor fraqueza de animo, affectuoso e
bom, no daquella bondade varonil, que  apanagio de uma alma forte,
mas dessa outra bondade molle e de cera, que vai  merc de todas as
circumstancias, tinha, alm de tudo isso, o infortunio de trazer ainda
sobre o nariz os oculos cr de rosa de suas virginaes illuses. Luiz
Alves via bem com os olhos da cara. No era mau rapaz, mas tinha o seu
gro de egoismo, e se no era incapaz de affeies, sabia regel-as,
moderal-as, e sobretudo guial-as ao seu proprio interesse. Entre estes
dous homens travara-se amizade intima, nascida para um na sympathia,
para outro no costume. Eram elles os naturaes confidentes um do outro,
com a differena que Luiz Alves dava menos do que recebia, e, ainda
assim, nem tudo o que dava exprimia grande confiana.

Estevo referira ao amigo, desde tempos, toda a historia do amor,
agora mallogrado, suas esperanas, desalentos e glorias, e, emfim,
o inesperado desfecho. O pobre rapaz, que folheava o capitulo mais
delicioso do romance--no sentir delle--caiu de toda a altura das
illuses na mais dura, prosaica e miseravel realidade.

A namorada de Estevo,-- tempo de dizer alguma cousa della,--era uma
moa de 17 annos, e, por ora, simples alumna-professora no collegio de
uma tia do nosso estudante,  rua dos Invalidos. Estevo tinha-a visto,
pela primeira vez, seis mezes antes, e desde logo sentiu-se preso por
ella, at  morte, disse elle ao amigo, referindo-lhe o encontro,
o que o fez sorrir de to estirado prazo. Qualquer que elle fosse,
porm, o prazo fatal daquelle captiveiro, a verdade  que Estevo no
mesmo ponto em que a viu logo a amou, como se ama pela primeira vez na
vida--amor um pouco estouvado e cego, mas sincero e puro. Amava-o ella?
Estevo dizia que sim, e devia crel-o; alguns olhares ternos, meia
duzia de apertos de mo significativos, embora a largos intervallos,
davam a entender que o corao de Guiomar--chamava-se Guiomar--no era
surdo  paixo do academico. Mas, fora disso, nada mais, ou pouco mais.

O pouco mais foi uma flor, no colhida do p em toda a original
frescura, mas j murcha e sem cheiro, e no dada, seno pedida.

--Faz-me um favor? disse um dia Estevo apontando para a flor que
ella trazia nos cabellos; esta flor est murcha, e, naturalmente, vai
deital-a fra ao despentear-se; eu desejava que m'a dsse.

Guiomar, sorrindo, tirou a flor do cabello, e deu-lh'a; Estevo
recebeu-a com egual contentamento ao que teria se lhe antecipassem o
seu quinho do ceu. Alm da flor, e para supprir as cartas, que no
havia, nada mais obtivera. Estevo durante aquelles seis compridos
mezes, a no serem os taes olhares, que afinal so olhares, e vo-se
com os olhos donde vieram. Era aquillo amor, capricho, passatempo ou
que outra cousa era?

Naquella tarde, a tarde fatal, estando ambos a ss, o que era raro e
difficil, disse-lhe elle que em breve ia voltar para S. Paulo, levando
comsigo a imagem della, e pedindo-lhe em cambio, que uma vez ao menos
lhe escrevesse. Guiomar franziu a testa e fitou nelle o seu magnifico
par de olhos castanhos, com tanta irritao e dignidade, que o pobre
rapaz ficou attonito e perplexo. Imagina-se a augustia delle diante
do silencio que reinou entre ambos por alguns segundos; o que se no
imagina  a dor que o prostrou,--a dor e o espanto,--quando ella,
erguendo-se da cadeira em que estava, lhe respondeu, saindo:

--Esquea-se disso.

--Pois quanto a mim,--disse Luiz Alves ouvindo pela terceira vez a
narrao de to cru desenlace; quanto a mim, obedecia-lhe pontualmente;
esquecia-me disso e ia curar-me cima dos compendios; direito romano e
philosophia, no conheo remedio melhor para taes achaques.

Estevo no ouvia as palavras do amigo; estava ento assentado na cama,
com os cotovellos fincados nas pernas, e a cabea mettida nas mos,
parecendo que chorava. A principio chorou em silencio; mas no tardou
que Luiz Alves o visse deitar-se na cama, estorcer-se convulsivamente,
a soluar, a abafar quanto podia os gritos que lhe saiam do peito,
a puxar os cabellos, a pedir a morte, tudo entremeado com o nome de
Guiomar, to d'alma tudo aquillo, to lastimosamente natural, que emfim
o commoveu, e no houve remedio se no dizer-lhe algumas palavras de
conforto. A consolao veiu a tempo; a dor, chegada ao paroxismo,
declinou pouco a pouco, e as lagrimas estancaram, ao menos por algum
tempo.

--Sei que tudo isto hade parecer-te ridculo, disse Estevo sentando-se
na cama; mas que queres tu? Eu vivia na persuaso de que era amado, e
era-o talvez. Por isso mesmo no entendo o que se passou hoje. Ou o que
eu suppunha ser amor, no passava talvez de passatempo ou zombaria...

--Talvez, talvez, interrompeu Luiz Alves, comprehendendo que o melhor
meio de o curar do amor era metter-lhe em brios o amor-proprio.

Estevo ficou alguns instantes pensativo.

--No, no,  possvel, contestou elle. Tu no a conheces.  uma grave
e nobre creatura, incapaz de conceber um sentimento desses, que seria
vulgar ou cruel.

--As mulheres...

--J pensei se aquillo de hoje no seria uma maneira de
experimentar-me, de ver at que ponto eu lhe queria... Escusas de
rir-te, Luiz; eu nada affirmo; digo que pode ser. No admira que ella
fizesse esse calculo,--um bom calculo, nesse caso, todo filho do
corao...

A imaginao de Estevo desceu por este declivio de floridas
conjecturas, e Luiz Alves entendeu que era de bom aviso no
espantar-lhe os cavallos. Ella foi, foi, foi por alli abaixo,
redea frouxa e riso nos labios. Boa viagem! exclamou mentalmente o
collega voltando a estirar-se no soph. A viagem no foi longa, mas
produziu effeito salutar no animo do namorado, adoando-lhe as penas,
circumstancia que Luiz Alves aproveitou para lhe falar de cem cousas
alheias ao corao e divertil-o do pensamento que o absorvia. Conseguiu
o seu intento durante meia hora, e conseguiu mais, por que fez com
que o collega risse, a principio de um riso amargo e dubio, depois
de um riso jovial e franco incompatvel com intuitos tragicos. Mas,
ai triste! a dor delle era uma especie de tosse moral, que aplacava
e reapparecia, intensa s vezes, s vezes mais fraca, mas sempre
infallivel. O rapaz acertara de abrir uma pagina de _Werther_; leu meia
duzia de linhas, e o accesso voltou mais forte que nunca.

Luiz Alves acudiu-lhe com as pastilhas da consolao; o accesso passou;
nova palestra, novo riso, novo desespero, e assim se foram escoando
as horas da noite, que o relogio da sala de jantar batia secca e
regularmente, como a lembrar aos dous amigos que as nossas paixes no
acceleram nem moderam o passo do tempo.

A aurora para os dous academicos coincidiu com as badaladas do meio
dia, o que no admira, pois s adormeceram quando ella comeava
a apagar as estrellas. Estevo passou a noite,--a manh, quero
dizer,--muito socegado e livre de sonhos maus. Quando abriu os olhos
extranhou o aposento e os objectos que o rodeavam. Logo que os
reconheceu, despertou-se-lhe, com a memoria, o corao, onde j no
havia aquella dor aguda da vespera. Os successos, embora recentes,
comeavam a envolver-se na sombra crepuscular do passado.

A natureza tem suas leis imperiosas; e o homem, ser complexo, vive no
s do que ama, mas tambm (fra  dizel-o) do que come. Sirva isto de
excusa ao nosso estudante, que almoou nesse dia, como nos anteriores,
bastando dizer em seu abono que, se o no fez com lagrimas, tambm o
no fez alegre. Mas o certo  que a tempestade serenara; o que havia
era uma ressaca, ainda forte, mas que diminuiria com o tempo. Luiz
Alves evitou falar-lhe de Guiomar; Estevo foi o primeiro a recordar-se
della.

--D tempo ao tempo, respondeu Luiz Alves, e ainda te has de rir
dos teus planos de hontem. Sobretudo, agradece ao destino o haveres
escapado to depressa. E queres um conselho?

--Dize.

--O amor  uma carta, mais ou menos longa, escripta em papel velino,
crte-dourado, muito cheiroso e catita; carta de parabens quando se l,
carta de pezames quando se acabou de ler. Tu que chegaste ao fim, pe a
epistola no fundo da gaveta, e no te lembres de ir ver se ella tem um
post-scriptum...

Estavo applaudiu a metaphora com um sorriso de bom agouro.

Duas vezes viu elle a formosa Guiomar, antes de seguir para S. Paulo.
Da primeira sentiu-se ainda abalado, por que a ferida no cicatrisara
de todo; da segunda, pde encaral-a sem perturbao. Era melhor,--mais
romantico pelo menos, que eu o puzesse a caminho da academia, com o
desespero no corao, lavado em lagrimas, ou a bebel-as em silencio,
como lhe pedia a sua dignidade de homem. Mas que lhe hei de eu fazer?
Elle foi daqui com os olhos enxutos, distrahindo-se dos tedios da
viagem com alguma pilheria de rapaz,--rapaz outra vez, como dantes.




II


Um roupo.


Um mez depois de chegar Estevo a S. Paulo, achava-se a sua paixo
definitivamente morta e enterrada, cantando elle mesmo um responso,
a vozes alternadas, com duas ou tres moas da capital,--todas ellas,
por passatempo. Claro  que dous annos depois, quando tomou o gro de
bacharel, nenhuma ideia lhe restava do namoro da rua dos Invalidos.
Demais, a bella Guiomar desde muito tempo deixara o collegio e fora
morar com a madrinha. J elle a no vira da primeira vez que veiu 
corte. Agora voltava graduado em sciencias juridicas e sociaes, como
fica dito, mais desejoso de devassar o futuro que de reler o passado.

A corte divertia-se, como sempre se divertiu, mais ou menos, e para
os que transpuzeram a linha dos Cincoenta divertia-se mais do que
hoje, eterno reparo dos que j no do  vida toda a flor dos seus
primeiros annos. Para os vares maduros, nunca a mocidade folga como
no tempo delles, o que  natural dizer, porque cada homem v as cousas
com os olhos da sua edade. Os recreios da juventude no so de certo
egualmenle nobres, nem egualmente frivolos, em todos os tempos; mas a
culpa ou o merecimento no  della,--a pobre juventude,-- sim do tempo
que lhe cae em sorte.

A corte divertia-se, apesar dos recentes estragos do cholera--;
bailava-se, cantava-se, passeava-se, ia-se ao theatro. O Cassino abria
os seus sales, como os abria o Club, como os abria o Congresso, todos
tres fluminenses no nome e na alma. Eram os tempos homericos do theatro
lyrico, a quadra memoravel daquellas lutas e rivalidades renovadas em
cada semestre, talvez por um excesso de ardor e enthusiasmo, que o
tempo diminuiu, ou transferiu,--Deus lhe perde,--a cousas de menor
tomo. Quem se no lembra,--ou quem no ouviu falar das batalhas
feridas naquella classica plateia do Campo da Acclamao, entre a
legio casalonica e a phalange chartonica, mas sobretudo entre esta e
o regimento lagruista? Eram batalhas campaes, com tropas frescas,--e
maduras tambem,--apercebidas de flores, de versos, de coroas, e at
de estalinhos. Uma noite a aco travou-se entre o campo lagruista
e o campo chartonista, com tal violencia, que parecia uma pagina da
_Illiada._ Desta vez, a Venus da situao saiu ferida do combate;
um estalo rebentra no rosto da Charton. O furor, o delirio, a
confuso foram indescriptiveis; o applauso e a pateada deram-se
as mos,--e os ps. A peleja passou aos jornaes. Vergonha eterna
(dizia um) aos cavalheiros que cuspiram na face de uma dama!--Si
for mister (replicava outro) daremos os nomes dos aristarchos que
no saguo do theatro juraram desfeitear Mlle. Lagrua.)--Patuleia
desenfreada!--Fidalguice balofa!

Os que escaparam daquellas guerras de alecrim e mangerona ho de sentir
hoje, aps dezoito annos, que despenderam excessivo enthusiasmo em
cousas que pediam repouso de espirito e lio de gosto.

Estevo  uma das relquias daquella Troya, e foi um dos mais
fervorosos lagruistas, antes e depois do gro. A causa principal das
suas preferencias, era de certo o talento da cantora; mas a que elle
costumava dar, nas horas de bom humor, que eram todas as vinte e quatro
do dia, tirantes as do somno, essa causa que mais que tudo o ligava
aos arraiaes do bom gosto dizia elle, era,--imaginem l,--era o buo
de Mlle. Lagrua. Talvez no fosse elle o unico amador do buo; mas
outro mais frvido duvido que houvesse nesta boa cidade. Um chartonista
machiavelico, alis escriptor elegante, elevava o tal buo  cathegoria
de bigode, comprehendendo sagazmente que, se o buo era graa, o bigode
era excrescencia; e elle nem ao labio da Lagrua queria perdoar.

--Oh! aquelle buo! exclamava Estevo nos intervallos de uma opera,
aquelle delicioso buo hade ser a perdio da gente de bem! Quem me
dera ir encaracolado por alli acima, at ficar mais proximo do ceu,
quero dizer dos seus olhos, e ser visto por ella, que me no descobre
na turba innumeravel dos seus adoradores! Querem saber uma cousa? Alli
 que ella hade ter a alma, e eu quizera entreter-me com a alma della,
e dizer-lhe muita cousinha que tenho c dentro  espera de um buo que
as queira ouvir.

Estevo era mais ou menos o mesmo homem de dous annos antes. Vinha
cheirando ainda aos cueiros da Academia, meio estudante e meio doutor,
alliando em si, como em edade de transio, o estouvamento de um com
a dignidade do outro. As mesmas chimeras tinha, e a mesmas simplesa
de corao; s no as mostrra nos versos que imprimiu em jornaes
academicos, os quaes eram todos repassados do mais puro byronismo,
moda muito do tempo. Nelles confessava o rapaz  cidade e ao mundo
a profunda incredulidade do seu espirito, e o seu fastio puramente
litterario. A collao de gro interrompeu, ou talvez acabou, aquella
vocao poetica; o ultimo suspiro desse genero que lhe saiu do peito
foram umas sextilhas  sua _juventude perdida._ Felizmente, que s a
perdeu em verso; na prosa e na realidade era rapaz como poucos.

Posto fizesse boa figura na academia, mais presava do que amava a
sciencia do direito. Suas preferencias intellectuaes dividiam-se, ou
antes abrangiam a polilica e a litteratura, e ainda assim, a politica
s lhe acenava com o que podia haver litterario nella. Tinha leitura de
uma e outra cousa, mas leitura veloz e  flor das paginas. Estevo no
comprehendera nunca este axioma de lord Macaulay--que mais aproveita
digerir uma lauda que devorar um volume. No digeria nada; e dahi vinha
o seu nenhum apego s sciencias que estudara. Venceu a repugnancia por
amor proprio; mas, uma, vez dobrado o cabo das Tormentas disciplinares,
deixou a outros o cuidado de aproar  India.

Suas aspiraes polticas deviam naturalmente morrer em germen, no s
porque lhe minguava o apoio necessario para as arvorecer e fructificar,
mas ainda por que elle no tinha em si a fora indispensavel a todo o
homem que pe a mira acima do estado em que nasceu. Eram aspiraes
vagas, intermittentes, vaporosas, umas vises legislativas e
ministeriaes, que to depressa lhe namoravam a imaginao, como logo
se esvaeciam, ao resvalar dos primeiros olhos bonitos, que esses, sim,
amava-os elle deveras. Opinies no as tinha; alguns escriptos que
publicara durante a quadra academica eram um complexo de doutrinas de
toda a casta, que lhe fluctuavam no espirito, sem se fixarem nunca,
indo e vindo, alando-se ou descendo, conforme a recente leitura ou a
actual disposio de espirito.

Por agora militava nas fileiras do lagruismo, com ardor, dedicao
e fidelidade de bom apostolo. No era abastado para pagar o luxo de
uma opinio lyrica; nascera pobre e no tinha parente em boa posio.
Alguns poucos recursos possuia, provenientes do seu officio de
advogado, que exercia com o amigo Luiz Alves.

Uma noite assistira  representao de _Othello_, palmeando at romper
as luvas, acclamando at cansar-lhe a voz, mas acabando a noite
satisfeito dos seus e de si. Terminado o expectaculo, foi elle, segundo
costumava, assistir  saida das senhoras, uma procisso de rendas,
e sedas, e leques, e veus, e diamantes, e olhos de todas as cores e
linguagens. Estevo era pontual nessas occasies de espera, e raro
deixava de ser o ultimo que saa. Tinha agora os olhos pregados em
outros olhos, no pardos como os delle, mas azues, de um azul-ferrete,
infelizmente uns olhos casados, quando sentiu alguem bater-lhe no
hombro, e dizer-lhe baixinho estas palavras:

--Larga o pinto, que  das almas.

Estevo voltou-se.

--Ah! s tu! disse elle vendo Luiz Alves. Quando chegaste?

--Hoje mesmo, respondeu o collega; venho sequioso de musica. Vassouras
no tem Lagrua nem _Othello_...

--Vieste lavar a alma da poeira do caminho, disse Estevo, que, ainda
falando em prosa, cultivava as suas metaphoras poeticas. Fizeste bem;
no te perdoaria se preferisses a outra, a lambisgoia, que aqui nos
querem impingir por grande cousa, e que no chega aos calcanhares do
buo...

Interrompeu-se. Luiz Alves acabava de comprimentar ceremoniosamente
alguem que passava; Estevo volveu a cabea para ver quem era. Era uma
moa, que elle no chegou a ver, porque j descia as escadas; mas to
elegante e gentil que os olhos lhe fuzilaram de admirao.

--Algum namoro? perguntou ao amigo.

--No; uma visinha.

A desfilada acabou; sairam os dous e foram dalli cear a um hotel,
seguindo depois para Botafogo, onde morava Luiz Alves, desde que
perdera a me, alguns mezes antes.

A casa de Luiz Alves ficava quasi no fim da praia de Botafogo, tendo
ao lado direito outra casa, muito maior e de apparencia rica. A noite
estava bella, como as mais bellas noites daquelle arrabalde. Havia
luar, ceu limpido, infinidade de estrellas e a vaga a bater mollemente
na praia, todo o material, em summa, de uma boa composio poetica, em
vinte estrophes pelo menos, obrigada a rima rica, com alguns exdruxulos
rebuscados nos diccionarios. Estevo poetou, mas poetou em prosa, com
um enthusiasmo legitimo e sincero. Luiz Alves, menos propenso s cousas
bellas, preferia a mais util de todas naquella occasio, que era ir
dormir. No o conseguiu sem ouvir ao hospede tudo quanto elle pensava
cerca daquelle pinto, que era das almas, aquelles olhos azues, 
profundos como o ceu, exclamava Estevo.

Afinal dormiram ambos; mas, ou fosse porque os taes olhos o
perseguissem, ainda em sonhos, ou porque extranhasse a cama, ou por que
o destino assim o resolvera, a verdade  que Estevo dormiu pouco, e,
cousa rara, accordou logo depois de apparecer a arraiada.

A manh estava fresca e serena; era tudo silencio, mal quebrado
pelo bater do mar e pelo chilrear dos passarinhos nas chacaras
da visinhana. Estevo, amuado por no poder conciliar o somno,
resolvera-se a ir ver a manh, de mais perto. Ergueu-se de manso,
lavou-se, vestiu-se, e pediu que lhe levassem caf ao jardim, para onde
foi sobraando um livro que acaso topou ao p da cama.

O jardim ficava nos fundos da casa; era separado da chacara visinha
por uma cerca. Relanceando os olhos pela chacara, viu Estevo que era
plantada com esmero e arte, assaz vasta, recortada por muitas ruas
curvas e duas grandes ruas rectas. Uma destas comeava das escadas de
pedra da casa e ia at o fim da chacara; a outra ia da cerca de Luiz
Alves at  extremidade opposta, cortando a primeira no centro. Do
lugar em que ficava Estevo s a segunda rua podia ser vista de ponta a
ponta.

Sentou-se o bacharel em um banco que alli achou, recebeu a chicara de
caf, que o escravo lhe trouxe dahi a pouco, accendeu um charuto e
abriu o livro. O livro era uma _Pratica Forense._ Demos-lhe razo ao
despeito com que o fechou e atirou ao cho, contentando-se com o canto
dos passaros e o cheiro das flores, e a sua imaginao tambem, que
valia as flores e os passaros.

Deus sabe at onde iria ella, com as azas faceis que tinha, se um
incidente lh'as no colhera e fizera descer  terra. Da casa visinha
sara um roupo,--elle no viu mais que um roupo,--e seguira pela
rua que enfrentava com casa, a passo lento e meditativo. Estevo, que
adorava todos os roupes, fossem ou no meditativos, deu as graas 
Providencia, pela boa fortuna que lhe deparava, e afiou os olhos para
contemplar aquella graciosa madrugadora. Graciosa, ainda elle no sabia
se o era; mas assentou que devia de ser, justamente porque desejava que
o fosse.

A deliciosa paisagem ia ter emfim uma alma; o elemento humano vinha
coroar a natureza.

Ergueu-se Estevo, de toda a sua estatura elevada e gentil, para ver
melhor,--e ser visto, digamos a verdade toda,--aquella desconhecida
visinha, que devia ser por fora a que Luiz Alves comprimentara
no theatro. Acteon christo e modesto, no sorprehendia Diana no
banho, mas ao sair delle; todavia, no palpitava menos de commoo e
curiosidade.

O roupo ia andando.




III


Ao p da cerca.


A primeira cousa que Estevo pde descobrir  que a visinha era
moa. Via-lhe o perfil, em cada aberta que deixavam as arvores, um
perfil correcto e puro, como de esculptura antiga. Via-lhe a face cr
de leite, sobre a qual se destacava a cr escura dos cabellos, no
penteados de vez, mas frouxamente atados no alto da cabea, com aquelle
deleixo matinal que faz mais bellas as mulheres bellas. O roupo,--de
musselina branca,--finamente bordado, no deixava ver toda a graa do
talhe, que devia ser e era elegante, dessa elegancia que nasce com a
creatura ou se apura com a educao, sem nada pedir, ou pedindo pouco
 thesoura da costureira. Todo o collo ia coberto at o pescoo, onde
o roupo era preso por um pequeno broche de saphira. Um boto, do
mesmo mineral, fechava em cada pulso as mangas estreitas e lisas, que
rematavam em folhos de renda.

Estevo, da distancia e na posio em que se achava, no podia ver
todas estas minucias que aqui lhes aponto, em desempenho deste meu
dever de contador de historias. O que elle viu, alm do perfil, dos
cabellos, e da tez branca, foi a estatura da moa, que era alta, talvez
um pouco menos do que parecia com o vestido roagante que levava. Pde
ver-lhe tambm um livrinho, aberto nas mos, sobre o qual pousava os
olhos, levantando-os de espao a espao, quando lhe era mister voltar a
folha, e deixando-os cair outra vez para embeber-se na leitura.

Ia assim andando, sem cuidar que a visse alguem, to serena e grave,
como se atravesra um salo. Estevo, que no tirava os olhos della,
mentalmente pedia ao ceu a fortuna de a ter mais proxima, e anciava por
vel-a chegar  rua que lhe ficava diante. Comtudo, era difficil que lhe
parecesse mais formosa do que era, vista assim de perfil, a escapar
por entre as arvores. O jovem bacharel, par no perder o sestro dos
primeiros tempos, avocava todas as suas reminiscencias litterarias; a
desconhecida foi successivamente comparada a um seraphim de Klopstock,
a uma fada de Shakespeare, a tudo quanto na memoria delle havia mais
aereo, transparente, ideial.

Em quanto elle trabalhava o espirito nestas comparaes poeticas,
no descabidas, se quizerem, em tal lugar, e ao p de to graciosa
creatura, ella seguia lentamente e chegara  encrusilhada das duas
grandes ruas da chacara. Estevo esperava que voltasse  direita, isto
, que viesse para o lado delle, mas sobretudo receiava que seguisse
pela mesma rua adiante e se perdesse no fundo da chacara. A moa
escolheu um meio termo, voltou  esquerda, dando as costas ao seu
curioso admirador e continuando no mesmo passo vagaroso e regular.

A chacara no era em demasia grande; e por mais lento que fosse o passo
da madrugadora, no gastaria ella immenso tempo em percorrer at o fim
aquella poro da rua em que entrra. Mas alli, ao p daquelle corao
juvenil e impaciente, cada minuto parecia, no direi um seculo,--seria
abusar dos direitos do estylo,--mas uma hora, uma hora lhe parecia, com
certeza.

A moa entretanto, chegando ao fim, parou alguns instantes, pousou a
mo nas costas de um banco rustico que alli havia e enfrentava com
outro, collocado na extremidade opposta. A outra mo descaira-lhe, e os
olhos tambem, o que magoou o seu curioso observador. Seriam saudades
de alguem? Estevo sentiu uma cousa, a que chamarei ciume antecipado,
mas que na realidade eram invejas da alheia fortuna. A inveja  um
sentimento mau; mas nelle, que nascera para amar, e que, alm disso,
tinha em si o contraste do nascimento com o instincto, um bero obscuro
e umas aspiraes  vida elegante,--nelle a inveja era quasi um
sentimento desculpavel.

A moa voltou e veiu pela rua adiante. Emfim, disse comsigo Estevo,
vou contemplal-a de mais perto. Ao mesmo tempo, receioso de que,
descobrindo alli um extranho, guiasse os passos para casa, Estevo
afastou-se do logar em que ficra, resoluto a apparecer, quando ella
estivesse proxima  cerca do jardim. A moa vinha andando com o livro
fechado, e os olhos ora no cho, ora nas andorinhas e camachilras que
esvoaavam na chacara. Se trazia saudades, no se lhe podiam ler no
rosto, que era quieto e pensativo, sim, mas sem a menor sombra de pena
ou de tristeza.

Estevo do logar onde estava podia examinar-lhe as feies, sem ser
visto por ella; mas foi justamente do que no cuidou, desde que
lh'as pde distinguir. Valia a pena, entretanto, contemplar aquelles
grandes olhos castanhos, meio velados pelas longas, finas e bastas
pestanas, no maviosos nem quebrados, como elle os cuidara ver, mas
de uma belleza severa, casta e fria. Valia a pena admirar como elles
communicavam a todo o rosto e o toda a figura um ar de magestade
tranquilla e senhora de si. No era ella uma dessas bellezas que, ao
mesmo tempo, que subjugam o corao, accendem os sentidos; falava 
intelligencia primeiro do que ao corao, tanto a arte parecia haver
collaborado com a natureza naquella creatura, meia estatua e meia
mulher.

Tudo isto podia ver e considerar o nosso bacharel. A verdade, porm, 
que a nenhuma destas cousas attendeu. Desde que distingura as feies
de moa, ficou como tomado de assombro, com os olhos parados, a bocca
entreaberta, fugindo-lhe a vida e o sangue todo para o corao.

A moa chegara  cerca; esteve de p algum tempo, olhou em derredor
e por fim sentou-se no banco que alli havia, dando as costas para o
jardim de Luiz Alves. Abriu novamente o livro, e continuou a leitura
do ponto em que a deixara to s comsigo, to embebida no livro que
tinha deante, que no a despertou o rumor, alis sumido, dos passos de
Estevo nas folhas seccas do cho. Teria percorrido meia pagina, quando
Estevo, reclinando-se sobre a cerca, e procurando abafar a voz para
que s chegasse aos ouvidos della, proferiu este simples nome:

--Guiomar!

A moa soltou um grito de sorpreza e de susto, e voltou-se sobresaltada
para o lado donde partira a voz. Ao mesmo tempo levantra-se. A
impresso que lhe produzira, e no sei se tambem algum ar de colera que
lhe notasse no rosto; e alm de tudo, o remorso de no haver suffocado
aquelle grito de seu corao, fez com que Estevo, quasi no mesmo
instante murmurasse em tom de spplica:

--Perdoe-me; foi uma scentelha do passado que estava debaixo da cinza:
apagou-se de todo.

Guiomar,--sabemos agora que era este o seu nome,--olhou sria e
quieta para o seu mal aventurado interruptor, dous longos e mortaes
minutos. Estevo, confuso e vexado, tinha os olhos em terra; o corao
palpitava-lhe com fora, como a despedir-se da vida. A situao ora em
demasia afflictiva e embaraosa para que se podesse prolongar mais.
Estevo ia corteja-la e despedir-se; mas a moa, com um sorriso de mais
piedade que affecto, murmurou:

--Est perdoado.

Caminhou para a cerca e estendeu-lhe a mo, que elle apertou,--apertou
no  bem dito,--em que elle tocou apenas, o mais ceremoniosamente que
podia e devia naquella situao.

E depois ficaram a olhar um para o outro, sem se atreverem a dizer
nada, nem a sair dalli, a verem ambos o espectro do passado, aquelle
to amargo passado para um delles. Guiomar foi a primeira que rompeu o
silencio, fazendo a Estevo uma pergunta natural, como no podia deixar
de ser naquellas circumstancias mas ainda assim, ou por isso mesmo, a
mais acerba que elle podia ouvir:

--Ha dous annos que nos no vemos, creio eu?

--Ha dous annos, murmurou Estevo abafando um suspiro.

--J est formado, no? Lembra-me ter lido o seu nome....

--Estou formado. Sabe que era o desejo maior de minha ta...

--No a vejo ha muito tempo, interrompeu Guiomar; eu sa do collegio,
logo depois que o senhor seguiu para S. Paulo. Sa a convite da
baroneza, minha madrinha, que l foi buscar-me um dia, allegando que eu
j no tinha que aprender, e que me no convinha ensinar.

--De certo, assentiu Estevo.--Minha tia  que no deixou nem podia
deixar de ensinar; acabou no officio.

--Acabou?

--Morreu.

--Ah!

--Morreu ha cerca de um anno.

--Era uma boa creatura, continuou Guiomar, depois de alguns instantes
de silencio, muito carinhosa e muito prendada. Devo-lhe o que
aprendi..., Est admirando esta flor?

Estevo, apanhado em flagrante delicto de admirao, no da flor mas da
mo que a sustinha,--uma deliciosa mo, que devia ser por fora a que
se perdeu da Venus de Milo, Estevo balbuciou:

--Com effeito,  linda!

--Ha muita flor bonita aqui na chacara. A baroneza tem immenso gesto a
estas cousas, e o nosso jardineiro  homem que sabe do seu officio.

Aquelle natural acanhamento da primeira occasio foi desapparecendo aos
poucos, e a conversa veiu a ser, no to familiar, como outr'ora, mas
em todo o caso menos fria do que a principio estivera. Havia, comtudo,
uma differena entre os dous: elle, sem embargo do desembarao,
sentia-se abalado e commovido; ella, porm, vencido o sobresalto do
principio, mostrava-se tranquilla e fria, sempre polida e grave,
risonha s vezes, mas de um risonho  flor do rosto, que no lhe
alterava a serenidade e compostura.

O sitio e a hora eram mais proprios de um idylio, que de uma fria e
descolorida pratica. Um ceu claro e limpido, um ar puro, o sol a coar
por entre as folhas uma luz ainda frouxa e tepida, a vegetao em
derredor, todo aquelle reviver das cousas parecia estar pedindo uma
egual aurora nas almas. Estas  que deviam falar alli a sua lingua
dellas, amorosa e candida, em vez da outra, cortez, elegante e rigida,
que a nenhum delles desprazia, de certo, mas que era muito menos
volontaria nos labios de Estevo.

Guiomar falava com certa graa, um pouco hirta e pausada, sem viveza,
nem calor.

Estevo, que a maior parte do tempo ficara a ouvil-a, observava entre
si que as maneiras da moa no lhe eram desnaturaes, ainda que podiam
ser calculadas naquella situao. A Guiomar que elle conhecera e amara
era o embryo da Guiomar de hoje, o esboo do painel agora perfeito;
faltava-lhe outr'ora o colorido, mas j se lhe viam as linhas do
desenho.

A conversa durou cerca de tres quartos de hora, uma migalha de tempo
para elle, que desejara muito mais. Mas era preciso acabar; ella foi a
primeira a dizer-lh'o.

--O senhor fez-me perder muito tempo. Ha talvez uma hora que estamos
aqui a conversar. Era natural, depois de dous annos. Dous annos! Mas o
que no era natural, continuou ella mudando de tom, era atrever-me a
falar com un estranho neste _dshabill_ to pouco elegante...

--Elegantissimo, pelo contrario.

--O senhor tem sempre um comprimento de reserva: vejo que no perdeu
o tempo na academia. Vou-me embora. So horas da baroneza dar o seu
passeio pela chacara.

--Ser aquella senhora que alli est no alto da escada? perguntou
Estevo.

-- ella mesma, respondeu Guiomar. Est  espera que lhe v dar o brao.

E com um gesto friamente fidalgo, estendeu a mo a Estevo, dizendo:

--Passe bem, senhor doutor, estimei vl-o.

Estevo tocou-lhe levemente na mo, fina e macia, e inclinou-se
respeitoso. A moa caminhou para casa. Elle acompanhou-a com os olhos,
admirando a gentileza com que ella, desta vez a passo accelerado,
resvalava por entre as arvores at subir as escadas da casa. Viu-a
dar o brao  madrinha, descerem e seguirem vagarosamente pelo mesmo
caminho por onde Guiomar seguira da primeira vez.

Estevo ainda ficou algum tempo encostado  cerca, na esperana de que
ella olhasse ou dirigisse os passos para aquelle lado; ella porm,
passou indifferente, como se nem da existencia delle soubera. Estevo
retirou-se dalli cabisbaixo e triste, batido de contrrios sentimentos,
cheio de uma tristeza e de uma alegria que mal se combinavam, e por
cima de tudo isso o co vago e surdo desta interrogao:

--Entro num drama ou saio de uma comedia?




IV


Latet anguis.


O passeio da baroneza durou pouco mais de meia hora. O sol comeava
a aquecer, e apesar de ser bastante sombreada a chacara, o calor
aconselhava  boa senhora que se recolhesse. Guiomar deu-lhe o brao, e
ambas, seguindo pelo mesmo caminho, guiaram para casa.

--Parece muito tarde, Guiomar, disse a baroneza ao cabo de alguns
segundos.

--E , madrinha. Demorei-me hoje mais do que costumo, por causa de um
encontro que tive aqui na chacara.

--Um encontro?

--Um homem.

--Algum ladro? perguntou a madrinha parando.

--No, senhora, respondeu Guiomar sorrindo, no era ladro. A minha
mestra de collegio... sabe que morreu?

--Quem disse isso?

--O sobrinho, o tal sugeito que encontrei aqui hoje.

--Voc est zombando commigo! Um homem na chacara?

--No era bem na chacara, mas no jardim do Dr. Luiz Alves. Estava
encostado  cerca; trocmos algumas palavras.

A baroneza olhou para ella alguns segundos.

--Mas, menina, isso no  bonito. Que diriam se os vissem?... Eu no
diria nada, porque conheo o que voc vale, e sei a discrio que Deus
lhe deu.--Mas as apparencias....Que qualidade de homem  esse sobrinho?

Interrompeu-as uma mulher de quarenta e quatro a quarenta e cinco
annos, alta e magra, cabello entre louro e branco, olhos azues,
aceiadamente vestida, a Sra. Oswald,--ou mais britannicamente, Mrs.
Oswald,--dama de companhia da baroneza, desde alguns annos. Mrs.
Oswald conhecra a baroneza em 1846; viuva e sem familia, acceitou as
prospostas que esta lhe fez. Era mulher intelligente e sagaz, dotada
de boa indole e servial. Antes da ida de Guiomar para a companhia da
madrinha, era Mrs. Oswald a alma da casa; a presena de Guiomar, que a
baroneza amava extremosamente, alterou um pouco a situao.

--So nove horas! disse de longe a ingleza; pensei que hoje no queriam
voltar para casa. O calor est forte; e a senhora baroneza sabe que no
 conveniente expor-se aos ardores do sol, sobretudo neste tempo de
epidemias.

--Tem razo, Mrs. Oswald; mas Guiomar tardou hoje tanto em ir
buscar-me, que o passeio comeou tarde.

--Porque me no mandou chamar?

--Estava talvez a dormir, ou entretida com o seu Walter Scott...

--Milton, emendou gravemente a ingleza; esta manh foi dedicada a
Milton. Que immenso poeta, D. Guiomar!

--Tamanho como este calor, observou Guiomar sorrindo. Apertemos o passo
e l dentro a ouviremos com melhor disposio.

Foram as tres andando, subiram a escada e entraram na sala de jantar,
que era vasta, com seis janellas para a chacara. Dalli seguiram para
uma saleta, onde a baroneza sentou-se na sua poltrona, a esperar a hora
do almoo. Guiomar saiu para ir cuidar da _toilette_; e a baroneza que
desde alguns minutos estivera cabisbaixa e pensativa, olhou fixamente
para Mrs. Oswald, sem dizer palavra.

Era ella uma senhora de cincoenta annos, refeita, vestida com esse
alinho e esmero da velhice, que  um resto da elegancia da mocidade. Os
cabellos, cr de prata fosca, emmolduravam-lhe o rosto sereno, algum
tanto arrugado, no por desgostos, que os no tivera, mas pelos annos.
Os olhos luziam de muita vida, e eram a parte mais juvenil do rosto.

Tendo casado cedo, coube-lhe a boa fortuna de ser egualemente feliz
desde o dia do noivado at o da viuvez. A viuvez custara-lhe muito; mas
j l iam alguns annos, e da crua dor que tivera ficara-lhe agora a
consolao da saudade.

--Chegue-se mais perto; preciso falar-lhe a ss, disse ella  ingleza,
que se achava a alguns passos de distancia.

Mrs. Oswald foi ate a porta espreitar se viria algum e voltou a
sentar-se ao p da baroneza. A baroneza estava outra vez pensativa, com
as mos crusadas no regao e os olhos no cho.

Estiveram as duas alli silenciosas alguns dous ou tres minutos. A
baroneza despertou emfim das reflexes, e voltou-se para a ingleza:

--Mrs. Oswald, disse ella, parece estar escripto que no serei
completamente feliz. Nenhum sonho me falhou nunca; este, porm, no
passar de sonho, e era o mais bello de minha velhice.

--Mas porque desespera? disse a ingleza. Tenha animo, e tudo se hade
arranjar. Pela minha parte, oxal pudesse contribuir para a completa
felicidade desta familia, a quem devo tantos e tamanhos benefcios.

--Benefcios!

--E que outra cousa so os seus carinhos, a proteco que me tem dado,
a confiana...

--Est bom, est bom, interrompeu affectuasamente a baroneza; falemos
de outra cousa.

--Della, no ? Diz-me o corao que com alguma paciencia tudo se
alcanar. Todos os meios se ho de tentar; e todos elles so bons
se se trata de fazer a felicidade sua e della. Bem est o que bem
acaba, disse um poeta nosso, homem de juizo. Por em quanto s vejo um
obstaculo: a pouca disposio...

--S esse?

--Que outro mais?

--Talvez outro, disse a baroneza abaixando a voz; pde ser que no, mas
to infeliz sou neste meu desejo, que hade vir a ser obstaculo, talvez.

--Mas que ?

--Um homem, um moo, no sei quem, sobrinho da mestra que foi de
Guiomar... Ella mesma contou-me tudo ha pouco.

--Tudo o que?

--No sei se tudo; mas emfim disse-me que, estando a passear na
chacara, vira o tal sobrinho da mestra, junto  cerca do Dr. Luiz
Alves, e ficara a conversar com elle. Que ser isto, Mrs. Oswald?
Algum amor que continua ou recomea agora,--agora, que ella j no  a
simples herdeira da pobreza de seus pais, mas a minha filha, a filha do
meu corao.

A commoo da baroneza ao proferir estas palavras era tal, que Mrs.
Oswald pegou-lhe affectuosamente das mos e procurou conforta-la com
outras palavras de esperana e confiana. Disse-lhe, alm disso, que o
simples conversar com esse homem, que alis nenhuma delias conhecia,
no era razo para suppor uma paixo anterior.

--Emfim, concluiu a ingleza, custa-me crer que ella ame a alguem neste
mundo. Por em quanto estou que no gosta de ningum, e a nossa vantagem
no  outra seno essa. Sua afilhada tem uma alma singular; passa
facilmente do enthusiasmo  frieza, e da confiana ao retrahimento.
Ha de vir a amar, mas no creio que tenha grandes paixes, ao menos
duradouras. Em todo o caso, posso responder-lhe actualmente pelo seu
corao, como se tivesse a chave na minha algibeira.

A baroneza abanou a cabea.

--Quanto a esse homem, continuou Mrs. Oswald, saberemos quem  elle, e
que relaes de affecto houve no passado.

--Parece-lhe possivel?

--Naturalmente!

A ingleza proferiu esta unica palavra com a segurana necessaria para
serenar o animo da boa senhora, que ficou algum tempo a olhar pasmada
para ella, como quem reflectia.

--Ha occasies, disse emfim a baroneza ao cabo de alguns segundos de
silencio, ha occasies em que eu quasi chego a sentir remorsos do amor
que tenho a Guiomar. Ella veiu preencher na minha vida o vacuo deixado
por aquella pobre Henriqueta, a filha das minhas entranhas, que a morte
levou comsigno, para mal de sua me. Se havia de ser infeliz, melhor 
que a chore morta, com a esperana de a ir encontrar no ceu. Mas no
lhe quiz mais, nem talvez tanto, como a esta criana, que levei  pia,
e de quem Deus me fez me...

A baroneza calou-se; ouvira passos no corredor.

Guiomar, embora tivesse ido vestir-se e aprimorar-se, com to singellos
meios o fizera, que no desdizia daquelle matinal desalinho em que o
leitor a viu no capitulo anterior. O penteado era um capricho seu,
expressamente inventado para realar a um tempo a abundancia dos
cabellos e a senhoril belleza da testa. As pontas bordadas de um
collarinho de cambraia dobravam-se faceiramente sobre o azul do vestido
de _glac_, talhado e ornado com uma simplicidade artistica. Isto, e
pouco mais, era toda a moldura do painel,--um dos mais bellos paineis
que havia por aquelles tempos em toda a praia de Botafogo.

--Viva a minha rainha de Inglaterra! exclamou Mrs. Oswald quando a viu
assomar  porta da saleta.

E Guiomar sorriu com tanta, satisfao e gzo ao ouvir-lhe esta
saudao familiar, que um observador attento hesitaria em dizer se era
aquillo simples vaidade de moa, ou se alguma cousa mais.

A baroneza poz os olhos na afilhada, uns olhos amorosos e tristes,
em que a moa reparou, e que a tornaram sria durante alguns rapidos
segundos. Mas sorriu depois; e pegando das mos da madrinha deu-lhe
dous beijos no rosto, com tanta ternura e to sincera, que a boa
senhora sorriu de contentamento.

--No precisa falar, disse Guiomar, j sei que me acha bonita.  o
que me diz todos os dias, com risco de me perder, porque se eu acabo
vaidosa, adeus, minhas encommendas, ninguem mais poder commigo.

Guiomar disse isto com tanta graa e singeleza, que a madrinha no
pde deixar de rir, e a melancolia acabou de todo. A sineta do almoo
chamou-as a outros cuidados, e a ns tambem, amigo leitor. Em quanto as
tres almoam, relanceemos os olhos ao passado, e vejamos quem era esta
Guiomar, to gentil, to buscada e to singular, como dizia Mrs. Oswald.




V


Meninice.


Guiomar tivera humilde nascimento; era filha de um empregado subalterno
no sei de que repartio do Estado, homem probo, que morreu quando
ella contava apenas sete annos, legando  viuva o cuidado de a educar
e manter. A viuva era mulher energica e resoluta, enxugou as lagrimas
com a manga do modesto vestido, olhou de frente para a situao e
determinou-se  luta e  victoria.

A madrinha de Guiomar no lhe faltou naquelle duro transe, e olhou por
ellas, como entendia que era seu dever. A solicitude, porm, no foi
to constante a principio como veiu a ser depois; outros cuidados de
familia lhe chamavam a atteno.

Guiomar annunciava desde pequena as graas que o tempo lhe desabrochou
e perfez. Era uma creaturinha galante e delicada, assaz intelligente e
viva, um pouco travssa, de certo, mas muito menos do que  usual na
infancia. Sua me, depois que lhe morrera o marido, no tinha outro
cuidado na terra, nem outra ambio mais, que a de ve-la prendada e
feliz. Ella mesma lhe ensinou a ler mal, como ella sabia,--e a coser e
bordar, e o pouco mais que possuia de seu officio de mulher. Guiomar
no tinha difficuldade nenhuma em reter o que a me lhe ensinava, e
com tal affinco lidava por aprender, que a viuva,--ao menos nessa
parte,--sentia-se venturosa. Has-de ser a minha doutora, dizia-lhe
muita vez; e esta simples expresso de ternura alegrava a menina e lhe
servia de incentivo  applicao.

A casa em que moravam era naturalmente modesta. Alli correu a
infancia,--mas solitaria, o que  um pouco mais grave. A me, quando a
via embebida nos jogos proprios da edade, infantilmente alegre,--mas
de uma alegria que fazia mal a seus olhos de me, to fundo lhe doia
aquelle viver,--a me sentia s vezes pularem-lhe as lagrimas dos
olhos fora. A filha no as via, porque ella sabia escondel-as; mas
advinhava-as atravez da tristeza que lhe ficava no rosto. S no
adivinhava o motivo, mas bastava que fossem maguas de sua me, para lhe
descair tambem a alegria.

Com o tempo, avultou outra causa de tristeza para a pobre viuva, ainda
mais dolorosa que a primeira. Na edade apenas de dez annos, tinha
Guiomar uns desmaios de espirito, uns dias de concentrao e mudez,
uma seriedade, a principio intermittente e rara, depois frequente e
prolongada, que desdiziam da meninice e faziam crer  me que eram
prenuncios de que Deus a chamava para si. Hoje sabemos que no eram.
Seria acaso effeito daquella vida solitaria e austera, que j lhe ia
affeioando a alma e como que apurando as foras para as pugnas da vida?

A primeira vez que esta gravidade da menina se lhe tornou mais patente
foi uma tarde, em que ella estivera a brincar no quintal da casa. O
muro do fundo tinha uma larga fenda, por onde se via parte da chacara
pertencente a uma casa da visinhana. A fenda era recente; e Guiomar
acostumra-se a ir espairecer alli os olhos, j serios e pensativos.
Naquella tarde, como estivesse olhando para as mangueiras, a cobiar
talvez as doces fructas amarellas que lhe pendiam dos ramos, viu
repentinamente apparecer-lhe deante, a cinco ou seis passos do lugar em
que estava, um rancho de moas, todas bonitas, que arrastavam por entre
as arvores os seus vestidos, e faziam luzir aos ultimos raios do sol
poente as joias que as enfeitavam. Ellas passaram alegres, descuidadas,
felizes; uma ou outra lhe dispensou talvez algum affago; mas foram-se,
e com ellas os olhos da interessante pequena, que alli ficou largo
tempo absorta, alheia de si, vendo ainda na memoria o quadro que
passra.

A noite veiu, a menina recolheu-se pensativa e melancolica, sem nada
explicar  solicita curiosidade da me. Que explicaria ella, se mal
podia comprehender a impresso que as cousas lhe deixavam? Mas, como
a me entristecesse com aquillo, Guiomar domou o proprio espirito e
fez-se to jovial como nos melhores dias.

Esta era ainda outra feio da menina; tinha uma fora de vontade
superior aos seus annos. Com ella, e a viveza intellectual que Deus lhe
dera, logrou aprender tudo o que a me lhe ensinara, e melhor ainda
do que ella o sabia, desde que o tempo lhe permittiu desenvolver os
primeiros elementos.

Aos trese annos ficou orph; este fundo golpe em seu corao, foi o
primeiro que ella verdadeiramente pode sentir, e o maior que a fortuna
lhe desfechou. J ento a madrinha a fizera entrar para um collegio,
onde aperfeioava o que sabia e onde lhe ensinavam muita cousa mais.

Vivia ainda ento a filha de baroneza, uma interessante creana de
trese annos, que era toda a alma e encanto de sua me. Guiomar visitava
a casa da madrinha; a edade quasi egual das duas meninas, a affeio
que as ligava a belleza e meiguice de Guiomar, a graciosa compostura
de seus modos, tudo apertou entre a madrinha e a afilhada os laos
puramente espirituaes que as uniam antes. Guiomar correspondia aos
sentimentos daquella segunda me; havia talvez em seu affecto, alis
sincero, um tal encarecimento que podia parecer simulao. O affecto
era espontaneo; o encarecimento  que seria voluntrio.

Tinha a moa dezeseis annos quando passou para o collegio da tia de
Estevo, onde pareceu  baroneza se lhe poderia dar mais apurada
educao. Guiomar manifestra ento o desejo de ser professora.

--No ha outro recurso, disse ella  baroneza quando lhe confiou esta
aspirao.

--Como assim? perguntou a madrinha.

--No ha, repetiu Guiomar. No duvido, nem posso negar o amor que
a senhora me tem; mas a cada qual cabe uma obrigao, que se deve
cumprir. A minha ...  ganhar o po.

Estas ultimas palavras passaram-lhe pelos lbios como que  fora.
O rubor subiu-lhe s faces; dissera-se que a alma cobria o rosto de
vergonha.

--Guiomar! exclamou a baroneza.

--Peo-lhe uma cousa honrosa para mim, respondeu Guiomar com
simplicidade.

A madrinha sorriu e approvou-a com um beijo,--assentimento de boca, a
que j o corao no respondia, e que o destino devia mudar.

Pouco tempo depois padeceu a baroneza o golpe quasi mortal a que
alludiu no capitulo anterior. A filha morreu de repente, e o inopinado
do desastre quasi levou a me  sepultura.

A affeio de Guiomar no se desmentiu nessa dolorosa situao. Ningum
mostrou sentir mais do que ella a morte de Henriqueta, ningum consolou
to dedicadamente a infeliz que lhe sobrevivia. Eram ainda verdes os
seus annos; todavia revellou ella a posse de uma alma egualmente terna
e energica, affectuosa e resoluta. Guiomar foi durante alguns dias a
verdadeira dona da casa; a catastrophe abatera a propria Mrs. Oswald.

O corao da pobre me ficra to vasio, e a vida lhe pareceu to agra
e deserta sem a filha, que ella morreria talvez de saudade, se no fora
a presena de Guiomar. Nenhuma outra creatura poderia preencher, como
esta, o logar de Henriqueta. Guiomar era j meia filha da baroneza as
circumstancias, no menos que o corao, tinham-n'as destinado uma para
a outra. Um dia, em que a afilhada fora visitar a madrinha, esta lhe
disse que a iria em breve buscar para sua casa.

--Voc ser a filha que eu perdi; elle no me amou mais, nem eu j
agora teria outra consolao.

--Oh! madrinha! exclamou Guiomar beijando-lhe as mos.

A baroneza estava assentada; Guiomar ajoelhou-se-lhe aos ps e poz-lhe
a cabea no regao. A boa me curvou-se e beijou-lh'a ternamente,
com os olhos naquella filha que os successos lhe haviam dado, e o
pensamento no ceu, onde devia estar a outra, que Deus lhe dera e levou
para si.

       *       *       *       *       *

Pouco depois estabeleceu-se Guiomar definitivamente em casa da
madrinha, onde a alegria reviveu, gradualmente, graas  nova
moradora, em quem havia um tino e sagacidade raros. Tendo presenciado,
durante algum tempo, e no breve, o modo de viver entre a madrinha e
Henriqueta, Guiomar poz todo o seu esforo em reproduzir pelo mesmo
teor os habitos de outro tempo, de maneira que a baroneza mal pudesse
sentir a ausencia da filha. Nenhum dos cuidados da outra lhe esqueceu,
e se em algum ponto os alterou foi para augmentar-lhe novos. Esta
inteno no escapou ao espirito da baroneza, e  superfluo dizer que
deste modo os vinculos do affecto mais se apertaram entre ambas.

Ao mesmo tempo que ia provando os sentimentos de seu corao, revelava
a moa, no menos, a plena harmonia de seus instinctos com a sociedade
em que entrra. A educao, que nos ltimos tempos recebera, fez muito,
mas no fez tudo. A natureza incumbira-se de completar a obra,--melhor
diremos, comeal-a. Ninguem adivinharia nas maneiras finamente
elegantes daquella moa, a origem mediana que ella tivera; a borboleta
fazia esquecer a chrysalida.




VI


O post-scriptum.


Aquelle conselho de Luiz Alves, na fatal noite de dous annos antes, no
ha duvida que era judicioso e devera ter ficado no espirito de Estevo.
No convinha reler a carta, sob pena de lhe achar um _post-scriptum._
Estevo era curioso de epistolas; no pode ter-se que no abrisse
aquella. O _post-scriptum_ l estava no fim.

Vindo  linguagem natural, Estevo saiu do jardim de Luiz Alves com
o corao meio inclinado a amar de novo a mulher que tanto o fizera
padecer um dia. Daqui concluir alguem que elle verdadeiramente no
deixra de a amar Pde ser; havia talvez debaixo da cinza uma faisca,
uma s, e essa bastava a repetir o incendio. Mas fosse de um ou de
outro modo, o certo  que Estevo saiu dalli com o prncipio do amor no
corao.

Todo aquelle dia foi de alvoroo e agitao para elle, que no se
resignou logo, antes buscou reagir contra a entrada da paixo nova. A
tentativa era sincera; as foras  que eram escassas. Elle desviava de
si a imagem da moa; ella, porm perseguia-o, tenaz, como se fora um
remorso, fatal como a voz de seu destino.

Estevo nada disse a Luiz Alves do encontro e da conversa qui tivera
com a moa no jardim; e no lh'o escondeu por desconfiana, mas por
vergonha. Que lhe diria porm elle que o no tivesse visto e percebido
Luiz Alves? Da janella de seu quarto, que dava para o jardim, enfiando
os olhos pela fresta das cortinas pde observa-los durantes aquelles
tres quartos de hora de innocente palestra. O espectaculo no o
divertiu muito; Luiz Alves achou um pouco atrevida a escolha do logar.

A circumstancia de os ver juntos chamou-lhe a atteno para a
coincidencia do nome da visinha com o da antiga namorada do collega;
era naturalmente a mesma pessoa.

--Vai contar-me tudo, pensou Luiz Alves quando viu o collega
affastar-se da cerca e dirigir os passos para casa.

Estevo, como disse, foi discreto. Vinha preocupado, muito outro do que
entrra na vespera, a ler-se-lhe no rosto alguma cousa mais sria do
que elle proprio costumava ser.

Tinha Estevo contra si o passado e o futuro. O presente, sim,
defendia-o; elle sentia que alguma cousa o distanciava de Guiomar.
Mas o passado falava-lhe de todas as doces recordaes,--as menos
amargas,--e a memoria quasi no sabe de outras quando relembra o
que foi. O futuro acenava-lhe com as suas esperanas todas, e basta
dizer que eram infinitas. Alm disso, a Guiomar que elle via agora,
surgia-lhe no meio de outra atmosphera,--a mesma que o seu espirito
almejava respirar; e apparecia-lhe para fugir logo. Sobre tudo isto
o obstaculo, aquella porta fechada, que bem podia ser a da _citt
dolente_, mas que em todo o caso elle quizera ver franqueada s suas
ambies.

Os dias correram alternados de confiana e desanimo, tecidos de ouro e
fio negro, um lutar de todas as horas, que acabou como era de prever e
devia acabar. O corao levou Estevo atraz de si.

Nenhum meio, dos que tinha  mo, lhe esqueceu para ver Guiomar. As
janellas da casa estavam quasi sempre desertas. Duas ou tres vezes
aconteceu vel-a de longe; ao approximar-se-lhe, sumira-se o vulto na
sombra do salo No perdia theatro; mas s duas vezes teve o gosto de
a ver: uma no Lyrico, onde se cantava _Somnambula_, outra no Gymnasio,
onde se representavam os _Parisienses_, sem que elle ouvisse uma nota
da opera, nem uma palavra da comedia. Todo elle, olhos e pensamento,
estava no camarote de Guiomar. No Lyrico foi baldada essa comtemplao;
a moa no deu por elle. No Gymnasio, sim; o theatro era pequeno;
comtudo, antes no fra visto, to tenazmente deviou ella os olhos do
logar em que elle ficra.

Nem por isso deixou Estavo de ir esperal-a  saida, collocar-se
francamente no seu caminho, sollicitar-lhe audazmente os olhos e
atteno. A familia desceu da 2a ordem pela escada do lado de S.
Francisco; a estreiteza do logar era excellente. Dava o brao 
baroneza um moo de vinte e cinco annos, figura elegante, ainda que um
tanto affectada. Desceram todos tres e ficaram  espera do carro alguns
minutos. Na meia sombra que alli havia destacava-se o rosto marmoreo
de Guiomar e a gentileza de seu talhe. Seus grandes olhos vagavam pela
multido, mas no fitavam ninguem. Ella possuia, como nenhuma outra, a
arte de gozar, sem as ver, as homenagens da admirao publica.

Irritado com a indifferena da moa, vagou Estevo toda aquella noite,
a ss com o seu despeito e o seu amor, tecendo e destecendo mil planos,
todos mais absurdos uns que outros. A taa enchera de todo; era mister
entornal-a no seio de um amigo, de um amigo que houvesse nas suas mos
o unico remedio que elle nessa occasio pedia;--a chave daquella porta.
Luiz Alves era esse homem.

--Outra vez caido! exclamou elle rindo quando Estevo lhe contou tudo.
Eu j o havia percebido. Isto de mulheres... Queres ento que te leve
l?

--Quero.

Luiz Alves reflectiu alguns intantes.

--E uma viagem, no te seria bom fazer uma viagem? J sei o que me vs
dizer; mas tambem no te proponho uma viagem de recreio,  Europa.
Olha, arranjo-te, se queres, um logar de juiz municipal...

A proposta era sincera; Estevo cuidou ver-lhe uma ponta de zombaria
e ergueu os hombros com enfado. A proposta, entretanto, merecia ser
examinada; era uma carreira, e vinha de um homem que estava a entrar na
vida politica, que esperava dahi a algumas semanas o resultado de uma
eleio, com a certeza, ou quasi, de haver triumphado. Era influencia
que nascia, e de fora viria a crescer. Mas para Estevo, naquella
occasio, toda a carreira publica, influencia, futuro, leis, tudo
estava nos olhos castanhos de Guiomar.

--Eu amo-a, disse elle emfim, isto para mim  tudo. Pde bem ser
que tenhas razo; talvez me espere algum grande desgosto; mas so
reflexes, e eu no reflicto agora, eu sinto...

--Em todo o caso, acudiu Luiz Alves, desempenho o meu dever de amigo;
digo-te que vocs no nasceram um para outro; que, se ella te no amou
naquelle tempo, muito menos te amar hoje, e que emfim...

Luiz Alves estacou.

--Emfim? perguntou Estevo.

--Emfim pedes-me um sacrificio, concluiu rindo o advogado, por que
tambm eu j a namorisquei... No  preciso carregares o sobr'olho; foi
namoro de visinho, tentativa que durou pouco mais de vinte e quatro
horas. Com vergonha o digo, ella no me prestou uma migalha de atteno
sequer, e eu voltei aos meus autos.

--Ento... gostas della? perguntou Estevo.

--Acho-a bonita e nada mais. Aquillo foi um lanar barro  parede; se
acceitasse, casava-me; no acceitou...

--J vs que somos differentes.

--Queres, ento?...

--Um servio de amigo.

--Bem, disse por fim Luiz Alves, faa-se a tua vontade. A baroneza vai
cuidar agora de um processo e mandou-me falar. Eu passo-te a prebenda;
entrars alli, como advogado, o que de alguma maneira me tira um peso
da conscincia.

Estevo, que s pedia um pretexto, acceitou a offerta com ambas as
mos, e agradeceu-lh'a com to expansiva ternura, que fez sorrir o
outro.

A promessa cumpriu-se pontualmente. Luiz Alves apresentou Estevo
 baroneza, na seguinte noite, como seu companheiro e amigo, como
advogado capaz de zelar os interesses da illustre cliente. A recepo,
foi geralmente boa, salvo por parte de Guiomar, que pareceu aborrecida
de o ver naquella casa. Quando Estevo a saudou, como quem a conhecia
de longo tempo, ella mal pode retribuir-lhe o cumprimento; em todo o
resto da noite no lhe deu palavra. Daquella parte o acolhimento no
podia ser peior; mas Estevo sentia-se feliz, desde que vel-a, respirar
o mesmo ar, nada mais pedindo por ora, e deixando o resto  fortuna.

De todas as pessoas de casa da baroneza, a primeira que reparou na
indifferena com que Guiomar tratra Estevo, foi Mrs. Oswald. A sagaz
ingleza afivellou a mascara mais impassivel que trouxera das ilhas
britannicas e no os perdeu de vista. Nem da primeira nem da segunda
vez viu nada mais que os olhos delle, que sollicitavam os della, e
os della que pareciam surdos. Havia de certo uma paixo, solitaria e
desattendida.

--Sabe que descobri um namorado seu? perguntou ella alguns dias depois
a Guiomar.

Guiomar fez um gesto de estranheza.

--Entendamo-nos, observou a ingleza; no digo que a senhora o namore
tambm; digo que  elle quem anda apaixonado. No adivinha?

--Talvez.

--O Dr. Estevo.

Guiomar fez um gesto de desdem.

--Vejo que tinha adivinhado, disse Mrs. Oswald; tambm no era
difficil. Quem tem alguma pratica destas cousas fareja uma paixo a
cem legoas de distancia, por mais que ella busque recatar-se dos olhos
estranhos. Os namorados geralmente suppem que ninguem os v;  uma
lastima. Olhe, da senhora posso eu jurar que no est namorada de
pessoa nenhuma.

--Que sabe disso? perguntou Guiomar deitando os olhos para o espelho de
seu guarda vestidos. Pois estou, mas de mim mesma.

Mrs. Oswald desatou a rir, de um riso grave e pausado. Ella sabia que
a moa tinha orgulho de suas graas; era bom caminho affagar-lhe o
sentimento. Disse-lhe muita cousa bonita, que no vem para aqui, e
concluiu pondo-lhe as mos nos hombros, encarando-a fito a fito, a
emfim rompendo nestas palavras, meias suspiradas:

--A senhora  a flor desta sua terra. Quem a colher? Alguem sei eu que
a merece...

Guiomar ficou sria, e desviou brandamente as mos da ingleza,
murmurando:

--Mrs. Oswald, falemos de outra cousa.




VII


Um rival.


No era a primeira vez que Mrs. Oswald alludia a alguma cousa que
desagradava a Guiomar, nem a primeira que esta lhe respondia com a
sequido que e leitor viu no fim do capitulo anterior. A boa ingleza
ficou sria e calada alguns dous ou tres minutos, a olhar para Guiomar,
apparentemente buscando interrogar-lhe o pensamento, mas na realidade
sem saber como sair de situao. A moa rompeu o silencio:

--Est bom, disse ella sorrindo, no vejo razao para que se zangue
commigo.

--No estou zangada, acudiu promptamente Mrs. Oswald. Zangada porque?
Pza-me, de certo, que a natureza me no d razo, e que uma alliana
to conveniente, para ambos, seja repellida pela senhora; mas se isto 
motivo de desgosto, no pode sel-o de zanga....

--Desgosto?

--Para mim.... e naturalmente para elle.

Guiomar respondeu com um simples sacudir de hombros, scco e rpido,
como quem se lhe no dava do mal ou no acreditava nelle. Mrs. Oswald
no atinou qual destas impresses seria, e concluiu que fossem ambas. A
moa, entretanto, pareceu arrepender-se daquelle movimento; travou das
mos da ingleza, e com uma voz ainda mais doce e macia que de costume,
lhe disse:

--Veja o que  ser creana! No parece que ainda em cima me zango com a
senhora?

--Parece.

--Pois no  exacto. Isto so caprichos de menina mal educada. Dei para
no gostar que me adorem... Minto; disso gsto eu; mas quizera que me
adorassem somente, no lhe parece?

E Guiomar acompanhou estas palavras com uma risadinha mimosa e uns
gestos de creana travssa, que destoavam inteiramente da sua gravidade
habitual.

--J sei, gosta de uma adorao como a do Dr. Estevo, silenciosa e
resignada, uma adorao..

E Mrs. Oswald, que, como boa protestante que era, tinha a Escriptura na
ponta dos dedos, continuou por este modo, accentuando as palavras:

Uma adorao como a que devia inspirar Jos, filho de Jacob, que era
bello como a senhora: por elle as moas andavam por cima da cerca...

--Da cerca? perguntou Guiomar tornando-se sria.

--Do muro, diz a Escriptura, mas eu digo da cerca porque... nem eu sei
porque. No core! Olhe que se denuncia.

Guiomar corra deveras; mas era a altivez e o pundonor offendido que
lhe falavam no rosto. Olhou fria e longamente para a ingleza, com um
desses olhares, que so, por assim dizer, um gesto da alma indignada.
O que a irritava no era a alluso, que no valia muito, era a pessoa
que a fazia,--inferior e mercenaria. Mrs. Oswald percebeu isto mesmo;
mordeu a ponta do labio, mas transigiu com a moa.

--Meu Deus! disse ella. Parece que se zangou por uma bricadeira  toa.
Bem sabe que eu no podia querer aggraval-a; suppol-o  offender-me a
mim,--a mim, que tambm lhe tenho affecto de me....

A ultima palavra aquietou, o animo de Guiomar; ella tinha cedido ao
impulso do seu caracter altivo, mas a razo veiu depois, e o corao
tambem, que no era mau. A ingleza, que possua longa pratica da vida
e sabia ceder a tempo, uniu o gesto  palavra e chamou-a com os braos
para si. Guiomar deixou-se ir, um pouco de m vontade, e a conversa
teria acabado alli, se Mrs. Oswald no lhe dissesse com a mais doce voz
que daquella garganta podia sair:

--Convena-se de que eu sou importuna e indiscreta por affeio, e
que a felicidade desta familia  toda a ambio da minha alma. No
pode haver inteno melhor do que esta. Um conselho ultimo,--ultimo se
me no consentir mais falar-lhe nisto;--eu creio que a senhora sonha
talvez de mais. Sonhar uns amores de romance, quasi mpossiveis?
digo-lhe que faz mal, que  melhor, muito melhor contentar-se com a
realidade; se ella no  brilhante como os sonhos, tem pelo menos a
vantagem de existir.

Guiomar cravara desta vez os olhos no cho, com a expresso vaga
e morta de quem os apagou para as cousas externas. As palavras de
Mrs. Oswald responder-lhe-hiam acaso a alguma voz intima? A ingleza
proseguiu na mesma ordem de ideias, sem que ella a interrompesse ou
desse signal de si. Quando ella acabou, Guiomar estremeceu, como se
acordasse; levantou a cabea, e lenta, e commovida, proferiu esta unica
resposta:

--Talvez tenha razo, Mrs. Oswald, mas em todo o caso os sonhos so to
bons!

Mrs. Oswald abanou a cabea e saiu; Guiomar acompanhou-a com os olhos,
a sorrir, satisfeita de si mesma, e a murmurar to baixo que mal a
ouvia o seu proprio corao:

--Sonhos, no, realidade pura.

Supponho, que o leitor estar curioso de saber quem era o feliz ou
infeliz mortal, de quem as duas trataram no dialogo que precede, se
 que j no suspeitou que esse era nem mais nem menos o sobrinho da
baroneza,--aquelle moo que apenas de passagem lhe apontei nas escadas
do Gymnasio.

Era um rapaz de vinte e cinco a vinte e seis annos. Jorge chamava-se
elle; no era feio, mas a arte estragava um pouco a obra da natureza.
O muito mimo empece a planta, disse o poeta, e esta maxima no  s
applicavel  poesia, mas tambem ao homem. Jorge tinha um lindo bigode
castanho, untado e retesado com excessivo esmero. Os olhos, claros e
vivos, seriam mais bellos, se elle no os movesse com affectao, s
vezes feminina. O mesmo direi dos modos, que seriam faceis e naturaes,
se os no tornasse to alinhados e medidos. As palavras saam-lhe
lentas e contadas, como a fazer sentir toda a munificencia do autor.
No as proferia como as demais pessoas; cada syllaba era por assim
dizer espremida, sendo facil ver ao cabo de alguns minutos, que elle
fazia consistir toda a belleza da elocuo nesse alongar do vocabulo.
As ideias oravam pelo modo de as exprimir; eram chochas por dentro,
mas traziam uma codea de gravidade pesadona, que dava vontade de ir
espairecer o ouvido em cousas leves e folgazs.

Taes eram os defeitos apparentes de Jorge. Outros havia, e desses, o
maior era um peccado mortal, o setimo. O nome que lhe deixara o pae, e
a influencia da tia podiam servir-lhe nas mos para fazer carreira em
alguma cousa publica; elle, porm, preferia vegetar  toa, vivendo do
peculio que dos paes herdra e das esperanas que tinha na affeio de
baroneza. No se lhe conhecia outra occupao.

No obstante os defeitos apontados, havia nelle qualidades boas: sabia
dedicar-se, era generoso, incapaz de malfazer, e tinha sincero amor 
velha parenta. A baroneza, pela sua parte, queria-lhe muito. Guiomar e
elle eram as suas duas affeies principaes, quasi exclusivas.

Tal era a pessoa cujos interesses defendia Mrs. Oswald, por amor da
baroneza, e no menos de si propria. A baroneza tambem tinha os seus
sonhos, como ella mesma disse, e esses eram deixar felizes aquellas
duas crianas. Jorge pela sua parte estava dispto a estender o collo
ao sacrificio; e, bem examinadas as cousas, talvez amasse sinceramente
a moa. A differena entre elle e Estevo  que o seu amor era to
medido como os seus gestos, e to superficial como as suas outras
impresses.

Do que ahi fica dito, facilmente comprehender o leitor que, dos dous
namorados, s um percebeu logo o sentimento do outro. A alma de Estevo
andava-lhe nos olhos, enchendo-os de maneira que elle no podia ver
nada mais alm de Guiomar.

Ao cabo de duas semanas a situao de Estevo podia dzer-se menos
m; na opinio delle era excellente. A baroneza soube quem elle era;
Guiomar contara-lhe tudo; mas a ingleza, no menos que a observao
propria, lhe mostrou que nenhum perigo corria Guiomar, e excluido o
perigo, restavam as boas qualidades do bacharel, que de todo lhe caiu
em graa. Mrs. Oswald navegou nas mesmas aguas mansas. O proprio Jorge,
naturalmente por que confiava em si, no temeu do rival, e pouco tardou
que lhe abrisse os cancellos da sua gravidade. Que admira, pois, que a
mesma Guiomar afrouxasse um pouco da primeira rigidez?

Aquelle bom rapaz tinha a salutar crendice da esperana, em que muita
vez se resumem todas as benos da vida. Pedia muito, como alma
sequiosa que era, mas bem pouco bastava a contental-o. A imaginao
multiplicava os zeros; com um gro de areia construiria um mundo. A
affabilidade de uns e a cortezia de outros, tanto bastou para que
elle se julgasse quasi no termo de suas aspiraes; e posto no lhe
dsse Guiomar uma s das animaes de outro tempo,--que alis to
frageis eram, ainda assim acreditou elle piamente que o amor nascia, ou
renascia, naquelle rebelde corao.

Guiomar, no meio das affeies que a cercavam, sabia manter-se superior
s esperanas de uns e s suspeitas de outros. Egualmente cortez, mas
egualmente impassvel para todos, movia os olhos com a serenidade
da iseno, no namorados, nem sequer namoradores. Ella teria, se
quizesse, a arte de Armida; saberia refrear ou aguilhoar os coraes,
conforme elles fossem impacientes ou tibios; faltava-lhe porm o
gosto,--ou melhor, sobrava-lhe o sentimento do que ella achava que era
a sua dignidade pessoal.




VIII


Golpe.


Um dia de manh accordou Estevo com a resoluo feita de dar o golpe
decisivo. Os coraes frouxos tem destas energias subitas, e  proprio
da pusilanimidade illudir-se a si mesma. Elle confessava que nada havia
feito, e que a situao exigia alguma cousa mais.

--Nunca as circumstancias foram mais propicias do que hoje, pensava
o rapaz; Guiomar trata me com affabilidade de bom agouro. Demais, ha
nella espirito elevado; ha de reconhecer que um sentimento discreto e
respeitoso, como este meu, vale um pouco mais do que lisonjarias de
sala.

A resoluo estava essentada; restava o meio de a tornar affectiva.
Estevo hesitou largo tempo entre dizer de viva voz o que sentia ou
transmittil-o por via do papel. Qualquer dos modos tinha para elle mais
perigos que vantagens. Elle receiava ser frio na declarao escripta ou
incompleto na confisso oral. Irresoluto e vacillante, ambos os meios
adoptou e repelliu, a curtos intervallos; emfim, deferiu a escolha para
outra occasio.

O acaso suppriu a resoluo, e o premeditado cedeu o passo ao fortuito.

Uma tarde, havendo algumas pessoas a jantar em casa da baroneza, foram
passear  chacara. Estevo que, como Luiz Alves, era dos convivas,
affastou-se gradualmente dos outros grupos, e approximou-se daquella
cerca historica onde, aps dous annos de ausencia e esquecimento, vira,
ja transformada, a formosa Guiomar. Era a primeira vez que elle punha
os olhos nesse sitio, depois da conversa, que ahi tivera com ella. A
commoo que sentiu foi naturalmente grande; resurgia-lhe o quadro ante
os olhos, a hora, o ceu brilhante, o doce alento da manh, e por fim a
figura da moa, que alli appareceu, como a alma do quadro, trazendo-lhe
recordaes, que elle julgava mortas, esperanas que suppunha
impossiveis.

Estevo curvou a cabea ao doce peso daquellas memorias, a alma bebeu,
a largos haustos, a vida toda que a imaginao lhe creava e talvez a
noite o tomasse na mesma attitude, se a voz maviosa de Guiomar, lhe no
dissesse a poucos passos de distancia:

--Sr. doutor, perdeu alguma cousa?

O rapaz volveu rapidamente a cabea, e viu a moa, que atravessava
uma das calhes proximas, a olhar e a sorrir para elle. Estevo sorriu
tambem, e com uma presena de espirito assaz rara em namorados,
sobretudo em namorados como elle era, promptamente respondeu:

--No perdi nada, mas achei uma cousa.

--Vejamos o que foi.

E Guiomar approximou-se, a passo firme e seguro, e Estevo, sem muito
vacillar, alli mesmo forjou uma reflexo philosophica a respeito de
um insecto que casualmente passava por cima de uma folha secca. A
reflexo no valia muito, e tinha o defeito de vir um pouco forada e
de acarreto; a moa sorriu, entretanto, e ia continuar o seu caminho,
quando elle, colhendo as foras todas, a fez deter com estas palavras:

--E se eu tivesse achado outra cousa?

--Ainda mais! exclamou ella voltando-se risonha.

Estevo deu dous passos para Guiomar, desta vez commovido e resoluto. A
moa fez-se seria e dispoz-se a ouvil-o.

--Se eu tivesse achado neste logar, continuou elle, longos dias de
esperana e de saudade, um passado que eu julgra no reviver mais, uma
dor occulta e medrosa, vivida na solido, nutrida e consolada de minhas
prprias lagrimas? Se eu tivesse achado aqui a pagina rota de uma
historia comeada e interrompida, no por culpa de ninguem na terra,
mas da estrella sinistra da minha vida, que um anjo mau accendeu no
ceu, e que, talvez, talvez ninguem nunca apagar?

Estevo calou-se e ficou a olhar fixamente para Guiomar.

Aquella declarao repentina e rosto a rosto estava to longe do
temperamento do rapaz, que ella gastou alguns segundos longos primeiro
que voltasse a si do assombro. Elle proprio admirava-se do atrevimento
que tivera; e emquanto pendia dos labios da moca, repassava na memoria,
alis confusamente, o que to a frouxo lhe saira do peito naquella hora
de abenoada temeridade.

--Se tivesse achado tudo isso, respondeu Guiomar sorrindo,  natural
que preferisse achar outra cousa menos melancolica. Entretanto,
parece que nada mais achou do que esta occasio de falar, com a viva
imaginao que Deus lhe deu; n'um ou n'outro caso, porm, posso de
certo lastimal-o ou admiral-o, mas no me  dado ouvil-o.

E Guiomar ia de novo affastar-se, quando Estevo, receiando perder a
occasio que a fortuna lhe offerecia, disse de longe com voz triste e
supplice:

--Attenda-me um s munito!

--No um, mas dez--respondeu a moa estacando o passo e voltando o
rosto para elle--e sero provavelmente os ultimos em que falaremos
a ss. Cedo  commiserao que me inspira o seu estado; e pois que
rompeu o longo e expressivo silencio em que se tem conservado at hoje,
concedo-lhe que diga tudo, para me ouvir uma s palavra.

A moa falra n'um tom secco e imperioso, em que mais dominava a
impaciencia do que a commiserao a que vinha de alludir. O corao de
Estevo batia-lhe como nunca,--como o corao costuma bater nas crises
de uma angustia suprema. Todo aquelle castello de vento, laboriosamente
construido nos seus dias de illuso, todo elle se esboroava e desfazia,
como vento que era. Estevo arrependera-se do impulso que o levra a
violar ainda uma vez o segredo dos seus sentimentos intimos, a abrir
mo de tantas esperanas, alimentadas com o melhor do seu sangue
juvenil.

Alguns instantes decorreram em que nem um nem outro falou; ambos
pareciam medir-se, ella serena e quieta, elle tremulo e gelado.

--Uma s palavra, repetiu Estevo, e essa adivinho que ser de
desengano. Embora! Pois que me atrevi a dizer-lhe alguma cousa, fora
 que lhe diga tudo,--feliz, se me restar, ao menos, a maior fortuna a
que j agora posso aspirar,--o seu remorso.

Guiomar ouvira-o tranquillamente; a ultima palavra fel-a estremecer.
Sorriu, entretanto, de um sorriso um pouco voluntario e esperou.

A narrao foi longa, tanto quanto o permittiam a occasio, o logar
e a pessoa; durou apenas dez minutos. Estevo nada lhe escondeu, nem
o amor que lhe tivera out'rora, nem o que agora lhe renascia, mais
violento que o primeiro; disse-lhe as dores que curtira, as esperanas
que afinal lhe enfloravam a alma, tudo quanto emprehendra para ler a
ventura de a contemplar de perto, de gozar naquelle escasso ponto da
terra a maior de todas as bem aventuranas.

Tal  a transcripo, no litteral, mas fiel, do que disse Estevo
durante esse dez minutos. As palavras caam-lhe tremulas e a voz
saa-lhe sumida, em parte por que elle forcejava em a abafar, afim
de que o no ouvissem, em parte porque a commoo lhe comprimia a
garganta. A dor era visivelmente sincera; a eloquncia vinha do corao.

Guiomar no ouvira tudo com a mesma expresso; a principio um meio riso
parecia desabrochar-lhe os labios, mas no tardou que pelo rosto abaixo
lhe casse um veu mais compassivo e humano. Havia nella impaciencia e
anciedade de acabar, de sair dalli; era, sem duvida, o receio de que a
ausncia se prolongasse de maneira que inspirasse suspeitas. Mas havia
tambm commiserao e piedade.

--Nenhuma culpa lhe pode caber do mal que tenho padecido, disse Estevo
concluindo; sobretudo agora, s eu, s a minha cabea  a causa unica
de tudo. Parecia-me ver o contrario do que existia; cheguei a suppor
que havia em seu corao alguma cousa que no era a total indifferena;
vejo que foi tudo illuso.

O tom em que elle falra era o mesmo das palavras que ahi ficam, todas
humildes e resignadas, sem o menor laivo de queixa ou de reproche. Uma
submisso assim devia por fora commover a uma mulher amada. Guiomar
falou-lhe sem azedume:

--Era illuso, disse ella. O sentimento que me acaba de revellar
inteiro, ninguem o recebe ou nutre de vontade; a natureza o infunde ou
nega. Posso eu ter culpa disso?

--Nenhuma.

--Nem o senhor tambem, e espero que esta mutua justia avigore o
sentimento de estima devemos ter um para com o outro. Mas estima
apenas, no pde haver outra cousa,--da minha parte ao menos.  pouco,
de certo...

--No  pouco,  cousa differente, interrompeu Estevo.

--Mas no espere nada mais, concluiu Guiomar sem ouvir a interrupo.

Estevo abriu a bocca para falar, mas no achou palavra que lhe
dissesse o que sentia; levou a mo ao corao, que batia fortemente, e
ficou a olhar para ella com os olhos seccos e parados, a voz extincta,
como se a alma lhe fugira toda. Era claro, depois daquelle desengano,
que lhe cumpria no voltar alli mais, pelo menos com a assiduidade da
esperana; e assim era que a unica e amarga satisfao de a ver, nem
essa j agora se lhe consentia.

--Dou-lhe um conselho, disse Guiomar depois de alguns segundos de
pausa, seja homem, vena-se a si proprio; seu grande defeito  ter
ficado com a alma creana.

--Talvez, respondeu o moo suspirando.

--E adeus. Falamos a ss, mais do que convinha; no sei se outra
consentiria nisto. Mas eu no s reconheo os seus sentimentos de
respeito, como desejo que estas poucas palavras trocadas agora ponham
termo a aspiraes impossiveis.

Guiomar estendeu-lhe a mo, em que elle tocou levemente.

A baroneza appareceu, entretanto, a algumas braas de distancia; vinha
encostada ao brao do sobrinho, que lhe falava, mas a quem ella j no
ouvia. Tinha os olhos cravados nos dous interlocutores de ha pouco.
A moa apenas vira de longe a madrinha, deu affoutamente o brao a
Estevo, e seguiram ambos a encontrar-se com ella; o rosto de Guiomar
no revelava nada; o de Estevo vinha perturbado e abatido. A baroneza
franziu a testa:

--Jorge, disse ella em voz baixa, precisamos conversar.




IX


Conspirao.


A baroneza, quando se lhe approximaram os dous interlocutores da cerca,
mais receiosa ficou e mais perplexa. Guiomar vinha risonha e at
gracejadora; mas o abatimento de Estevo era to mal disfarado, que de
duas uma,--ou ella acabava de lhe dar o ultimo desengano,--ou aquillo
era apenas um arrufo serio, que o moo no podia ou no queria esconder
de olhos extranhos. Isto  o que a baroneza pensou. O que ella concluiu
foi que, em todo caso, urgia tentar alguma cousa em favor do maior,--do
unico senho da sua velhice.

Jorge no percebeu a verdadeira razo porque a tia lhe dissera ser
necessrio conversar com ella; imaginou que se trataria de Guiomar e
Estevo,--mas estava longe de suppor todo o alcance da entrevista.

A entrevista no pode ser logo nesse dia; as visitas ficaram alli
at tarde, e a noite foi a mais agradavel e distrahida de todas as
noites; Guiomar, sobretudo, esteve como nunca, jovial e interessante.
A serenidade parecia morar-lhe na alma e reflectir-se-lhe no
rosto,--tantas vezes pensativo, mas agora to frio e to n.

No ser preciso dizer a um leitor arguto e de boa vontade... Oh!
sobretudo de boa vontade, porque  mister havel-a, e muita, para vir
at aqui, e seguir at o fim, uma historia, como esta, em que o autor
mais se occupa de desenhar um ou dous caracteres, e de expor alguns
sentimentos humanos, que de outra qualquer cousa, por que outra cousa
no se animaria a fazer;--no ser preciso declarar ao leitor, dizia
eu, que toda aquella jovialidade de Guiomar eram punhaes que se lhe
cravavam no peito ao nosso Estevo. Elle no podia suppol-a abatida;
mas penalisada, ao menos, um pouco respeitosa para com a dor que havia
nelle, isto, sim, imaginava que sera. Mas nada disso foi, e o pobre
rapaz saiu dalli mais cedo do que pensra e quizera sair.

Na alcova, se elle podesse vel-a mais tarde na alcova, solitaria
e toda comsigo, sentada na poltrona rasa ao lado da cama, com os
cabellos desfeitos, os psinhos mettidos nas chinellas de setim preto,
as mos no regao e os olhos vagando de objecto em objecto, como se
reproduzissem fra as attitudes interiores do pensamento, alli no
s elle a adoraria de joelhos, mas at poderia suppor que alguma
preoccupao lhe tirava o somno e que essa era nem mais nem menos elle
proprio.

Talvez fosse; em parte ao menos seria elle. Guiomar no tinha um
corao to mau, que lhe no doessem as maguas de um homem que
acertara ou desacertara de a amar. Mas fosse uma, ou fossem muitas as
causas daquella preoccupao, a verdade  que ella durou muito tempo.
Guiomar passou da poltrona  janella, que abriu toda, para contemplar
a noite,--o luar que batia nas aguas, o ceu sereno e eterno. Eterno,
sim, eterno, leitora minha, que  a mais dasconsoladora lio que nos
poderia dar Deus, no meio das nossas agitaes, lutas, ancias, paixes
insaciveis, dores de um dia, gozos de um instante, que se acabam e
passam comnosco, debaixo daquella azul eternidade, impassivel e muda
como a morte.

Pensaria nisto Guiomar? No, no pensou nisto um minuto sequer; ella
era toda da vida e do mundo, desabrochava agora o corao, vivia
em plena aurora. Que lhe importava,--ou quem lhe chegara a fazer
comprehender esta philosophia secca e arida? Ella vivia do presente
e do futuro e,--tamanho era o seu futuro, quero dizer as ambies
que lh'o enchiam,--tamanho, que bastava a occupar-lhe o pensamento,
ainda que o presente nada mais lhe dera. Do passado nada queria saber;
provavelmente havia-o esquecido.

A madrugada achou-a dormindo; mas os primeiros raios do sol vieram
accordal-a, na frma do costume, para o matinal passeio com a madrinha.
Guiomar sacrificava tudo  dedicao filial de que ja dera tantas
provas. A baroneza, entretanto, estava preoccupada; o passeio foi
differente do dos outros dias.

Ao meio-dia metteu-se Guiomar no carro, com Mrs. Oswald, e sairam a
uma visita. A baroneza ficou s; Jorge no a deixou ficar s por muito
tempo, porque chegou dahi a pouco.

A baroneza no perdeu tempo em circunloquios. Apenas viu o sobrinho
interpellou-o directamente:

--Disseram-me, foi Mrs. Oswald quem me disse que tu gostas de Guiomar.

Jorge no contava muito com semelhante interrogao; todavia, no era
to ingenuo que corasse, nem to apaixonado que lhe tremesse a voz.
Puchou gravemente os punhos da camisa, concertou a gravata, e respondeu
singellamente:

--No me atrevia a falar-lhe destas cousas...

--Porque no?--interrompeu a baroneza; so assumptos que se podem
tratar entre mim e ti, sem desar para nemhum de ns.  ento verdade o
que me disse Mrs. Oswald?

--.

--Amas deveras, ou...

--Deveras. Recuaria, se visse que uma alliana entre ns ficava mal ao
lustre de nossa familia; mas, posto que ella seja...

--Guiomar  minha filha, apressou-se a dizer a baroneza.

--Justamente; no pode haver melhor titulo.

--Tem ainda outro, continuou a baroneza;  uma alma anglica e pura.
Henriqueta no teve melhor corao nem mais amor aos seus. Alm disso,
a natureza deu-lhe um espirito superior, de maneira que a fortuna no
fez mais do que emendar o equivoco do nascimento. Finalmente  de uma
belleza pouco commum...

--Rara, titia, pde dizer que  de uma belleza rara, acudiu Jorge,
e pela primeira vez lhe luziu nos olhos alguma cousa, que no era a
gravidade de costume.

--J vs, proseguiu a baroneza, que ella possue todos os direitos ao
amor e  mo de um homem, como tu.

A baroneza tinha um corao ingenuo e lizo, sem desvios nem astucias;
comtudo, ha occasies em que o mais recto espirito emprega, como por
instincto, finuras diplomaticas. A boa senhora tinha tanto a peito
aquella unio do sobrinho com a afilhada, que no confiava s do amor;
procurava interessar-lhe tambem o amor proprio.

Jorge curvou-se com affectada modestia.

--Um homem, como eu,--disse elle--vale pouco por si mesmo; o valor que
tenho, e esse  muito, vem do nome de meus pais e do seu, titia, e das
santas qualidades que a adornam...

--S uma, Jorge, s uma qualidade santissima:  a de amal-os, a ti e
a ella. Por isso foi immenso o gsto que senti quando Mrs. Oswald me
disse que gostavas de Guiomar. Acredita que se eu tivesse a fortuna de
ver a vocs unidos e felizes, morreria contente.

--Oh! isso! disse Jorge com ar de duvida.

--Julgas impossivel o casamento?

--Impossivel, no; impossivel, nada ha. Mas... mas supponho que a
vontade della  indispensavel, to indispensavel como duvidosa.

--Duvidosa! Ests certo disso?

Jorge tinha-se levantado e dera alguns passos, no agitado de todo,
mas um pouco fra da impassibilidade usual. A ideia do casamento
apparecia-lhe agora um pouco mais possivel e exequivel, desde que a tia
francamente lhe propuzesse alliana.

--Ests certo disso? repetiu a baroneza.

--Certo no; mas ha toda a razo para a duvida. Guiomar sabe que eu
gsto della; e comtudo no me d o menor signal de corresponder aos
meus sentimentos.

Jorge expos longamente todas as razes que tinha para crer que a
vontade de Guiomar no correspondia  delle; referiu-lhe, com a maior
exaco e fidelidade, uns tres on quatro episodios que lhe pareciam boa
prova daquillo que dizia. A baroneza no ouvia tudo com egual atteno.
Quando elle acabou:

--Guiomar ser muito vexada,--disse ella--e s vezes, e por isso mesmo,
tem essas apparencias frias. Nada impede, porm, a que venha a amar-te,
se  que ja te no ama. Ha nella certa altivez natural, que pde
explicar tambm essa frieza; parece-me que lhe seria penoso receber o
amor de alguem que julgasse levantal-a at si.

--Isso, talvez...

--Mas esse sentimento, que pde ser e  honroso, no  de certo
invencivel.

Todas estas palavras da baroneza lisonjeavam o sobrinho, em cujos
labios pairava agora um sorriso de ntima satisfao. De quando em
quando no ouvia elle nada do que lhe dizia a tia; seus ouvidos
voltavam-se para dentro; elle escutava-se a si proprio. O amor de
Guiomar comeava a parecer-lhe possivel; tudo quanto a baroneza lhe
dizia era razoavel, com a vantagem de lhe esclarecer as faces obscuras
da situao. Demais, at que ponto a baroneza conjecturava ou revelava?
Bem podia ser que ella tivesse lido mais fundo no corao da moa.

Estas reflexes fel-as Jorge, em quanto a baroneza continuava a falar e
a desenvolver a ideia que ultimamente indicara. At aquelle dia havia
elle limitado toda a sua aco a alguns olhares, e raras palavras de
comprimento; a entrevista com a tia dera-lhe animao; pareceu-lhe
chegado o ensejo de sair daquella paz armada.

Guiomar chegou d'ahi a pouco e achou-os na saleta de trabalho,
euphemismo elegante, que queria dizer litteralmente--saleta de
conversao entremeada de _crochet._ Mrs. Oswald vinha com ella; ambas
riam alegremente de no sei que episodio visto no caminho. Jorge
erguera-se, pausado mas risonho, apertou a mo de Guiomar,--apertou-a
deveras, mais do que era usual e cortez. Guiomar no pareceu
afligir-se; perguntou-lhe pela saude, transmittiu  madrinha as
lembranas que lhe mandavam e dispoz-se a sair.

Durante esse tempo, Jorge olhava para ella, enlevado deveras na
contemplao de toda aquella nobre figura, agora mais bella que
d'antes, desde que se lhe tornara possivel a alliana ha muito sonhada.
Havia nos olhos de Jorge uns taes ou quaes vestigios lubricos, donde
se podia colher que, se elle fosse poeta, e poeta arcadico, editaria
pela millionesima vez a comparao da Venus e dos seus seus infalliveis
amorinhos; comparao detestavel, sobretudo, porque a casta belleza de
moa, se alguma cousa pag lhe podia ser chamada, seria antes Diana
convertida ao Evangelho.

Jorge saiu dalli singularmente agitado; a conversa da baroneza dera-lhe
nervo e resoluo, e o quadro do casamento comeou a desenhar-se-lhe no
espirito, como o relogio que o menino tem de usar pela primeira vez.
At alli deixara-se elle ir  feio das aguas; agora via a necessidade
e a possibilidade de abicar  riba feliz do matrimonio.

As duvidas de Estevo no lhe saltearam o espirito; apenas chegou a
casa travou da penna, e lanou na folha branca e lustrosa de seu papel
uma confisso elegante e polida, que todavia refundiu duas ou tres
vezes, primeiro que a dsse por prompta. Acabada a redaco final,
transcreveu aquella prosa do corao na mais nitida folha que havia em
casa,--dobrou o metteu-o na algibeira.

De noite foi  casa da tia. Achou as senhoras  volta de uma meza;
Guiomar lia, para a madrinha ouvir, um romance francez, recentemente
publicado em Paris e trazido pelo ultimo paquete. Mrs. Oswald lia
tambem, mas para si, um grosso volume de Sir Walter Scott, edio
Constable, de Edimburgo.

Jorge veiu interrompel-as um pouco, mas s interromper, porque a
leitura continuou logo depois, ajudando elle proprio a Guiomar naquella
filial tarefa. Veiu o ch, veiu depois a hora de recolher, e a baroneza
deu por findo o sero, ainda que o livro estava quasi findo.

--Um capitulo mais, aventurou Jorge com o livro aberto nas mos.

A baroneza sorriu e voltou os olhos para Guiomar, a cuja conta lanou
aquella dedicao do sobrinho; recusou comtudo, por estar a cair de
somno.

--Eu  que no me deito sem saber o resto, declarou Guiomar; levo o
livro commigo.

--Ah! disse Jorge com um gesto de satisfao.

E emquanto Guiomar se dispunha a acompanhar a madrinha at  porta do
quarto, e Mrs. Oswald marcava a pagina e fechava o seu livro, Jorge
egualmente fechava o outro, mas com tal demora e cuidado, que deu muito
que entender  ingleza. Se ella chegou entender, vel-o-hemos depois;
o certo  que o livro foi emfim entregue a Guiomar, tendo a pagina
marcada, no com a fita que l estava pendente, mas com um pedacinho de
papel.

O pedacinho de papel era a carta; apenas uns poucos centmetros de
altura; mas por mais exiguas que tivesse as dimenses, bem podia ser
que levasse alli dentro nada menos que uma tempestade prxima.




X


A revelao.


Meia hora depois, indo a abrir o livro para continuar a leitura, viu
Guiomar a cartinha de Jorge. No tinha sobrecarta; era um simples
papelinho dobrado, rescendendo a amores. O espirito de Guiomar estava
to longe d'aquillo que no suspeitou nada e distrahidamente o abriu. A
primeira palavra escripta era o seu nome; a ultima era o de Jorge.

O primeiro gesto de Guiomar foi de colera. Se elle pudesse espreita-la
pelo buraco da fechadura, e ver-lhe a expresso do rosto,  mui
provavel que se lhe convertesse em aborrecimento todo o amor que at
agora nutria. Mas elle no estava alli, a moa podia traduzir fielmente
no rosto os movimentos do corao.

--Mais um, pensou ella; este porm...

E desta vez o gesto no foi de colera, foi de alguma cousa mais, metade
fastio, metade lastima, mescla difficil e rara.

A moa ficou algum tempo quieta, a olhar para o papel, sem o querer
ler, como a hesitar entre queimal-o ou restitui-lo intacto a seu autor.
Mas a curiosidade venceu por fim; Guiomar abriu o papel e leu estas
linhas:

Guiomar! Perdoe-me se lhe chamo assim; as convenes sociaes
condemnam-me de certo, mas o corao approva, que digo? elle mesmo
escreve estas letras. No  a minha penna, no so os meus labios que
lhe falam deste modo, so todas as foras vivas da minha existencia,
que em alta voz proclamam o immenso e profundo amor que lhe tenho.

Antes de o ler neste papel, j a senhora o hade ter visto, pelo menos
adivinhado nos meus olhos, na doce embriaguez que em mim produz a
presena dos seus. Persuado-me de que todo o meu esforo em recalcar
este affecto  vo; por mais que eu sinceramente deseje esquecel-a,
no o alcanarei nunca; no alcanarei mais que uma afflio nova. O
remorso de o tentar vir coroar os demais infortunios.

Porque razo rompo hoje o silencio em que me tenho conservado, medroso
e respeitoso silencio que, se me no abre a caminho da gloria, ao menos
conserva-me a palma da esperana? Nem eu mesmo saberia responder-lhe;
falo, porque uma fora interior me manda falar, como trasborda o rio,
como se derrama a luz; falo porque morreria talvez se me calasse, do
mesmo modo que morrerei de desespero, se alm do perdo que lhe peo,
ma no der uma esperana mais segura do que esta, que me faz viver e
consumir.--Jorge.

Guiomar leu esta carta duas vezes, uma leitura de curiosidade, outra
de analyse e reflexo, e ao cabo da segunda achava-se to fria como
antes da primeira. Olhou algum tempo para o papel e mentalmente para o
homem que o havia escripto; emfim, poz a carta de lado, abriu o livro e
continuou o romance.

Mas o espirito, que no ficara to indifferente como o corao, entrou
a fugir-lhe do romance para a vida com tal tenacidade que no houve
remedio seno irem os olhos atraz delle, e a moa de novo mergulhou nas
reflexes que lhe suggeria o caso da paixo de Jorge.

Paixo no era,--no o seria ao menos no sentido inteiro do vocabulo;
mas alguma cousa menos, ou parecida com ella, e ainda assim verdadeira,
via bem Guiomar que o poderia ser. At que ponto chegaria entretanto,
o seu adorador, se ella o desattendesse logo; e, dado o amor que a
baroneza tinha ao sobrinho, at que ponto a recusa iria magoal-a?
Guiomar varreu do espirito os receios que lhe nasciam de taes
interrogaes; mas sentiu-os primeiro, pezou-os antes de os arredar de
si, o que revelar ao leitor em que proporo estavam nella combinados
o sentimento e a razo, as tendencias da alma e os calculos da vida.

Excluido o receio, voltou-lhe o riso, aquelle riso interior, que  o
mais involuntario e cruel, e tambem o menos arriscado que a gente pde
dar s fatuidades humanas. No podia ser to despresivel assim o amor
de um homem, cuja ridiculez compensavam algumas qualidades boas, e que
emfim era tambem distincto, ainda que a sua distinco primasse antes
por um estylo rendilhado e complicado, que no  o melhor. Guiomar via
tudo isso, e por outro lado, no podia obstar que elle a amasse; nem
por isso achava menos temeraria aquella confisso.

A moa reflectia tambem na posio especial que tinha naquella casa
o sobrinho da baroneza; via-se obrigada  presena delle, e talvez
 luta, porque o pretendente no recuaria do primeiro golpe. No
havia taes receios da parte de Estevo; ella reconhecia que a paixo
deste era ardente e profunda, e por isso mais capaz de desatinos; mas
comparava as indoles dos dous homens, e se ambos lhe pareciam de fraca
compleixo moral, nem por isso desconhecia que ao bacharel faltava
certa presumpo que distinguia o outro, e com a qual teria talvez de
pelejar.

Quando ella fez esta comparao entre os dous homens, ficaram-lhe os
olhos um pouco mais molles e quebrados, obra de tres minutos apenas,
mas tres minutos que, se Estevo soubera delles, trocaria por elles
o resto de toda a vida. E comtudo, no era amor nem saudade; alguma
sympathia, sim, ainda que leve e sem consequencia; mas sobretudo era
pena de o no poder amar,--ou ainda melhor--era lastima de que tal
corao no fora casado a outro espirito.

Guiomar reflectiu ainda muito e muito, e no reflectiu s, devaneou
tambm, soltando o panno todo a essa veleira escuna da imaginao, em
que todos navegamos alguma vez na vida, quando nos cana a terra firme
e dura, e chama-nos o mar vasto e sem praias. A imaginao della porm
no era doentia, nem romantica, nem piegas, nem lhe dava para ir colher
flores em regies selvaticas ou adormecer  beira de lagos azues. Nada
disso era nem fazia; e por mais longe que velejasse levaria entranhadas
na alma as lembranas da terra.

Volveu emfim e olhos cairam-lhe na carta. A realidade presente no se
lhe podia mostrar de peor modo. Guiomar ergueu-se irritada, lanou mo
do papel e machucou-o febrilmente; ia talvez rasgal-o, quando ouviu
bater de manso  porta.

--Quem ? perguntou.

--Sou eu, respondeu a voz de Mrs. Oswald.

A moa foi abrir a porta; a ingleza entrou, trajada de dormir, e um
vivo espanto nos olhos, que pareceu tirar-lhe a voz durante alguns
segundos. Guiomar assustada perguntou:

--Que ? aconteceu alguma cousa a minha madrinha?

--Longe v o agouro! exclamou a ingleza. No lhe aconteceu nada; a
senhora baroneza dorme naturalmente a somno solto. Venho porque do meu
quarto pareceu-me ouvir rumor de passos aqui, e depois vi luz. Pensei
que tivesse algum incommodo. Mas, pelo que vejo, continuou a ingleza
deitando os olhos para a mezinha em que pousava o livro aberto,--pelo
que vejo ainda no acabou de ler o seu romance...

--No li ainda uma linha, depois que me recolhi, respondeu Guiomar
cravando os olhos no rosto da ingleza, como tomada de um pensamento
subito.

--Deveras!

--Li outra cousa, continuou a moa; li este papel.

Mrs. Oswald inclinou-se para ler tambm o papel, que alis adivinhou
qual fosse; Guiomar atirou-o sobre a mesa.

--No precisa, disse ella;  uma declarao amorosa.

--De quem? perguntou a ingleza abrindo uns olhos espantados e
obedientes.

--Leia o nome.

Mrs. Oswald leu a assignatura da carta, que a moa do novo lhe
apresentava.

--Naturalmente, continuou Guiomar, ha nisto obra sua...

--Minha! interrompeu a outra um pouco mais rispidamente do que
costumava falar.

Guiomar tinha ido sentar-se; o psinho impaciente batia no tapete, com
um movimento rapido e regular; cruzra os braos sobre o peito, fitando
a ingleza com uns olhos em que se podia ler a viva exacerbao do
espirito. Seguiu-se curto silencio; Mrs. Oswald puxou outra cadeira e
sentou-se perto da moa.

--Por que ha de ser injusta commigo? disse ella dando  voz um tom
mellifluo e supplicante; porque no ha de ver as cousas, como ellas
naturalmente so? O que ha nisto  uma coincidencia curiosa, mas nada
mais. Se lhe falei em semelhante cousa algumas vezes, foi porque eu
mesma percebi o amor que lhe tem o Sr. Jorge;  cousa que todos veem.
Imaginei que o casamento, neste caso, seria agradavel  Sra. baroneza a
quem sou grata. Posso ter feito mal...

--Muito mal, interrompeu Guiomar; so cousas de familia em que a
senhora nada tem que ver.

Guiomar levantou-se outra vez, deu alguns, passos, e voltou a
sentar-se. Com o movimento desprenderam-se-lhe os cabellos e cairam-lhe
sobre os hombros. Mrs. Oswald approximou-se della para os colher e
atar, mas a moa seccamente a repelliu:

--Deixe, deixe...

E ella mesma os recompoz com as suas mosinhas finas, e ficou depois
a olhar para o cho, a morder o labio, a respirar fortemente, como se
contivera a palavra que forcejava por sair impetuosa e colerica. Mrs.
Oswald no disse nada durante alguns minutos; esperou que passasse o
periodo agudo da irritao. Quando lhe pareceu que ella afrouxava,
rompeu emfim o silencio.

--Fiz mal, fiz no ha duvida, mas a inteno no podia ser melhor.
Talvez no me creia; paciencia! O que lhe peo,--nem lhe peo,--o que
eu acredito piamente  que no me hade attribuir algum interesse de
ordem...

Mrs. Oswald fez uma pausa para dar aberta ao protesto de Guiomar,
mas Guiomar no protestou, quero dizer no protestou de viva voz;
fez apenas um gesto negativo, bastante a satisfazer os melindres
da ingleza. A moa foi sincera; no attribuia realmente a nenhum
interesse vil,--pecuniario,--a aco de Mrs. Oswald. Nem por isso a
absolvia,--no s porque ella viria concorrer talvez para uma crise
penosa, mas tambm,--bom  notal-o outra vez,--porque a condio da
ingleza naquella casa era relativamente inferior.

A ingleza continuou a falar em defeza propria, a justificar miudamente
os bons sentimentos do corao, e a prometter que deixava por mo todo
aquelle negocio, a seu juizo, o melhor que a moa podia fazer.

--A experiencia da vida, concluiu ella, devia ter-me convencido de que
o melhor de todos os sentimentos  um egoismo quieto e calado.

Em quanto ella falava assim, Guiomar parecia volver a tranquilidade
habitual. A mudana foi,--no sbita,--mas um pouco mais rapida do
que devera ser, tratando-se de um espirito, como o della, em que as
impresses no eram superficiaes nem momentaneas. Havia at uns toques
de affabilidade no rosto e na voz, quando ella comeou, a falar, o que
revelaria talvez ser aquella mudana muito voluntaria e meditada.

--Est bom, Mrs. Oswald, o que passou, passou. Sinto que as cousas
chegassem a este ponto, e que elle se lembrasse de escrever semelhante
carta, confessando uma paixo que acredito sincera, mas a que o meu
corao no pde corresponder. Amores no se encommendam como vestidos:
sobretudo no se fingem, ou no se devem fingir nunca.

--Oh! decerto!

--Eu gosto delle, como parente que  de minha madrinha, e tambm por
que ella lhe tem affeio de me, como a mim; somos uma especie de
irmos, nada mais.

--Tem muita razo, assentiu Mrs. Oswald. A senhora pensa e fala como um
doutor. Que se lhe ha de fazer? Quem no ama no ama. Delle  que eu
tenho pena!

--Gosta muito de mim, no? perguntou Guiomar fitando os olhos na
ingleza.

--Oh! parece que sim! A senhora deve sabel-o tanto como eu; eu sei o
que tenho visto, e creio que  muito.

--Eu nunca vi nada, respondeu seccamente Guiomar.

A resposta de Mrs. Oswald foi um sorriso de incredulidade, que a outra
no viu ou no quiz ver. Houve uma pausa; Guiomar continuou nestes
termos:

--Mas seja como for, a minha resposta  negativa. Estou que elle no me
far a injuria de querer casar commigo, sem que eu o ame...

Guiomar parou, como a esperar, que a outra lhe dissesse alguma cousa.
Desta vez coube a Mrs. Oswald no responder nada, nem com a voz nem com
o gesto. A moa inclinou o corpo poz os braos sobre os joelhos, com os
dedos cruzados, e entre um riso amavel e um olhar affectuoso, continuou:

--A senhora podia, se acaso elle alguma vez lhe falou nisso ou vier a
falar-lhe, podia dissuadi-lo de taes ideias, dizendo-lhe simplesmente,
a verdade e dando-lhe conselhos, os conselhos que a senhora hade saber
dar, e que elle aceitar de certo, porque  um bom corao, um caracter
estimavel...

--Oh! excellente! um moo excellente!

E as duas ficaram a olhar uma para a outra, Guiomar a sorrir, mas de um
sorriso, que era uma contraco voluntaria dos musculos, e a ingleza a
fazer um rosto de piedade, e adorao, e pena, e muita cousa junta, que
a moa s comeou a comprehender, quando ella rompeu o silencio deste
modo:

--Estou a duvidar se devo dizer-lhe o resto.

--O resto? perguntou Guiomar admirada. Pois que ha mais?

A ingleza approximou a cadeira. Guiomar endireitou o busto e esperou
anciosa a revelao,--se revelao era,--que lhe ia fazer Mrs. Oswald.
Esta no falou logo; era razoavel hesitar um pouco, lutar comsigo
mesma, antes de dizer alguma cousa. Emfim, com um movimento de quem
ajunta as foras todas e as emprega em cousa superior  coragem usual:

--D. Guiomar, disse ella, pegando-lhe nas mos, ninguem pde exigir que
se case sem amar o noivo; seria na verdade uma affronta. Mas o que lhe
digo  que o amor que no existe por ora, pde vir mais tarde, e se
vier, e se viesse seria uma grande fortuna...

--Mas acabe, acabe, interrompeu a moa com impaciencia.

--Seria uma grande fortuna para a senhora, para elle, ouso dizer que
para mim, que os estimo e adoro, mas sobretudo para a Sra. baroneza.

--Como assim? disse Guiomar.

--Oh! para elle seria a maior fortuna da vida, porque  hoje o seu
mais entranhado e vivo desejo, o seu desejo verdadeiramente da alma. A
senhora...

--Est certa disso?

--Certissima.

--No creio, no vejo nada que...

--Creia, deve crer. Se me promette nada dizer desta nossa conversa, nem
fazer suspeitar por nenhum modo o que lhe estou contando...

--Fale.

--Pois bem,--continuou Mrs. Oswald abaixando a voz, como se alguem
podesse ouvil-a na solido daquella alcova, e no silencio, profundo
daquella casa, que toda dormia,--pois bem, eu lhe direi que por ella
mesma tive noticia deste seu desejo. Quando eu percebi a paixo do Sr.
Jorge, falei nisso a sua madrinha, gracejando na intimidade que ella
me permitte, e a senhora baroneza em vez de sorrir, como eu esperava
que fizesse, ficou algum tempo pensativa e sria, at que rompeu nestas
palavras: Oh! se Guiomar gostasse delle e viessem a casar-se, eu seria
completamente feliz. No tenho hoje outra ambio na terra. Ha de ser a
minha campanha.

--Minha madrinha disse isso? perguntou Guiomar.

--Tal qual. A resposta que lhe dei foi que o casamento no era
impossivel, e que nada mais natural do que virem a amar-se duas pessoas
a principio indifferentes. O amor nasce muita vez do costume.

Guiomar j mal ouvia o que lhe estava dizendo a ingleza; se ainda
olhava para ella, era com os olhos indecisos e empanados, de quem vae
toda absorvida em pensamentos intimos.

--Foi desde esse dia, continuou Mrs. Oswald, que me pareceu conveniente
falar-lhe algumas vezes nisso, sondar-lhe o corao, ver se elle
favorecia o sonho de sua madrinha, tornando feliz toda esta casa...
Fiz mal, convenho; mas a inteno era a mais respeitavel e santa deste
mundo.

--De certo, murmurou Guiomar.

Mrs. Oswald pegou-lhe n'uma das mos e beijou-a affectuosamente.
Guiomar no a repelliu nem sequer pareceu dar-se-lhe da ternura da
ingleza. As duas olharam-se uns breves minutos, sem dizer nada, como a
lerem na alma uma da outra.

Guiomar no tinha a experiencia nem a edade da ingleza, que podia ser
sua me; mas a experiencia e a edade eram substituidas, como sabe o
leitor, por um grande tino e sagacidade naturaes. Ha creaturas que
chegam aos cincoenta annos sem nunca passar dos quinze, to simplices,
to cegas, to verdes as compe a natureza; para essas o crepusculo
 o prolongamento da aurora. Outras no; amadurecem na sazo das
flores; vem ao mundo com a ruga da reflexo no espirito,--embora, sem
prejuiso do sentimento, que nellas vive e influe, mas no domina.
Nestas o corao nasce enfreiado; trota largo, vae a passo ou galopa,
como corao que , mas no dispara nunca, no se perde nem perde o
cavalleiro.

O que a afilhada da baroneza buscava ler no rosto de Mrs. Oswald era se
effectivamente a madrinha nutria aquelle desejo, ou se tal revelao
no era mais do que um embuste. O leitor sabe que era verdadeira; mas
admittir, sem duvida, que a moa s depois de muito interrogar e
examinar lhe dsse f. Creu emfim; creu, porque era verosimil, creu
porque a ingleza no se arriscaria a qualquer indiscrio da parle
della, que de todo a desmascararia.

--Parece-me, disse Mrs. Oswald, que no fiz mal em lhe dizer tudo o que
sabia. Conselhos no lhe dou nenhuns; o melhor delles no vale a voz
do proprio corao. O seu  puro e recto; consulte-o de boa vontade, e
ver se ha nelle indifferenca, ou se alguma faisca...

--Eu sei! interrompeu Guiomar. No me lembrou consultal-o nunca.

--Faz mal, elle  o relogio da vida. Quem o no consulta, anda
naturalmente fra do tempo. Mas que vejo! continuou Mrs. Oswald
deitando os olhos para o reloginho de Guiomar. Naquelle outro relogio
faltam dez minutos para uma hora! Uma hora! Que diria a Sra. baroneza
se soubesse que ainda estamos aqui de conversa! Retiro-me; Deus lhe
d um somno socegado, e sobretudo a faa feliz, como merece. No lhe
recommendo juizo, porque o tem de sobra. Adeus, at amanh.

E Mrs. Oswald sahiu p ante p em direco ao seu quarto.

Guiomar ficou s, alli sentada ao p da cama, a ouvir o passo surdo,
e cautelloso da ingleza. Quando o som morreu de todo, e o silencio da
noite volveu ao que era, profundo e sepulchral, a moa deixou cair os
braos na cama, e a cabea nas mos, e um suspiro desentranhou-se-lhe
do peito, longo, ruidoso, magoado,--o primeiro que o leitor lhe ouve
desde que a conhece--e emfim estas palavras arrancadas da alma, to
doloridas,--ia dizer to lacrimosas,--vinham ellas:

--Oh meus sonhos! meus sonhos!

No chorou; a alma della era das que no tem lagrimas, em quanto
lhe restam foras. Os olhos estavam seccos e firmes quando ella os
ergueu das mos; o resto tinha vestigios do abalo, mas no havia nelle
desanimo, menos ainda desespero.




XI


Luiz Alves.


Durante uma inteira e comprida semana, deixou Estevo de apparecer no
escriptorio onde trabalhava com Luiz Alves; no appareceu tambem em
Botafogo. Ninguem o viu em todo esse tempo nos logares onde elle era
mais ou menos assiduo. Foram seis dias, no digo de recluso absoluta,
mas de completa solido, porque ainda nas poucas vezes que saiu, fel-o
sempre a horas ou em direces que a ninguem via, e de ninguem era
visto.

Mas no fra essa crua e malfadada crise, e  quasi certo que elle
metteria uma lana na Africa daquelles dias, que era um ponto muito
serio e grave, a questo magna da rua do Ouvidor e da casa do Jos
Thomaz, a ponderosa, crespa e complicada questo de saber se a
Stephanoni estrearia no _Ernani._ Esta questo, de que o leitor se
ri hoje, como se ho de rir os seus sobrinhos de outras analogas
puerilidades, esta preteno a que se oppunha a Lagrua, allegando que
o _Ernani_ era seu, preteno que fazia gemer as almas e os prelos
daquelle tempo, era cousa muito propria a espertar os brios do nosso
Estevo, to marechal nas cousas minimas, como recruta nas cousas
maximas.

Infelizmente elle no apparecia, no sabia sequer do conflicto e do
debate, occupado como estava em travar o aspero e sangrento duelo do
homem contra si mesmo, quando lhe falta o apoio, ou a consolao dos
outros homens. Todo elle era Guiomar; Guiomar era o primeiro e o ultimo
pensamento de cada dia. A sombra da moa vivia ao p delle e dentro
delle, no livro em que lia, na rua solitaria onde acaso transitava, nos
sonhos da noite, nas estrellas do ceu, nas poucas flores de seu inculto
jardim.

Um leitor perspicaz, como eu supponho que hade ser o leitor deste
livro, dispensa que eu lhe conte os muitos planos que elle teceu,
diversos e contradictorios, como  de razo em analogas situaes.
Apenas direi por alto que elle pensou tres vezes em morrer, duas em
fugir  cidade, quatro em ir affogar a sua dor mortal naquelle ainda
mais mortal pantano de corrupo em que apodrece e morre tantas vezes
a flor da mocidade. Em tudo isto era o seu espirito apenas um joguete
de sensaes continuas e variadas. A fora, a permanencia do affecto
no lhe bastava a dar seguimento e realidade s concepes vagas de seu
cerebro,--enfermo, ainda quando estava de saude.

A ideia do suicidio fincou-se-lhe mais a dentro no espirito, certa
tarde em que elle saiu a espairecer, e viu um enterro que passava,
caminho do Caj. O prestito era triste,--ainda mais triste pela
indifferena que se lia no rosto dos que iam piedosamente acompanhando
o morto. Estevo descobriu-se e sinceramente desejou ir alli dentro,
mettido naquellas estreitas tabuas de pinho, com todas as suas dores,
paixes e esperanas.

--No tenho outro recurso, pensou elle;  necessario que morra.  uma
dr s, e  a liberdade.

Ao voltar para casa, uma creana que brincava na rua, em camisa, com os
ps na agua barrenta da sargeta, fel-o parar alguns instantes, invejoso
daquella boa fortuna da infancia, que ri com os ps no charco. Mas a
inveja da morte e a inveja da innocencia foram ainda substituidas pela
inveja da felicidade, quando ao recolher-se viu as janellas abertas de
uma casa visinha, e a sala illuminada, e uma noiva coroada de flores
de laranjeira, a sorrir para o noivo, que sorria igualmente para ella,
ambos com o sorriso indefinivel e unico da occasio.

Os cinco dias correram-lhe assim, travados de enojo, de desespero, de
lagrimas, de reflexes amargas, de suspiros inuteis, at que raiou a
aurora do sexto dia, e com ella,--ou pouco depois della, uma carta de
Botafogo. Estevo quando viu o creado da baroneza,  porta da saia,
com uma carta na mo, sentiu tamanho alvoro, que no ouviu nada
do que elle lhe disse. Supporia que a carta era de Guiomar? Talvez;
mas a illuso durou os poucos instantes que elle gastou em romper a
sobrecarta e desdobrar a folha de papel que vinha dentro.

A carta era da baroneza.

A baroneza perguntava-lhe graciosamente se elle havia morrido, e pedia
que fosse falar-lhe cerca da demanda que ella trazia. Estevo chegara
j ao estado de s esperar um pretexto para transigir comsigo mesmo;
no podia havel-o melhor. Escreveu rapidamente duas linhas de resposta,
e  uma hora da tarde apeava-se de um tilbury  porta da funesta e
deliciosa casa, onde havia passado as melhores e as peores horas da
vida.

--Sabe porque razo lhe dei este incommodo, alm do prazer que tinha em
vel-o? perguntou a baroneza logo depois dos primeiros comprimentos.

--Disse-me que era por causa da demanda...

--Sim, precisamos assentar algumas cousas, antes da nossa partida.

--V. Ex. sae da crte?

--Vamos para o roa.

Estevo empallideceu. Na situao delle, aquella viagem era a melhor
cousa que lhe podia acontecer; comtudo, fez-lhe mal a noticia. A
conversa que se seguiu foi toda sobre o assumpto forense, e durou uma
longa hora, sem que apparecesse Guiomar. Ao despedir-se atreveu-se
Estevo a perguntar por ella.

--Anda passeando, respondeu a baroneza.

Estevo despediu-se da constituinte, que o acompanhou at  porta da
sala, repetindo-lhe algumas recommendaes, que o advogado mal pde
ouvir e absolutamente lhe no ficaram de memoria.

A esperana de ver a moa levara-o, mais que tudo, quella casa; saa
sem ter o gosto de a contemplar ainda uma vez; mais do que isso,
ameaado de a no ver to cedo, ou quem sabe se nunca mais. Ia elle
a reflectir nisto e a approximar-se da porta, onde parava ao mesmo
tempo um carro. Estevo estremeceu naturalmente, ante de ver quem ia
apear-se; grudou-se ao portal, com os olhos fitos na portinhola, que um
lacaio abria apressadamente.

A primeira figura que desceu foi a nossa conhecida Mrs. Oswald, que o
fez, sem dar tempo a que Estevo lhe offerecesse a mo. O bacharel,
desde que a vira, approximara-se rapidamente da portinhola.

Guiomar desceu logo depois. A mo apertada na luva cr de perola pousou
levemente na mo de Estevo que estremeceu todo. A moa fez-lhe um
comprimento risonho, murmurou um agradecimento e recolheu-se com a
ingleza. Era pouco; mas esse pouco alvoroou o bacharel, que enfiou
d'alli para a cidade, em direco ao escriptorio.

Luiz Alves admirou-se de o ver; no foi com um espanto de seis dias,
como devera ser, mas de quarenta e oito horas, quando muito. Que
admira? A preocupao de Luiz Alves por aquelles dias era a candidatura
eleitoral; a boa nova devia chegar-lhe na primeira mala do norte. Ora,
em boa razo, um homem que est prestes a ser inscripto nas tabuas do
parlamento, no pde cogitar muito dos amores de um rapaz, ainda que o
rapaz seja amigo e os amores verdadeiros.

Estevo no perdeu tempo em circumloquios; foi entrando e entornando a
alma toda, afflicta e consolada a um tempo, no seio do velho amigo e
companheiro. A cada trecho da confisso plena que elle alli lhe fez,
respondia um commento, ora serio, ora gracioso de Luiz Alves. Quando
Estevo porm lhe deu noticia de que a familia da baroneza ia para a
roa, Luiz Alves recolheu o meio-riso que lhe pousava nos labios desde
comeo, e com a mais subita e sincera admirao exclamou:

--Para a roa!

--Disse-o agora mesmo a baroneza.

--Mas...

Luiz Alves no acabou; olhou ainda meio duvidoso para Estevo, e ficou
algum tempo calado, a coar o queixo com a faca de marfim e a olhar
para uma gravura que pendia na parede fronteira.

--Na situao em que estou, continuou Estevo, has de dizer que a
viagem  uma felicidade para mim. Pois no ; no admitto a viagem. Se
ella sair da crte, eu saio tambm.

--Tu ests doudo!

--Talvez.

Luiz Alves saiu daquella natural indifferena com que o ouvia, e lhe
falava sempre em tal assumpto. Falou-lhe carinhoso,--talvez pela
primeira vez na vida. O que lhe disse foi apenas ume edio augmentada
de que lhe havia dito em anteriores occasies,--agora com maior
fundamento, porque depois do formal desengano de Guiomar, no havia
outro recurso mais que ir esquecel-a de todo.

--Oh! isso nunca! interrompeu Estevo. Demais, no sei, no estou certo
se ella falava de corao naquella tarde...

A candidez com que Estevo disse isto era a fiel traduco de seu
espirito, e a razo de taes palavras, no a procure o leitor em outra
parte mais que no seja aquelle sorriso de ha pouco, ao p do carro,
sorriso que lhe bailava no cerebro, como raio de sol coado por entre
nuvens negras de tempestade.

Luiz Alves sacudiu a cabea e enfiou os olhos pelas folhas rabiscadas
de uns autos que tinha diante, e que entrou a folhear vagarosamente.
Subito, bateu uma pancadinha, com a mo espalmada sobre os papeis, e
levantou a cabea:

--Ha um meio talvez de saber tudo, disse elle, de saber se ella
verdadeiramente te ama, ou... Posso tenta-lo, com uma condio.

--Qual?

--A condio de eliminares as tuas pretenes. Que diabo ganhas tu em
nutrir uma paixo sem efficacia nem remedio?

Esta promessa era a mais dura que se podia arrancar de um corao,
em que as geraes de esperanas se succediam quasi sem soluo de
continuidade; fel-a, todavia, Estevo, talvez com a secreta resoluo
de a trahir.

Luiz Alves ficou s dahi a alguns minutos. As ultimas palavras que
disse ao collega foram duas ou tres pilherias de rapaz; mas apenas
ficou s tornou-se serio, e inclinando o corpo para a frente, com os
braos na secretaria, e a raspar as unhas com um canivete, alli esteve
largo tempo, como a reflectir, longe de Estevo, que alis j no a
perto, e ainda mais longe dos autos que tinha diante de si. Mas em que
pensava elle, se no era em Estevo, nem nos autos, nem tambem, por
agora, nas suas esperanas eleitoraes Paciencia, leitor; sabel-o-has
daqui a nada. Contenta-te com a noticia de que, ao cabo de vinte
minutos daquella abstraco, Luiz Alves volveu a si, proferindo em alta
voz esta simples palavra:

--No ha duvida;  uma ambiciosa.

E descativado daquella preoccupao, enterrou-se de todo na leitura dos
autos.




XII


A viagem.


Mal recomera Luiz Alves a leitura dos autos, entrou no gabinete o
criado apresentando-lhe um bilhete de visita.

--Que entre! disse o advogado lendo o nome do sobrinho da baroneza.

E logo se ouviu no corredor o passo medido e lento do mancebo, que
d'ahi a nada assomava  porta do gabinete, fazendo uma cortezia,
sisuda, mas graciosa.

--Venho incommoda-lo, doutor? perguntou Jorge.

--Pelo amor de Deus! exclamou o advogado erguendo-se e indo buscal-o
 porta. No me incommodaria em caso nenhum; agora, sobretudo, que a
leitura de uns papeis me fatigou sobre maneira, a maior fortuna que eu
poderia desejar  a presena de um homem de espirito.

Jorge agradeceu este comprimento um pouco emphatico, e retribuiu-o com
outra lisonjaria muito mais extensa e de maior alcance. Quer dizer que
elle vinha pedir alguma cousa. Effectivamente, passados os minutos de
introito e desfiadas as generalidades, Jorge impertigou-se mais do que
at alli estivera e desfechou esta pergunta abrupta:

--Sabe que venho pedir-lhe uma cousa grave?

Luiz Alves inclinou-se.

--Grave e simples ao mesmo tempo, continuou o sobrinho da baroneza; mas
antes disso precisava saber se  to amigo da nossa familia, como ella
o  do senhor.

--Oh! de certo!

--O senhor  o menos assiduo, talvez, das pessoas que l vo, apezar de
visinho; s agora o vejo alli mais a miudo; entretanto  como flor que
se trahe pelo aroma; minha tia tem a seu respeito a melhor opinio do
mundo; acha-lhe uma gravidade, e eu tambem a sinto, e nem comprehendo
que um homem possa ser outra cousa. Os taes espiritos futeis...

--So insupportaveis, concluiu Luiz Alves ancioso por chegar ao objecto
da visita.

O objecto era a viagem da baroneza. Um commendador, amigo do finado
baro, e fazendeiro em Cantagallo, tinha promessa da viuva, havia dous
annos, de ir l passar algum tempo. A baroneza esquivara-se sempre
a cumprir a palavra dada; agora porm, tal fora a insistencia, que
se resolvera a ir. Ora, o que Jorge vinha propor era--, expresses
delle,--uma conjurao de amigos para dissuadir a tia daquelle
projecto. Affianava ao advogado que, ainda descoberta a conjurao,
teria elle a vida s e salva.

Luiz Alves suppoz a principio que aquillo era um simples pretexto; mas,
tendo observado que a bella Guiomar no era indifferente ao rapaz,
comprehendeu que este tinha na conjurao proposta, um interesse
inteiramente pessoal. Emfim, Jorge chegou a confessar que, se a tia
insistisse em sair da crte, elle no tinha remedio seno acompanha-la.

O accrdo no foi difficil; ficou assentado que fariam todos os
esforos para dissuadir a baroneza. Jorge quiz sair logo; reteve-o Luiz
Alves algum tempo mais, com expresses de louvor habilmente tecidas e
mais habilmente encastoadas na conversao; e tambem deixando-se ir 
feio do espirito delle, acceitando-lhe as ideias e os preconceitos, e
applaudindo-os discretamente,--serio, quando elles o eram ou pareciam
ser,--chocarreiro quando vinham com ar de graa,--respondendo emfim a
todos os gestos e meneios do outro, como faz o espelho por officio e
obrigao:--toda a arte em summa de tratar os homens, de os attrahir e
de os namorar, que elle aprendera cedo e que lhe devia aproveitar mais
tarde na vida publica.

De noite foi Luiz Alves  casa da baronesa, onde poucas pessoas havia,
todas de intimidade. A dona da casa, sentada na poltrona do costume,
tinha ao p de si uma senhora da mesma edade que ella, egualmente
viuva, e defronte as suias brancas e aposentadas de um ex-funccionario
publico. N'um soph, viam-se Mrs. Oswald e Jorge a conversarem em
voz, ora muito baixa, ora um pouco mais elevada. Adiante, dous
moos contavam a duas senhoras o enredo da ultima pea do Gymnasio.
Mais longe, uma moa da visinhana gabava a outra a tesoura de Mme.
Bragaldi, que pedia meas, dizia ella, ao pincel do scenographo, seu
marido. Emfim, junto a uma das janellas via-se uma mocinha, viva e
bonita, a dizer mil ninharias graciosas a outra pessoa, que era nada
menos que a nossa conhecida Guiomar. A conversa, assim dividida,
tornava-se s vezes geral, para recair logo no particularismo anterior;
os grupos modificavam-se tambem de quando em quando, do mesmo modo que
o assumpto, e assim se iam matando agradavelmente as horas, que no
resistiam, coitadas, nem apressavam o passo um minuto sequer.

Luiz Alves aggregara-se ao grupo da baroneza, ao qual no tardou
juntar-se Jorge. O advogado teve a discrio de esperar que o assumpto
viesse de si, se viesse, ou de o introduzir na conversa, quando lhe
parecesse de feio. Mas Jorge, que estava impaciente, arrastou o
assumpto ao debate. Luiz Alves, mostrou-se fiel  palavra dada;
declarou amavelmente que se oppunha  viagem, como visinho e amigo,
que reclamaria em ultimo caso o auxilio de fora publica; que era um
erro e um crime deixar aquella casa viuva da benevolencia e da graa e
do gosto e de todas as mais qualidades excellentes que alli iam achar
os felizes que a frequentavam; que, emfim, o mal era tamanho, que no
deixaria de ser peccado, posto no viesse apontado nos cathecismos,
e como peccado, seria de fora punido, com amargas penas, no outro
seculo, pelo que, e o mais dos autos, era sua deciso que a baroneza
devia ficar.

Todas estas razes foram ditas como deviam de ser, de um modo galante e
folgazo, a que a baroneza respondia egualmente, e que no daria nada
mais de si, se Luiz Alves, mudando de estylo, no fosse pr o assumpto
em differente terreno.

--Digamos a verdade, Sra. baroneza, a viagem ha de ser-lhe immensamente
incommoda, se for so isso; suas foras no so de certo eguaes s de
seus primeiros annos; sua saude  melindrosa e no poder soffrer tanta
fadiga. Confesso que falo em nome de certo interesse pessoal de amigo
e de visinho; mas a principal razo no  essa. Se houvesse um motivo
urgente, bem; mas tratando-se apenas de uma promessa feita ha tanto
tempo, seria crueldade da minha parte no insistir que ficasse.

A baroneza defendia-se, e Luiz Alves no tardou em reconhecer de si
para si que ella no se defendia com o vigor de uma resoluo original
e propria. A conversa, entretanto, tornra-se mais geral; de todos os
lados partiam votos de opposio.

Guiomar havia j alguns minutos que no attendia  interlocutora;
tinha o ouvido afiado e assestado sobre o grupo da madrinha. Ninguem
a observava; mas  privilegio do romancista e do leitor ver no rosto
de uma personagem aquillo que as outras no veem ou no podem ver.
No rosto de Guiomar podemos ns ler, no s o tedio que lhe causava
aquella opinio unanime contra o projecto da baroneza, mas ainda a
expresso de um genio imperioso e voluntario.

--Estamos de accordo, creio eu? perguntou Luiz Alves olhando
alternadamente para a baroneza e as outras pessoas.

--No  possvel, doutor, respondia a boa senhora.

--De certo que no  possvel, interveiu Guiomar do lugar onde estava.
A viagem no offerece risco, nem minha madrinha est invalida. Demais,
 uma promessa feita; no se pode deixar de cumprir.

Esta opinio, dita em tom scco e firme, ainda que a voz nada perdesse
do seu natural avelludado, equivaleu a um pouco de agua fria lanada na
fervura triumphante dos animos.

--Guiomar tem razo, disse a baroneza; j agora  preciso ir; so
apenas tres ou quatro mezes.

Luiz Alves olhou longamente para Guiomar, como a procurar ver-lhe
no rosto todas antecedencias da resoluo da baroneza. A opposio
afrouxara; Jorge chamou em vo o advogado em seu auxilio. A resoluo
da tia, se alguma vez fora abalada, tornara-se outra vez firme.

Guiomar, entretanto, erguera-se e chegara ao grupo da madrinha. Jorge
fitou-a com uma expresso de vaidade e cobia. Luiz Alves, que se
achava de p, recuou um pouco para deixal-a passar. Os olhos com que
a contemplou no eram de cobia nem de vaidade; a leitora, que ainda
lembrar da confisso por elle mesmo feita a Estevo, suppor talvez
que eram de amor. Talvez,--quem sabe?--amor um pouco socegado, no
louco e cego como o de Estevo, no pueril e lascivo, como o de Jorge,
um meio termo entre um e outro,--como podia havel-o no corao de um
ambicioso.

--O Dr. Luiz Alves defende causas ms, disse Guiomar sorrindo para
elle; no se trata de uma cousa impossivel. Quanto a mim, Cantagallo
s tem um inconveniente; sera menos divertido que a crte; mas o tempo
passa depressa...

--Nesse caso, disse Jorge suspirando eu tambem dispenso theatros e
bailes; sacrifico-me  familia.

--Queres ir comnosco? perguntou a baroneza alegremente.

--Que duvida!

Guiomar mordeu o labio inferior, com uma expresso de despeito, que
pde conter e abafar, sem que ninguem a percebesse, ninguem, excepto
Luiz Alves. Um sorriso tranquillo e perspicaz roou os labios do
advogado, em quanto a moa, para esconder a impresso que lhe ficara,
de novo se dirigiu  janella, onde esteve alguns momentos ssinha, meia
voltada para fra e meia guardada pela sombra que alli fazia a cortina.
Um rumor de passos fel-a voltar-se para dentro. Era Luiz Alves.

--Ah! disse ella fingindo-se tranquilla; agradeo-lhe no haver
insistido mais nos seus conselhos.

--A inteno era boa, respondeu Luiz Alves em voz baixa; mas ser agora
excellente; nem tudo est perdido: eu me incumbo de salvar o resto.

Guiomar franziu a testa com o mais vivo e natural espanto; tal
espanto que parecia havel-a feito esquecer outro sentimento,
igualmente natural:--o do despeito que lhe causaria aquella singular
familiaridade. Mas o assombro dominou tudo; Guiomar sentiu que elle
lera nella a razo da insistencia e o desgosto do resultado.

A ruga desfez se a pouco e pouco, mas a moa no retirou logo os olhos.
Havia nelles uma interrogao imperiosa, que a alma no se atrevia
a transmittir aos lbios. Se ha nos do leitor alguma interrogao,
esperemos o capitulo seguinte.




XIII


Explicaes.


Luiz Alves comprehendera toda a expresso dos olhos de Guiomar; era,
porm, homem frio resoluto. Inclinou o busto com toda a graa correcta
e de bom tom, e disse-lhe na voz mais branda que lhe permittia o seu
orgo forte e severo:

--Parece-lhe que fui um pouco audaz, no ? Fui apenas sincero; e ainda
que a sua delicadeza me condemne, estou certo de que ha em seu corao
misericordia de sobra...

Guiomar tinha readquirido toda a posse de si mesma.

--Est enganado, disse ella, no o condemno, pela simples razo de que
o no entendi.

--Tanto melhor, redarguiu Luiz Alves sem pestanejar; o meu delicto
nesse caso no passou da esphera da inteno.

--Mas... referia-se  viagem?

--Referia-me; perguntava quando iam.

Esta presena de espirito de Luiz Alves ia muito com o genio de
Guiomar; era um lao de sympathia. A moa respondeu que o commendador
viria buscal-as dahi a quinze ou vinte dias.

--Tres mezes apenas? perguntou o advogado.

--Tres ou quatro.

--Quatro mezes no  a eternidade, mas Cantagallo, para uma carioca da
gemma, hade ser um degredo, ou quas... Oxal,--continuou Luiz Alves,
concluindo mais depressa do que queria, ao ver que Jorge se approximava
da janella,--oxal no lhe faa esse exilio esquecer o que solemnemente
lhe digo neste momento: que a senhora tem uma alma grande e nobre, e
que eu a admiro!

Jorge chegra; a conversa tinha de acabar ou tomar differente rumo.

As ultimas palavras de Luiz Alves eram singularmente dispostas para
deixar sulco profundo na memoria da moa. No era uma declarao de
amor, nem uma cortezania de sala cousas todas que ella ouvira muita
vez, que podiam lisongea-la, e de certo a lisongeavam; era mais que
um comprimento e no chegava a ser uma declarao. Commoo, no a
havia na voz do advogado; firmeza, sim, e um ar de convico profunda.
Guiomar olhou para elle quasi sem dar pela presena de Jorge; mas Luiz
Alves voltara-se para o recem-chegado e falava-lhe em tom jovial, bem
differente daquelle que empregra pouco antes.

Se esse contraste era premeditado,--no sei se o era,--no podia vir
mais de feio ao espirito de Guiomar. De quantos homens a moa tratra
at alli, era o primeiro que lhe inspirava curiosidade, e tambem,
naquella occasio, a primeira pessoa que s compadecia della. Veja o
leitor:--curiosidade e gratido;--veja se ha duas azas mais proprias
para arrojar uma alma no seio de outra alma,--ou de um abysmo, que  s
vezes a mesma cousa.

Eu disse--compadecia--e esta s palavra, desacompanhada de outra cousa,
pde fazer crer ao leitor que, durante aquelles dias em que a perdemos
de vista, tornara-se Guiomar uma creatura desditosa. Nada disso; a
situao era a mesma, no a mesma anteriormente  carta de Jorge, mas
a mesma da noite em que ella a recebeu, situao, de certo, assaz
sombria e carregada para um corao que receia ser constrangido, mas
no desesperada nem angustiosa.

A baroneza, se soubera dos factos, ou se pudera ler na alma da moa,
seria a primeira a dar-lhe todas as consolaes. Mas no sabia.
Seu desejo,--ou antes o sonho da velhice, como ella dizia n'um dos
anteriores capitulos,--era deixar felizes a afilhada e o sobrinho, e
entendia que o melhor meio de os deixar felizes era casal-os um com o
outro. A noticia que tinha do corao da moa, a este respeito, era
incompleta ou inexacta; pintavam-lhe como frieza o que era repugnancia.
Mrs. Oswald dava-lhe sempre esperanas de exilo feliz e proximo, as
coleras da moa no lh'as contava nunca. Da carta de Jorge no soube,
nem da scena havida na alcova. O casamento continuava a apparecer-lhe
com todas as probabilidades de uma esperana realizavel.

Dir a leitora que o sobrinho no merecia tanto zelo nem to pertinaz
esperana, e ter razo; mas os olhos da baroneza no so os da
leitora; ella s lhe via o lado bom,--que era realmente bom,--ainda
que de uma bondade relativa; mas no via o lado mau, no via nem podia
ver-lhe a frivolidade grave do espirito, nem o genero de affecto que se
lhe gerava no corao.

Jorge era o seu unico parente de sangue,--filho de um irm que vivra
infeliz e mais infelizmente morrra, no repudiada, mas aborrecida
do marido, circumstancia que lhe tornava caro aquelle moo. Mais do
que a afilhada, no; nem tanto, de certo; o corao no chegaria para
dividir-se egualmente em to grandes pores; queria-lhe, porm,
muito, quanto bastava para desejal-o feliz, e trabalhar por fazel-o.
Accrescentemos que o destino da irm sempre lhe estava presente
ao espirito, e que ella receiava egual sorte a Guiomar; em Jorge
parecia-lhe ver todos os dotes necessarios para tomal-a venturosa.

Infelizmente, Mrs. Oswald, sabedora daquelles secretos desejos e mais
ou menos confidente dos sentimentos de Jorge, achara azada occaso
esta para patentear toda a gratido de que estava possuida e a profunda
amizade que a ligava  familia da baroneza. Interpoz-se para servir
aos outros, e mais ainda a si propria. Viu a difficuldade, mas no
desanimou; era preciso armar ao reconhecimento da baroneza. Por isso
no hesitou em confiar a Guiomar o desejo da madrinha, exagerando-o,
entretanto,--por que nunca a baroneza dissera que tal casamento era
a sua campanha, e Mrs. Oswald attribuiu-lhe esta phrase mortal para
todas as esperanas e sonhos da moa. Mas, se falava demasiado ao p
de uma, era muito mais sobria de palavras com a outra, e da exagerao
ou da attenuao da verdade resultara aquelle perenne estado de luta
abafada, de receios, de indeciso e de amarguras secretas. Convm
dizer, para dar o ultimo trao ao perfil, que esta Mrs. Oswald no
seguia s a voz do seu interesse pessoal, mas tambm o impulso do
proprio genio, amigo de pr  prova a natural sagacidade, de tentar e
levar a cabo uma destas operaes delicadas e difficeis, de maneira
que, se houvesse uma diplomacia domestica,--ou se se creassem cargos
para ella, Mrs. Oswald podia contar com um lugar de embaixatriz.

Vindo agora  narrao dos successos da historia, cumpre que o leitor
saiba, que a carta de Jorge no teve resposta escripta nem verbal. No
dia seguinte ao da entrega foi elle jantar a Botafogo; mas Guiomar no
sara do quarto, a pretexto de uma dor de cabea; a baroneza passou o
dia com ella; Jorge apenas conseguiu saber, quando de l saiu, que a
moa ia melhor. Nos subsequentes dias nenhuma resposta foi s mos do
pretendente, nem elle conseguiu haver uns cinco minutos de conversa
solitaria com a moa; Guiomar esquivava-se sempre, com aquella arte
summa da mulher que aborrece, e que  nem mais nem menos egual  da
mulher que ama.

Um dia, porm, no houve meio de fugir; e Jorge, que no tinha nenhuma
commoo na voz, porque no tinha muita no corao, olhou para ella
com olhos direitos e francamente lhe pediu uma palavra de esperana
ou de desengano. A moa hesitou alguns segundos; contudo era preciso
responder. Venceu a repugnncia dizendo-lhe com um frio sorriso:

--Nem uma nem outra cousa.

--Nem desengano? perguntou Jorge alvoroado.

--Ninguem pode dar nem uma cousa nem outra, disse ella; costumamos
acceital-as do nosso destino.

No era responder, como v o leitor; Jorge ia pedir uma deciso mais
transparente, mas a moa aproveitara-se da primeira impresso e
esquivara-se. Quando elle recobrou a voz no viu mais que a fimbria do
vestido, que se perdia na volta de uma porta.

Guiomar encurtou as redeas  familiaridade que existia entre ella e
Jorge; mas, se o tratava com mais reserva, no o fazia com sequido nem
frieza, nem deixava de ser polida e affavel. A dignidade natural que
havia em toda a sua pessoa servia-lhe, alm disso, como de uma torre de
marfim, onde ella se acastellava e mantinha em respeito o pretendente.

Dos dous homens que lhe queriam, nenhum lhe falava  alma; ella
sentia que Estevo pertencia  phalange dos tibios, Jorge  tribu dos
incapazes, duas classes de homens que no tinham com ella nenhuma
affinidade electiva. No egualava, de certo, os dous pretendentes; um
era simplesmente trivial, outro sentimental apenas; mas nenhum delles
capaz de crear por si s o seu destino. Se os no egualava, tambem os
no via com os mesmos olhos; Jorge causava-lhe tedio, era um Diogenes
de especie nova; atravez da capa rota da sua importancia, via-se-lhe
palpitar a triste vulgaridade. Estevo inspirava-lhe mais algum
respeito; era uma alma ardente e frouxa, nascida para desejar, no para
vencer, uma especie de condor, capaz de fitar o sol, mas sem azas para
voar at l. O sentimento de Guiomar em relao a Estevo no podia
nunca chegar ao amor; tinha muito de superioridade e perdo.

Com outra indole, aspiraes differentes e vivida em diversa esphera,
ama-lo-hia com certeza, do mesmo modo que elle a amava. Mas a natureza
e a sociedade deram-se as mos para a desviar dos gozos puramente
intimos. Pedia amor, mas no o quizera fruir na vida obscura; a maior
das felicidades da terra seria para ella o maximo dos infortunios,
se lh'a puzessem n'um ermo. Creana, iam-lhe os olhos com as sedas e
as joias das mulheres que via na chacara contigua ao pobre quintal
de sua me; moa, iam-lhe do mesmo modo com o espectaculo brilhante
das grandezas sociaes. Ella queria um homem que, ao p de um corao
juvenil e capaz de amar, sentisse dentro em si a fora bastante para
subil-a aonde a vissem todos os olhos. Voluntariamente, s uma vez
acceitara a obscuridade e a mediania; foi quando se propoz a seguir o
officio de ensinar; mas  preciso dizer que ella contava com a ternura
da baroneza.




XIV


Ex abrupto.


J o leitor ficou entendendo que a viagem a Cantagallo era obra quasi
exclusiva de Guiomar. A baroneza relutara a principio, como das outras
vezes fizera, e o commendador pouca esperana tinha j de a ver na
fazenda. Mas o voto de Guiomar foi decisivo. Ella fortaleceu, com as
suas, as razes do commendador, allegando no s a obrigao em que a
madrinha estava de desempenhar a palavra dada, mas ainda a vantagem
que lhe podiam trazer aquelles tres mezes de vida roceira, longe das
agitaes da crte; emfim, invocou o seu proprio desejo de ver uma
fazenda e conhecer os habitos do interior.

No havia tal desejo, nem cousa que se parecesse com isso; mas Guiomar
sabia que na balana das resolues da madrinha era de grande peso a
satisfao de um gosto seu. O sacrificio duraria tres ou quatro mezes;
ella afrontaria, porm, dez ou doze se tantos fossem necessarios, para
fugir algum tempo s pretenes de Jorge, sem embargo de lhe repugnar
todo o viver que no fosse a vida fastosa e agitada da crte. Eu, que
sou o Plutarcho desta dama illustre, no deixarei de notar, que, neste
lance, havia nella um pouco de Alcibiades,--aquelle gamenho e delicioso
homem de Estado, a quem o despeito tambem deu foras um dia para
supportar a frugalidade spartana.

Infelizmente, Jorge reduziu todos esses calculos a nada. Ella contava
com o seu demasiado apego aos regalos da crte, no contava com as
suggestes de Mrs. Oswald, que percebera o plano, e torcera a primeira
resoluo de Jorge, que era ficar e esperar. O sacrificio da parte
delle era compensado pela probabilidade da victoria, a qual no
consistia s em haver por esposa uma moa bella e querida, mas ainda
em tornar muito mais summarias as partilhas do que a baroneza deixaria
por sua morte a ambos. Esta considerao, que no era a principal,
tinha ainda assim seu peso no espirito de Jorge, e, sejamos justos,
devia tel-o: possuir era o seu unico officio. Assim era que no s a
moa deixava de obter um bem, mas cahia de um mal em outro maior; tel-o
ao p de si, onde as distraces seriam menos promptas e variadas,
equivalia a adoecer de fastio e morrer de inanio.

Imagine-se por isso em que estado lhe ficou o espirito depois da
declarao de Jorge. No havia meio de fugir ao pretendente, era
preciso tragal-o. Esta perspectiva abateu-lhe totalmente o animo. Uma
confidente, em taes situaes,  um presente do ceu; mas Guiomar no a
tinha, e se alguma pessoa lhe merecesse tal confiana,  certo ou quasi
certo que lhe no diria nada. Suas dores eram altivas, as tristezas de
seu corao tinham pudor. Espiritos desta casta ignoram a consolao
que ha, nas horas de crise, em se repartirem com outro; triste, mas
feliz ignorancia que lhes poupa muita vez o contacto de uma conscincia
aleivosa e ruim.

No meio do longo reflectir, soaram-lhe na memoria as palavras de Luiz
Alves; ella ouviu-as de novo, taes quaes elle as proferira, desde a
phrase descortez at  expresso respeitosa. Uma era o commentario da
outra, e ambas podiam explicar-lhe o caracter de Luiz Alves, se tivesse
alguns elementos mais para conhece-lo; em todo o caso, era a ponta do
veu levantada. Embora se lhe no podesse ler no fundo do espirito,
via-se desde j qual era o seu methodo de aco.

Qualquel outro homem, depois do effeito produzido pela primeira
declarao, no se atreveria ou no lhe importaria tentar mais nada
para desfazer o projecto da viagem. Mas o espirito de Luiz Alves tinha
a obstinao do dogue. Era-lhe necessario que a familia da baroneza
no saisse da crte; este objecto havia de alcana-lo a todo o trance.
Elle espreitava as occasies, aproveitava as circumstancias, tinha a
habilidade de intercalar o pedido em qualquer retalho de conversao,
onde menos apropriado pareceria a qualquer outro. Jorge applaudia-o com
as foras todas de que podia dispor o seu interesse. A baroneza oppunha
s suggestes do advogado a resistencia molle e atada de quem deseja
aquillo mesmo que recusa.

--O doutor  terrivel, dizia ella. Em se lhe mettendo uma cousa na
cabea, ninguem mais o tira dahi.

--Justamente,  uma ideia fixa. Sem ideia fixa no se faz nada bom
neste mundo.

Guiomar sustentava a resoluo da madrinha, posto no o fizesse a
miudo, nem no mesmo tom secco e imperioso da primeira noite. Seu
impulso era ser coherente; ao mesmo tempo no queria parecer aos olhos
de Luiz Alves que lhe acceitava o concurso para obter o que alis
desejava de todo o corao; sera laval-o da primeira culpa.

O argumento que mais influia no animo de todos, o que devera ter
affastado a ideia de semelhante viagem, era o perigo de affrontar
o cholera-morbus que por aquelle tempo percorria alguns pontos do
interior. Um dia de manh soube-se que em Cantagallo havia apparecido o
terrvel inimigo. Desta vez Luiz Alves triumphou sem dizer palavra; a
baroneza recuou deante daquelle facto brutal.

A viagem desfez-se pois, a contento de todos, salvo talvez de Mrs.
Oswald, que receiava muito da mocidade casadeira da crte, e dos
bellos olhos castanhos de Guiomar. Mrs. Oswald temia ver surgir a cada
passo um novo inimigo emboscado em algum theatro ou baile, ou quando
menos na rua do Ouvidor, e no via que o inimigo novo podia ser que
estivesse litteralmente ao p da porta. A sagacidade da ingleza desta
vez foi um tanto myope. A razo  que Luiz Alves, em todos aquelles
seus preliminares, houve-se com habilidade; longe de procurar a moa,
parecia nada haver alterado nos seus sentimentos, nem desejar mudar a
especie de relaes que at alli mantinha. Guiomar, entretanto, no
podia deixar de comparar aquella especie de attenciosa indifferena que
havia delle para ella, com as palavras que anteriormente lhe ouvira, e
o resultado da comparao no lhe parecia muito claro.

Na noite do mesmo dia em que ficou assentado defferir a viagem para
melhores tempos, achavam-se em casa da baroneza algumas pessoas
de fra; Guiomar, sentada ao piano, acabava de tocar, a pedido da
madrinha, um trecho de opera da moda.

--Muito obrigada, disse ella a Luiz Alves que se approximra para
dirigir-lhe um comprimento. Est alegre! Parece que  a satisfao de
me haver mallogrado o maior desejo que eu tinha nesta occasio.

--No fui eu, disse elle, foi a epidemia.

--Sua alliada, parece.

--Tudo  alliado do homem que sabe querer, respondeu o advogado dando
a esta phrase um tanto emphatica o maior tom de simplicidade que lhe
podia sair dos labios.

Guiomar curvou a cabea e esteve alguns instantes a perpassar os dedos
pelas teclas, em quanto Luiz Alves, tirando de cima do piano outra
musica, dizia-lhe:

--Podia dar-nos este pedao de Bellini, se quizesse.

Guiomar pegou machinalmente na musica e abriu-a na estante.

--Era ento vontade sua? perguntou ella continuando o assumpto
interropido do dialogo.

--Vontade certamente, porque era necessidade.

--Necessidade,--tornou ella comeando a tocar, menos por tocar que por
encobrir a voz; mas necessidade por que?

--Por uma razo muito simples, porque a amo.

A musica estacou. Guiomar erguera-se de um salto. Mas nem o gesto da
moa, nem a sorpresa das outras pessoas, perturbou o advogado; Luiz
Alves inclinou-se para o mocho, como a concertal-o, e voltando-se para
Guiomar, disse-lhe graciosamente:

--Pode sentar-se-agora; est seguro.

Guiomar sentou-se outra vez muda, despeitada, a bater-lhe o corao
como nunca lhe batera em nenhuma outra occasio da vida, nem de
susto, nem de colera, nem... de amor, ia eu a dizer, sem que ella o
houvesse sentido jamais. No se demorou muito tempo alli; com a mo
tremula folheou a musica que estava aberta na estante, deixou-a logo e
levantou-se.

Nestes derradeiros movimentos ninguem reparou; e se alguem pudesse
reparar em alguma cousa, a moa tomara a peito desvanecer todas as
suspeitas. A primeira impresso fora profunda, mas Guiomar tinha fora
bastante para dominar-se e fechar todo o sentimento no corao.

O que se passou depois, quando, livre de olhos estranhos, pde
entregar-se a si mesma, isso ninguem soube, a no serem as paredes
mudas do quarto, ou o raio de lua coado pelo tecido raro das cortinas
das janellas, como a espreitar aquella alma faminta de luz. Soube-o,
talvez, o seu espelho, quando no dia seguinte lhe reflectiu o rosto
desfeito e os olhos quebrados. Se foi a meditao nocturna que os
amolleceu e apagou, no o perguntou elle, naturalmente porque o sabia;
mas talvez advertiu comsigo que se eram assim mais bellos, pediam outro
rosto em que caissem melhor. O de Guiomar queria-os como elles eram,
severos, firmes e brilhantes.

A baroneza tambem no deixou de ver que a afilhada no accordara com o
mesmo ar do costume; achou-a taciturna e distrahida.

--Eu, madrinha? perguntou Guiomar simulando um sorriso de admirao.

--Ser engano de meus olhos.

--No  outra cousa; estou como sempre, como hontem, como amanh.
Passei a noite um pouco mal,  verdade; mas o que tive desapareceu
inteiramente. A prova...

Guiomar parou neste ponto, chegou-se  madrinha e deu-lhe um beijo.

--A prova, continuou ella,  que ainda hoje me acha bonita, no ?

--Creana! respondeu a baroneza, dando-lhe uma pancadinha na face.

A tranquillidade da moa era simulada; apenas a madrinha voltou as
costas, cobriu-se-lhe o rosto com o mesmo veu. Ella aprendera desde
creana a disfarar as suas preoccupaes.

Quanto a Luiz Alves, posto houvesse contado com o seu methodo cru e
abrupto, saiu dalli sem plena certeza do resultado. Esta incerteza
abalou-o mais do que elle suppunha; e foi, sem duvida, a primeira
occasio em que sentiu que a amava devras, ainda que o seu amor fosse
como elle mesmo: placido e senhor de si. No dia seguinte, Estevo
interrogou-o a respeito de Guiomar.

--Creio, disse elle depois de reflectir alguns instantes,--creio que
por ora no deves perder as esperanas todas.




XV


Embargos de terceiro.


Durante tres dias deixou Luiz Alves de ir  casa da baroneza, estando
alis a morrer por isso. Entrava porm no plano esta ausencia; era das
instruces que elle mesmo dera ao seu corao; no havia remedio seno
observal-as.

No quarto dia recebeu um bilhete da baroneza que o comprimentava pela
eleio. A mala do norte chegra, e com ella a noticia da victoria
eleitoral. Estava Luiz Alves deputado; ia emfim dar a sua demo no
fabricos das leis. Estevo foi o primeiro que o felicitou; era o antigo
companheiro dos bancos da academia; tanto ou mais do que os outros
devia applaudir aquella boa fortuna. No lhe escondeu, entretanto a
inveja que ella lhe mettia:

--Deputado! suspirou elle. Oh! eu tambem podia ser deputado.

Estevo dizia isto, como a creana deseja o dixe que v no collo
de outra creana,--nada mais. Eram os seus sonhos de outr'ora,
que renasciam taes quaes eram, inconsistentes, vagos, prestes a
dissiparem-se com o primeiro raio da manh.

Luiz Alves apressou-se a ir agradecer  baroneza a felicitao. Guiomar
teve um leve estremecimento quando o viu, mas recebeu-o tranquilla e
risonha, quasi indifferente. O advogado era habil; no a perseguiu com
os olhos; sobre accordar a atteno das demais pessoas, era seguir o
methodo commun. Elle no queria parecer-se com os outros.

Guiomar, entretanto, observava-o a espaos, de revez, como a querer
sorprehendel-o; a pouco e pouco, porm, o seu olhar foi sendo mais
direito e firme. O de Luiz Alves era natural e egual como antes era,
como era ainda agora com todos.

Ao sair, junto  porta de uma sala, onde acaso a topou, Luiz Alves teve
occasio de lhe dizer esta simples palavra:

--Perdoou-me?

A moa retirou a mo, que elle tinha presa na sua, e furtou o corpo, ao
mesmo tempo que lhe caiam as palpebras.

--Perdoou-me? repetiu-elle.

Guiomar retirou-se sem dizer palavra. Luiz Alves esperou que ella
desapparecesse e saiu. A moa, entretanto, ficou irritada por nada lhe
ter respondido, sendo verdade que nada achou nem acharia talvez que lhe
responder; mas arrependeu-se e pensou longo tempo naquillo.

Quer dizer que o amava? Quer dizer que estava prestes a isso. A
arraiada branqueava o ceu, tingiria depois o cimo dos montes,
entornar-se-hia emfim pela encosta abaixo, at apparecer o sol,--o sol
contemporaneo de Ado, e do ultimo homem que hade vir.

Dalli a dias, entrando Luiz Alves em casa da baroneza, teve a boa
fortuna de encontrar a moa sosinha, na sala do trabalho, d'onde a
baroneza se ausentra cinco minutos antes. Mrs. Oswald achava-se fra.
Era a hora da tardinha; o dia estava prestes a afogar-se no seio da
noite.

Guiomar, mollemente sentada n'uma cadeira baixa, tinha um livro aberto
sobre os joelhos e os olhos no ar. Luiz Alves sorprehendeu-a nessa
attitude meditativa, mais bella do que nunca, porque assim, e quella
hora, e com o vestido meio escuro que lhe realava a cr de leite da
face, tinha um qu de gracioso e severo, ao mesmo tempo, que parecia
buscado de proposito para recebe-lo.

--Minha madrinha j vem, disse Guiomar logo depois de lhe estender a
mo, que elle apertou e sentiu um pouco tremula.

--Talvez daqui a cinco minutos, disse elle;  bastante para decidir o
meu destino. Duas vezes lhe perguntei se me perdoara; pela terceira lhe
peo que me responda; custa pouco uma unica palavra; custa menos ainda,
um unico gesto.

A moa olhou algum tempo para o livro que tinha diante de si. A manh,
porem, era j alta no corao de Guiomar, a claridade intensa, o sol
quente e vivo, por que ella no olhou muito tempo para o livro, nem
hesitou mais do que era natural e exigivel naquella occasio. Dous
minutos depois fez o gesto, um gesto s, mas ainda mais eloquente do
que se ella falasse,--estendeu-lhe a mo.

Luiz Alves apertou-lh'a entre as suas.

A commoo era natural em ambos; alli estiveram alguns instantes
calados, elle com os olhos fitos nella, ella com os seus no cho. As
mos tocavam-se e os coraes palpitavam unisonos. Decorreram assim
cinco breves minutos. Ella foi a primeira que rompeu o silencio.

--Um gesto, um s gesto, e  o meu destino que lhe entrego com elle,
disse Guiomar olhando em cheio para o moo.

--Ainda no. Se os nossos destinos se ligarem, estou convencido de que
o meu amor, pelo menos, ter a virtude de a tornar feliz. Mas nada est
feito ainda, e se eu fui breve e apressado na confisso, no o desejo
ser na consagrao que lhe peo.

Luiz Alves calara-se; a moa olhava para elle como buscando entende-lo.

--Sim, continuou elle; melhor  que no ceda a um instante de
enthusiasmo. Minha vida  sua; todo o meu destino est nas suas mos...
Comtudo, no quero sorprehender-lhe o corao neste momento; no dia em
que me julgar verdadeiramente digno de ser seu esposo, ouvi-la-hei e
seguila-hei.

A resposta da moa foi apertar-lhe as mos, sorrir, e embeber os seus
olhos nos delle. O passo da baroneza interrompeu esta contemplao.

Guiomar amava deveras. Mas at que ponto era involuntario aquelle
sentimento? Era-o at o ponto de lhe no desbotar  nossa heroina a
castidade do corao, de lhe no diminuirmos a fora de suas faculdades
affectivas. At ahi s; dahi por diante entrava a fria eleio do
espirito. Eu no a quero dar como uma alma que a paixo desatina e
cega, nem faze-la morrer de um amor silencioso e timido. Nada disso
era, nem faria. Sua natureza exigia e amava essas flores do corao,
mas no havia esperar que as fosse colher em sitios agrestes e nus, nem
nos ramos do arbusto modesto plantado em frente de janella rustica.
Ella queria-as bellas e viosas, mas em vaso de Svres, posto sobre
movel raro, entre duas janellas urbanas, flanqueado o dito vaso e as
ditas flores pelas cortinas de cachemira, que deviam arrastar as pontas
na alcatifa do cho.

Podia dar-lhe Luiz Alves este genero de amor? Podia; ella sentiu que
podia. As duas ambies tinham-se adivinhado, desde que a intimidade
as reuniu. O proceder de Luiz Alves, sobrio, directo, resoluto, sem
desfallecimentos, nem demasias ociosas, fazia perceber  moa que elle
nascera para vencer, e que a sua ambio tinha verdadeiramente azas,
ao mesmo tempo, que as tinha ou parecia tel-as o corao. Demais, o
primeiro passo do homem publico estava dado; elle ia entrar em cheio
na estrada que leva os fortes  gloria. Em torno delle ia fazer-se
aquella luz, que era a ambio da moa, a atmosphera, que ella
almejava respirar. Estevo dera-lhe a vida sentimental,--Jorge a vida
vegetativa; em Luiz Alves via ella combinadas as affeies domesticas
com o ruido exterior.

Uma vez entendidos,  difficil que dous coraes se encubram, pelo
menos aos olhos mais sagazes. Os de Mrs. Oswald eram dos mais finos.
A ingleza percebeu dentro de pouco tempo que entre elles havia alguma
cousa. Interrogar a moa era inutil, sobre perigoso; seria ir, de
corao leve, em busca de odio, talvez. Todavia se ainda fosse possivel
salvar tudo? Guiomar resistiria difficilmente a um desejo de madrinha;
era possvel vencel-a por esse lado.

Mrs. Oswald concebeu ento um projecto insensato, que lhe pareceu alis
excellente e de bom aviso. O desejo de servir a baroneza e levar uma
ideia ao fim tapou-lhe os olhos de razo. Ella foi directamente a Jorge.

--Sabe o que me est parecendo? disse ella. Parece-me que ha mouro na
costa.

--Mouro na costa! exclamou Jorge com uma tal expresso de desgosto, que
era facil comprehender o fundo de suspeita j existente em seu espirito.

--Nada menos, disse a ingleza; mas um mouro que se pde capturar.

E a ingleza expoz um plano completo que o sobrinho da baroneza ouviu um
tanto perplexo. O plano consistia em ir Jorge pedir a moa  baroneza,
em presena della propria. A baroneza, que nutria o desejo de os ver
casados, no deixaria de fazer pezar o seu voto na balana, e era muito
difficil que a gratido de Guiomar no decidisse am favor de Jorge.

--A gratido... e o interesse, continuou ella; Devemos contar tambem
com o interesse, que  um grande conselheiro intimo. Ella no ha de
querer sacrificar a affeio da madrinha, que para ella vale...

--Oh! que triste lembrana! interrompeu Jorge, recuando diante da ideia
de Mrs. Oswald.

A ingleza sorriu,--e deixou por mo aquelle argumento; firmou-se porm
no da affeio. Guiomar no se opporia a um desejo da madrinha; era
urgente dar-lhe o golpe. Jorge no se atrevia a sorprehender por esse
meio a acquiescencia da moa; mas acreditava na efficacia delle, e
sobretudo receiava perder a causa. Uma vez que a vencesse, tudo podia
confiar do tempo e do seu amor.

O conselho foi seguido pontualmente. De noite, em presena da
baroneza  hora da despedida,--porque elle hesitara a maior parte do
tempo,--praticou Jorge aquelle acto insensato de declarar  moa que a
amava e de lhe pedir a mo. A tia sorriu de contentamento, mas teve a
prudencia de no proferir nada emquanto Guiomar, empallidecendo, nada
dizia, porque nada achava que dizer.

O silencio durou cerca de tres e quatro minutos, um silencio acanhado
a vexado, em que nenhum delles se atrevia a reatar a conversao.
A baroneza, pela sua parte, imaginava que os dous estavam emfim
entendidos, e que a declarao era autorisada pela moa. O enleio de
Guiomar no era dos que podessem dar cabimento a esta supposio; mas a
boa senhora via com os olhos dos seus bons desejos.

--Pela minha parte, declarou emfim a baroneza, no me opponho;
estimaria muito que acabassem por ahi. Mas  negocio do corao; devo
esperar a resposta de Guiomar.

E voltando-sa para a afilhada:

--Pensa e resolve, minha filha, disse ella; e se fores feliz, sel-o-hei
ainda mais do que tu.

Duas vezes pairou a negativa nos labios da moa; mas a lingua no se
atrevia a repellir a palavra do corao. No fim de alguns instantes:

--Reflectirei, respondeu ella beijando a mo a madrinha; e continuou
voltando-se para Jorge:--Boa noite! At amanh.




XVI


A confisso.


Na mesma noite em que Jorge, cedendo s suggestes de Mrs. Oswald,
tentava o ultimo recurso que no intender da ingleza havia, achava-se
Luiz Alves em casa, commodamente sentado n'uma poltrona de couro,
defronte da janella com os olhos no mar e o pensamento nas suas duas
candidaturas vencidas. Meia noite estava a pingar; uma pessoa descia de
um tibury e batia-lhe  porta.

Era Estevo.

Luiz Alves naturalmente admirou-se de o ver alli quella hora; mas
Estevo explicou-lhe tudo.

--Venho passar meia hora comtigo, ou a noite toda se quizeres. Estava
em casa aborrecido, a pensar... bem sabes em que...

--Nella? interrompeu Luiz Alves.

--Agora e sempre.

Luiz Alves torceu o bigode, e olhou tres ou quatro vezes para o
collega, em quanto este tirava o chapeu e dispunha-se a ir buscar uma
cadeira para sentar-se ao p do outro.

--Estevo, disse Luiz Alves depois de algums instantes de reflexo, e
voltando a poltrona para dentro, ouve-me primeiro e resolvers depois
se ficas a noite ou se te vs embora immediatamente. Talvez escolhas
este ultimo alvitre.

--Vs falar-me de Guiomar?

--Justamente.

Estevo sentou-se defronte de Luiz Alves. Seu corao batia appressado;
dissera-se que toda a sua vida pendia dos labios do amigo. Houve um
instante de silencio.

--Nenhuma.... nenhuma esperana ento? murmurou Estevo.

--Disseste a fatal palavra! exclamou Luiz Alves. Sim, no tens nenhuma
esperana.

--Mas.... como sabes?

--No me interrogues; eu no poderia dizer-te tudo o que ha. Poupa-me,
ao menos, esse triste dever.

Estevo sentiu arrasarem-se-lhe os olhos d'agua. Quiz falar, mas as
palavras iam-lhe saindo envoltas em soluos.

Luiz Alves fumava tranquillamente, acompanhando com os olhos os
rolinhos de fumo que lhe fugiam da ponta do charuto. Este silencio
durou cerca de dez minutos. O mar batia compassadamente na praia. A voz
da onda e o latido de um co ao longe eram os unicos sons que vinham
quebrar a mudez daquella hora solemne para um desses dous homens que ia
perder at o repouso da esperana.

Estevo foi o primeiro que falou:

--Ama a outro, no ? perguntou elle com a voz tremula.

--Ama, respondeu surdamente Luiz Alves.

Estevo ergueu-se e deu alguns passos na sala, sem dizer palavra, a
morder a ponta do bigode, parando s vezes, outras traduzindo com um
gesto desordenado os sentimentos que lhe tumultuavam no corao. A dor
devia ser grande, mas a manifestao j no era a mesma que o leitor
lhe viu, dous annos antes, quando elle foi confiar ao amigo o primeiro
desengano de Guiomar.

--Parece-me que eu adivinhava isto mesmo, disse elle, emfim, parando
em frente de Luiz Alves. Este desejo que me accometteu de vir aqui, a
este hora, sem certeza de encontrar-te, era mais um beneficio do meu
destino. Devia esperal-o. Que vida tem sido a minha, Luiz! Agarrei-me,
nem sei por que,  esperana de ser amado por ella, de a vencer pela
piedade, ou pelo remorso, ou por qualquer outro motivo que fosse,--o
motivo importava pouco... O essencial  que ella me pagasse em ternura
e amor todas as dores que curti, as lagrimas todas que tenho devorado
em silencio... E era so essa esperana que ainda me dava foras... que
me fazia crer feliz, como pode sel-o um desgraado, como podia sel-o
eu, que nasci debaixo de ruim estrella.... Oh! se tu souberas... No,
no sabes, nem ella tambem, ninguem sabe nem saber nunca tudo quanto
tenho padecido, tudo quanto....

Interrompeu-se. Duas lagrimas, espremidas do fundo do corao,
saltaram-lhe dos olhos e desceram-lhe rapidas a perder-se entre os
cabellos raros e finos da barba. Elle sentiu que outras podiam vir, e
foi sentar-se n'um soph, meio voltado de costas para Luiz Alves. As
outras vieram, porque o corao ainda as tinha para as dres supremas;
mas correram-lhe silenciosas, sem um soluo, sem uma queixa unica.

Luiz Alves lavantara-se e chegara  janella. Seu espirito, apezar de
frio e quieto, parecia agora um pouco alvoroado. No era dor; e no
sei se lhe podia chamar remorso. Mau-estar apenas, e commiserao.
O corao era capaz de affeies; mas, como ficou dito no primeiro
capitulo, elle sabia rege-las, modera-las e guia-las ao seu proprio
interesse. No era corrupto nem perverso; tambem no se pde dizer
que fosse dedicado nem cavalheresco; era, ao cabo de tudo, um homem
friamente ambicioso.

Estevo levantara-se outra vez e pegara no chapeu.

--Vem c, disse Luiz Alves entrando e indo ter com elle; vejo que ests
mais homem do que antes. Resta o que sejas completamente; varre da
memoria e do corao tudo o que possa referir-se...

--Que remedio! interrompeu Estevo sorrindo amargamente; que remedio
tenho eu se no esquece-la! Mas quando?

--Mais breve talvez do que suppes...

Luiz Alves no acabou; Estevo olhara para elle com um gesto de espanto
e fora sentar-se outra vez.

--Mais breve do que supponho! exclamou elle. Tu no tens corao: no
tens sequer observao nem memoria. No vs, no sentes que esta paixo
 o sangue do meu sangue, a vida da minha vida? Esquece-la! Era bom
se eu a pudesse esquecer; mas a minha m sina at essa esperana me
arranca, porque este padecer intimo, constante, ha de ir commigo at 
morte...

Desta vez era Luiz Alves que passeava de um lado para outro. Em seu
espirito despontava uma ideia, que elle examinava, a ver se a poria
alli mesmo em execuo. Era dizer-lhe tudo. Estevo viria a sabel-o
mais tarde; melhor era que o soubesse logo e por elle. Ao mesmo tempo
reflectia na exaltao dos sentimentos do rapaz; a dor certamente se
lhe aggravaria, em sabendo que era elle o preferido de Guiomar. O
corao, que perdoaria a um extranho, condemnaria ao amigo.

Estevo, assentado, com os olhos no tecto, parecia entregue s suas
reflexes, mas s parecia, por que elle no pensava, evocava antigas
memorias, fazia surgir diante de seus olhos a figura gentil de Guiomar,
sentia-lhe o imperio dos bellos olhos castanhos, ouvia-lhe a palavra
doce e avelludada entornar-se-lhe no corao. No evocava s, creava
tambem, pintava com a imaginao a felicidade que lhe poderia dar a
moa, se entre todos os homens o escolhera, se elles dous vinculassem
os seus destinos. Elle via-a ao p de si, cingia-lhe o brao em volta
da cintura, enchia-lhe de beijos os cabellos, tudo isto em meio de uma
paisagem unica na terra, porque a abundancia da natureza cresceria ao
contacto daquelle sentimento puro, casto e eterno. No falo eu, leitor;
transcrevo apenas e fielmente as imaginaes do namorado; fixo nesta
folha de papel os vos que elle abria por esse espao fra, unica
ventura que lhe era permittida.

No meio dessas vises foi accordal-o Luiz Alves.

--Tens razo de sentir, disse este; mas no gastes o corao, que ha
maiores sorpresas na vida... Em todo o caso, deixa-me dizer-te que
nenhuma razo tens de censura...

--Censuro eu algum?

--Ha no amor um germen de odio que pde vir a desenvolver-se depois.
Talvez chegues a accusala de te no querer; nesse dia reflecte que os
movimentos do corao no esto nas mos da vontade. Ella no tem culpa
se outro lhe despertou o amor.

--Ah! incumbiu-te da defesa!

Luiz Alves sorriu; elle contava com a recriminao.

--No, no me incumbiu da defesa, disse elle; sou eu que a tomo por
minhas mos. Que defendo eu aqui se no a natureza, a razo, a logica
dos sentimentos, dura e inflexivel como toda a outra logica? Ha no
fundo das tuas palavras um sentimento de egoismo...

--O amor no  outra cousa, respondeu Estevo sorrindo por sua vez.
Queres que inda em cima lhe agradea este desespero? Queres que v
apertar a mo ao homem que a soube vencer?

Luiz Alves mordeu a ponta do labio e acercou-se da janella. Quando ia
a voltar para dentro ouviu um rumor na janella ao p, a primeira da
casa da baroneza. Luiz Alves deu um passo mais. No viu ninguem; viu
apenas o resto de um vestido que fugia e um objecto que lhe caia aos
ps. Inclinou-se a apanhal-o. Era uma grande folha de papel envolvendo,
para lhe dar mais peso, outra folha pequena dobrada em quarto. Luiz
Alves aproximou-se da luz, e leu rapidamente o que alli vinha escripto.
Leu, metteu o papel na algibeira e encaminhou-se disfaradamente para a
janella. Ninguem; a casa da baroneza dormia.

Quando voltou para dentro, Estevo tinha-se levantado. Elle vira cair
o papel, apanhal-o e lel-o Luiz Alves. No entendeu nada do que se
passara; mas seu olhar como que pedia uma explicao.

Luiz Alves foi direito ao fim.

--Estevo, disse elle, vs saber a verdade toda; no poderia
occultar-te o que se ha passado, nem conviria talvez que tu a soubesses
por boca de outro. Guiomar podia amar-te, eras digno della, e ella
digna de ti; mas a natureza no os fez um para o outro. So duas almas
excellentes que seriam infelizes unidas. Quem ha aqui que censurar?
Mas se a natureza explica o sentimento della, egualmente explica o de
um terceiro, que sou eu. Tu confiaste-me as dores e as esperanas de
teu corao; era conhecer toda a minha amisade e a profunda estima que
sempre te consagrei. Mas nem tu nem eu contavamos commigo; por que
tambem eu tenho corao, e os prestigios da belleza tambem falam 
minha alma. No a pude ver a frio. A paixo obscureceu-me. Nesta minha
felicidade de amar e ser amado, acredita que sou alguma cousa infeliz,
por que ha lagrimas tuas, ha o teu padecer longo e cruel, que eu
imagino e deploro. A confisso  franca; no te falo em arrependimento,
porque so actos do corao e no da conscincia, que essa  pura e
honrada. E depois desta exposio fiel, cuido que lastimars commigo o
encontro em que o acaso ou a m sorte nos reuniu a todos tres; mas no
me accusars nem me recusars a tua velha estima. Falo s da estima; a
amisade, creio que no poder ser a mesma. Mas presars o meu caracter.
Pela minha parte, nem uma nem outra cousa perece; sei o que vales. No
sei aonde nos lanar a onda do destino amanh. Pela ultima vez, porm,
espero que apertars a mo do teu amigo.

Luiz Alves conclura estendo-lhe a mo. Estevo olhou para elle, mas
no disse uma s palavra, no fez um gesto unico: caminhou para a porta
e saiu.

--Estevo! gritou Luiz Alves.

Mas s lhe respondeu o rumor dos ps que desciam, e pouco depois o do
tilbury que rolava surdamente na terra humida da praia.

Luiz Alves levantou seccamente os hombros; chegou-se  luz e releu o
escripto.




XVII


A carta.


No era preciso reler o papel para entendel-o; mas olhos amantes
deliciam-se com letras namoradas. O papel continha uma palavra
unica:--_Pea-me_,--escripta no centro da folha, com uma lettra fina,
elegante, feminina. Luiz Alves olhou algum tempo para o bilhete,
primeiramente como namorado, depois como simples observador. A lettra
no era tremula, mas parecia ter sido lanada ao papel em hora de
commoo.

Desta observao passou Luiz Alves a uma reflexo muito natural.
Aquelle bilhete, pouco conveniente em quaesquer outras circumstancias,
estava justificado pela declarao que elle proprio fizera  moa
alguns dias antes, quando lhe pediu que o conhecesse primeiro, e que
no dia em que o julgasse digno de o tomar por esposo, elle a ouviria e
acompanharia. Mas se isto era assim em relao ao bilhete, no o era em
relao  hora. Que motivo obrigaria a moa a deitar-lhe da janella, 
meia noite, aquelle papel decisivo, eloquente na mesma sobriedade com
que o escrevra?

Luiz Alves concluiu que havia alguma razo urgente, e portanto, que
era preciso acudir  situao com os meios da situao. Quanto  razo
em si, no a pde descobrir. Occorreu-lhe o facto, alis patente, da
crte que o sobrinho da baroneza fazia a Guiomar, mas ignorava as
circumtancias que lhe eram relativas, e no pde passar alm.

No direi que Luiz Alves gastasse a noite a cavar fundo no terreno das
conjecturas vagas. No era homem que perdesse tempo em cousas inuteis;
e nada mais intil naquella occasio do que tentar explicar o que
nenhuma explicao podia ter para elle. O que resolveu foi obedecer
ao recado da moa; pedi-la sem hesitao nem preambulo. Mas se o caso
lhe no produziu insomnia, no deixou de lhe estender a vigilia, alm
da hora usual, como era de geito naquella occasio solemne, sobretudo,
tratando-se de creatura que por aquelles tempos era a inveja e a
cobia de muitos olhos. Luiz Alves no era, como Estevo, um adoravel
scismador, no se nutria de imaginaes e devaneios, alimento que
funde pouco ou nada, mas scismou algum tempo, embebeu-se uma hora
na contemplao ideial da mulher que elle soubera escolher. O somno
chegou, e o devaneio confundiu-se com o sonho.

Guiomar dormiria to repousadamente como elle? Dormia; a noite, porm,
fora-lhe muito mais agitada e amarga, como era natural depois da
declarao de Jorge e das insinuaes da madrinha.

A moa recolhera-se ao quarto, logo depois da declarao. As pessoas
da casa nada puderam ler-lhe no rosto, salvo a pallidez repentina e o
rubor que se lhe seguiu: mas, logo que ella se achou s, deu toda a
expanso aos sentimentos que at alli pudera conter.

O primeiro delles era o despeito; Guiomar sentia-se humilhada com
aquella declarao, assim feita, de emboscada e sobresalto, para
arrancar-se-lhe um consentimento que o corao e a indole repelliam.
Nenhuma consulta, nenhuma autorisao prvia; parecia-lhe que a
tratavam como ente absolutamente passivo, sem vontade nem eleio
propria, destinado a satisfazer caprichos alheios. As palavras da
madrinha desmentiam esta supposio; mas, a noticia que ella tinha
da resoluo da baroneza, neste negocio, diminuia muito o valor de
taes palavras. Se era uma campanha, como dissera Mrs. Oswald, queriam
constrangel-a com apparencias de moderao, e o tempo que lhe deixavam
para reflectir era-o realmente para considerar, sosinha comsigo, na
necessidade de pagar os benefcios que recebra.

No a accusem de ter feito estas reflexes, logo que entrou no quarto,
com os olhos scintillantes e os labios frios de colera. Eram naturaes;
primeiramente porque suppunha que o seu casamento com Jorge estava
deliberado e se realisaria, quaesquer que fossem as circumstancias;
depois, porque a alma della era melindrosa; no esquecia os beneficios
recebidos, mas quizera que lh'os no lembrassem por meio de uma
violencia: fazel-o, era o mesmo que lanar-lh'os em rosto.

--No! murmurava emfim a moa, forar-me, reduzir-me  condio de
simples serva, nunca!

Mas esta colera apaziguou-se, e o corao venceu o corao. Guiomar
recordou a constante ternura da baroneza para com ella, a sollicitude
com que lhe satisfazia os seus menores desejos, que eram alli ordens,
e no combinava tamanho amor com a supposta violencia que lhe queria
fazer. No tardou em arrepender-se das palavras incoherentes que lhe
haviam fugido, e dos sentimentos maus que attribura ao corao da
baroneza. Cruzou as mos no peito e ergueu o pensamento ao ceu, como a
pedir-lhe perdo. Guiomar, em meio das seduces da vida, que tantas
eram para ella e de todo lhe levavam os olhos, no perdera o sentimento
religioso, nem esquecera o que lhe havia ensinado a f ingenua e pura
de sua me.

A clera acabra, mas veiu depois a luta entre a gratido e o
amor,--entre o noivo que lhe propunha a affeio da madrinha e o que
o seu proprio corao escolhera. Ella nem ousava tirar as esperanas
 baroneza, nem immolar as suas proprias,--e uma de duas cousas era
preciso que fizesse naquella solemne occasio. O que sentiu e pensou
foi longo e cruel; mas se tal duello podia travar-se-lhe na alma,
no era duvidoso o resultado. O resultado devia ser um. A vontade e
a ambio, quando verdadeiramente dominam, podem lutar com outros
sentimentos, mas ho de sempre vencer, porque ellas so as armas do
forte, e a victoria  dos fortes. Guiomar tinha de decidir por um dos
dous homens que lhe propunha o seu destino; elegeu o que lhe falava ao
corao.

A resposta, porm, no podia a moa demoral-a nem esquival-a, no
convinha, talvez, prolongar a luta e a duvida. Quando isto pensou,
veiu-lhe ao espirito uma ideia decisiva, a de confessar tudo 
madrinha. Hesitou, porm, entre fazel-o ella propria ou por boca
de Luiz Alves, cujas palavras, apontadas acima trazia escriptas na
memoria. Preferia este meio; mas no lhe bastava preferil-o, era mister
realisal-o, e para isso s dous modos tinha, escrever-lhe ou falar-lhe.
O segundo podia no ser to prompto, e talvez falhasse occasio
apropriada; adoptou o primeiro, e recuou logo. A carta seria mandada
por um famulo, mas o espirito de Guiomar era a tal ponto sobre si que
repelliu semelhante interveno. A janella estava aberta; dalli viu luz
na sala de Luiz Alves e a sombra do moo, que passeava de um lado para
outro. Occorreu-lhe ento a ideia que poz por obra, conforme ficou dito
no capitulo anterior.

Tal  a historia daquella palavra escripta rapidamente n'uma folha
de papel. Apesar da declarao de Luiz Alves e das circumstancias
em que a moa se achou, o leitor facilmente comprehender que ella
no a escreveu sem pelejar comsigo mesma, sem vacillar muito entre a
repugnancia e a necessidade. Afinal foram vencidos os escropulos, que 
tanta vez o seu destino delles, e fora  dizer que no os vencem nunca
de graa, porque elles falam, arrazoam, obstam o mais que podem, mas
 vulgar passarem-lhes por cima. A moa entretanto, apenas lanara a
carta, arrependeu-se; a dignidade teve remorsos; a conscincia quasi a
accusava de uma aco vil. Era tarde; a carta chegra a seu destino.

Na manh seguinte, a baroneza acordou mais alegre que de costume.
Cuidara ver em Guiomar, na noite anterior, alguma cousa que s lhe
pareceu enleio natural da situao. Guiomar erguera-se tarde; a
manh estava chuvosa e a madrinha no deu o seu passeio. A moa foi
beijar-lhe a mo e a face, como costumava, e receber della o osculo
materno. O rosto parecia canado mas um veu de affectada alegria
disfarava-lhe a expresso natural,  semelhana das posturas de
toucador, de maneira que a baroneza, pouco ledora de physionomias, no
discerniu naquella a verdade da impostura. Impostura, digo eu, devendo
entender-se que  honesta e recta, porque a inteno da moa no era
mais do que no amargurar a madrinha, e tirar-lhe motivo a qualquer
afflico antecipada.

--Dormiu bem a minha rainha de Inglaterra? perguntou Mrs. Oswald,
pondo-lhe familiarmente as mos nos hombros.

--A sua rainha de Inglaterra no tem coroa, respondeu Guiomar comum
sorriso contrafeito.

Pela volta do meio dia, recebeu a baroneza uma carta de Luiz Alves.
Abriu-a e leu-a. O advogado pedia-lhe a mo de Guiomar. Poucas linhas,
cortezes, simplices, naturaes, feitas por quem parecia senhor da
situao.

--Mrs. Oswald, disse a baroneza  sua dama de companhia que se achava
na mesma sala, leia isto.

A ingleza obedeceu.

--Isto no quer dizer nada, observou ella depois de alguns instantes. 
um pretendente mais; devemos crer, porm, que so muitos, e que se os
outros no lhe escrevem cartas destas,  por que so menos affoutos.
A Sra. baroneza pensa que os olhos de sua afilhada so innocentes?
continuou a ingleza sorrindo. Eu cuido que devem estar carregados de
crimes, e que ha mortos...

--Mas no v, Mrs. Oswald, interrompeu a baroneza, que esse homem
parece estar autorisado?

Mrs. Oswald calou-se como quem reflectia. Logo depois expoz uma serie
de argumentos e consideraes, se no graves em substancia, pelo menos
nas roupas com que ella os vestia, umas roupas seriamente britannicas,
como as no talharia melhor a melhor tesoura da camara dos communs.
Toda ella dava ares de um argumento vivo e sem rplica. Havia em seus
cabellos, entre louro e branco, toda a rigidez de um syllogismo; cada
narina parecia uma ponta de um dilemma. A concluso de tudo  que
nada estava perdido, e que a felicidade de Jorge era cousa no s
possivel, mas at provavel, uma vez que a baroneza mostrasse,--era o
essencial,--certa resoluo de animo muito util e at indispensavel
naquella occasio. Mrs. Oswald offerecia-se para ir chamar a moa
immediatamente.

--Pois v, v, disse a baroneza.

A ingleza saiu d'alli e foi ter com Guiomar. Quando a viu de longe
compoz um sorriso, e Guiomar, vendo-a sorrir, sentiu como que um
movimento interno de repulsa.

--Venho buscal-a, disse Mrs. Oswald, para uma cousa que a senhora est
longe de imaginar.

Guiomar interrogou-a com olhos.

--Para casar!

--Casar! exclamou Guiomar sem comprehender a inteno da mensageira.

--Nada menos, respondeu esta. Admira-se, no? Tambem eu; e sua madrinha
egualmente. Mas ha quem tenha o mau gosto de apaixonar-se por seus
bellos olhos, e a affronta de a vir pedir, como se se podissem as
estrellas do ceu...

Guiomar comprehendeu de que se tratava. Olhou desdenhosamente para a
ingleza, e disse em tom secco e breve:

--Mas, conclua, Mrs. Oswald.

--A senhora baroneza manda chamal-a.

Guiomar dispoz-se a ir ter com a madrinha; Mrs. Oswald fel-a parar um
instante, e com a mais meliflua voz que possuia na escala da garganta,
disse:

--Toda a felicidade desta casa est em suas mos.




XVIII


A escolha.


Mrs. Oswald tinha falado de mais. A baroneza no a incumbira de dizer 
afilhada a razo porque a mandava chamar. Aconteceu, porm, que aquella
indisrio no foi a unica. Mrs. Oswald, em vez de esquivar-se e
deixar que entre Guiomar e a baroneza fosse tratado o assumpto que as
ia reunir, cedeu  curiosidade, e acompanhou a moa.

A baroneza estava sentada, entre duas janellas, com a carta aberta nas
mos, to attenta em relel-a, que no ouviu o rumor dos ps de Guiomar
e de Mrs. Oswald.

--Madrinha chamou-me? perguntou Guiomar parando em frente della.

A baroneza ergueu a cabea.

--Ah!  verdade; sim; chamei-te. Senta-te aqui.

Guiomar arrastou a cadeira que ficava mais proxima e sentou-se ao p
da baroneza. Esta, entretanto, havia dobrado lentamente a carta, e
tinha os olhos no cho, como a procurar por onde comearia. Quando os
levantou deu com a ingleza. Ia j a falar, mas estacou. A affeio que
lhe tinha no impediu que achasse demasiada familiaridade a presena de
Mrs. Oswald em semelhante occasio. Esperou alguns instantes; mas como
a ingleza parecesse inteiramente distrahida:

--Mrs. Oswald, disse a baroneza, v ver se ja deram de comer aos
passarinhos.

A ingleza percebeu que estes passarinhos, naquelle caso, eram uma
pura metaphora, e que a baroneza nada mais fazia do que pedir-lhe
delicadamente que se fsse embora. Todavia, no se deu por achada.

--Parece-me que no, disse ella; vou j saber disso.

--Olhe, disse a baroneza quando ella j ia a meio caminho; encoste-me
essas portas, e d ordem para que ninguem nos interrompa.

A ingleza obedeceu e saiu. A careta que fez ao sair ninguem lh'a pde
ver, e no se perdeu nada.

As duas ficaram ss.

--Senta-te aqui, Guiomar, disse a baroneza indicando um banquinho que
lhe ficava aos ps.

Guiomar deixou a cadeira e foi sentar-se no banquinho, pousando
amorosamente os braos nos joelhos da madrinha. Esta cingiu-lhe a
cabea com as mos, e assim esteve longo tempo sem falar, mas eloquente
naquella mudez, em que a palavra pertencia ao corao. Ambas estavam
commovidas; e Guiomar, de envolta com um suspiro, murmurou este unico e
doce nome:

--Mame!

Era a primeira vez que ella lhe dava este nome, e to fundo lhe calou
na alma  baroneza que a resposta foi cobril-a de beijos.

--Sim, tua me, disse a madrinha; a que te deu o ser no te amaria mais
do que eu. Tens a alma e a ternura da filha que o ceu me levou, e se
todas as mes que perdem filhos podessem substituil-os do mesmo modo,
desapparecia do mundo a maior e mais cruel dor que ha nelle...

A resposta de Guiomar foi apertar-lhe as mos e beijar lh'as. Seguiu-se
uma pausa, em que a commoo a pouco e pouco desappareceu, e a baroneza
olhou para a carta de Luiz Alves, amarrotada pelo gesto de Guiomar.

--Guiomar, disse ella emfim, j reflectiste no pedido de hontem  noite?

A moa esperava que a madrinha lhe falasse no pedido de Luiz Alves; a
pergunta da baroneza desnorteou-a um pouco. Sua intelligencia, porm,
era clara e sagaz; a resposta foi outra pergunta:

--Uma noite ser bastante para decidir de todo o resto da vida? disse
ella sorrindo.

--Tens razo, minha filha; mas a pergunta era natural da parte de quem
quer ver realizado um desejo. Jorge pediu-te em casamento. Sabes que 
um excellente caracter?

--Excellente, respondeu a moa.

--Uma boa alma, continuou a baroneza, e um moo distincto. Parece
gostar muito de ti, segundo disse hontem, no?  natural; s me admira
que no te amem muitos mais.

A baroneza parou; Guiomar brincava com as franjas da manga sem se
atrever a levantar os olhos.

--Deves saber, continuou a baroneza,--que eu estimaria ver que este
casamento se effectuasse; estou convencida de que te faria feliz, e
a elle tambm, pelo menos tanto quanto  possivel julgar das cousas
presentes... Que diz o teu corao?

E como Guiomar no respondesse logo:

--Ah! esquecia-me do que me disseste ha pouco. Uma noite no  bastante
para decidir de todo o resto da vida. Bem; ouvir-me-has mais duas
cousas. A primeira  que... L tu mesma esta carta.

A baroneza deu a carta a Guiomar, que a abriu e leu o pedido que Luiz
Alves fazia de sua mo. Em quanto ella percorria com os olhos as poucas
linhas escriptas, a madrinha parecia observa-la fixamente, como a
tentar ler-lhe no rosto a impresso que o pedido lhe fazia, se espanto,
se satisfao. No houve espanto nem satisfao apparente; Guiomar leu
a carta e entregou-a  madrinha.

--Leste?  a primeira cousa que eu queria dizer-te. O Dr. Luiz Alves
pede-te em casamento; tens de escolher entre elle e Jorge. A segunda
cousa  que dos dous pretendentes Jorge  o que meu corao prefere;
mas no sou eu que me caso, s tu; escolhe com plena liberdade aquelle
que te falar ao corao.

Guiomar erigiu o busto e olhou direitamente para a madrinha, com taes
signaes de espanto no rosto, que esta no poude deixar de lhe perguntar:

--Que tens?

A moa no respondeu; quero dizer no lhe respondeu com os labios;
travou-lhe da mo e apertou-a entre as suas, e ficou a olhar para
ella como a reflectir. A expresso de seu rosto passara do espanto 
satisfao e desta a uma cousa que parecia a um tempo indignao e asco.

--Oh! madrinha! exclamou Guiomar, porque se no entenderam logo os
nossos coraes? No havia mister pr de permeio um espirito importuno
e desconsolador. Se eu advinhara essas palavras que acabou de dizer,
no teria padecido metade do que me fazem padecer ha longos dias...

--Padecer?

--Padecer; nada menos. Mas deixemos isso. Foi o seu corao que falou
e o meu que ouviu; posso agora dizer-lhe francamente o que sinto, sem
receio de a affligir.

No precisava dizer mais nada; a escolha que ella ia fazer estava
j indicada pelo menos. Entendeu-o a baroneza, que fechou o rosto e
suspirou. A afilhada ouviu-lhe o suspiro, e percebeu a tristeza subita;
arrependeu-se de ter ido to longe.

--Percebo, respondeu a baroneza, queres dizer que dos dous pretendentes
escolhes o Dr. Luiz Alves?

A moa conservou-se calada; a madrinha olhava para ella com uma
expresso de anciedade que a affligiu.

--Fala, repetiu a baroneza.

--Escolho... o Sr. Jorge, suspirou Guiomar depois de alguns instantes.

A baroneza estremeceu.

--Falas serio? No creio; no  esse o sentimento do teu corao. V-se
que no . Queres illudir-me e a ti tambm. Percebo que o no amas; no
o amaste nunca. Mas amas ao outro, no ? Que tem isso? No me d o
prazer que eu teria se... Que importa, se fores feliz? A tua felicidade
est acima das minhas preferencias. Era um sonho meu; desejava-o com
todas as foras; faria o que pudesse para alcanal-o; mas no se
violenta o corao,--um corao, sobretudo, como o teu! Escolhes o
outro? Pois casars com elle.

V o leitor que a palavra esperada, a palavra que a moa sentia vir-lhe
do corao aos labios e querer rompel-os, no foi ella quem a proferiu,
foi a madrinha; e se leu attento o que precede ver que era isso mesmo
o que ella desejava. Mas porque o nome de Jorge lhe roou os lbios?
A moa no queria illudir a baroneza, mas traduzir-lhe infielmente
a voz de seu corao, para que a madrinha conferisse, por si mesma,
a traduco com o original. Havia nisto um pouco de meio indirecto,
de tactica, de affectao, estou quasi a dizer de hipocrisia, se no
tomassem  m parte o vocabulo. Havia, mas isto mesmo lhes dir que
esta Guiomar, sem perder as excellencias de seu corao, era do barro
commum de que Deus fez a nossa pouco sincera humanidade; e lhes dir
tambem que, apezar de seus verdes annos, ella comprehendia j que as
apparencias de um sacrificio valem mais, muita vez, do que o proprio
sacrificio.

A baroneza acabra de falar. A alegria do rosto de Guiomar confirmou
a sua primeira impresso, e se a escolha era contraria ao que ella
desejava, a satisfao da afilhada pagou-lhe tudo quanto ella ira
perder. Era assim aquella alma de me; boa, dedicada e generosa.

--Oh! madrinha! obrigada! exclamou a moa. No me fica odiando?

--Oh! exclamou a baroneza com um tom de reprehenso.

E puxou-a para si, e abraou-a com amor. Guiomar correspondeu ao
movimento, e as duas confundiram as suas alegrias intimas e affeies
sinceras.

Mrs. Oswald viu-as dahi a pouco, risonhas e entendidas. Era facil
concluir qual dos dous pretendentes vencera; Guiomar no receberia de
to boa cara o sobrinho da baroneza. Tudo estava acabado; e talvez que
a sua propria pessoa padecra naquelle lance ultimo. A baroneza pedira
a Guiomar que lhe explicasse a que padecimentos alludra, mas a moa
preferiu no dizer nada, no s por no affligir a madrinha, como por
no dar um aspecto de rivalidade  situao entre ella e Mrs. Oswald.

A escolha estava feita, o consentimento dado. A baroneza respondeu
nessa mesma tarde ao pretendente feliz. Estevo teria manifestado
ruidosamente toda a alegria que semelhante resposta lhe causra; sua
alma apaixonada e exuberante contaria a Deus e aos homens aquella
immensa fortuna; Luiz Alves encerrou o prazer, alis grande, dentro de
si; pensou na moa e no futuro alguns instantes, mas no falou delles a
ningum.

A baroneza escreveu nesse mesmo dia ao sobrinho, communicando-lhe a
resposta de Guiomar. Os leitores no tero difficuldade de admittir que
o corao de Jorge no sentiu o golpe profundamente, mas sentiu alguma
cousa. No foi nessa noite  casa da tia; no foi tembem na segunda; na
terceira chegou a descer as escadas; na quarta embicou para Botafogo.

--Tudo est acabado, disse-lhe a tia verdadeiramente sentida.

--Acabado! suspirou Jorge.

--Agora,  preciso animo; espero que sers homem.

--Oh! serei homem! suspirou outra vez Jorge.

E dous suspiros, arrancados do peito de um homem to grave, deviam ser
por fora dous suspiros gravissimos, como facilmente acredita o leitor.

Effectivamente a physionomia do moo no tinha abatimento nem
afflico; no a amarrotava o menor vestigio de noite mal dormida,
menos ainda de lagrimas enxutas. Alegre no era, mas grave e austera,
como elle a trazia sempre, a contrastar com o retezado do bigode.

A baroneza imaginou comtudo que a dor do sobrinho devia te-lo
mortificado muito; apertou-lhe as mos com ternura e disse-lhe ainda
algumas palavras de animao.

Imagine-se o que seria o primeiro encontro de Jorge com Guiomar. A moa
estava serena, talvez risonha e at compassiva. Se tivesse de casar com
elle odiara-o de certo; agora j lhe perdoava o amor. Jorge pela sua
parte no deixou de ficar um tanto abalado, em parte commoo, em parte
constrangimento, sendo porm o constrangimento maior do que a commoo.
Nos labios pairou-lhe um desses sorrisos em que o olhar penetrante do
povo ou a sua imaginao pintoresca descobriu a cr amarella. Se outro
fosse o aspecto,  provavel que ella lhe conservasse, ao menos, o
respeito. Mas aquelle sorriso perdeu-o de todo no animo de Guiomar.

Na primeira occasio que se lhe offereceu, expandiu-se Jorge com Mrs.
Oswald.

--Perdeu-se tudo... murmurou elle.

A ingleza no respondeu.

Jorge continuou ainda a falar, e a ingleza e ouvir, mas a ouvir s, e a
querer divertil-o daquelle assumpto.

--Tudo se perdeu, disse emfim o sobrinho da baroneza, talvez por culpa
sua.

--Minha? perguntou Mrs. Oswald.

--Sua.

--Mas...

Jorge hesitou um instante.

--No mostrou calor sufficiente, disse elle emfim.

--Que quer? disse Mrs. Oswald. O corao no se pode dominar, nem ha
meio de impor-lhe um sentimento. D. Guiomar  uma santa creatura, ama
devras ao seu rival; ha nada mais justo do que casa-los?

--De maneira que...

--De maneira que tudo era licito fazer na supposio de que ella no
amava a outro, mas uma vez que ama...

Luiz Alves, na noite do dia em que recebeu a carta, foi  casa da
baroneza, que o recebeu com o melhor de seus sorrisos. A felicidade
de Guiomar fazia-a completamente feliz; nem iras, nem resentimentos,
como annunciara Mrs. Oswald. Todo o castello de cartas cara por terra,
desde que a sinceridade da baroneza interveiu.




XIX


Concluso.


Marcado o casamento para dous mezes depois, todo o tempo de intervallo
foi despendido pelos noivos naquelle deleitoso viver, que j no  o
colloquio furtivo do simples namoro, nem  ainda a intimidade conjugal,
mas um estado intermedio e consentido, em que os coraes podem
entornar-se livremente um no outro. Aquelles no tinham nada do amor
extatico e romanesco de Estevo, mas amavam sinceramente, ella ainda
mais do que elle, e to feliz um como outro.

A gente que os conhecia commentou de todos os modos e feitios aquelle
caso inesperado, e a mais de um roeu a inveja do favor com que o ceu
tratra a Luiz Alves. A gentileza e a elegancia da moa no encontravam
objeco no espirito de ninguem; todos as confessavam e applaudiam,
porque at o silencio mortificado de algumas bellezas rivaes, se
porventura as havia,--era tambem applauso e do melhor. Quanto ao
caracter de Guiomar, divergiam muito as apreciaes; e um dia, em que
Luiz Alves lhe contava uns trechos de conversa ouvidos a furto, e de
que era objecto a noiva, ella pareceu reflectir longo tempo, e emfim
respondeu:

--No admira que haja tanta opinio differente;  natural, porque nunca
vulgarisei o meu espirito. Entretanto, a opinio dos outros importa-me
pouco; eu quizera saber a sua.

--A minha  que  um anjo.

Guiomar fez um gesto gracioso de enfado, como quem no esperava
aquelle comprimento velho e commum, alis eternamente, novo,--porque
no ha outro mais prompto e mais bello nas nossas linguas christs.
O noivo sorriu, mas nada lhe disse, e todavia podia dizer-lhe alguma
cousa,--aquillo, pelo menos, que o leitor lhe ouviu n'um dos capitulos
anteriores.

--Se no sabe o que sou,--continuou Guiomar,--eu mesmo o direi, para
que se no case commigo assim de emboscada, e no lhe acontea unir-se
a um demonio, suppondo que  um anjo...

--Um demonio! exclamou Luiz Alves rindo.

--Nem mais nem menos, retrucou ella rindo tambem. Saiba pois que sou
muito senhora da minha vontade, mas pouco amiga de a exprimir; quero
que me adivinhem e obedeam; sou tambem um pouco altiva, s vezes
caprichosa, e por cima de tudo isto tenho um corao exigente. Veja se
 possvel encontrar tanto defeito junto.

Luiz Alves respondeu que eram tudo qualidades excellentes, e esteve
quasi a dizer que lhe faltava mencionar ainda outra, que era a
fundamental de todas; preferiu alludir a ella depois do casamento.

O casamento effectuou-se, no dia marcado, com as solemnidades do
estylo. A manh daquelle dia trajava um manto de neblina cerrada, que
o nosso inverno lhe poz aos hombros, como para resguardal-a do rigor
benigno da temperatura, manto que ella sacudiu dalli a nada, afim de se
mostrar qual era, uma deliciosa e fresca manh fluminense. No tardou
que o sol batesse de chapa nas aguas tranquillas e azues, e nessas
collinas onde o verde natural ia alternado com a alvura das habitaes
humanas. Vento nenhum; apenas uma aragem, branda e fresca, que parecia
o ultimo respirar da noite j remota, e que s a trechos agitava as
folhas do arvoredo.

A chacara naquelle dia era a mesma que nos outros, mas Guiomar
achou-lhe um aspecto novo e melhor, uma como expanso divina que
animava as cousas em redor della. Toda a alma feliz  pantheista;
parece-lhe que Deus lhe sorri de dentro da flor que desabrocha, do
fundo da agua que serpeia murmurando, e at de envolta com o cip
humilde e rustico, ou no seixo bronco e despresado do cho. Era assim a
alma de Guiomar naquella manh. Nunca as arvores, as flores, a gramma
rasteira lhe pareceram mais vecejantes; o sentimento interno hauria
aquella vida exterior, do mesmo modo que o pulmo bebia o puro ar
matinal.

De envolta com essas sensaes communs a toda a alma, havia ainda as
que eram della,--della, que via alli o seu ultimo sol de moa solteira
e contemplava por antecipao a aurora nova, o dia longo e feliz de
suas frvidas ambies. Neste ponto despia a sua fantazia as azas de
folha agreste, com que andara a pairar no meio daquella vegetao, para
envergar outras de seda e brocado, e voar sabe Deus a que sitios de
grandeza humana.

O acaso quiz que naquella manh vestisse o mesmo roupo com que Estevo
a vira do outro lado da cerca, e trouxesse no collo e nos pulsos o
mesmo broche e os mesmos botes de saphira. No tinha o livro; mas,
em falta desta circumstancia, havia outra, que era a mesma daquella
celebre manh, havia uns olhos que do outro lado do cerca a espreitavam
namorados. No eram, porm, os mesmos; eram os do noiva, com quem ella
foi encontrar o seus;--e o mais doloroso de tudo  que nem a cerca, nem
os demais accessorios, nada lhe lembrou o outro homem que morria por
ella. A felicidade  isto mesmo; raro lhe sobra memoria para as dores
alheias.

No menos alegre do que ella parecia a baroneza naquelle dia. De longe
em longe surgia-lhe na memoria a ideia do sobrinho, mas j no havia
tristeza de no ter effectuado o casamento, como desejra; to leve
foi o golpe em Jorge e to indifferente andava elle, que a boa senhora
comprehendeu que o amor, se existira, no era grande, e sobretudo no
perdurou; a ideia de que isto mesmo podia acontecer-lhe ao cabo de seis
semanas de casado, fel-a dar graas a Deus do nenhum exito de seus
planos.

Mrs. Oswald egualmente se mostrava feliz,--talvez ainda mais, porque
era-o apparatosamente, como se quizesse resgatar as passadas culpas.
Guiomar entendia a inteno latente das manifestaes ruidosas com que
ella andava a felicital-a e bajula-la; mas o dia no era de rancores
nem de resentimentos, e ella recebia sorrindo as cortezanices da
ingleza.

O casamento fez-se, emfim. As lagrimas que a baroneza derramou, quando
viu Guiomar ligada para sempre, foram as mais bellas joias que lhe
podia dar. Nenhuma me as verteu mais sinceras; e, seja dito em honra
de Guiomar, nenhuma filha as recebeu mais dentro do corao.

Na noite do casamento, quem olhasse para o lado do mar, veria pouco
distante dos grupos de curiosos, attrahidos pela festa de uma casa
grande e rica, um vulto de homem sentado sobre uma lagea que acaso
topra alli. Quem est affeito a ler romances, e leu esta narrativa
desde o comeo, suppe logo que esse homem podia ser Estevo. Era elle.
Talvez o leitor, em lance identico, fosse refugiar-se em stio to
remoto, que mal podesse acompanhal-o a lembrana do passado. A alma de
Estevo sentiu uma necessidade cruel e singular, o gosto de revolver
o ferro na ferida, uma cousa a que chamaremos--voluptuosidade da dor,
em falta de melhor donominao. E foi para alli, contemplar com os
indifferentes e ociosos aquella casa onde reinava o goso e a vida, e
naquella hora que lhe afundava o passado e o futuro de que vivera. No
o retinha a constancia do stoico; pela face emmagrecida e pallida lhe
corriam as lagrimas derradeiras, e o corao, colhendo as foras que
lhe restavam, batia-lhe forte na arca do peito.

Defronte delle refulgia de todas as suas luzes a manso afortunada;
detraz batia a onda lenta e melancolica, e via-se o fundo da enseada,
escuro e triste. Esta disposio do logar servia ao plano que elle
concebera, e era nada menos do que matar-se alli mesmo, quando j no
pudesse soffrer a dor, especie de vingana ultima que queria tomar
dos que o faziam padecer tanto, complicando-lhes a felicidade com um
remorso.

Mas este plano no podia realisar-se, pela razo de que era mais um
devaneio, que se lhe dissipou como os outros. A frouxido do animo
negou-lhe essa ultima ambio. Os olhos podiam fitar a morte, como
podiam encarar a fortuna; mas faltavam-lhe os meios de caminhar a
ella. Esteve alli, pois, at o fim; e em vez de mergulhar na agua e no
nada, como delinera, regressou tristemente para casa, tropego como um
ebrio, deixando alli a sua mocidade toda, porque a que levava era uma
cousa descolorida e scca, esteril e morta. Os annos passaram depois,
e  medida que vinham, ia-se Estevo afundando no mar vasto e escuro
da multido anonyma. O nome, que no passara da lembrana dos amigos,
ahi mesmo morreu, quando a fortuna o distanceou delles. Se elle ainda
vegeta em algum recanto da capital, ou se acabou em alguma villa do
interior, ignora-se.

O destino no devia mentir nem mentiu  ambio de Luiz Alves. Guiomar
acertara; era aquelle o homem forte. Um mez depois de casados, como
elles estivessem a conversar do que conversam os recem-casados, que
 de si mesmos, e a relembrar a curta campanha do namoro, Guiomar
confessou ao marido que naquella occasio lhe conhecera todo o poder da
sua vontade.

--Vi que voc era homem resoluto, disse a moa a Luiz Alves, que,
assentado, a escutava.

--Resoluto e ambicioso, ampliou Luiz Alves sorrindo; voc deve ter
percebido que sou uma e outra cousa.

--A ambio no  defeito.

--Pelo contrario,  virtude; eu sinto que a tenho, e que hei de faze-la
vingar. No me fio s na mocidade e na fora moral; fio-me tambem em
voc, que ha de ser para mim uma fora nova.

--Oh! sim! exclamou Guiomar.

E com um modo gracioso continuou:

--Mas que me d voc em paga? um logar na camara? uma pasta de ministro?

--O lustre do meu nome, respondeu elle.

Guiomar, que estava de p defronte delle, com as mos prezas nas
suas, deixou-se cair lentamente sobre os joelhos do marido, e as duas
ambies trocaram o osculo fraternal. Ajustavam-se ambas, como se
aquella luva tivesse sido feita para aquella mo.


FIM



    INDICE

    Advertncia de 1907
    Advertncia de 1874

    I.--O fim da carta
    II.--Um roupo
    III.--Ao p da cerca
    IV.--Latet anguis
    V.--Meninice
    VI.--post-scriptum
    VII.--Um rival
    VIII.--Golpe
    IX.--Conspirao
    X.--A revelao
    XI.--Luiz Alves
    XII.--A viagem
    XIII.--Explicaes
    XIV.--Ex-abrupto
    XV.--Embargos de terceiro
    XVI.--A confisso
    XVII.----A carta
    XVIII.--A escolha
    XIX.--Concluso





End of the Project Gutenberg EBook of A Mao e A Luva, by Machado de Assis

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MAO E A LUVA ***

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